Capitulo 6
O dia seguinte


Já havia se passado uma semana desde que o acidente aconteceu. Para evitar perguntas Felipe havia apagado a memoria das meninas, só deixara a de Yuri. Queria que ele se lembrasse. Passou quase que toda a semana sem dormir pensando no que o antigo treinador havia falado para ele. Toda a verdade? Toda a verdade para o homem? Ou simplesmente havia mentido? Não sabia, mas uma coisa era certa, aquilo lhe causava uma duvida desgraçada.
Já era segunda. Chegou à escola com a mesma cara de sempre, havia pouco movimento no primeiro andar, aquilo o incomodou, lá nunca ficava vazio. Foi subindo, e conforme foi chegando a sua sala o movimento ia crescendo. Olhou para a sua sala, a mais do canto, estava lotada de pessoas. Não gostava daquilo, odiava lugares cheios, ainda mais na escola. Ainda não havia avistado Yuri nem as meninas.
Parou na porta de sua sala, sentiu uma sensação estranha. Estranha, porém conhecida. Abriu um sorriso falso. Olhou para sua sala e fechou a mão. As pessoas que estavam à frente começaram a sair de sua frente. Uma pessoa lá de dentro olhou para ele e sorriu. Todas as garotas estavam em volta dele, aparentemente ele era o sonho delas. Possuía olhos verdes, pele brancas, cabelo castanho, era alto e com um tipo físico que as garotas se derretiam ao olhar. Felipe sorriu de volta, não esperava vê-lo por ali, então disse:

-É serio? Vai chegar a esse ponto?
-Aparentemente, sim.
-Não acha provocação de mais?
A aquela altura da conversa a sala já estava cheia de tensão. Todos encaravam os dois, pareciam duas pessoas que não se davam nem um pouco bem, mas se respeitavam como pai e filho.
-Acho sim, por isso estou aqui, olha só você. Cabelo encaracolado e desarrumado, moreno, olho castanho caindo pra verde, nem alto nem baixo, fortinho. Fala sério, desde o velho tempo assim, certo?
Felipe sorri e fecha as mãos, quase como quem ia entrar em uma briga, então as relaxa. O garoto sai de cima da mesa, e arremessa algo. Sem muito esforço Felipe levanta a mão e segura, então fala:
-Andar com um bisturi ai sem proteção é perigoso, sabia? E acha mesmo que só com isso vai me acertar...? Guilherme.
Guilherme sorri e responde:
-Nem. Só queria ter certeza que ainda conseguia.
Todos olhavam como se nunca tivessem visto nada igual. Felipe vai até seu lugar de sempre e larga sua mochila e espera até a sala esvaziar, então diz:
-Então, vai ser definitivo ou vai ficar aqui só por hoje?
-Definitivo. Tenho uma missão.
-Contanto que não afete aqueles três, tudo certo.
-Na verdade... Tem a ver com o... Yuri.
-Vocês já sabem sobre ele?
-Já, até que não foi difícil.
-Imaginei, a aura dele é muito forte. Perceberia de longe. Ah sim, tenho que te perguntar.
-O que?
-Tem visto aquele homem?
-Qual?
-O de roupa branca.
-Ele voltou?
-Sei lá, ele apareceu um dia desses, ele é o único fora do conjunto que é forte o suficiente.
-Mas eu nunca achei que ele se metesse nas coisas. Ele sempre aparecia em horas não muito boas, mas ele nunca fez nada, sempre pareceu observar, e só.
-Também achei. Mas parece que ele está atrás de mim e do Yuri, na verdade, o Yuri foi ativado por ele.
-Como? Não só se é ativado por extinto? E mesmo assim se mantem imperceptível para a maioria.
-Eu também não faço ideia, mas não queria que ele se metesse nisso. Mas agora que vocês vão começar a “visita-lo”, eu vou ensina-lo a se proteger contra vocês.
-Sabe que não vai conseguir neh?
-Ná, eu vou ensinar pra ele coisas que nem vocês sabem.
-Suas habilidades especiais? Sério?
-Uhum.
Na hora entra Mariane e Laila na sala, juntas com Yuri. Guilherme olhou para Felipe, quase como um desafio. Felipe olhou de volta como s aceitasse. Então Yuri falou:
-E ai Felipe. E ai... Aluno novo?
-Pode me chamar de Guilherme. E ai Felipe, não vai me apresentar seus amigos e amigas?
-Eu deveria? Você se vira.
Então Felipe levanta e vai para fora de sala deixando todos sozinhos.
***
O sinal toca e Yuri arruma as coisas rapidamente, sai antes de todo mundo. Felipe fica o encarando sair de sala, então o segue. Na esquina da escola Yuri para e fala:
-Vai mesmo ficar me seguindo ou vai falar logo?
Felipe fica o encarando então diz:
-O que tem de errado?
-Nada.
-Você me evitou a manhã inteira. Motivo?
-Deve ser porque alguém subitamente, que eu considero meu amigo, se revela alguém que eu nunca achei que fosse, pior, de coisas que eu nunca imaginei que pudessem acontecer.
-Eu estou tentando sair dessa vida, ok? Realmente acha que é fácil? Eu só fiz aquilo tudo pra evitar o mal de vocês. É tão difícil...
Então Yuri joga um jornal em Felipe e diz:
-E isso? Vai me dizer que não foi você?
Felipe abre o jornal e vê na primeira pagina: “PESSOAS MULTILADAS E TORTURADAS FORAM ENCONTRADAS MORTAS”. Felipe fica em silencio. Então Yuri olha e diz:
-Eu não quero conversar, tranquilo?
Então Yuri se vira e prepara para ir embora, então Felipe diz:
-Eu te ensino.
Yuri para, e começa a andar, então Guilherme aparece na frente dele e diz:
-Ouve o que ele está te dizendo rapaz. Eu estou aqui para te pegar e te fazer de escravo e te transformar em uma arma. Ele pode te proteger, sabe, de mim.
Yuri fica paralisado, nem mesmo tinha visto quando ele havia passado por ali, então diz:
-Mas que mer...?
Guilherme coloca a mão na cabeça de Yuri, que começa a cair, devagar. Sem nem mesmo aguentar o próprio peso. Não conseguia pensar em nada. Quando estava prestas a desmaiar sentiu sua forçar voltar. Havia uma sensação estranha, e vinha de uma direção, quando olhou viu que vinha de Felipe. Olhou para o outro lado e viu Guilherme no chão se contorcendo, então Felipe disse:
-Eu já deixei bem claro. Não... Se... Meta... Com... Eles.
Então a sensação parou e Guilherme parou de se contorcer. Os três ficaram ali, parados. O que era um segundo parecia ser uma eternidade. Yuri não sabia mais o que fazer. Se aliar a Felipe, ou correr o risco de ser pego por uma organização de sabe-se lá faz o que? Não sabia, só sabia que queria sobreviver.
Yuri passou a mão em seus olhos, quando abriu de novo já não havia mais ninguém lá. Nem Felipe, nem Guilherme, nem ninguém. Apenas viu um pedaço de papel escrito seu nome. Aproximou-se devagar e o pegou. Abriria? Será que era segura? Não podia confiar em nada, nem mesmo em um pedaço de papel. Amassou e o jogou no chão novamente. Andou um pouco e repensou se era o certo. Bastaram cinco segundos de reflexão. Era melhor ele pegar do que algum enxerido que morresse. Embora todos os seus instintos pedissem para ele abrir o papel, ele resistiu à sensação, ou pelo menos ia esperar para abrir quando chegasse a sua casa.
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