Oi galera :) Vim aqui só pra avisar que, a partir de segunda, o Marcos também postará uma história que ele escreve. O nome será "Profanis", e será sobre mistério ~yuriatazanandovcsrsrs~ Mas enfim, se vocês também quiserem que uma história de sua autoria seja postada aqui no Histórias e Besteiras, basta mandar uma reply pra mim: @intothekingdom. Não precisa seguir, só mandar reply que a gente resolve xD Anyway, aqui está o capítulo 44:


44

Câncer

Cancer - My Chemical Romance

            No dia seguinte, Nathalia entrou na escola, e estava decidida: gostasse ou não, iria se desculpar. Por tudo, desde Gustavo até o dia anterior. Forçaria as malditas palavras a saírem por sua boca. Ela era a culpada. Ela quem deveria se desculpar. Mas não se importaria se ele também admitisse sua parcela de culpa.

            Não se espantou com a multidão de sempre nos jardins da escola, mas praguejou mentalmente. Só serviria para atrasá-la. E justamente naquele dia, pareciam estar todos cismados de amontoar-se no portão.
            Espremeu-se entre os alunos (ouvindo um ou outro gemido de reclamação e sentindo minúsculos pés femininos sobre os seus), e demorou uma vida para passar. Saiu da multidão quase empurrada, com um solavanco, e foi sua vez de gemer em protesto. Ajeitou as roupas e passou simplesmente a mão pelas madeixas louras, que sabia que não haviam despenteado.
            Voltou a andar, mas não antes se apalpar os bolsos e abrir a mochila pra ver se tudo estava no devido lugar.
            Deixou a mochila na sala, e decepcionou-se ao não ver Yago. Felipe e Suzana estavam ali, de modo que ela apenas se deu o trabalho de dizer “oi” e saiu novamente. Voltou ao jardim, e bateu o pé uma vez. Não iria procurar ali. Foi até a quadra, ou melhor, a parte de trás da escola inteira. Deserta. Engoliu a ideia de que Yago ainda não havia chegado.
            Virou-se para caminhar de volta para a sala, com os lábios apertados e uma expressão preocupada, quando o viu caminhando, na metade do corredor vazio.
            - Ei! - ela gritou, mas como Yago não esboçou reação, completou: - Yago!
            Ele levantou a cabeça, e encarou-a. Usava um casaco preto. Ele nunca usava casaco, pois dizia que já estava acostumado com o clima de Costa Valença, além de que sabia que logo mais esquentaria. Tão logo quanto a encarou, abaixou a cabeça, meneando a cabeça e resmungando algo.
            - Yago! - Nathalia repetiu, e pôs-se a correr, parando-o a poucos metros da sala. Era claro que ele não queria conversar.
            - Oi - ele disse, suspirando, sem escolha.
            - Oi - ela respondeu, vermelha, e percebeu que não sabia o que falar. Repassara aquele momento tantas vezes e agora não tinha a menor pista do que havia planejado.
            Ele bufou.
            - Vai ficar me segurando aqui ou vai me deixar passar? - Yago disse friamente.
            - Eu, eu queria conversar - ela gaguejou.
            - Eu realmente não tenho tempo...
            - É sério - ela disse - Preciso muito conversar com você.
            Ele olhou ao redor, desconfortável.
            - Depois - ele disse, passando por ela, fazendo seus ombros se chocarem brutalmente.
            - Depois quando? - ela perguntou, com a voz falhando.
            - Talvez depois - Yago completou, e entrou na sala. Nathalia não precisava de “talvez” nenhum pra saber que ele não queria saber do que quer que ela tivesse pra falar.
            E foi apenas isso.
            Ela viu o professor passar do seu lado, dizendo-lhe um “bom dia”, mas não respondeu. Acenou com a cabeça e abriu um sorriso falso, apenas para não parecer estranha. Entrou na sala logo depois, confusa. Pegou-se olhando para a mesa a seu lado, vazia. Fora ela quem trocara de lugar nas últimas semanas, e quem agora voltava para a carteira de sempre. Mas não havia Yago ali daquela vez.
            Sentou-se, e viu o amado no fundo da sala. Uma única mesa, uma única cadeira. Ninguém a seu lado. Afastado de tudo e de todos. Sozinho. Sentiu um aperto no coração ao vê-lo assim. O que estava acontecendo, afinal?

***

            O sinal do intervalo tocou, e tão brevemente quanto olhou para trás, não viu sinal dele. Suzana perguntou se estava tudo bem. Mentiu, e saiu da sala, na esperança de achá-lo em algum canto da escola.

***

            O sinal tocou novamente. O intervalo havia terminado. Voltou para a sala, decepcionada, e viu Yago lá, no fundo da sala, como um fantasma.

***

            Nas mais de três horas que se passaram, não conseguiu arranjar coragem para falar com ele, com medo de ser humilhada no meio da sala inteira.

***

            O sinal tocou, anunciando que era hora de ir para casa. Nathalia instataneamente virou-se, e encarou Yago puxando a mochila e saindo tão depressa quanto a fileira mais próxima da porta. Foi igualmente rápida, chegando ao corredor ao tempo de vê-lo misturar-se com a multidão. Mas não havia como confundir: era o único que ainda usava o casaco, apesar do sol já ter subido e esquentado ao máximo.
            Seguiu-o até o portão. Os pouco mais de trezentos alunos daquela escola faziam questão de passar ao mesmo tempo pela saída, bloqueando a passagem. Com os olhos, acompanhou seu andar, e viu-o já no meio da rua. Quando finalmente conseguiu pular para fora da multidão, ele já estava na esquina.
            Correu. Correu para alcançá-lo, pois sabia que sua casa não ficava muito longe da escola. E, uma vez que ele estivesse no conforto de sua casa, do jeito que a coisa ia, sequer abriria a porta para ela. E, como estaria trancado no próprio quarto, nem teria que arcar com as consequências.
            Correu por duas ruas antes de sequer chegar perto dele.
            - Yago! - gritou, exatamente como fizera de manhã.
            O grito ecoou na rua deserta.
            Ele parou, e ela pôde ouvir seu suspiro.
            - Yago - ela disse, mais próxima. Estava a poucos passos dele.
            Ele se virou.
             - Oi - ela disse - De novo.
            Ele não a cumprimentou.
            - O que você quer? - disse, direta e friamente, assim que ela terminou de falar.
            O lábio de Nathalia tremeu.
            - Conversar, já disse - respondeu, numa defensiva em voz baixa.
            - Depois - ele repetiu.
            - Não, Yago... Yago! - ela gritou, quando ele se virou e tentou continuar com seu caminho - É serio, é urgente, por favor, só escuta...
            - É urgente? - ele a interrompeu - Urgente? Você nem deve saber o significado dessa palavra.
            Ele se aproximou dela, de modo que suas bocas quase se tocavam.
            - Eu não sei o que você quer falar - ele disse, com uma frieza calma e controlada. Não havia um pingo de incerteza na sua voz - Mas eu não quero ouvir.
            Nathalia encarou seus olhos azuis, com o puro espanto estampado no rosto.
            - Eu disse talvez. E talvez significava que eu pensaria no assunto. Mas você já perdeu esse direito. Você perdeu todo o direito. Então não me venha com “Quero conversar”, pois você teve essa chance antes e ficou de chameguinho com o filho da puta lá.
             Sua voz se distorceu ao citar Thiago. Mas Nathalia sabia que não era apenas ele. Eram todos os seus erros naquela profanação. Todas as merdas que fizera desde que se conheceram. Todo o sofrimento que ela, e apenas ela, causara. Era por ela que eles estavam ali. E ela merecia ouvir aquilo.
            - Não quero mais te ver - Yago disse, se afastando - Nunca mais. Pode se mudar, mudar de escola, de sala, não sei. Se você não mudar, eu mudo.
            Ele deu as costas, e voltou a caminhar.
            Era como se caísse neve. Como se o dia, ensolarado, porém ao mesmo tempo cinzento, congelasse de frio. Seu próprio rosto tornou-se gélido, antes de aquecer-se a cinquenta graus. O coração estava duro. Podia ouvir sua batidas. O tempo passava lentamente, e cada batida era como o tic-tac de um relógio.
            Os segundos não se passavam normais. Os segundos pareciam horas. E ela tinha essas mesmas horas para ver o amor de sua vida indo embora, para sempre.
            O sangue pareceu correr mais rápido, e seu corpo inteiro esquentou. O ar, preso em sua garganta, saiu com o grito:
            - Mas que porra há de errado com você?
            Yago parou. Nem ele, nem Nathalia sabiam por que. Apenas parou, por que teve de parar.
            - Eu não tenho tempo pra isso - ele disse, duramente.
            - Não tem tempo o caralho! - Nathalia gritou, partindo com passos pesados para cima dele - Qual é o seu maldito problema?!
            - Eu não vou ficar ouvindo isso.
            Ele se virou para continuar seu caminho, mas Nathalia agarrou brutamente seu bíceps, com uma força que com certeza deixaria pontadas de dor, e puxou-o, fazendo-o virar-se muito rapidamente. Yago tropeçou nos próprios pés, perdendo um pouco o equilíbrio e a pose, e recuou dois passos.
            - Não ouse fazer isso de novo - Nathalia sussurrou, dando ênfase irada ao “ouse” - Ir embora, não ouse, por que você não vai. Você vai escutar tudo o que eu vou te falar!
            - Nathalia... - Yago começou, agora com a voz fraca. Havia duvida, e não crueldade, pela primeira vez no dia, em sua palavra. Mas foi interrompido antes que pudesse prosseguir.
            - Nathalia é o caramba! Eu to me arrastando por todo o dia atrás de você, to me sentindo uma idiota, babaca, toda a vez que eu falo com você, por que você ta me fazendo de idiota. Mas o idiota aqui é você, idiota!
            Yago abriu a boca pra retrucar, mas os poucos segundos que Nathalia parou para respirar passaram logo.
            - E eu to me sufocando tentando achar a coisa certa pra falar, pra arranjar um jeito de me desculpar, por que eu fiz merda, mas quem ta fazendo merda agora é você. Então ta. Me desculpe. Sinto muito. Eu errei. Eu. E eu to admitindo por que eu te amo. Eu nunca deixei de te amar, e só você que é idiota o suficiente para não ver. Idiota. Então vai. Eu exijo que peça desculpas pra mim, senão a gente fica aqui até amanhã de manhã.
            Quando acabou, estava vermelha e sem ar. O cabelo havia mudado de posição diversas vezes, de tantos gestos, caras e bocas que fizera. Batera o pé, apontara o dedo, tudo. Respirava pesadamente, e esse era o único som que ecoava pela rua, ainda vazia.
            Yago a encarava, sua expressão, antes ilegível, agora era marcada apenas pela dor.
            - Você sente muito? - ele perguntou, com a voz fraca.
            A ira momentânea de Nathalia não passou disso. Momentânea. Assim que ouviu a voz de Yago, tão simples, tão fraca e tão... quebrável, sentiu-se desmoronar, como fazia há tempos.
            - Sinto - ela disse, igualmente fraca, igualmente chorosa.
            - Eu também - Yago disse, com lagrimas nos olhos.
            O lábio de Nathalia tremeu, e sorriu tristemente por um segundo, antes do rosto voltar à mascara de dor.
            - Então por que...? - Não completou. Sabia que ele havia entendido, como ele sempre entendera, como ele sempre completava.
            Yago respirou fundo, e fitou os próprios pés. Fungou. Nathalia percebeu o quão sério devia ser.
            Ele levantou o rosto, de olhos vermelhos e lágrimas presas, impedidas de rolarem.
            - Minha tia chegou na cidade ontem - ele disse.
            Nathalia o encarou. Seu rosto agora também esboçava duvida.
            - E daí? - Ela perguntou, cruelmente, com clara impaciência - O que isso tem a ver?
            - Minha mãe odeia ela - Yago continuou - Minha mãe odeia ela, mas ela não disse nada. Não protestou. Deixou ela entrar na casa, sem gritar, espernear nem nada. - Ele abaixou a cabeça, e engoliu em seco antes de continuar - E ela só disse...
            - E daí? - Nathalia repetiu - O que isso tem a ver com a gente? A sua titia não deixa mais, é isso?
            - Ela tem câncer, ta bem? - Yago respondeu no exato momento, com as lagrimas finalmente descendo o rosto - No pulmão.
            Nathalia congelou.
            - O que? - ela disse debilmente - E-eu não sabia...
            - Você nunca sabe - disse Yago, e virou-se, correndo para casa.
            - Yago! - ouviu Nathalia gritar - Yago, volta aqui!
            Mas ele não se virou. Continuou correndo. E, quando finalmente entrou em casa, fechou a porta, trancando-a, e chorou. Sentou-se no chão, com as costas apoiadas na parede, e chorou. Ouviu Nathalia gritar e bater à sua porta, mas não a abriu. Continuou chorando, ouvindo os pedidos de perdão da amada.

***

            À noite, quando não havia ninguém gritando por ele e as lagrimas haviam secado novamente, desceu as escadas. Eram exatamente sete horas, e o jantar estava servido. Acenou um oi para sua mãe, Lucas e sua tia, e sentou à mesa.
            - Tira a mão - ouviu sua mãe resmungar, seguido de um barulho de tapa. Não precisou se virar para ver que sua tia tentara beliscar um pedaço de carne.
            - Ai - Ághata gemeu - Não precisa bater.
            - Mamãe dizia que era assim que se aprendia - Yago sentiu um sorriso sarcástico crescendo no rosto da mãe.
            Ághata resmungou, e se sentou à mesa.
            - Pra você, salada - disse Yago, e empurrou um prato cheio de folhas e legumes para a tia.
            - Argh - ela gemeu - Eu já disse que estou morrendo, não precisa me torturar - riu em seguida.
            Yago esboçou um sorriso por educação. Não conseguiria rir de tanta passividade diante de sua morte.
            - Isso, ri mesmo - sua mãe disse - É exatamente por isso que você ta morrendo.
            - Por que eu rio e sou feliz? Pois bem, então animem-se, meninos, pois sua mãe viverá para sempre!
            A mãe de Yago e Lucas jogou o pano de prato na pia, com tanta força que fez barulho.
            - Vai morrer por que não ta nem aí pra qualquer consequência, como sempre - Começou ela, do mesmo jeito que começara aquele discurso em todos aqueles anos, mas agora, a situação era diferente - Vai morrer por que vo-cê quis. Quantas vezes eu disse, cigarro faz mal, gordura faz mal, e aí está. Que vocês, Lucas e Yago, tomem isso... - apontou para o rosto de Ághata, e gesticulou, envolvendo o corpo todo. Como uma criança, Ághata respondeu dando a língua - ... como lição.
            - Ouçam sua mãe - Ághata respondeu, com sarcasmo - Ela sabe o que é melhor pra vocês.
            A mãe de Yago bufou, irada.
            - Acho que deveriam até batizar seus filhos com o nome dela, quem sabe eles não vem com alguma sabedoria que pulou a mim na geração?
            A mãe deu as costas, e saiu da sala. Subiu as escadas com passos pesados, audíveis mesmo com a distancia.
            - Eu acho... - começou Lucas.
            - Ah - a tia interrompeu - Você mima demais sua mãe, querido, e foi nisso que ela se transformou. Deixa ela lá, depois fica com fome e tem que descer. Ela ta fresca, quando a gente era menor não tinha isso, ela tinha que engolir ou revidar.
            A velha riu, mas a risada se transformou numa violenta e seca tosse.
            Yago se espantou novamente, por mais que não fosse a primeira vez que via aquilo. Nas pouco mais de trinta horas que ela chegara em Costa Valença, vira aquela cena se repetir diversas vezes. Em algum lugar da sua cabeça, tudo o que estava diferente nela foi percebido. As unhas, totalmente deformadas e amareladas, bem como os dentes. A dificuldade que ela tinha para respirar. A pele, também amarela. As olheiras, profundas, e os olhos, com íris claras demais. O cabelo, antes, anos antes, louro escuro e magnífico, caindo-lhe sobre os ombros, agora era ralo, e mais parecia que ela tinha noventa anos do que cinquenta.
            Agora, percebia também as minúsculas bolhas que brotavam em sua pele, bem como o mal cheiro intensificado.
            - Tia - Lucas exclamou.
            - Estou bem, estou bem... me solte, garoto! Parece macaco! - ela exclamou, repelindo o irmão de Yago.
            Ambos riram, mas Ághata manteve a expressão séria dessa vez, deixando escapar apenas um sorriso.
            - Foi só uma tosse - ela disse, quando os irmãos pararam de rir - Só, isso acontece sempre.
            - Tem certeza? - Yago perguntou.
            - Bem, se não tivesse, acho que já teria encomendado o caixão - ele respondeu, e riu mais levemente - Relaxem, garotos. Ainda tenho meses, quem sabe anos! O médico é confiável, o diagnostico não falha. Vou viver muito ainda, e dessa vez, com vocês.
            Sorriu, mostrando os dentes quase apodrecidos, para ilustrar suas palavras.
            - Então ta - Lucas suspirou - Se a gente não tivesse ido pro Rio, você teria vindo até aqui pra nos ver?
            Yago, cujo prato já estava quase totalmente vazio, deixou os talheres baterem com um pouco de força demais. Sabia que aquela pergunta viria mais cedo ou mais tarde. Olhou para o irmão, fitando o quanto ele corava e o quanto temia a resposta.
            Ághata encarou Lucas, chocada, e acertou um tapa na sua nuca.
            - Mas é claro que eu viria, diabo! - ela disse, comendo o ultimo de seus vegetais - Acha mesmo que eu ia me deixar morrer sem sequer falar com meus netos? Que o inferno espere, oras!
            - Mas... e a mamãe?
            - Ela ia ter que me ouvir uma hora ou outra, e eu ia falar apenas a verdade.
            Ela suspirou.
            - Falando em verdade, foi até sorte vocês terem ido pro Rio. Foi você quem convenceu ela a ficar em minha casa, não foi, Lucas?
            - Foi sim - ele confirmou, e logo se corrigiu: - Fui eu sim.
            - Bem, então é a você que eu agradeço. - Ela sorriu - Se não fosse você, ela não teria me ouvido, nem eu saberia que vocês estavam na cidade. Pois bem, obrigado também por ficar comigo por essas duas semanas. Eu sei que vocês preocuparam Yago e tudo.
            - Que nada - Yago disse.
            Ághata sorriu.
            - Obrigado a vocês dois.
            - Você fala como se tivesse pressa - Lucas disse, com pavor na voz.
            - Claro que tenho! Pra vocês, tempo é dinheiro, pra mim, é o resto de minha vida. Então vou economizar ao menos um pouco, para quando decidirem que é minha hora, eu ter mais uma vidinha acumulada.
            Os três sorriram. Yago e Lucas abaixaram a cabeça, impedindo a tristeza de tomar conta de seus olhos.
            - Bem - Ághata disse - O jantar já terminou - gritou essa parte, com clara intenção de avisar por uma última vez a mãe dos seus sobrinhos - Então vamos lavar essa louça.
            - Deixa que a gente... - Yago e Lucas falaram ao mesmo tempo, mas foram ambos interrompidos pela tia.
            - Oras, deixem de besteira. Tirem a mesa, e eu limpo... Meu Deus, a louça! - ela exclamou, olhando a pia abarrotada de panelas e pratos - Bem, agora eu já falei, né.
            Yago e Lucas assentiram, e guardaram as toalhas de mesa. Sua tia mandou-os subir, e eles obedeceram, depois de uma série de protestos.
            - Ah, se eu ainda tivesse um cigarrinho... - ela disse, enquanto Yago ainda estava à porta.
            - Mas não tem - ele retrucou prontamente - E nem pense nisso.
            - Tá bom - ela suspirou, e calçou as luvas de borracha.
            Yago subiu, deixando Lucas vendo televisão, no andar de baixo. Assim que jogou-se na sua cama, lembrou-se de seu dia. Da gritaria com Nathalia. Das palavras cruéis que ouvira dela, e das palavras cruéis que dissera para ela. Já havia tanta culpa em jogo que nem sabia mais quem era pior: ele ou ela. Só de se lembrar da entrada, já sentia seu rosto corar. Não era com ela que ele devia estar puto. Não era com ninguém. Se pudesse recomeçar o dia, o faria. Encontraria Nathalia naquele corredor vazio. A abraçaria e a beijaria. Escutaria o que ela tinha a dizer, e pediria perdão também. Desabafaria com ela, e juntos, superariam isso.
            Mas não podia fazê-lo, por que sua capacidade de ferrar tudo estava acima disso.
            Quem sabe, não poderia desculpar-se de verdade com Nathalia no dia seguinte? Quem sabe conseguisse fazer tudo certo? Quem sabe...
            Ouviu um grito.
            - NÃO! - Lucas gritava.
            - YAGO! MÃE! - o irmão continuou.
            Yago levantou-se da cama, e ouviu passos apressados descendo a escada. Sua mãe. Abriu a porta, para o corredor vazio, quando ouviu o grito dela também.
            Yago correu. Desceu a escada tão rapidamente quanto ouvira sua mãe fazer, e chegou ao andar de baixo quase caindo. Desviou do sofá, e seguiu para a cozinha.
            Tinha um mal pressentimento.
            Ouvia sua mãe e seu irmão gritando seu nome.
            Lucas passou a seu lado, correndo. Ele pegou o telefone, e discou freneticamente apenas três números. Levou o aparelho à orelha, e passou a mão na testa. Ele chorava. Estava desesperado.
            Yago então olhou para a frente, e sentiu as pernas fracas.
            Ághata.
            Caída.
            Sua cabeça apoiada no colo de sua mãe, chorosa.
            Um verdadeiro rio de sangue escapava de sua boca, manchando o colarinho da camisa.
            Yago se lembrou de Gustavo, no momento em que acertou sua garganta.
            Yago correu mais dois passos, e se ajoelhou ao lado de sua tia. Estava desacordada. Serena, mesmo com todo aquele sangue. Lucas gritava ao telefone. Yago dizia algo, mas não sabia o que. Palavras de conforto para a sua tia, talvez, mas que na verdade, falhavam em confortar ele mesmo.
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