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hundred

The Fray

            No dia seguinte ao ataque, após acordar às três da tarde, sozinho em casa, Yago partiu para a delegacia. Com os pés enfaixados, rosto limpo, de banho tomado, fez uma denuncia que saberia ser inútil. Os cinco policiais daquela cidade não fariam nada contra uma “suspeita”, muito menos contra a denuncia de um moleque de dezesseis anos. Não importava as provas, não importava seus ferimentos. Ele era uma criança. E os adultos, sempre tão espertos, fechavam os olhos e tapavam os ouvidos para a palavra de um uma tola criança.
            Suas exatas palavras foram “Vamos ver”. E Yago sabia que era um caso perdido.

***

            Haviam se passado duas semanas desde de o incidente de Yago, e era o dia seguinte ao incidente de Alex.
            Yago montava guarda em frente ao prédio pelo qual fugira pela enésima vez. Estava escondido detrás das mesmas latas de lixo que vira Gustavo revirar, poucos dias antes.
            Não fora na escola esse tempo todo. Não podia ir. Não queria ir.
            Olhou para a janela do segundo - ou seria primeiro?, pensou - andar, procurando sombra da senhora dona do apartamento que usara como rota de fuga. Nas duas semanas que visitava aquela casa, nada vira. Nenhum sinal de vida.
            E todos os dias, às oito da manhã, ia embora, com o coração cada vez mais pesado.
            A velhinha estava realmente morta?
            Por sua culpa?
            Até agora, não vira nada que desmentia tal fato.
            Respirou aliviado quando viu a janela sendo aberta e a senhorinha pondo a cabeça para fora. Uma gigantesca gaze cobria a metade esquerda de sua testa, mas estava viva. Yago estava certo. Ela apenas levara uma coronhada, e devia ter voltado para casa no dia anterior, fora do tempo de visita de Yago.
            Não se identificaria, nem falaria com ela, exatamente como havia planejado. Queria o mínimo envolvimento possível.
            Quando a velha tornou a entrar, Yago pôs-se a correr, para fora do beco. Trocou a camiseta pela blusa do uniforme escolar ao perceber que faltavam ainda dez minutos para o inicio da aula. Correu até a escola, almejando ter sua vida de volta.

***

            Imaginou que, já que era uma terça-feira, teria aula de física no primeiro tempo. Então teve de ficar um pouco chocado ao ver a escola vazia, sem o mínimo barulho na entrada... mas quase explodindo de ruídos que pareciam vir do fundo do terreno.
            Caminhou pela entrada de carros, com passos leves, avançando pela leve elevação. Entrou no corredor de salas e, por algum motivo, decidiu deixar sua mochila na sala do segundo ano. Passou direto, seguindo para o fim do corredor, virando então à direita, no corredor que levaria à quadra.
            Quando pôs os olhos naquela multidão na grande arquibancada, lembrou-se que estavam em setembro. O mês das apresentações dos mais novos e dos trabalhos dos mais velhos.
            A quadra inteira estava arrumada em tendas, dividas para turmas do ensino fundamental. O ensino médio acabaria por apresentar seus trabalhos apenas na outra semana.
            Ou seja: Yago tinha uma semana para fazer uma gigantesca pesquisa sobre sabe-se lá o que.
            - Ei - Yago ouviu à sua direita. Virou-se e viu Felipe caminhando em sua direção.
            - Oi - ele respondeu, calando-se em seguida; o que teria para dizer?
            - Onde você estava, cara? Perdeu as duas piores semanas do ano.
            - E-eu... fiquei doente.
            - De que?
            - Dengue - respondeu muito rapidamente - Hemorrágica.
            - Ah - Felipe exclamou - Podia ter falado que ia morrer.
            Yago deu de ombros. Sua imaginação não estava funcionando direito naquele dia, e não teria muito bem como rebater.
            - Então - Yago disse, cruzando os braços na altura do peito - Isso é o que eu estou pensando que é?
            Felipe assentiu.
            - Vinte e duas barracas para falar de oito matérias - ele disse - Você não imagina como fica repetitivo na barraca do sexto ano.
            Yago riu baixinho.
            - Nosso trabalho já está pronto - continuou Felipe - Você vai ter que fazer relatório e prova, pelo jeito.
            - Ah - Yago disse, simplesmente. Na verdade, não se importava. Tinha mais chance de gabaritar uma prova do que de tirar nota máxima num trabalho que envolvia falar em público.
            - Você podia cantar - disse Felipe - Sei lá, vai ver a professora considera isso como trabalho.
            - Vou pensar nisso.
            Seguiu-se então silêncio. Nenhum dos dois sabia o que falar. Yago preferia assim. Era melhor não falar nada do que deixar escapar o verdadeiro motivo de sua ausência.
            - Eu... - Felipe começou - Eu vou comprar alguma coisa.
            - Tá - Yago respondeu. No segundo seguinte, achou melhor completar: - Vou com você.
            Caminharam até a cantina, abarrotada de gente, apenas para variar. Desde os pais, avós e todos os tipos de familiares que poderiam haver numa apresentação até adolescentes entediados, acompanhados de namorados e namoradas mais entediados ainda. Yago notou que era o único vestido de uniforme. Considerou a idéia de voltar à sala e trocar novamente de blusa, mas descartou. Queria apenas ir embora o mais rápido possível. Se não poderia estudar, concentrar-se apenas nos deveres, não havia motivo para estar ali. Seria melhor limpar a casa novamente.
            Além disso, aquelas crianças fazendo birra já estavam lhe dando dor de cabeça.
            E quando desviou o olhar para as escadas que levavam até a arquibancada, paralisou ali mesmo.
            Sua boca escancarou um pouco.
            - A fila já andou - reclamou uma senhora às suas costas, e ele sentiu um xingamento por trás daquela fachada de gentileza.
            Deu apenas um passo para frente, sem nem desviar o olhar.
            - O que... ah - Felipe disse, acompanhando a expressão do amigo.
            Nathalia subia as escadas, abraçada com outro cara.
            Rindo.
            Com uma expressão quase de “eu tenho”.
            Yago teve de piscar várias vezes até começar a acreditar no que via.
            O moleque estava praticamente encoxando ela!
            Eles subiam os degraus lentamente, pois não havia mais ninguém na pequena e perigosa escada, sem corrimão. Enquanto ele envolvia os braços na cintura dela, ela o olhava de lado, com um sorriso no rosto. As pálpebras mal estavam abertas, deixando claro que o olhar estava direcionado apenas para ele. O garoto sem nome que a acompanhava.
            Yago mal olhou para ele. Apenas percebeu no modo majestoso que suas mechas louras caiam por seu ombro, chegando até a cintura, e como a camisa lhe caia perfeitamente.
            O garoto era apenas um intruso, um pedaço de escuridão comparado à imensa estrela que abraçava.
            Quando notou quem era o garoto, as orelhas de Yago esquentaram. Era Thiago Maia, o idiota da sala que nunca teve nenhum relacionamento sério. O idiota que andava com mais três ou quatro garotos, e um número incontável de garotas ao seu redor. A nenhuma delas devia-se respeito, claro.
            Yago sabia que ele era um idiota, pois era exatamente igual a Thiago antes de conhecer Nathalia.
            No momento em que voltou à realidade, sentiu o mundo parar na fração de segundo que seus olhos encontraram os de Nathalia. O rosto dela, desmontando-se daquela farsa de felicidade. As mãos dela, quase empurrando Thiago para longe. A expressão, quase chocada.
            Ela então puxou Thiago e o beijou, com um novo sorriso.
            Yago sentiu que iria vomitar.
            Olhando profundamente nos olhos de Thiago, Nathalia recompôs-se, e continuou a subir as escadas, até desaparecer da visão de Yago.
            Numa nova fração de segundo, os olhos de Nathalia pareciam dizer “engole essa”.
            Ficou parado na fila, como um bobo, movendo-se automaticamente enquanto Felipe tagarelava, tentando inutilmente fazê-lo esquecer do que vira.
            A cabeça de Yago não funcionava direito.
            Seus pensamentos não seguiam o fluxo correto.
            Mas a idéia que lhe surgiu, tão obvia, pareceu o melhor que podia fazer no momento. Afinal, não tinha dúvidas de que Nathalia fizera aquilo para causa ciúmes. Tudo o que ela queria era irritar Yago.
            E ele poderia brincar assim também.
            - Fica aqui - ele disse.
            - Aonde você... - Felipe tentou perguntar, mas o amigo já estava longe.
            Suspirou, gemendo um palavrão.

***

            Yago atravessou aquela multidão inteira novamente. Seus olhos procuravam apenas uma pessoa. A única que poderia lhe ajudar. Não gostava da idéia, mas nada podia fazer; era o único plano que tinha.
            Depois de cinco minutos muito mal gastos, procurando-a de barraca em barraca, em cada canto da quadra, avistou-a seguindo para o corredor das salas, sozinha.
            A primeira coisa que notou foi sua roupa: calça jeans longa, camisa quase sem decote. Se não tivesse visto o rosto, não a teria reconhecido.
            Correu atrás dela, mas só conseguiu alcançá-la no fim do corredor, quase na entrada da escola. Virou-a com rudeza, fazendo-a gritar baixinho.
            - O que... - disse Gabriela, tentando desvencilhar-se de Yago, mas só conseguindo enfiar o braço com mais força no abraço dele, fazendo parecer um casal.
            - Só vem comigo - ele disse.
            - Mas eu preciso ir...
            - Pode deixar pra mais tarde - ele retrucou na hora.
            Ela suspirou, cedendo enfim.
            - Para onde você está me levando?
            - Pra quadra.
            - Mas eu acabei de sair de lá!
            - Só por alguns momentinhos, eu prometo.
            Com mais técnica e destreza, Gabriela se soltou, e parou no meio do caminho, fazendo Yago parar e virar-se, com uma expressão cansada.
            - Pode falando - ela disse - O que você quer?
            Foi a vez de Yago suspirar.
            - Só vem comigo - ele repetiu, tentando puxar seu braço.
            - Não! - ela soltou-se novamente, com um tapa - Qual  seu problema?
                Yago sentiu seu rosto corar, de raiva, vergonha, e de um sentimento que não sabia caracterizar. Os olhos se encheram de lágrimas, como uma criança contrariada, mas ele não ousou derramá-las. Secaram ali mesmo, e ele voltou a encará-la duramente.
            - Você não me queria? - ele disse, quase cuspindo as palavras - Você não me amava?
            Gabriela o encarou, piscando várias vezes, sem saber o que falar.
            - Eu...
            - Pois bem - Yago disse, puxando seu braço novamente, dessa vez prendendo-o com mais força - Essa é a sua chance. Aproveite ela, e venha logo comigo.
            - Mas...
            Ela não conseguiu continuar, pois Yago apertava seu braço com tanta força que a fez gemer baixinho, perder o ar.
            - Você tá me machucando - ela disse.
            - Não me diga que você não gosta - respondeu, com sarcasmo.
            Gabriela se remexeu um pouco, arranjando uma posição mais confortável, e seguiu relutante, caminhando de má vontade.
            - O que você vai...
            - Shhh - ele disse, simplesmente.
            Yago olhava para cima. Apertava o braço ainda com mais força, e Gabriela podia sentir que ele cravava as unhas nas próprias mãos. Quase podia senti-lo irradiar toda aquela raiva. Nunca sentira medo de Yago - na verdade, ela era responsável por causar medo nele -, mas daquela vez, ele realmente estava muito estranho. Diferente. Quase como se pudesse matar alguém.
            Ou como se quisesse.
            Acompanhou seu olhar. Via apenas uma grande arquibancada, mas não grande o suficiente para abrigar todas aquelas pessoas. Estavam todas amontoadas e apertadas ali, e distinguir umas das outras era quase impossível.
            - O que...
            - Cala a boca - Yago sussurrou entredentes, prontamente, com uma calmaria assustadora.
            Gabriela olhou para ele, fazendo os cachos brilhantes e penteados moverem-se, caindo dos ombros até aproximadamente metade de suas costas. Meneou a cabeça negativamente, como que para espantar as idéias. Aquele definitivamente não era o Yago que conhecia.
            Voltou a olhar para as arquibancadas, e então a viu.
            Exatamente no momento que ela a viu.
            Gabriela e Nathalia simplesmente se encararam, ambos com o rosto desmoronando lentamente.
            Mas não era somente em Gabriela que Nathalia focava a visão.
            Yago encarava-a seriamente, puxando Gabriela mais para perto de si.
            - Mas o que... Não! - Gabriela disse, mas já era tarde.
            Sentiu os lábios dele pressionarem-se contra os seus com raiva, um único sentimento. Não havia sequer cortejo naquele beijo. Era vazio e sombrio, forçado. Algo que nenhum dos dois queria.
            Mas Yago fizera apenas para destruir Nathalia.
            Assim como Nathalia fizera.
            Gabriela vira Thiago ao seu lado, e não tinha duvidas de que o que quer que Yago pretende-se fazer, Nathalia teria de aguentar. Ela merecia.
            Ainda assim, não era certo.
            Para ninguém.
            - Hum! - Ela gemeu, entre os lábios.
            Yago a segurava com força, mas não o suficiente para impedi-la de dar inúteis socos em seu peito.
            Ela por fim o empurrou, fazendo-o separar-se enfim.
            - Qual o seu problema? - ela repetiu, sussurrando, sem atrair a atenção de quem estava ao redor.
            Ela olhou novamente para Nathalia. Ela fitava a quadra, com olhos vazios e tristes. Thiago ainda sussurrava em seu ouvido, mas ela o ignorava. Ela já não sentia nada. Não queria nada.
            Gabriela pôde ver a distancia seus olhos brilhando com lágrimas.
            - Feliz? - ela disse, e voltou para o corredor das salas.
            - Eu que pergunto, qual é o seu problema? - Yago indagou, assim que a alcançou no corredor vazio.
            - O que?
            - Volta lá comigo. Agora.
            - Claro que não - Empurrou-o novamente.
            Yago deu apenas um passo para trás. Seu rosto se contorcia numa expressão bestial, sem esconder um pingo da fúria que sentia.
            - Você não me amava? - ele disse, calmamente, porém, a mesma calma denunciou a explosão em seu peito.
            - Não - ela disse, massageando os braços doidos.
            - Então pra que foi tudo isso, hein? - Yago disse, aproximando-se novamente, a apenas um centímetro de distancia de seu rosto - Pra que você veio pra cá? Pra que você se matriculou nessa maldita escola? Pra que você ferrou tudo?
            Gabriela permaneceu em silencio, a boca entreaberta e os olhos pesados.
            - Responde!
            - Não é você que eu amo! - ela quase gritou - Não é você! Eu fiz isso por que amava alguém, mas não você!
            Ele permaneceu em silencio.
            - Então você é só uma marionete.
            Gabriela sentiu o peito queimar de vergonha, as lágrimas subindo mais e mais para seus olhos.
            - Não... - ela disse, sem forças.
            - Quer saber? - Yago a interrompeu, a voz novamente denunciando sua ira - Você é só uma puta. Uma puta burra e inútil. Não serve pra nada. Volta para seu amorzinho, e deixa ela brincar de boneca contigo.
            Ele se aproximou de sua orelha, e sussurrou cruelmente:
            - Por que é isso, você é uma bonequinha. Você é uma inútil, e ele já deve ter percebido isso. Então, você vai morrer sozinha, por que ninguém jamais amaria você.
            Ele deu as costas e caminhou de volta para a quadra, o rosto era uma mascara de calma. Deixou Gabriela sozinha no corredor, com lágrimas descendo ligeiras por seu rosto.

***

            - Três reais por um cachorro quente? - disse Dani - A escola pode ser particular, mas isso já é abuso.
            - Espera só para ver o preço das excursões para o Rio - respondeu Suzana.
            Dani parou, e encarou-a, incrédula.
            - Vocês tem excursão para o Rio? - perguntou ela.
            - Cento e cinquenta e obrigatório, quer?
            Dani gemeu de desconforto.
            - De repente o cachorro quente parece gostosinho, não é?
            Ela revirou os olhos.
            - Vai, compra lá pra mim - ela disse.
            - Quer Coca? - Suzana perguntou.
            - Serve Pepsi? - Dani imitou, fazendo Suzana rir de leve.
            Suzana levantou-se, e parou em pé, no único canto da arquibancada que não estava amontoado. Dani estava jogada, com as pernas cruzadas em uma imitação de posição de lótus. Ela entregou-lhe o dinheiro, enquanto Suzana ainda a encarava.
            - O que? - perguntou, rindo.
            - Isso é legal - Suzana respondeu - Nós duas, saindo juntas. Como a noite das garotas, só que de dia, com um calor infernal e uma grávida.
            Dani riu.
            - Quem sabe você pode até estudar aqui - Suzana disse.
            Dani abaixou a cabeça.
            - Você sabe que mamãe não pode pagar a mensalidade.
            - Ela não precisa - Suzana disse, e Dani levantou a cabeça rapidamente, encarando-a com olhos esperançosos - Aqui tem bolsa para os melhores alunos. Você só precisa fazer uma prova e acertar o máximo que puder. E... - ela abaixou-se, e sussurrou - Eu estudo aqui desde sempre. A diretora é amiga dos meus pais, e todos os professores me adoram. Quem sabe eu não possa... influenciar um pouco no valor da bolsa?
            Dani sorriu, e foi acompanhada por Suzana.
            - Sério? - ela perguntou, e Suzana assentiu. Jogou-se no pescoço da amiga, arrancando-lhe um gemido - Suzana, você é demais! Ah, desculpe.
            - Não foi nada - Suzana riu. - E ano que vem, eu vou estar no terceiro ano e você no primeiro, ou seja, teremos intervalo juntas!
            Dani abraçou-a novamente, controlando a própria força.
            - Obrigada.
            - Ei, somos amigas, não somos? - Suzana riu novamente.
            Dani largou-a, ajeitando o cabelo com uma jogada e passando as mãos teatralmente nos olhos.
            - Mas vai - ela disse - Compra logo meu cachorro quente, antes que você aborte com tanta melação.
            Suzana riu, e foi para a cantina cheia.
            Quando voltou, quase deixou os lanches caírem.
            - Oi! Suzana! - disse Dani - Olha aqui quem chegou para conversar com a gente!
            Ao seu lado, havia um menino de cabelos ensebados, olhos pouco profundos e extremamente pálido, com roupas cinzentas e calça jeans rasgada, literalmente jogado no canto. Carregava um saco plástico já vazio, que logo foi carregado pelo vento.
            - Senta aqui - disse Dani - Aqui do meu lado. Ele é legal. Qual o seu nome mesmo?
            Ele levantou o rosto lentamente, exibindo os dentes amarelados ao falar simplesmente:
            - Caio.
            - Caio então - disse Dani - Ai, me dá logo meu cachorro, meu estomago já formou um buraco negro.
            Suzana entregou o lanche nas mãos dela, e então, com toda sua força que provinha dos hormônios, puxou os dois pelos braços, fazendo-os levantarem-se de uma vez só.
            - Ow - disse Dani - Qual seu problema?
            - Vem logo comigo - Suzana disse, irritada.
            Atravessaram a arquibancada, entre muitos gemidos e reclamações. Passaram novamente pela lanchonete, com uma fila gigantesca, que Suzana arrependia-se de não usar seu argumento de grávida para furar fila. Demorara demais.
            Chegaram então ao corredor de salas, agora vazio. Abriu a porta de uma sala qualquer, e empurrou Caio para dentro.
            - Fica aí - ela disse, e fechou a porta.
            - Qual foi! - ele disse, a voz sendo abafada pelas paredes.
            - Daniela Cambraia Albuquerque! - disse Suzana.
            - Ele vai abrir a porta - disse Dani.
            - Não vai não. Acredite, vai demorar umas duas horas até que ele ache a maçaneta.
            - O que?
            - Mas isso não importa - Suzana suspirou. - Você não devia estar andando com ele.
            - Por que? O que tem de mais?
            - Ele é drogado.
            - O que?!
            - Por isso você não devia ficar perto dele - Suzana apertou os lábios - Você aceitou alguma coisa que te deu? Alguma bala, doce, sei lá?
            Dani piscou. A contragosto, disse:
            - Um camarão.
            Suzana avançou mais quatro passos, carregando-a pelo braço, ouvindo uma série de reclamações. Abriu a porta da sala do oitavo ano, e repetiu:
            - Entra aí.
            - Mas isso não é justo, você não tem provas de que era droga! Era só um camarão!
            - O camarão era vermelho? - ela perguntou.
            - O que?
            - Era vermelho ou não era? - insistiu, nervosa.
            - Claro que era - disse Dani, a ponto de se virar e voltar para as arquibancadas. Nem tinha comido seu lanche ainda.
            - Muito vermelho?
            - Eu não sei, vermelho normal, acho.
            - Como era os olhos?
            - Pretos.
            - Esbugalhados?
            - Olho de camarão é esbugalhado, Suzana.
            - Quantas antenas ele tinha?
            - Duas.
            - Quantas antenas eu tenho?
            Dani piscou uma, duas, três vezes, limpando a visão. Abaixou a cabeça antes de responder:
            - Três.
            - Entra aí - disse Suzana novamente.
            Dani entrou, e foi seguida por Suzana.
            - Come seu lanche, vai que absorve.
            Dani deu uma mordida, contrariada. Já estava tonta. Mas pelo menos Suzana estava ali para lhe ajudar. Sua amiga estava ali.

***

            Nathalia deu um fora em Thiago e correu para o banheiro. Trancou-se lá dentro, e no momento que se trancou, abraçou a si mesma. Soluçou alto, e deixou as lágrimas que guardara tanto escorrerem por seus olhos. Como Yago pôde fazer isso com ela?
            Ela então lembrou-se de que estava fazendo exatamente a mesma coisa com ele. Doía mais ainda perceber que ela merecia o que acontecera.
            Visou sentar no cantinho do cômodo, mas quando se virou, encontrou uma garota roubando seu lugar.
            - Parece que nós duas gostamos de vir ao banheiro pra chorar - disse Gabriela, encolhida, olhando para Nathalia com uma expressão de genuína dor.
            Mas não importava, por que Nathalia a odiava e nada mudaria isso.
            - O que você quer? - disse friamente, abrindo a torneira.
            - Nada - disse Gabriela - Eu estar no mesmo banheiro que você exatamente na mesma hora é apenas uma infeliz coincidência.
            Nathalia bufou, abrindo um sorriso sarcástico.
            - Eu quero me desculpar - disse Gabriela, de cabeça baixa.
            - Pelo que? - Nathalia retrucou, com calma.
            - Por arruinar seu dia - Gabriela fungou, encolhendo-se ainda mais.
            - Especifique o dia.
            Gabriela sorriu, triste.
            - Desculpe por tudo - ela disse, com a voz falhando - Desculpe mesmo. Eu, eu ferrei tudo pra todo mundo. Até hoje que eu só ia embora pra casa, consegui ferrar tudo.
            - Bem, é uma verdadeira habilidade.
            - Para com esse sarcasmo, eu tô falando sério.
            Nathalia virou-se lentamente. Jogou a toalha de papel no lixo, com raiva, o que reconheceu-se pela força com que as folha atingiram a lata de metal.
            - O que você fez - ela disse, com a voz rude - Não tem perdão. Nem de hoje, nem de ontem, nem de nunca. Você nunca teve direito nenhum de tentar me separar da única pessoa que eu amei na minha vida inteira.
            - Eu sei, eu sei - ela sussurrou.
            - Você nunca deveria sequer ter aparecido aqui. Você só serviu para piorar tudo. É por sua causa, e por causa daquele seu maldito namoradinho que tudo isso tá acontecendo.
            Nathalia chegou mais perto, perto o suficiente para sussurrar:
            - Você pode amar o Yago, mas ame a distancia. Por que ele é meu, e sempre vai ser.
            Gabriela abaixou a cabeça ainda mais, e então levantou-a. Encarou Nathalia nos olhos com tanta profundidade e tristeza que a mascara de ódio que ela carregava quebrou-se. Pela primeira vez, Nathalia sentiu algo por ela. Pela primeira vez, considerou ouvir o que ela tinha a dizer.
            - Eu sei que não tem perdão - Gabriela disse - Eu sei que... nada do que eu faça vai compensar jamais o que eu fiz - Gabriela pausou, engolindo em seco, e continuou: - Mas... eu posso dizer que eu não fiz isso por que amo o Yago. Eu não amo ele, e eu já disse isso. Pra ele. Agora vocês dois sabem e, e eu não sei, mas podem me considerar fora do caminho de vocês.
            Nathalia olhou-a de cima a baixo, não acreditando no que ouvia. Pior: ela acreditava, mesmo que não quisesse.
            - Mas... isso não quer dizer que vocês vão ser felizes para sempre.
            - O que quer dizer com isso?
            Gabriela levantou, limpando a camisa e encarando Nathalia agora da mesma altura.
            - O que aconteceu hoje é só uma amostra do quanto vocês são idiotas - ela disse - Que porra! Vão ficar de ciuminho um pro outro!
            Nathalia abaixou a cabeça, envergonhada.
            - Foi ele quem me deixou. É ele quem tem que me conseguir de novo.
            - E daí? Hoje ele me agarrou no meio do corredor e me arrastou só pra me beijar na sua frente. Ele me xingou e quase me bateu. E aí? Ele é um babaca comigo por que me odeia. Mas ele foi um babaca contigo por que te ama.
            Nathalia desviou o olhar, corando.
            - Ele pode ter sido um babaca contigo por que você foi uma babaca com ele também - completou Gabriela.
            - Já está fora do meu alcance - disse Nathalia - E eu nem sei por que tô falando disso com você, você nem sabe nada do que a gente ta passando.
            - Ah, eu sei - disse Gabriela - E vai piorar.
            Nathalia voltou a encará-la nos olhos.
            - O que?
            - Por que você acha que ele faltou esse tempo todo? Duas semanas? O Felipe já saiu espalhando que ele tava com dengue. Você acha que é verdade?
            Ela se abraçou, antes de soltar um “eu não sei”.
            - Quando vocês fizerem as pazes, pergunte pra ele.
            - Por que você tem tanta certeza de que a gente vai fazer as pazes?
            Gabriela sorriu.
            - Por que eu tentei ferrar você por sete meses e vocês sempre fazem as pazes.
            Antes que Nathalia pudesse involuntariamente sorrir e repreender-se pelo mesmo, Gabriela pôs as mãos em seus ombros.
            - Com eu disse - começou ela - Vai piorar. E muito. Se o Yago voltou bem...
            O coração de Nathalia acelerou.
            - O que quer dizer com isso? - repetiu.
            Gabriela voltou seus olhos tristes e preocupados para ela.
            - Você vai ter que perguntar pro seu namorado. Espero que ele tenha tomado a escolha certa, por que senão... Mas duvido muito que tenha. Ele é incapaz disso.
            - Do que você tá falando?
            Gabriela sorriu.
            - Eu vou fazer o possível para concertar tudo. Mas não prometo nada sobre o que está além do meu alcance.
            Ela sussurrou:
            - Acima de tudo, desejo tudo de bom que eu tirei de vocês dois. E desejo estar imensamente errada.
            Dizendo isso, ela saiu porta afora, deixando Nathalia parada o meio do banheiro, entre lágrimas e duvidas, sentindo uma verdadeira guerra em seu coração.

***

            Yago servia-se do segundo copo de uísque barato de sua mãe. O álcool descia queimando sua garganta, mas muito pouco. Teria de virar duas daquelas garrafas antes de sentir o mínimo de tontura.
             O sofá já estava manchado de suas lágrimas. De seus arrependimentos. Ir à escola fora uma idéia ruim. Beijar Gabriela fora uma idéia péssima. Terminar com Nathalia fora um erro mortal.
            Enquanto servia-se do terceiro copo, a porta se abriu.
            - Yago - disse sua mãe, e olhou para a garrafa aberta - Por que não estou surpresa?
            - Mãe! - ele disse, levantando-se do sofá, encabulado. Logo esqueceu de sua vergonha, e um turbilhão de perguntas passou por sua cabeça. Começou com a mais básica:
            - Onde diabos vocês estavam e por que sumiram por duas semanas sem atender o maldito telefone?
            Sua mãe suspirou, enquanto Lucas entrou na casa.
            - Oi, mano - ele disse. Yago não respondeu. Estava apenas encarando quem vinha atrás.
            - Mas o que... - ele gaguejou.
            - Oi - a mulher disse - Há quanto tempo.
            Aquela era sua tia Ágatha. A irmã de sua mãe, que ela mesma odiava. Na sua casa. A casa da qual fora proibida de pisar anos antes.
            A tia de que sentia tanta saudade.
            - Tia - ele exclamou, e partiu para um abraço.
            - Ah, meu querido... ui, não me mata, já estou velha mas nem tanto!
            Era verdade. Ele tinha cinquenta e nove anos, por seus cálculos, e no entanto tinha aparência de quarenta.
            Yago sorriu, mas sua tia não. Ele olhou ao redor, e ninguém estava sorrindo com a piada da senhora. Nem sua mãe usava a expressão de carranca de sempre que estava na presença da irmã.
            - O que foi? - perguntou ele.
            Ágatha se afastou um pouco, sem largar-se do abraço. Encarou-o nos olhos, com uma expressão séria que era rara em seu rosto.
            - Querido... nós precisamos conversar.
Reações: