47

Famosas Últimas Palavras

Famous Last Words - My Chemical Romance

            Oito meses.
            Oito meses bastaram.
            Suzana gritava. Contorcia-se na maca, e gritava mais e mais. Por vezes batera tão forte nos paramédicos que quase a deixaram cair. Por vezes, tornara impossível para seus amigos encará-la, de tanto desespero que exalava.
            Por vezes, parecera que fosse morrer.
            - Pressão 8 por 4, e caindo - disse uma das paramédicas, tirando o estetoscópio do pescoço - Segurem-na.
            Encostou o pequeno aparelho no peito de Suzana, e não ficou nada feliz com o que ouviu.
            - Chiado no peito, a hemorragia invadiu o pulmão.
            - O que está acontecendo?! - Nathalia gritou - Suzana!
            Ela mesma se contorcia nos braços de Yago, e por pouco não saltava sobre os médicos. Era o namorado quem tinha de controlá-la. Estava mergulhado no próprio desespero, o desespero de ver a amiga estirada na maca, sangrando como nunca vira alguém sangrar. Quando Suzana gritou, Nathalia uniu-se ao grito.
            - Fique calma! - disse ela - Suzana, fique calma! Vai ficar tudo bem! Eu estou com você!
            Com força, jogou-se para frente, o que foi inútil, pois Yago ainda a segurava.
            - Yago, pelo amor de Deus, me solta! Me solta!
            - Não vai adiantar - ele disse, com a voz tão falha quanto a dela - Nós não podemos fazer nada.
            - Você pode não fazer nada se preferir, mas aquela é a minha amiga e ela ta parindo sangue invés de um bebê! Então não me venha com “não podemos fazer nada”.
            E soltou-se dos braços de Yago, no único momento de fraqueza que ele demonstrou.
            - Nathalia!
            Ela avançou cada vez mais para o centro da sala, jogando-se no chão sobre Suzana.
            - Estou aqui, estou aqui... - disse ela, segurando o rosto da amiga.
            - N-Nathalia...
            - Querida, você não pode ficar aqui - disse a paramédica, fazendo um sinal com o olhar para o assistente.
            - Ela é minha melhor amiga, senhora - Nathalia respondeu, chorando.
            - E faremos o possível para salvá-la, mas a senhorita não pode ficar aqui se não quiser atrapalhar.
            - Mas...
            - Nathalia - Gabriela falou sobre seu ombro, tão chorosa quanto - Você tem que...
            - Tire as mãos de mim!
            Suzana gritou mais uma vez, atraindo a atenção das duas.
            Seu corpo contorceu-se num arco, fazendo suas costas se afastarem do chão, por mais que ambas cabeça e pernas continuassem nele apoiados, criando uma posição grotesca. De tão curvada que estava, parecia que sua barriga iria se rasgar e se abrir. Quando voltou a chocar-se contra o chão, estava fraca. Gemeu uma vez, então seus olhos reviraram e desacordou.
            - A pressão ainda está caindo - a médica disse - Entubar, agora!
            O assistente puxou da pequena maleta um artefato que mais parecia uma garrafa pet, e encaixou a extremidade entre a boca e o nariz de Suzana. Apertou o centro do aparelho, fazendo-a inspirar o ar ali contido.
            - Não vai dar pra continuar aqui - ela disse - Empacote tudo e leve para a ambulância. Ela está estabilizada, por enquanto, mas seja breve.
            O assistente assentiu, e obedeceu-a.
            - O que ela tem? - Nathalia perguntou, entre lágrimas.
            - Eu não sei - suspirou a médica - Provavelmente uma complicação no parto... não sou obstetra, então não posso dizer com certeza. O melhor que podemos fazer é estancar o sangramento e levá-la ao leito de parto com urgência. Nem esperar dilatar podemos, vai ter de ser cesariana.
            Nathalia travou, e tudo que pôde fazer foi irromper em choro.
            Yago correu para abraçá-la, e também não pôde fazer muito mais que isso.
            - Tudo pronto - o assistente falou pela primeira vez.
            - Me ajude a levantá-la.
            Suzana, desacordada, deixou a mão cair ao lado de seu corpo, enquanto os médicos levantavam sua maca.
            Parecia morta.
            - Eu vou com ela - Nathalia disse, soltando-se do abraço de Yago novamente.
            - Só tem espaço para dois na ambulância.
            - Eu vou - Nathalia e Gabriela disseram ao mesmo tempo. Nathalia fuzilou-a com o olhar, mas não protestou.
            - Não acham melhor que o pai vá no lugar de uma de vocês?
            Fez-se silêncio.
            - O pai... - Nathalia começou a falar, pesadamente, mas foi interrompida por Felipe.
            - Vão vocês duas - ele disse - Eu vou no carro, é mais rápido.
            Ambas assentiram, e seguiram os médicos.
            Nathalia sentiu que ia vomitar quando viu a gigantesca marca de sangue no tapete. Sangue de sua amiga. Sangue que não representava nem metade do que fora realmente perdido.
            Entraram na ambulância, ocupando os lugares à direita, enquanto o assistente se dirigia ao banco do motorista. Eram apenas elas e a paramédica na cabine.
            - Cuidem dela - Felipe disse, deixando as primeiras lágrimas emergirem e a voz distorcer-se.
            Nathalia assentiu, e sentiu o lábio tremer. Chorou ainda mais, como um sinal de que se importava.
            As portas se fecharam, e a ambulância partiu, com a sirene ligada ecoando pela rua inteira. Segundo os cálculos de Nathalia, chegariam em cinco minutos.
            O corpo de Suzana foi conectado ao cardiograma, e ela ainda estava entubada.
            O número de batimentos por minuto não era nada bom, até para uma leiga em medicina como Nathalia.
            - Acelera, Jefferson - disse a médica, e o carro deu uma guinada - Qualquer carro que tiver na frente vai ter que sair.
            - Como ela ta? - perguntou Nathalia.
            - Eu já disse, estabilizada, mas vamos ter que resolver isso no PS.
            - Ela está respirando? - perguntou Gabriela.
            - Sim.
            - Os olhos dela pararam de revirar?
            - Ela está gradualmente mais quieta.
            - Está tendo espasmos?
            - Sim - a médica disse espantada, depois de segurar a mão da paciente por algum tempo.
            - Como você sabe tudo isso? - Nathalia perguntou, olhando-a com desconfiança.
            - E-eu...
            Ela desistiu de tentar argumentar contra Nathalia, e simplesmente se curvou sobre o corpo de Suzana e pôs as mãos sobre seu rosto.
            - O que está fazendo? - Nathalia perguntou, quase gritando - Tire as mãos dela!
            - Febre - Gabriela exclamou - Febre muito alta.
            Abriu as pálpebras de Suzana, e disse:
            - Não estão parando de revirar porra nenhuma - Desesperada, recolheu-se - Tem alguma coisa errada... tem alguma coisa muito errada...
            Nathalia limitou-se a olhá-la, e alternava o olhar com Suzana.
            Suzana acordou subitamente, novamente gritando e descrevendo novo arco, dessa vez entrando em convulsão.
            - Segurem-na! - a médica gritou, e Nathalia e Gabriela postaram prontamente aos pés e braços de Suzana.
            O cardiograma disparara. Um imenso número de bipes inundava a cabine.
            - Mais rápido! - a paramédica gritou, para o assistente Jefferson, e o carro novamente deu uma guinada.
            Em menos de dois minutos estariam no hospital.
            - Ei, ei, ei, o que está fazendo? - disse Gabriela, apertando com força os pés de Suzana, que contorcia-se ainda mais violentamente.
            A paramédica parou na metade do caminho com uma seringa cheia de um líquido amarelada.
            - Vou injetar tranqüilizante, para acalmar ela.
            - Não, isso pode matá-la! Não vê o estado dela?
            - Querida, eu tenho dez anos de medicina, eu acho que sei das coisas.
            - E ainda assim não soube me dizer se ela revirava os olhos ou não.
            - Gabriela - Nathalia interrompeu - Deixa ela fazer o trabalho dela.
            - Não! O coração está muito acelerado e os músculos estão todos tendo espasmos, uma dose de tranqüilizantes pode e vai matar ela!
            - E se importa em dizer como sabe disso, querida?
            - Por que minha colega de quarto morreu assim, caralho! - gritou ela, enfim.
            Nathalia congelou.
            - Quarto de dormitório? - perguntou ela.
            - Quarto de maternidade - Gabriela respondeu, com a voz fraca, e uma lágrima escorreu de seu rosto.
            No momento de surpresa, Nathalia deixou a mão escorregar do pé de Suzana, e o mesmo acertou seu queixo.
            - Ai! - ela gritou, e pegou o pé novamente, prendendo-o à maca.
            - Chegamos - Jefferson gritou, e as portas foram abertas.
            Nem sentiram o carro parando.
            - Nathalia! - Yago gritou.
            Assim que o corpo de Suzana foi retirado da ambulância, Nathalia pulou sobre ele, e o abraçou. Recomeçou a chorar.
            - Suzana! - Felipe gritou, e seguiu o grande número de médicos, que agora que estavam no hospital, crescera.
            Os outros o seguiram, e Nathalia percebeu que a maca de Suzana agora fora colocada sobre uma daquelas camas ambulantes.
            O hospital estava vazio. Não fora problema arranjar um leito para Suzana. Os trancaram do lado de fora da sala, deixando-os assistir ao processo apenas pela janela que dava para o quarto. Em um certo momento, as cortinas foram fechadas, e do lado de dentro, deu para ouvi-la gritar.
            Nathalia pôs-se a chorar novamente.
            Duas horas depois, um cirurgião desconhecido apareceu.
            - Vocês são da família? - perguntou ele.
            - Amigos - respondeu Nathalia, e só então percebeu que não tinha ligado para a mãe dela.
            - E namorado - disse Felipe.
            - Eu me lembro de você... - disse o cirurgião - Seu nome é Felipe, se não me engano?
            - É sim.
            - Ah - ele exclamou - Bem que achei que conhecia aquela moça. Bem, eu sou o Mauro, não sei se você ta lembrado...
            - Sim, estou - ele apertou a mão do cirurgião rapidamente.
            - Bem, eu lembro que sua namorada veio aqui primeiramente para fazer um aborto - disse ele, com certo pesar na voz. Era claro que ele não estava acostumado àquele tipo de situação - E agora vejo que ela deveria ter prosseguido.
            O silêncio seguiu enquanto todos os cinco estavam congelados no corredor.
            - O que quer dizer com isso? - perguntou Nathalia em voz baixa, como que para controlá-la um pouco mais. Estava à beira das lágrimas novamente.
            O cirurgião suspirou.
            - Suzana tem eclampsia, gravíssima. Sinto dizer que tanto ela quanto o bebê tem muitas mais chances de morrer do que de viver.

***

            - O... - Nathalia tentou falar, mas a voz sumiu no meio da frase.
            - O que? - Gabriela perguntou, em choque.
            - Eu sinto muito - o médico disse, como sempre dizia. A frase já até perdera a emoção.
            - M-mas... - gaguejou Felipe - I-isso não é possível... não pode ser...
            - Eclampsia - o médico começou - É uma doença caracterizada por hipertensão, e por isso, convulsões, como a que sua amiga acabou de experimentar no caminho do hospital. É a forma mais grave de pré-eclampsia, e geralmente ocorre durante a gravidez, e não no parto... o que torna tudo ainda pior.
            Nathalia sentiu que iria cair.
            - O sangramento do útero é comum, causado pelo grande fluxo da sangue da hipertensão, mas Suzana perdeu muito sangue. Se ela sobreviver, teremos de fazê-la compartilhar sangue. Ela tem muita sorte de não ter entrado em coma. Se tivesse, eu realmente não saberia o que fazer. Digam-me, ela sofreu de algum sintoma, ou de algo estranho durante a gravidez?
            Felipe estava a ponto de negar, quando se lembrou.
            No último dia de aulas do primeiro semestre.
            O dia do show de Yago.
            Suzana caindo, e convulsionando.
            Tonta.
            Quente, além do normal.
            E agora lembrava-se do sangue.
            - Sim - ele disse, com a voz rouca, triste e chocada. Seu tom acabou distorcido pelo pavor.
            - O que? - Nathalia gemeu - E você nem pensou em dizer nada?
            - Calma, Nathalia! - Yago a controlou novamente, e ela mais uma vez enterrou a cabeça em seu peito.
            - Ela devia estar sofrendo de pré-eclampsia leve - Mauro disse - Não deveria passar despercebido, o exame de pré-natal deveria ter detectado algo...
            - Ela não fez pré-natal - Felipe respondeu, automaticamente, sem olhar o cirurgião - Ela já tinha a idéia de abortar na cabeça, então não achou necessário, e, mesmo depois, achou melhor não fazer nada.
            Ela tinha vergonha de ser vista como mais uma garota grávida, Felipe pensou.
            - Bem... então aí está o motivo. Começou como leve e gradualmente foi aumentando, talvez por estresse.
            Nathalia estremeceu ao lembrar-se da expressão de cansada de Suzana, das diversas coisas que ela fazia ao mesmo tempo. Da falta de descanso.
            - Então, chegamos na pior parte - o médico concluiu.
            Todos se calaram, e olharam para ele com grandes olhos curiosos e temerosos.
            - Eu bem já disse que é possível que ambos morram, mas há chance de ambos sobreviverem também - disse ele - Porém, enquanto a morte pode ser evitada, é muito difícil de acreditar que ambos vão viver. Até por que estamos tratando de um parto com pouco menos de oito meses.
            - O que eu quero dizer - Mauro disse, com um suspiro temeroso, pesado e cheio de compaixão -, é que talvez um deles possa sobreviver. Mas apenas um. E alguém tem de escolher.
            - Suzana - disse Felipe - Salve Suzana.
            - A família é quem deveria escolher.
            - A mãe dela não está, e acho que precisamos decidir isso rápido.
            Os bipes do cardiograma aceleraram, como para confirmar o que Felipe dizia.
            - Então salve Suzana - ele repetiu, completando.
            Ele olhou para dentro do quarto pela janela, ainda tapada pela cortina, e voltou-se para Felipe.
            - Tem certeza?
            - Absoluta - ele respondeu na hora.
            - Felipe... - começou Nathalia.
            - Não - ele respondeu grosseiramente.
            - Felipe, eu também odeio isso, mas...
            - Não! - gritou - Eu não vou deixar Suzana morrer! Você sabe o que ela é pra mim? Sabe o que seria de mim sem ela? Você acha que eu conseguiria passar um dia respirando sem ela?! Você sequer sabe o quanto eu me odiaria a cada dia que passasse?!
            - Eu sei! - Nathalia gritou, entre lágrimas - Eu sei, tá bom! Você acha que isso não dói em mim também? Ela é a minha melhor amiga. Eu tô vendo ela morrer e não posso fazer nada!
            Eles ficaram se encarando, ambos chorando, sem conseguir falar nada.
            - Mas o que ela iria querer? - disse Nathalia -  Você acha mesmo que ela iria deixar o filho dela morrer? Acha mesmo que ela iria preferir passar a vida toda olhando para trás e vendo que o filho que ela não quis matar... morreu, para que ela pudesse viver?
            - Ela tem razão - disse Yago, às suas costas, e Felipe só então percebeu que ele também tinha lágrimas nos olhos. Assim como Alex. Assim como Gabriela. Assim como todos.
            - Por favor - recomeçou Nathalia - Eu também não quero perder ela. Por nada nesse mundo eu prefiro perder ela. Mas... é a decisão que ela tomaria. Então por favor, faça a escolha certa, por ela.
            O rosto de Felipe fora reduzido à ruínas, restando apenas tristeza. As lágrimas desciam, ligeiras e mortais. Enterrou o rosto entre as mãos, e sentou-se numa das cadeiras, afastado de todos. Apoiou o cotovelo nos joelhos, e não se importou em chorar alto.
            Todos o observavam, enquanto o tempo passava e o quadro de Suzana piorava.
            Um verdadeiro furacão atravessava seus pensamentos.
            Seu peito pesava mais que um caminhão.
            O coração? Batia como se não tivesse medo de quebrar todos seus ossos.
            Chorou, e gritou. Com lágrimas no rosto, anunciou:
            - Faça logo. Salve o bebê.
            O médico assentiu.
            - Faremos o possível para salvar ambos.
            E entrou, enquanto todos choravam.
            Passou-se um tempo, e as janelas reabriram. A enfermeira que afastara as cortinas apertou os lábios, num gesto de compaixão, e voltou para a mesa de cirurgia.
            Felipe levantou-se correndo, e juntou-se aos amigos na janela.
            Mauro olhou para eles, e assentiu, começando então o procedimento.
            Passou algo branco, que tanto poderia ser um algodão gigante quanto um pano, na barriga de Suzana, a única parte de seu corpo, fora a cabeça, que não estava coberta por um robe azul. Nathalia sabia que o algodão gigante fora mergulhado em álcool. Viu então uma enfermeira encharcar a barriga da amiga com um líquido vermelho, extremamente vermelho. Lembrou-se de quando era criança, quando aquele mesmo líquido era usado para limpar suas feridas. Não lembrou-se do nome, mas sentiu um arrepio a vê-lo sendo espalhados pela pele da amiga, que agora adquiria um tom parecido com o do líquido.
            O cirurgião Mauro falou algo para a assistente, e logo o bisturi estava em suas mãos. Nathalia teve de desviar o olhar, gemendo baixinho e novamente encontrando abrigo nos braços de Yago.
            Todos os outros viram enquanto o pequeno artefato penetrava do lado esquerdo da barriga de Suzana, e cortava a pele desde pouco abaixo do diafragma até a altura de sua cintura. A medida que o corte aumentava, novas gotas de sangue escorriam da barriga proeminente.
            Logo, todos haviam notado que ela sangrava novamente pelo útero, manchando a bainha de seu robe, dando nova preocupação às enfermeiras.
            Com algum outro instrumento, doutor Mauro penetrou novamente o corte, arrancando mais sangue.
            Logo, a barriga fora aberta, expondo apenas parte do interior para quem estava do lado de fora.
            Nathalia sentiu que iria vomitar ao ver um pequeno esguicho de sangue.
            A mancha rubra na bainha do robe não parava de crescer.
            Lenta e cuidadosamente, o corte foi sendo mais aberto, e mais, e mais... até que puderam pela primeira vez ver o bebê.
            Um bracinho, manchado de sangue em toda sua extensão.
            Felipe se aproximou ainda mais, tocando o vidro dessa vez, e abriu um sorriso.
            - Amor... - ele disse.
            O bebê foi lentamente puxado para fora da barriga, até que estava totalmente de fora.
            Não era possível ver se era um menino ou se era uma menina. Só dava para ter uma certeza unânime de que, fosse o que fosse, era lindo.
            Mauro deu uns tapinhas no bebê, e ele/ela chorou. Alto, graciosamente. Estava vivo. Estava bem.
            O cirurgião levantou o polegar, em um sinal positivo.
            Uma das enfermeiras pegou o bebê nos braços, e Mauro cortou o cordão umbilical. A enfermeira levou o pequeno bebê até um berço fechado, uma pequena UTI para prematuros. Apenas um cuidado, uma prevenção para um bebê que viera três semanas adiantado.
            Felipe sorria. Ele ria. Chorava em jubilo. Sentia, pela primeira vez, que estava tudo bem.
            E então.
            Suzana acordou.
            Seus olhos abriram, e ela olhou para a janela.
            Sorriu.
            Piscou.
            E soluçou uma vez, deixando uma lágrima escapar das pálpebras.
            Fechou os olhos, em silêncio, enquanto o cardiograma parava.
            O sorriso desapareceu do rosto de Felipe.
            Tudo o que ouvia era uma triste trilha sonora, como anjos cantando.
            A enfermeira logo desviou a atenção do bebê. Mauro, que já tirava as luvas, recolocou-as, ainda limpas. Dirigiram-se para o corpo de Suzana, ainda com a barriga aberta, enquanto mais sangue manchava a bainha de seu robe.
            Gritavam.
            Ligaram o desfibrilador, e abriram as roupas de Suzana, encostando o aparelho no peito.
            Ao primeiro choque, um verdadeiro jato de sangue escapou de sua barriga, manchando o chão a mais de trinta centímetros de distancia, bem como respingando na parede.
            Mauro falou algo para uma das enfermeiras. Ela assentiu, e fechou as janelas diante do rosto chocado de Felipe.
            Não.
            Isso não podia estar acontecendo.
            Suzana não podia estar morta.
            O mundo girou, e ele se sentiu cair. Sentiu todos ao redor dele. Sentia-se lúcido, mas ao mesmo tempo morto. Suzana. Sua Suzana.
            O suspense o estava matando.
            Os bipes interrompidos e contínuos do cardiograma não saiam de sua cabeça.
            Para todos os casos, se ela estivesse morta, ele também estaria.

***

            Mauro saiu da sala, duas horas depois. Todos se encontravam no mesmo estado. Nenhum ligara para a mãe de Suzana, por que já não tinham mais forças. Já haviam desperdiçado todas suas lágrimas. Já haviam perdido todas suas forças.
            Então, quando viram o médico, todos levantaram-se, olhos vermelhos e bocas secas.
            A esperança era mínima.
            O que viram havia erradicado toda e qualquer chance racional de que a amiga tivesse sobrevivido.
            Mas o coração ainda batia num ritmo único, e parecia confortar-lhes, dizendo que tudo ficaria bem.
            Então, Mauro falou apenas duas frases.
            Apenas duas frases que mudaram tudo.
            Apenas duas frases, e um ponto final.
            - Ela está fora de perigo. - Sorriu - Está tudo bem.

***

            Suzana abriu os olhos lentamente. Estavam pesados e doloridos. Sentia calor demais, e fome. Foi acostumando-se à escuridão, apenas para que a luz fosse acendida. Tentou levantar as mãos, para pô-las na frente dos olhos, mas seus braços estavam fracos. Percebeu que o corpo inteiro estava fraco. Suas pernas mal se moviam, e seu abdome doía como o diabo.
            - Ei - ouviu uma voz, que percebeu indiscutivelmente que era a de Felipe.
            Ela gemeu, e respondeu fracamente:
            - Oi.
            Ela tentou se levantar mais uma vez, mas seus braços cederam, e ela caiu com pesar sobre o colchão.
            - Ei, ei, ei - Felipe disse, e segurou seus braços - Você ainda não pode fazer muito esforço.
            - Onde estou? - perguntou.
            - No hospital - Felipe respondeu, e notou na expressão espantada de Suzana - Você não se lembra de nada?
            Ela fez que não com a cabeça.
            - Querida - ele disse, com um sorriso no rosto - Olhe para a sua barriga.
            Ela primeiramente não entendeu, e então o fez. E soltou um gritinho de surpresa ao ver que era uma barriga reta e normal.
            Bem, quase.
            - De onde saiu essa maldita cicatriz? - perguntou, depois de levantar um pouco o robe.
            - Shhh - Felipe disse - São três da manhã, não quer acordar sua mãe, não é?
            - Minha mãe! - ela exclamou de repente - Onde está ela.
            - Dormindo, como eu disse, do lado de fora. Ela passou os últimos quatro dias aí, esperando você acordar. E essa cicatriz...
            - Quatro dias? Eu dormi por quatro dias?
            Felipe riu, e beijou-lhe a testa.
            - Foi um procedimento muito estressante - ele disse, com a voz trêmula.
            - E como eu ia dizendo - ele continuou, antes que ela pudesse interromper - Essa cicatriz veio de uma cesariana.
            - Cesariana? - ela perguntou - Mas... eu disse que preferia parto normal.
            - Bem, você estava, a) desacordada, e b), bem...
            Ele se interrompeu, e deu de ombros, como se não quisesse falar.
            - Bem o que?
            Ele suspirou, e levantou os olhos cheios de dor.
            - Você quase morreu.
            Seu rosto ficou branco.
            - O que?
            - Houve algumas complicações no parto...
            - Que complicações?
            - Eclampsia. Você teve eclampsia. - Ele fez uma pausa, e suspirou. Seus olhos visivelmente tentavam não demonstrar dor - Por que você não me contou que estava sangrando?
            O rosto de Suzana, antes branco, agora corava aos poucos.
            - Eu... eu não queria assustar vocês - ela abaixou a cabeça - Eu pensei que não fosse nada, que fosse só um problema pequeno...
            - Bem, então a partir de agora, quero que você me conte todos os pequenos problemas, certo?
            Suzana sorriu.
            - Combinado.
            Ele acariciou o rosto de Suzana, e a puxou para um beijo. Um longo e não-permitido beijo, já que ela ainda devia estar de cama.
            - Deus - Felipe exclamou - Eu tive tanto medo de te perder.
            Suzana devolveu o beijo, puxando-o para mais perto, fazendo-o quase cair sobre ela.
            - Eu que sairia perdendo - ela respondeu, com a testa encostada na dele - Nenhum céu, nenhum paraíso seria melhor que isso aqui.
            Eles se beijaram mais uma vez, e então se separaram.
            - E onde está ele? - perguntou Suzana.
            Felipe sorriu.
            - Ela - respondeu.
            - Ela? - Suzana perguntou, estupefata e alegre ao mesmo tempo.
            Felipe confirmou com a cabeça.
            - Deixa eu ver ela então - Suzana exclamou, explodindo de felicidade.
            Felipe assentiu, e dirigiu-se à porta. Olhou para os dois lados, e não deve ter visto ninguém, porém mesmo assim fechou à chave. Então, dirigiu-se ao pequeno berço, que só então Suzana notava. Dele, retirou um pequeno bebê, envolto num cobertor rosa, tão agasalhado que parecia que iria morrer sufocado.
            Suzana gemeu baixinho, e pegou-a nos braços.
            - Você deu um nome pra ela? - perguntou Suzana.
            - Eu deveria?
            - Claro. Você será o pai dela.
            Felipe sorriu, e beijou a testa de cada uma.
            - Bem - Felipe continuou, vermelho - Eu convenci eles de que você deveria dar o nome, quando acordasse, e então eu iria no cartório para você. Acho que você deveria fazer isso logo, por que eles não agüentam mais de curiosidade.
            Ela sorriu, e disse:
            - Aurora.
            - Aurora? - perguntou ele.
            - Sim. Como a Bela Adormecida. Ela vai crescer, e vai ser a mais linda princesa.
            - Desde que puxe a mãe...
            Ela beijou-o mais uma vez, e então voltou a fitar a criança.
            E então viu.
            - O que é isso? - perguntou ela, o sorriso dando lugar à uma centelha de dúvida.
            No pescoço de Aurora, dentre os tantos cobertores, havia um colar de ouro, quase escondido. Tinha traços finos e pequenos, e agora que Suzana o notara, brilhava. Era uma bela corrente, que ainda assim era imprópria para um criança, que podia se machucar.
            Mas ela viu além.
            Ela viu o pingente que pendia exatamente acima do peito de sua filha.
            - Felipe...
            - Shhh - ele fez de novo, e então beijou sua boca tensa e surpresa - É pra você.
            Ele puxou o colar, desprendendo-o do pescoço da pequena, e enrolou-o na mão.
            - Sabe, eu fiquei muito feliz quando você falou que eu seria o pai dessa criança - Felipe disse - Essa sempre fora minha intenção.
            Ele se ajoelhou.
            - Eu... eu não sabia qual seria sua resposta, então tive medo. Agora...
            Ele engoliu em seco, e tirou o anel da corrente dourada. Levantou-o à altura dos olhos, e deixou uma lágrima escapar. Suzana também. Ela tinha um sorriso desenhado no rosto, e o lábio tremia de alegria.
            - Quem sabe? - ela perguntou.
            - Ninguém. Eu não contei para ninguém. Você é a primeira a saber. Eu não quero nunca mais sequer pensar em perder você.
            Ela fez uma concha com as mãos e levou a boca, mas os cantos da boca, repuxados num sorriso, ainda estavam visíveis.
            - Suzana - Felipe disse, sorrindo e tremendo - Aceita casar comigo?
            Ela baixou as mãos, com um gigantesco sorriso. Afastou uma lágrima, respirou fundo e o puxou pelo colarinho da camisa, tascando-lhe mais um longo beijo, antes de dizer, ofegante:
            - É claro que sim.
            Beijaram-se mais uma vez, e dessa vez não se separaram até sentirem que morreriam de falta de ar. Ela sentou-se, e recomeçaram, de novo e de novo e de novo. Aquela noite não precisava acabar nunca.
            Quando o sol nasceu, sorriram, pois sentiam que seus corações iriam explodir de alegria.
Reações: