Oi galera ;) Só vim avisar que o capítulo 43 só poderá ser postado daqui a três semanas, no dia 29/04, por conta que não terei tempo pra escrever, com provas bimestrais e tal. Enfim, não me odeiem. Curtam o capítulo :)




42

Confissões Profanas

Unholy Confessions - Avenged Sevenfold

            Yago entrou na própria casa, suado. Enfim, podia respirar. Mas por dentro, sentia-se morto. Destruído. Suas mãos ainda tremiam e, agora que finalmente parara, podia sentir a dor em seus pés. Lentamente, logo depois que fechou a porta, recostou-se nela, e deslizou até o chão, exatamente como havia feito mais cedo. Dessa vez, porém, a paz duraria. Não haveria ninguém entrando por sua janela. Ninguém tentando matar-lhe. Não tão cedo.
            Só então percebeu que havia enterrado o rosto nas mãos.
            O coração ainda se remexia no peito.
            Subiu as escadas, com dificuldade, agora que podia sentir a dor. Sentiu também um frio na barriga ao perceber que ainda esguichava sangue de seus pés sujos; sabe-se lá quantas bactérias haviam entrado no ferimento.
            Quando chegou no banheiro, fechou a porta, trancando-a. Não havia sentido naquilo, mas se sentia melhor trancado. Pôs o pé direito para dentro da banheira. Com a mão direita, puxou a mangueira de metal que ficava do lado da privada, e com a esquerda, apoiou-se na parede, buscando equilíbrio, ainda tonto. Observou, como naquele filme antigo, o líquido negro desprender-se de seu pé, formando um pequeno redemoinho em direção ao ralo. Quase não havia mais sangue. Apenas sujeira.
            Quando tirou o pé, pronto para colocar o outro, e apoiou-o no tapete do banheiro, percebeu na grande mancha negra que formou-se. Não apenas por estar molhado, mas pela sujeira. Ele estava todo sujo. Completamente sujo, e não sabia como se limpar.
            Cambaleando, com os pés molhados, sentou-se ao lado da porta, e chorou. Eram quatro da manhã. Adormeceu ali mesmo. Dormiria por vinte horas, perdendo o dia das aulas mais difíceis, mas pouco se importava. Precisava apenas dormir, antes de limpar a casa toda, descontaminando-a das trevas que a cercavam.

***

SETEMBRO

            Alex entrou na escola com a cabeça levantada e um sorriso no rosto. Fazia apenas uma semana desde a descoberta sobre quem ela realmente era. E, em todos os dias, era assim que ela entrava. Sorrindo. Era ela, afinal! Sem precisar se esconder, sendo finalmente feliz. Mais feliz, talvez. Verdadeiramente feliz.
            E já deixara claro que ninguém precisava se preocupar: nenhuma garota dali fazia seu tipo.
            As pessoas a cumprimentavam, como se nada tivesse acontecido. Havia gente que curtia esse negócio de ter uma amiga lésbica. Diversidade, era o que diziam.
            Naquele dia, pintara o cabelo de rosa e verde, deixando uma pequena parte de loiro natural; uma mistura de tudo o que usara desde que chegara na escola.
            Um professor de inglês passou por ela, e ela simplesmente abaixou a cabeça, como sempre fazia. Não pelo homossexualismo, mas justamente por seu cabelo. Ter metade de um arco-íris e um pouco mais não era lá bem visto entre todos.
            Mas era tão bom voltar a preocupar-se com o cabelo!
            A primeira coisa que fez era o que fazia todas as manhãs: deixou sua mochila na sala, atrás das cadeiras ainda vazias de Nathalia e Yago - Estranho, ela pensou, já são quase sete hora -, e começou a caminhar para os banheiros, seu ritual diário. Se trancar numa cabine e inalar o máximo de ar possível, além de tomar pelo menos dois comprimidos de ferro, por conta de sua anemia. Não podia ficar tonta no meio da aula; era bem capaz que, mesmo que saísse da sala ao mínimo sintoma e arranjasse água o mais rápido possível, não conseguisse se tratar a tempo. Poderia desmaiar no meio do corredor, e essa não era uma alternativa nada agradável.
            Quando cruzou novamente o corredor de salas, chegando ao jardim de entrada da escola, finalmente alcançando os banheiros, teve de parar. Não de uma tontura matinal, mas de uma voz, irritante, saindo do meio da pequena multidão de adolescentes.
            - Seu banheiro é ali, querido - disse um garoto cujo nome Alex não sabia, afinando a voz no último instante.
            Fez-se silêncio.
            Ela não precisou olhar para ver que ele apontava para o banheiro masculino.
            Invés de espernear, partir para cima dele, arrancar cada dente e talvez um olho, o que realmente queria fazer, do fundo de seu coração, ela se controlou. Sufocou aquela vozinha assassina em seu peito, e ela logo desapareceu. Invés de todos os xingamentos que queria brandir e de todos os dedos que queria levantar, ela simplesmente sorriu, e virou-se.
            - Então talvez queira me acompanhar nesse daqui, por que seu pênis não disfarça o buraco que você não deveria estar usando.
            Ela também não precisou olhar muito mais para ver que o sorriso do garoto se desfez no exato momento em que concluiu sua frase. Os barulhentos “oe” e “toma” também ajudaram.
            O sorriso ainda estava em seu rosto quando entrou no banheiro.
            Ela olhou-se no espelho, enquanto os risos se seguiam do lado de fora. Puxou sua pálpebra, fitando seu próprio globo ocular. Normal. Verificou sua pele, como sempre fazia, e passou a mão no cabelo. Não caia. Tudo normal. Suas mãos não tremiam, por fim.
            Olhou para os lados, e abriu uma cabine. Trancou-se nela, logo ouvindo várias garotas entrando no banheiro, para olharem-se no espelho pela última vez antes do sinal tocar. Alex sentou na privada, fazendo-a como uma espécie de cadeira, e apoiou a cabeça na porta. Não precisava se preocupar se estava suja ou não. O banheiro feminino era lavado de duas em duas horas, ao contrário do masculino. Os caras teriam sorte se seu banheiro fosse lavado uma vez por mês.
            Ela esperou o primeiro sinal de tontura chegar, bem como uma leve dor de cabeça. Quando finalmente sentiu os olhos revirarem, as cores saírem de foco e o mundo girar, puxou dois comprimidos. Tomou-os a seco, um de cada vez. Com algum esforço e vários minutos gastos, desceram por sua garganta. Tinha medo de levantar-se para pegar água e acabar caindo, mas não tinha de se engasgar.
            Respirou fundo, esperando a maldita tontura passar. Estava demorando. Gemeu baixinho. Era agoniante. Já sentia seu corpo tremer. Era como uma droga: ela suava, e não tinha controle sobre si própria. Era pior do que dor. Era uma assombração.
            Quando a tontura por fim diminuiu, o sinal já havia tocado - não que ela tivesse percebido. Notou apenas por olhar ao relógio. Eram 7h12. Havia-se passado muito tempo. Era aula de física, então tinha esperança de entrar. Em parte, por que o professor sabia de sua anemia. Mas contava mais com a sorte que teria se ele estivesse de costas para a turma, escrevendo no quadro. Só teria de ser silenciosa, só isso.
            Saiu do banheiro, a passos bêbados, logo descartando a ideia.

***

            O sinal do recreio logo tocou, e ela se preparou para recomeçar seu ritual; Nathalia e Yago haviam faltado. Suzana e Felipe a ignoravam. Estavam muito entretidos entre si. Esse era o mal de não haver limites em namoros: simplesmente não havia limites. Muito menos brechas para os amigos entrarem.
            Levantou-se então, sozinha, carregando o pequeno pote com comprimidos nas mãos. Afinal, era grande demais para levá-lo nos bolsos. Foi a última a sair da sala, tendo de caminhar lentamente para não desencadear uma tontura muito grande antes da hora.
            Só para variar, o corredor das salas ainda estava cheio. Bem típico.
            Com passos pequenos, ela tentou se espremer entre as dezenas de corpos. Não conseguiu. Em parte, por que passos pequenos eram menores ainda com a sua altura. Deixou então a multidão guia-la, e perdeu bons cinco minutos ali. Não que fizesse algo muito melhor do que comer rápido e tomar remédios no intervalo.
            Tão logo entrou no banheiro e ouviu a porta se fechar às suas portas. Não tinha culpa em pensar que era outra menina, afinal, era um banheiro feminino.
            Só se assustou quando o rosto de um garoto apareceu no espelho.
            Gritou baixinho, de um jeito que apenas ela sabia fazer, derrubando seu pote de comprimidos de ferro, que por sorte estava fechado.
            O garoto permaneceu calado.
            Era o garoto de mais cedo.
            - O que você está fazendo aqui? - ela perguntou - Eu não te chamei para entrar sério.
            - Você se acha muito engraçada, não é? - ele perguntou, a voz debochada de antes não se refletindo na grosseria de agora.
            - Olha - ela continuou, ainda olhando apenas para o reflexo no espelho - Eu vou ter que chamar o inspetor se você não sair agora. Sério, cara. É um banheiro feminino.
            Ele permaneceu calado, como se a desafiasse a fazer aquilo.
            - Como quiser - Alex suspirou.
            Abaixou-se para pegar seus comprimidos, pensando em sair logo depois, e buscar um inspetor o mais rápido possível, antes da primeira tontura, mas ela sentiu duas mãos fortes agarrando seus pequenos pulsos antes de sequer chegar perto do chão. O garoto virou-a, puxando-a para si e ao mesmo tempo pressionando-a contra a pia, fazendo seus rosto ficarem a míseros centímetros de distancia.
            - Qual o seu problema?! - disse Alex, com o coração ainda acelerado.
            - Você acha que pode falar o que bem quiser de mim e sair assim?
            - Olha, amigo, não quero jogar na cara nem nada não, mas foi você que começou.
            Ele riu. Alex podia sentir sua respiração quente e ardente em sua boca.
             - Você não vê? Você não se encaixa aqui. Essa escola sufoca quem não se encaixa.
            - Ainda não quero jogar na cara, mas acho que você está invertendo nossas situações.
            Ele se aproximou ainda mais. Sua expressão era ilegível, calma e serena, porém inspirando algo assassino.
            - Não se importe com essa calma de agora... você ainda não viu o que eles podem fazer contigo.
            - Você fala como se você mesmo tivesse sofrido.
            - Eu, não; mas eu vi pessoa atrás de pessoa sofrer nessa escola, e eu sou bem parte dos motivos para isso.
            Ela encarou-o, perplexa.
            - Foi antes de você chegar aqui, querida, mas também foi depois.
            - Você...
            - Sh - ele disse, rapidamente.
            Alex não conseguia falar nada.
            - O que eu fiz para você? - ela perguntou, por fim.
            - Nada - ele disse - Mas eu sei quando as pessoas vão me decepcionar.
            - Então você chutou - A esse ponto, Alex estava à beira da lágrimas.
            Ele riu.
            - Você não estava de bem com esse assunto? Não aceitava quem você era?
            Ele chegou bem perto de sua orelha, e sussurrou:
            - Pois parece que não.
            O momento de perplexidade passou, e Alex por fim foi capaz de afastá-lo ao menos um pouco.
            - Quem é você?
            - Alguém que quer ser seu amigo.
            - Vamos reformular: quem é você?
            Ele riu novamente.
            - Pode negar quantas vezes quiser, mas foi para isso que eu fiz tudo. Para que você fosse feliz.
            - Pois você tem um jeito estranho de fazer as pessoas felizes.
            Ele sorriu ainda mais, novamente a centímetros de Alex.
            - A parte da felicidade ainda não chegou.
            E, sem Alex poder fazer nada, por seus músculos moles e sua total falta de leitura de sinais, o garoto beijou-a.
            Ela não conseguiu se defender até que estava feito.
            Apesar dela manter seus lábios duros, ele beijava apaixonadamente, como se dominasse aquela arte.
            Só depois de vários segundos, diversas piscadas, muitos gemidos e tantas quantas tentativas, ele conseguiu se soltar do abraço.
            - O que foi isso? - ela quase gritou.
            - Um beijo.
            - Por que foi um beijo?
            - Por que estamos perdidamente apaixonados e passaremos nossas vidas com longas caminhadas na praia.
            Sentindo o sarcasmo na voz dele, Alex quase levantou sua mão para estapeá-lo.
            - Eu sou lésbica - ela disse, com se fosse a centésima vez que declarasse sua sexualidade.
            - Não, não é. Se fosse, não teria brigado comigo. Ou pelo menos se aceitasse. Mas, a chave é: se fosse, não teria retribuído o beijo.
            - Eu não retribui o beijo!
            - Se a sua boca se move em sincronia com a minha, é retribuir.
            Ela se sentiu corar. Os milhares de argumentos passavam por sua cabeça, mas nenhum parecia tão bom quanto uma boa porrada.
            - Ora, vamos - ele disse - Você sabe que você é normal. Sabe que vai ter filhos e se casar com um homem. E sou eu quem vai te iniciar nessa vida.
            - Eu não preciso de ninguém pra me dizer o que eu sinto.
            - Querida, querida, pode resistir o quanto quiser, mas quando você for uma velha, sozinha e decrépita, sem homem nem mulher, vai ver o quanto de verdade eu estou falando.
            Ela ficou paralisada.
            - Afinal, você não espera que alguma mulher algum dia te ame, não é?
            - E a propósito - ele continuou - Meu nome é André. Seu novo namorado.
            Ela por fim acertou um tapa no rosto dele, fazendo-o recuar três passos e perder o equilibrio. Pegou seu pote de comprimidos e pensou em sair direto pela porta, mas ela tinha coisas a dizer. E o maldito André iria ouvir.
            - Olha aqui - ela disse - Não importa o que você me falar, eu sei quem eu sou. Não importa essa sua homofobia estúpida, eu não vou deixar você me fazer mudar de ideia. Ou é homofobia ou é falta de mulher mesmo. Por que eu tenho alguém que me ama.
            - E esse sou eu. Por que a sua mamãezinha não conta.
            Ela acertou-lhe um chute nas costelas, tão fraco que o fez rir; mas pelo menos ele calou a boca.
            - Eu vou ser feliz, não me importa o que você diga.
            - Com quem? Quem é o sortudo... desculpe, sortuda que te ama?
            E ela percebeu o quão falho era seu argumento.
            Não podia revelar; Não podia botar ela em perigo. Não podia botar ela em risco de ser presa. Não podia sacrificar tudo o que tinha por apenas uma briga boba.
            E aquele pensamento passou por sua cabeça, rápido, porém avassalador. Aquela pequena frase que há muito queria ter dito.
            - Foi o que eu pensei - disse André, arrancando-a de seus pensamentos.
            Alex tomou-se pela raiva novamente.
            - Foda-se você - ela disse.
            - Ah, qual é, pensa no quão fofo isso seria: casal A&A, André e Alexandra.
            Ela continuou caminhando até a porta, abrindo-a, deixando André ainda deitado no chão. Seus passos foram pesados, muito mais pesados do que qualquer garota de um metro e sessenta centímetros poderia fazer.
            - Última chance - André disse, com a voz sombria novamente.
            Alex simplesmente virou-se, fuzilando-o com o olhar e levantando o dedo médio.
            Saiu, batendo a porta.
            Mal deu cinco passos, já se afastando do banheiro, e ouviu a voz raivosa de André.
            - Então tudo bem, morra sozinha! Fica aí, sem ninguém! Seja lésbica!
            Ela se virou.
            - Vou ser lésbica mesmo, por que é assim que a sua mãe gosta! - ela gritou, o mais masculinamente possível.
            A esse ponto, todos os encaravam. Eles haviam gritado, e agora o silêncio perdurava.
            Alex correu até a sala. Destrancada. Sentou-se em sua cadeira, e chorou, avassalada com tudo o que corria em sua cabeça. Todos os terríveis pensamentos, que não deviam ser terríveis. Tudo tomara uma proporção grande demais. Aquilo não estava certo. Seu coração pesava, enquanto ficava remoendo aquela frase, sozinha, sem ninguém para recebê-la.
            Tomou seus comprimidos, e continuou a chorar.

***

            Ela bateu três vezes na porta do apartamento de Yvonne. Esperou o barulho ressoar pelo corredor inteiro, mas o engarrafamento de carros na rua abafava o ruído. O corredor era tão escuro quanto se lembrava; as mesmas caixas cheias de cigarros e a mesma lâmpada incandescente falhando, aquela que devia não ter sido trocada há mais de uma década.
            A porta se abriu poucos segundos depois, mas Alex deixara de medir o tempo. Contava apenas quantas vezes a lâmpada falhava. Seis, no final das contas.
            - Oh - Yvonne exclamou, logo esboçando um genuíno sorriso - Entre, Alecs.
            Ela sorriu, e avançou três passos para dentro de casa. Deixou Yvonne cumprir sua parte - olhar para os lados e certificar-se de que não houvera nenhuma testemunha -, antes de ouvir a porta fechando. Só então virou-se, como sempre fazia, e deixou-a puxar seu corpo e tascar-lhe um beijo.
            Um longo, demorado beijo.
            Do tipo que poucas vezes havia experimentado antes de conhecê-la.
            Quando separaram-se, mal podia respirar. Sabia que Yvonne sentia o mesmo, por mais que não deixasse transparecer.
            - Oi - ela disse enfim.
            Yvonne riu.
            - Oi - ela repetiu.
            Yvonne massageou os braços de Alex, e então a soltou. Alex sabia o que ela esperava; esperava que sentasse-se e esperasse até os fins de suas tarefas, quando enfim teriam tempo livre. Tempo que sempre aproveitavam, não deixando um segundo sequer passar em branco.
            Yvonne estava calada, como sempre ficava.
            A casa estava impecável, em contraste com o horrendo corredor.
            Estava tudo perfeito, como sempre.
            Tudo, menos tudo.
            - E então - Yvonne disse, para quebrar o silêncio. Estava de costas agora, não podendo olhar nos olhos de Alex - Como foi seu dia?
            - Bom - Alex respondeu, rápido demais.
            - Bom? - Yvonne repetiu - Receio que eu precise de mais detalhes.
            - Só bom.
            - Então está bom.
            Alex deliciou-se com a voz da francesa, agora com um mínimo sotaque, o que a fazia passar-se fácil por brasileira.
            - E o seu? - ela perguntou.
            - Bom também - Yvonne respondeu - Contratos e mais contratos, a velha e maldita vassoura... o de sempre.
            Alex riu, tão genuinamente que podia passar-se por verdadeiro. E talvez fosse. Mas tão logo quanto sentiu alivio, voltou a concentrar-se no que importava.
            O tinir de pratos molhados contra o escorredor de metal inundou o apartamento silencioso.
            - Então - Yvonne disse, tirando as luvas que usava para lavar louça; sua pele extremamente branca seria agredida por qualquer detergente, deixando marcas feias. Não podia sequer arriscar - A que lhe devo a visita? - perguntou, mesmo sabendo da resposta.
            Ou pelo menos achando que sabia.
            - Só queria falar com você - respondeu Alex, em voz baixa.
            - “Falar”? Ok. - ela respondeu, com um sorriso no rosto, e voltou-se para a jovem.
            O sorriso logo se desfez ao notar a expressão quebradiça de Alex.
            - Alex? - ela perguntou, desvencilhando-se da pia de granito - Querida, o que foi?
            Um sorriso melancólico se formou nos lábios de Alex, ela desviou o olhar para a janela, de onde entrava um belo raio de sol, deixando o apartamento inteiro de um branco brilhante e cegante. As lágrimas em seus olhos filtravam a luz, mas não era nenhuma boa noticia.
            - Meu dia não foi bom - ela anunciou, com a voz embargada, meneando a cabeça negativamente, com que para enfatizar.
            - Querida, o que aconteceu?
            Alex passou a fitar os próprios pés.
            - Teve um g-garoto - gaguejou - Ele... foi cruel comigo.
            - Cruel?
            - Comigo - ela enfatizou, e percebeu pela expressão de Yvonne que ela tinha entendido.
            Também percebeu que sua expressão tornou-se ainda mais preocupada, com medo de que ela entrasse numa profunda depressão por rejeição. Lembrava-se também de que essas eram as palavras dela, e como isso a fez rir da primeira vez que ouvira.
            - Ah, querida, achei que tivéssemos superado isso...
            - E superamos - Alex respondeu, rápida e prontamente - Quer dizer, eu superei. Isso não me incomoda mais, não devia me incomodar mais, já pararam de falar assim comigo...
            Ela fungou, e o coração pareceu pesar oitenta quilos.
            - Com isso - ela disse, com a voz fraca - eu consigo lidar. Eu consigo.
            Passou as costas da mão direita rapidamente num dos olhos, limpando uma das lágrimas que ameaçava cair.
            - O que eu não consigo lidar é com o que ele disse em seguida - Ela fez uma pausa para respirar, mas que soou excessivamente dramática.
            - E o que ele disse? - perguntou Yvonne, a ponto de levar seu dedo ao queixo de Alex para levantá-lo, fazendo-a encarar nos seus olhos. Porém, Alex espantou o dedo levemente, encarando seus olhos por vontade própria.
            - Ele disse - começou -, que ninguém jamais vai me amar.
            - Isso não é verdade.
            - Só por que eu sou lésbica! - Alex ignorou-a - Ele disse que jamais alguém poderia me amar, e que eu estava condenada a...
            A esse ponto, suas palavras saiam forçadas; sua voz sumia a cada segundo que passava, sucumbindo ao choro.
            - Querida...
            - Não - Alex espantou o abraço que sabia que Yvonne tentaria lhe dar.
            - E isso me fez pensar - continuou ela -, em muitas coisas. No quanto de verdade havia ali. Se tudo aquilo era mesmo verdade.
            - Claro que não, querida, é claro que alguém vai te amar.
            Alex riu, triste. Seu sorriso perdurou no rosto por vários segundos, e então ela limpou os olhos novamente. Enterrou o rosto entre as mãos, espalhando lágrimas e deixando seus olhos ainda mais irritados.
            - Exatamente - ela disse - “Vai”. Futuro. Sempre futuro - ela tossiu uma única vez, engasgando - E eu, eu só consigo pensar quanto tempo vai demorar.
            Yvonne a encarava, com os olhos bem abertos e a boca escancarada.
            - Por que - Alex continuou, com as lágrimas descendo freneticamente dos olhos - Eu tenho que admitir... Que eu te amo. Eu te amo! Estou completamente apaixonada por você. E eu não quero saber de lei, de boatos, do que vão falar da gente... eu só quero você.
            Silêncio.
            Os lábios de Alex se retorciam de dor.
            - E eu tenho que lidar com o fato de que talvez você não me ame. É o mais lógico, você é quase uma década mais velha. Eu sou menor de idade. Uma diversão?
            “Mas ainda tenho aquela vozinha idiota - Alex parou. Respirou fundo, deixando um gemido grutual escapar do fundo da garganta. Reergueu a cabeça, fazendo seu cabelo pular para trás - Aquela vozinha idiota que diz: “Mas ela te ama”. “Ela pode te amar”. “Por que ela não te amaria?”.
            “E ela sempre me enche de esperança. Sempre me faz pensar duas vezes, e aí parar de pensar, e trancar o pensamento todo num lugar longe de mim. Por que essa não sou eu. Você me faz mal, Yvonne. Amar você me faz mal, por que eu não tenho certeza nenhuma.”
            Ela fungou, com os olhos vermelhos, fitando seus pés novamente e depois passando a encarar os olhos da francesa.
            - Só diga que também me ama - Alex disse - Só três palavrinhas. Só dois segundos de seu tempo. Só não minta pra mim. Só diga a verdade, e eu prometo nunca mais tocar nesse assunto. Por favor, diga que me ama também.
            Os olhos de Alex alimentavam a esperança em seu coração.
            Yvonne abriu a boca, mas palavra nenhuma saiu, deixando-a simplesmente escancarada.
            O silêncio reinou, invadindo a sala como a escuridão invadia o coração de Alex.
            - Eu... - Yvonne disse, mas não passou disso.
            Seus olhos tristes denunciava a batalha em seu peito.
            Alex sorriu de tristeza, e abaixou os olhos. As lágrimas correram ainda mais depressa, e quando voltou a olhar para Yvonne, ainda corriam como o sangue que brotava de seu coração, aberto numa facada profunda e mortal.
            - Tá bom - Alex disse, levantando-se.
            - Alex...
            - Não, tudo bem - ela disse, a voz mal saindo - Você não consegue. Eu queria uma resposta e agora tenho uma. Tudo bem. É minha culpa.
            - Alex, eu te amo.
            Alex parou, e virou-se para a francesa.
            - É claro que eu te amo. Eu te amo mais que tudo.
            As duas ficaram ali paradas, olhando uma para a outra.
            - Mas...? - Alex perguntou, sentindo que tal palavra viria. Por isso não correu para um abraço. Por isso não a beijara, ou fizera algo mais. Por que sabia que logo depois, poderia se arrepender.
            Agora, uma lágrima brotava nos olhos de Yvonne.
            - Eu vou embora amanhã.
            As pernas de Alex, já fracas, quase cederam.
            - O que?
            - Eu vou pro Rio amanhã.
            - P-por que?
            Yvonne suspirou, com as lágrimas descendo ligeiras.
            - Por que eu já peguei o contrato com o Yago - ela disse - A mãe dele já assinou, e eu preciso voltar pra preparar o estúdio, alugar tudo para o mês que vem, quando ele vai gravar.
            - Cancele a viagem! - Alex quase gritou.
            Yvonne suspirou, com o rosto estampando a indecisão.
            - Eu... não posso.
            Alex se abraçou, pondo as mãos nos cotovelos opostos, sentindo o peito cada vez mais vazio.
            - Você acabou de dizer que me amava! - ela choramingou, tremendo de dor.
            - Mas eu te amo!
            - Se me amasse, ficava aqui - ela pronunciou as palavras, com tristeza, entre soluços - Se me amasse, me levava junto. Se me amasse, jamais me abandonaria!
            - Querida, você pode me visitar!
            - Não! - Alex gritou, levando a mão à boca. Sabia que ela tinha razão. Sabia que não havia motivo para tanto drama.
            Mas ela a estava abandonando.
            Se realmente a amasse com tanta intensidade quanto Alex amava, jamais se afastaria um centímetro sequer.
            - Sinto muito... - Yvonne disse, se aproximando. Seus braços já quase envolviam por completo os ombros de Alex, num abraço.
            - Não - Alex disse, e empurrou-a com toda sua força o que simplesmente a fez interromper o ato e recuar dois pequenos passos - Me solta!
            Ela caminhou até a porta.
            - Alex!
            - Apenas... não.
            - Eu sinto...
            A porta bateu, interrompendo sua frase no meio.
            O corpo todo de Alex tremia. Seu peito doía. A tontura da anemia era o ultimo de seus problemas. Ela fez uma concha com as mãos, envolvendo a boca assim. Seu choro foi abafado, porém não silenciado.
            Ela levantou, sentindo um novo imenso vazio, e caminhou até o fim do corredor.

***

            Ela saiu do banho, com as lágrimas secas e os olhos vermelhos.
            Caminhou, automaticamente, até seu armário. Tudo doía. Seu coração, seus músculos... Nada passava despercebido. Seu rosto adquiriu uma expressão vazia, impossível de ler. Seus olhos corriam pelo quarto.
            E ela não sentia nada.
            Apenas dor.
            O que a movia era apenas seu cérebro, pois seu coração acabara de parar.
            Ela abriu as portas de madeira, fazendo barulho na casa vazia. Seus pais estariam de volta de São Paulo apenas no fim de semana, dali a dois dias. Estava sozinha em casa, e era bom. Estava sozinha, não tinha ninguém a quem justificar sua dor. Mas era ruim, pois não havia ninguém para fazer-lhe sentir-se melhor.
            Ela olhou para as roupas penduradas. Olhou em ordem, como sempre, da direita para a esquerda.
            O primeiro vestido que viu foi justamente o da primeira noite que passaram juntas, logo depois do primeiro dia que haviam passado juntas; o dia em que toda a escola descobriu seu segredo, um mês antes. Um lindo vestido, que funcionara perfeitamente naquela noite. Agora, parecia simplesmente contaminado por ela. Indigno. Sujo.
            Ela o tirou do cabide e o jogou no chão.
            Havia usado o segundo vestido com ela também. Jogou no chão, do mesmo jeito.
            E fez o mesmo com o terceiro.
            E o quarto.
            E o quinto vestido.
            Todos com uma expressão assustadoramente calma, os cabelos molhados e novamente louros, puramente louros, mal saindo do lugar.
            Logo, todos seus vestidos estavam no chão.
            Puxou a primeira gaveta, onde guardava suas roupas intimas; revirou-a toda no chão, deixando a caixa de madeira cair em cima e o barulho do choque contra o chão quase ser abafado pelas roupas.
            A segunda gaveta, onde guardava as camisas, também foi ao chão.
            Seus shorts logo se juntaram à bagunça.
            A calça jeans também.
            Seus sapatos de salto, tênis e chinelos foram jogados para trás, batendo com força contra o chão, fazendo barulho. Os sapatos que ainda estavam nas caixas foram simplesmente arremessados, junto com o pedaço de papelão.
            Seu armário todo estava no chão.
            Olhou para a cama, e logo a desfez também, embrulhando todos os lençóis numa grande bola de tecidos.
            Iria lavar tudo aquilo. Iria descontaminar tudo.
            Caminhou primeiro com os lençóis, que ocupavam todo o espaço em seus pequenos braços. Desceu as escadas trotando, e rapidamente chegou ao andar de baixo. Seguiu diretamente para a lavanderia, ainda envolta num roupão preto.
            Abriu a máquina de lavar, e estava cheia de roupas.
            Deixou os lençóis caírem, e arrancou a primeira peça de roupa - uma calça jeans de sua mãe -, ainda encharcada e cheia de sabão, e deixou-a cair também.
            Foi então que viu a foto.
            Logo em cima de sua outra calça jeans, uma clara.
            Devia ter escapado de seu bolso.
            Uma foto dela e de Yvonne, juntas, num parque de diversões de Cabo Frio. Passando-se por irmãs, para não levantar suspeitas. Rindo de quem enganavam. No alto de uma roda giganta, garantindo uma bela vista dos diversos prédio e hotéis, e da bela praia logo abaixo.
            Demorou para perceber que estava chorando.
            Se encolheu toda, deixando suas costas se arrastarem contra a parede. Segurava a foto com tanta força que quase a rasgava. Passou a mão entre as mechas de cabelo, e depois levou uma à boca. Soluçava. Estava destruída por dentro. Quebrada. Não havia como escapar dos diversos pensamentos, das tantas crueldades, do rosto do maldito menino de mais cedo. Não havia saída alguma. Sangrava por dentro, por mais que sentisse seu peito mais frio do que quente. E apenas uma frase martelava sua cabeça.
            Será que alguém realmente a amaria, um dia?
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