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Durma

Sleep - My Chemical Romance

OUTUBRO
            A campainha tocou três vezes antes que Suzana pudesse escutá-la.
            - Deixa que eu atendo - disse Felipe, já largando o pano de prato e a louça que secava.
            - Não, não - Suzana interrompeu-o no meio do caminho, caminhando com dificuldade - Eu vou.
            - Mas Suzana... Você já tem tanto o que fazer e andar pode não ser...
            - Querido - ela interrompeu-o novamente, e pôs as mãos em seu rosto - Ainda tem mais um mês pela frente. Estou grávida, não com AIDS. Pode deixar que eu acho que posso abrir uma porta.
            Ela sorriu, e beijou-o leve e rapidamente.
            - Só termina de servir a comida - ela disse, se virando e caminhando o mais rápido que podia com sua barriga de sete, quase oito meses - É minha maldita festa.
            - Festa, esse é o espírito.
            Ela riu para Felipe, que devolveu um sorriso. Abriu a porta, vendo que era Nathalia, com Yago logo atrás. Os dois pareciam distraídos, olhando para o nada, mas assim que ouviram o barulho do arrastar da madeira contra o chão, recompuseram-se e sorriram.
            Suzana também estava sorrindo.
            - Oi - ela disse, abraçando os dois de uma vez.
            Ambos tentavam não fazer muita força para não machucar o bebê.
            - Tudo bem? - Nathalia perguntou assim que se largaram do abraço.
            - Aham - confirmou Suzana - Então, vão entrar ou precisam ser convidados, como bons vampiros?
            Nathalia riu e abraçou a amiga novamente.
            Cumprimentaram Felipe e se sentaram no sofá, de frente para a mesinha da sala cheia de doces, salgados, sucos e refrigerantes. Yago pegou um Doritos e mergulhou-o no molho de queijo, ainda quente, antes de mordiscá-lo. Nathalia apenas negava tudo o que lhe ofereciam, sem fome. Bebeu água, mas não passou disso.
            Logo, havia cansado de ficar sentada e foi para a cozinha.
            Suzana estava lá, ainda. Sozinha. Ao fogão. Remexia no que parecia ser brigadeiro. Ela marcara o inicio da festa, ou o que quer que aquilo fosse, às três horas. Alguma coisa a atrasara, ou talvez apenas seu senso de tempo estivesse errado. Mas ela devia precisar de ajuda.
            - Hei - Nathalia disse.
            Suzana olhou rapidamente para ela. Vários pequenos fios de suor desciam por sua testa. O cabelo, antes preso num rabo de cavalo, agora desprendia-se do penteado, e não eram poucas mechas que caiam por seu rosto.
            - Hei - ela respondeu, e voltou a remexer a colher - O que está fazendo? Deviam me esperar lá na sala.
            - Eu só vim ver se precisava de ajuda.
            Ela riu.
            - Que tipo de anfitriã eu seria se botasse vocês para trabalhar? - ela disse, e voltou a remexer a massa de chocolate que nunca parecia ficar pronta.
            Havia cansaço em seu rosto.
            Cansaço extremo, como se há muito não dormisse.
            E há muito não o fazia.
            - Hei - Nathalia disse - Não precisa fazer tudo isso...
            - Não, não - Suzana a interrompeu - É uma honra pra mim - Esboçou um sorriso, olhando a amiga nos olhos.
            Nathalia devolveu o sorriso, triste.
            - Você devia estar aproveitando suas “férias” da escola - Nathalia começou, admitindo as aspas com os dedos indicadores e médios - Devia passar o dia todo dormindo. É o que eu faria no seu lugar.
            - Ah, tenho muito o que fazer. Não posso dormir. Tenho que preparar o quarto, o berço, a festa...
            - Suzana - Nathalia a fez parar, tocando em seu braço. Suzana imediatamente desviou o olhar da panela, que parecia agora queimar o brigadeiro, e passou a encarar a amiga com a expressão que realmente a definia: cansada - Não precisa de tudo isso. É o seu chá de bebê. Você que deveria estar na sala enquanto nós devíamos estar te servindo e facilitando tudo pra você.
            Suzana engoliu em seco, e respirou fundo, sem cortar o contato visual.
            - Por que não fazemos o seguinte: eu termino aqui e você sobe, toma banho, arruma o cabelo e põe uma roupa legal? Se você quer que isso seja uma festa, devia se divertir nela.
            Suzana pareceu pensar na idéia por um momento. Suas íris se desviaram de Nathalia por um segundo, e apertou os lábios. Por fim, deixou a colher de madeira bater de leve contra a pia, agora suja de chocolate, e abraçou Nathalia.
            - Obrigada - ela disse.
            - Não é nada, é a sua maldita festa.
            - Minha maldita festa! - ela repetiu, fazendo coro à Nathalia.
            Ela caminhou até a porta, e então se virou.
            - Só deixa o brigadeiro cozer por mais uns cinco minutos - ela disse.
            - Certo.
            - E olha no forno, tem um bolo aí, não esquece de levar pra mesa.
            - Anotado.
            - E na geladeira, tem...
            - Vai logo tomar banho, Suzana! - Nathalia disse, rindo.
            Suzana acompanhou o riso, e virou-se para a sala. Nathalia pôde ouvi-la subir as escadas com dificuldade, arfando, de cansaço e dor.
            Assim que ouviu a água do chuveiro bater contra o piso, logo no andar de cima, desligou o fogo.
            - Cinco minutos uma ova, essa porra ta queimando.

***

            Terminou de servir a mesa, e ouviu a campainha tocar.
            - Eu atendo - disse Nathalia, ao ver ambos Yago e Felipe levantando-se de suas cadeiras, que originalmente deviam ficar na cozinha. Eles prefiram sentar-se à mesa, pois assim não tinham de levantar-se sempre que quisessem comer algo.
            Nathalia caminhou em trotadas leves até a porta, e abriu, revelando Alex.
            - Oi - disse Nathalia, surpresa.
            - Oi - Alex respondeu.
            Ela se abraçava com os braços. Não pelo frio, pois vestia um grosso casaco preto. Evitava olhar para Nathalia, como se tivesse medo que tal ato revelasse alguma coisa.
            - Ei, seu cabelo ta louro - Nathalia disse, sem jeito. Estava assim há mais de um mês. E nesse mais de um mês que se passou, elas quase não se falaram. E não sabia o motivo.
            - É - Alex disse, com um sorriso tímido.
            Suzana a havia convidado para festa, sim, mas seu comportamento estava tão estranho que ninguém esperava que aparecesse.
            - O que aconteceu? - perguntou Nathalia, após criar coragem.
            Por um momento, temeu que ela desse as costa e fosse embora, mas então, Alex simplesmente levantou o rosto, e sorriu.
            - Umas merdas aí - respondeu.
            - Por um mês?
            - Um mês pra esquecer. Agora... acho que sou eu mesma de novo.
            Nathalia sorriu, e abraçou a amiga, e agora tinha certeza novamente de que eram amigas.
            - Que bom, então.
            Alex assentiu, e passou a mão pelos cabelos louros, que desciam até a metade das costas. Agora, os fios eram uniformes, do mesmo tamanho do mesmo tom de louro. Brilhantes. Não usava mais franja, deixando a testa à mostra, enquanto as mechas, antes usadas para recobrir o rosto, estavam arrumadas atrás das orelhas.
            - Acho que deveria pintar seu cabelo de novo - disse Nathalia.
            - O que?
            - É... rosa, ou verde, ou azul combina mais com você. Louro é tão... normal.
            Alex riu.
            - Bem, quem sabe eu não quero experimentar o normal por algum tempo.
            Nathalia acompanhou a risada. Havia algo de diferente na amiga. Sua voz transmitia maturidade. Seu rosto parecia adulto. Um único sorriso fazia todo o resto se modificar. Havia um brilho nela, e ela parecia um anjo... Um anjo com que podia contar novamente.
            - Venha, entre. Está frio aí fora.
            Alex entrou, com um sorriso no rosto, limpando os tênis no tapete. Era uma benção que não estivesse chovendo, mas mesmo assim a rua estava encharcada de lama.
            Ela vestia, além do casaco preto, uma camisa azul de botões por baixo. Sua calça jeans também era escura. O cabelo, antes ondulado, agora era perfeitamente liso, além de louro, claro.
            - Vem cá, deu pra imitar Olivia Dunham agora? - perguntou Nathalia, rindo.
            - O que?
            Nathalia travou, e encarou a amiga.
            - Meu Deus, Alex, você que era pra ser a inteligente aqui.
            Ela sorriu.
            - É claro que eu sei quem é Olivia Dunham. De dia sou uma estudante lésbica e de noite combato as forças do mal.
            As duas riram, juntas. Nenhuma delas jamais havia cansado do “lésbica”. E era bom. Nenhuma das duas sabia se a outra ainda riria.
            - Venha, os caras devem querer falar com você.
            Caminharam até o sofá, e pigarrearam juntas, atraindo a atenção de Felipe e Yago, ainda sentados de frente para a parede.
            - Alex! - eles exclamaram juntos, e levantaram-se ao mesmo tempo.
            Ela tentou dizer um “oi”, mas foi sufocada pelo abraço dos dois amigos, então simplesmente riu.
            Nathalia sorriu também, e virou-se ao ouvir um barulho à porta, ainda aberta.
            Parou.
            - O que está fazendo aqui? - exclamou, quase gritando.
            Alex, Felipe e Yago interromperam o abraço, e viraram-se também.
            Gabriela estava à porta da casa. Vestia um jeans claro, casaco tão preto quanto o de Alex e uma camisa branca. Nas suas mãos, havia um bolo de cobertura amarela. Talvez de maracujá.
            - Eu... - ela tentou responder, tímida - Eu vim pro chá.
            - E quem te convidou? - perguntou Nathalia, no mesmo tom agressivo de antes.
            - Fui eu.
            Nathalia olhou para o topo das escadas, de onde Suzana descia com dificuldade. Felipe desvencilhou-se de Yago e Alex rapidamente, e correu escada acima para ajudá-la.
            - Eu convidei - disse Suzana, já de frente para Nathalia.
            - Mas, Suzana... você por acaso sabe de metade do que ela fez?
            - Sei - suspirou Suzana, e caminhou até Gabriela, envolvendo os braços por seus ombros, como num abraço protetor - E sei também que ela está tentando consertar tudo.
            - Tentando? Se é isso que ela está tentando fazer, então sinto muito, mas é tarde demais. Ela que vá se desculpar com padre.
            - Nathalia - Suzana advertiu, com uma voz ameaçadora. Nathalia calou-se, e corou. Por que ela estava defendendo Gabriela tanto assim? Ela era a inimiga. A bruxa. A vadia. Foi principalmente por causa dela que tudo acontecera entre ela e Yago.
            - A Gabriela - recomeçou Suzana - Tem me ajudado muito nesses meses. Com esse negócio de gravidez. Ela merece estar aqui.
            Silêncio.
            - Ajudado com o que? - disse, enfim, Nathalia, contrariada.
            Suzana baixou a cabeça, e então olhou para Gabriela. Ela, por sua vez, apertou os lábios e deu de ombros, numa expressão docemente triste.
            - Acho que ela mesma vai ter que explicar. Um dia - disse Suzana.
            - Pode ir sentar lá - Suzana sussurrou para ela.
            - Acha mesmo uma boa idéia? Eu posso ir embora.
            - Não. Você fica. Eles que se acostumem.
            Gabriela assentiu, e dirigiu-se até o sofá, onde ninguém mais estava sentado. Isolada. Sozinha como saberia que ficaria.
            - Com licença - Suzana disse, e dirigiu-se até a cozinha.
            Por um momento, Nathalia bateu pé. Cruzou o braço sobre o peito, irada. Olhou por cima do ombro de Gabriela. Ela brincava com as próprias mãos, de cabeça baixa, como uma criança estranha no intervalo. Ainda assim, havia algo errado. Com ela. Parecia simplesmente errado dela estar ali. Aquele não seu lugar.
            Afinal, somente ali, haviam quatro pessoas que a odiavam. De cinco.
            Ela descruzou os braços, e com uma voz autoritária, disse para Gabriela:
            - Não faça nada.
            Não esperou para ver sua reação.
            Entrou na cozinha, de cabeça baixa e mãos dadas.
            - Suzana - ela disse, com a voz calma e forte - Eu quero me desculpar pelo que eu fiz na sala.
            - Tá tudo bem.
            - Não, não está. Eu fui rude, grossa e não pensei nos motivos para você ter convidado ela. Ela pode realmente ter te ajudado, e eu sinto muito.
            Estava mentindo, claro. Não sentia nada. Mas se era necessário mentir para fazer o clima melhorar, por pior que se sentisse, o faria.
            Decidiu omitir a parte de que Gabriela também a havia tentado ajudar. Se é que aquilo fora uma tentativa. Um aviso? Uma ameaça? De qualquer forma, não achou que deveria piorar a situação para seu lado. Pareceria ainda mais mesquinha... não que não estivesse um pouco correta. Era seu direito ter cuidado. Era seu direito não querer ficar na mesma sala que a garota que quase arruinara tudo.
            Mas não falaria nada disso, por que aquele dia era o dia de Suzana.
            - Eu sei - Suzana respondeu, fracamente, e Nathalia chegou a pensar que falaria mais alguma coisa, mas ela fechou a boca, e gemeu entredentes.
            - Ei - Nathalia disse, aproximando-se -Tá tudo bem?
            - Tá, tá sim - ela disse - Só to um tanto enjoada, só isso.
            - Olha, eu posso te levar lá pra cima e te botar pra descansar, aí você fica só com os presentes.
            - Mas que graça vai ter se eu não abrir agora? Vamos lá.
            - Suzana - Nathalia repetiu - Você tá realmente bem?
            Ela hesitou por um momento. Estava pálida. Suando novamente. Não era um simples enjôo. Parecia desorientada, prestes a cair. Ela tremia, engolia em seco. Sua pele alternava entre quente e fria. Seu rosto corava aos poucos. A respiração, ofegante. Os olhos reviravam-se, pouco profundos, claros demais. Não só isso... havia algo diferente.
            Nathalia percebeu.
            Dor.
            - Tô sim - ela respondeu.
            E então, quando tentou dar o primeiro passo, caiu.
            - Suzana!
            - Não to não - ela disse - Eu não tô bem.
            - Suzana, o que que foi?!
            - Eu não tô bem.
            Ela não parava de repetir, e não parecia ouvir nenhuma outra pergunta.
            - Suzana!
            Todos entraram na cozinha de uma vez.
            - O que houve?
            - Eu não sei!
            E então Nathalia viu.
            O líquido aos pés de Suzana.
            - A bolsa... - Ela começou - A bolsa estourou.
            E então viu algo mais.
            - O que é aquilo? - disse Yago.
            Sangue.
            Sangue na bainha do vestido de Suzana.
            Uma mancha que não parava de crescer.
            Com os olhos revirando, com uma dor lancinante atravessando o corpo e com as mãos tremendo, Suzana gritou. Um grito que atravessou a cidade, como a própria morte atrás de sua alma.
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