Oi galera ^^ Só tô escrevendo aqui ~de novo~ e atrasando vocês para ler o capítulo por que queria avisar que, sempre que der, eu e o Marcos vamos postar contos que escrevemos no meio da aula ou quando estamos entediados. Sempre vamos avisar, mas mesmo assim. Enfim, leiam aí e comentem ;)

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Caçador

Hunter - 30 Seconds to Mars

            Eram duas e meia da manhã quando Yago chegou em casa. Jogou as chaves no sofá, sem fazer barulho, para tentar não acordar sua mãe e Lucas. Sentou-se então no sofá, bem ao lado da chave, e pôs a cabeça entre as mãos. Não queria se levantar. Não queria sair dali até tudo aquilo acabar. Não queria mais nada, nunca.
            Obrigou suas pernas a se moverem, tirando-o do sofá de couro, com um único intuito. Parou em frente ao armário de bebidas de sua mãe, e encarou as mais de trinta garrafas, que serviam apenas de enfeite, estando todas cheias. Com cuidado, puxou dois finos pedaços de metal de trás do jarro de flores, bem ao lado, numa mesa, e fez o que sempre fazia quando não conseguia dormir: abriu o armário com a maestria de um ladrão. A porta rangia, mas nas suas mãos, moveu-se silenciosamente. Já sabia todos os truques, de anos de experiência.
            Puxou primeiro o vinho especial de sua mãe, que talvez nem fosse mais produzido. Italiano, importado. O preço, cheio de zeros, ainda estava desenhado em cima das informações nutricionais, no papel já amarelado, com aparência molhada. Com um suspiro, devolveu a garrafa cheia, com a tampa emperrada à estante. Aquela era a garrafa que seus pais ganharam no dia de seu casamento. Eles guardavam aquela especialmente para o aniversário de vinte e cinco anos de casório, comemorando bodas de prata. Lembrava que seus pais costumavam dizer que as bodas só começavam a contar mesmo a partir das de prata. Faltariam apenas quatro anos, se seu pai estivesse vivo. Imaginava o que fariam com ela.
            Não fora a primeira vez que pegara aquela garrafa nas mãos. Nem a primeira vez em que imaginara se seria tão ruim deixá-la cair e fingir que fora um acidente. E ele sabia que não era o único que pensava assim.
            Limpou a poeira das mãos, batendo-as de leve no jeans, sem fazer barulho. Puxou então uma garrafa de vodca, pela metade, também da época em que seus pais eram casados. Porém, aquela garrafa não carregava nas costas uma história. Não atraía ódio, nem lembranças. E ninguém sentiria falta se ela sumisse.
            Também não sabia se fazia bem beber vodca envelhecida. Não sabia ao certo quais bebidas melhoravam com o tempo e quais estragavam. E, no momento, não ligava para isso.
            Imaginou se deveria beber direto do gargalo. E, novamente vendo as mãos sujas de poeira, descartou a ideia, seguindo para a cozinha.
            Simplesmente ligou a luz, olhando fixamente para a pia. Pegou o copo. Sairia tão rápido quanto chegara. Tentaria não adormecer no sofá, para não levar uma bronca logo pela manhã. Se não tivesse hálito de álcool, também poderia fingir que a eminente ressaca não passava de um mal estar.
            Mas quando virou-se para o fundo da cozinha, bem onde dava para o pequeno corredor que levaria ao quintal detrás, deixou ambos copo e garrafa caírem.
            - Vodca não faz seu estilo - disse Gustavo.
            O vidro partiu-se em mil pedaços, que se espalharam pela cozinha.O líquido quente alcançou seus pés descalços e frio, fazendo-os queimar de leve. O barulho? Foi estrondoso. Correu pela casa inteira, pelo quarteirão inteiro. Não haveria sono que aguentasse tamanho estrondo.
            - O que faz aqui? - perguntou Yago, recuperado, controlando a raiva que crescia em seu peito.
            Sentia seu rosto corar, fazendo qualquer esforço para aparentar calma inútil.
            - Eu soube do seu término com a Nathalia - ele respondeu, fria e calmamente, sem dirigir os olhos ao dono da casa. Apenas olhava um porta retrato do pai de Yago, anos antes.
            Teve de se controlar para não gritar e se atirar em cima do invasor.
            - Duas horas atrás - Yago rosnou, mais controlado do que imaginara.
            - Na verdade, quatro - Gustavo disse, tirando os olhos do retrato pela primeira vez, olhando bem no fundo dos olhos de Yago - Incrivel como o tempo passa quando você procura seu ex melhor amigo num instinto assassino, não é?
            - Mas - Gustavo pousou o retrato na mesa novamente, silenciosamente, exatamente como Yago fazia minutos antes - Vim apenas prestar minhas condolências. É o que amigos fazem.
            - Obrigado, camarada - Yago disse, sarcasticamente, com os dentes cerrados - Mas já pode ir embora.
            Gustavo sorriu.
            - Você nunca gostou de ter convidados em casa, eu me lembro bem. Nem mesmo naquela em Cabo Frio, que ficava cem por cento vazia.
            Ele passou diretamente por Yago, com os cacos de vidro esmagando-se lentamente sob seus pés.
            - Mas, não foi bem por isso que vim.
            - Imaginava.
            - Silêncio - ele brandiu, perdendo a pose pela primeira vez. - Vim-lhe prestar meus pêsames também.
            Yago mordeu o lábio. Já sentia calor, de tanta raiva.
            - Por meu pai? Tarde demais.
            Gustavo riu.
            - Não, meu querido. Por você.
            Yago sentiu a cor fugir de seu rosto.
            Quando se virou, rápido demais, um movimento estúpido, encarou bem nos olhos de Gustavo. E então desceu o olhar até o cano da arma negra, apontado para seu peito, com a trava abaixada sob os dedos de Gustavo.
            Branco como nunca esteve, Yago sentiu medo por si mesmo pela primeira vez em anos.
            - Sabe como eu chamo essa arma? - perguntou Gustavo, com um sorriso no rosto - Pervinca. A flor azul que só cresce na Europa.
            Yago engoliu em seco. Seu corpo escutava as palavras, mas sua alma não conseguia entendê-las completamente.
            - E sabe por que? Por que, para os italianos, essa é a flor da morte. É nela que os espíritos dos mortos vivem sua Outra Vida. Os franceses a chamam de flor da feitiçaria. É ainda mais irônico para esse momento, por que matar não está nas mãos dos homens. Mas eu tenho a magia nas mãos.
            Ele soltou a trava, fazendo um barulho similar ao de um osso quebrando, e puxou novamente.
            - Mas se eu fosse você, não esperaria passar a eternidade numa pervinca.
            - O melhor de tudo - continuou Gustavo - É que essa flor representa o amor eterno. O meu amor eterno. E é pelas mãos dele que você tem que morrer.
            Um pensamento passou pela cabeça de Yago. A casa estava muito quieta. Suas pernas tremeram.
            - Minha mãe e Lucas...
            - Ah, não se preocupe, eles estão bem - disse Gustavo - Aparentemente, houve um problema no Rio, com sua avó. Um enfarte, vê se pode! Logo uma senhora tão forte... mas é só um alarme falso.
            Ele sorriu ainda mais, com os lábios tão abertos que pareciam cortes de faca, deformando o rosto.
            - Não se preocupe - ele disse - Eles não tem que morrer. Apenas você. E é apenas você que vai morrer. Sozinho, sem ninguém pra chorar. Por que você acha que sua mãe vai lamentar a morte do culpado pelo acidente que lhe tirou seu amado marido? Acha que Lucas não o culpa pela morte de seu papai? E Nathalia, depois daquela cena toda, acha que ela ainda pode te amar?
            Ele puxou o gatilho, e a bala saiu sem fazer barulho algum.
            Yago não conseguiu respirar, naquela fração de segundo.
            Esperou pela imensa dor, ou simplesmente pela escuridão.
            Viu o rosto de Nathalia, seu sorriso pela última vez.
            Fechou os olhos.

***

            Mas a dor não veio, muito menos a escuridão.
            Abriu os olhos, secos, assim como a garganta. Respirou, enfim. Ainda estava de pé, na cozinha de sua casa. Levou a mão ao próprio peito. Molhado, mas de suor. Seu coração martelava suas costelas, a ponto de quebrá-las.
            Olhou no cano da arma. Expelia fumaça. Só então notou o silenciador. Olhou para trás, e viu um buraco na parede amarela, grossa o suficiente para impedir que a bala passasse disso.
            Gustavo o fitava, sério novamente.
            - Vamos fazer o seguinte - ele disse - Você tem dois minutos, cento e vinte segundos para correr o mais longe que puder. Roube um carro, se achar necessário. Pegue um ônibus, arranje testemunhas. Traga mais pessoas para a história, mas tenha em mente que essas pessoas vão morrer com você.
            - E o tempo começa agora.
            Yago ficou lá, parado, fitando Gustavo. Ele abaixou a arma, guardando-a no cinto, e, sem tirar os olhos de Yago, sentou-se no balcão.
            - Agora são cento e dez segundos. Cento e nove, cento e oito, cento e sete, cento e...
            Yago correu.
            Furou seu pé com os cacos de vidro, mas não se permitiu sentir dor. Abriu a porta rapidamente, ainda ouvindo a contagem regressiva de Gustavo. Quando finalmente fechou a porta, já estava no noventa e nove. Descalço, correu para a primeira direção que lhe veio à cabeça: a casa de Felipe. Seu pai era o delegado da cidade. Saberia o que fazer.
            Até por que, as ruas estavam desertas. Não havia mais ninguém para pedir socorro.
            Sabia que, àquela altura, Gustavo havia parado de contar, e estava atrás dele.
            Sabia também que ele tinha um carro, e qualquer corrida seria inútil.
            Mas seus pés não pararam.
            Quando por fim ouviu um barulho na rua, um motor, e viu um carro preto, com os faróis ligados, sentiu as pernas tremerem. Teve de parar, para não cair.
            Os vidros se abaixaram, revelando o rosto ainda calmo de Gustavo, com a arma em seu colo.
            - O tempo acabou - ele disse, e seguiu com o carro a alta velocidade até a esquina, onde virou e desapareceu da visão de Yago.

***
           
            Com pavor, fez a melhor coisa que pôde pensar: se escondeu no beco mais próximo.
            Mais tarde, percebeu que era a coisa mais idiota que podia fazer.
            Correu até o fim do beco, tendo uma visão privilegiada da parede que punha um fim nele. Tudo o que havia no beco era a bota que chutara logo ao entrar, as lixeiras e seus sacos de lixo rasgados amontoados do lado de fora, não cabendo dentro dos baús de metal, e uma escada, uma saída de emergência, como as que via nos filmes que nunca prestava atenção.
            E essa foi a segunda melhor idéia que bolou.
            Subiu sem esforço no primeiro lance de escadas, que ficava a dois metros do chão. Sem fazer barulho, escondeu-se ali, quase atravessando a parede.
            E foi nesse momento que Gustavo entrou no beco.
            Estava com as mãos livres, mas puxou a arma no mesmo segundo. Destravou-a, e segurou-a com as mãos, como se fizesse parte dele. A arma negra reluzia à luz do luar, e misturava-se à escuridão das sombras, tão perfeitamente quanto Yago fazia.
            - Yago, amigo - ele chamou, com a voz alegre - Eu sei que você está aqui. Eu não sou burro, mas parece que você é. Já te dei uma chance, e você desperdiçou. Então vamos fazer isso mais fácil para nós dois, e acabar logo com isso. A policia tem um corpo para achar, e eu tenho aula de física amanhã.
            Yago esperou, mordendo os lábios e suando frio.
            - Não me faça parecer estúpido, falando sozinho - Gustavo continuou, ainda avançando lentamente - Sabe, eu tenho uma ótima mira. E ótimos olhos também. O sol nasce em três horas, ou seja, o céu começa a clarear em duas. Eu sei que você está aqui, e eu vou te encontrar. Posso até te fazer uma gentileza: morte rápida, sem dor. Você decide, você desce agora e quebro o seu pescoço, sem sujeira, ou você espera e atiro no seu pescoço. E nas suas pernas, seu peito, barriga, cabeça...
            Ele parou, e olhou para os lados. Chutou uma lata de lixo, e a abriu. Revirou todo o conteúdo, espalhando sujeira para todos os lados. Fez o mesmo com os sacos de lixo, um por um. O beco era grande. Ainda tinha pelo menos mais sete latas para revirar e trinta sacos cheios. E estava longe de Yago.
            - Então é assim? - ele perguntou - Prefere morrer no lixo? Tudo bem. Os caminhões passam amanhã, então amanhã descobrem seu corpo. Os pobres lixeiros vão virar celebridades nessa porra de cidade. Está vendo como sua morte só traz prazer e alegria?
            Yago puxou a bota que havia pego logo no inicio, logo nos rascunhos de seu plano. Segurou-a contra si. Fedia, mas precisava dela. Podia haver milhares de bactérias e doenças ali, sem contar naquilo que sentia se mover por dentro do couro, mas precisava daquela pequena peça.
            Numa ideia de última hora, puxou dez moedas, envolvidas por fita durex, recém tiradas do banco, e segurou-as na mão esquerda, com firmeza.
            - Sabe, Yago - Gustavo disse - Você realmente sabe fazer uma brincadeira ficar cansativa. Quer dizer, já estamos aqui a dez minutos. A pequena Pervinca está praticamente implorando.
            Faltava pouco.
            - Não acha que é hora de sair de seu esconderijo covarde e me enfrentar?
            Gustavo tinha apenas que avançar mais uma lixeira...
            - Talvez haja até uma chance de que você escape. Talvez. Se meus olhos falharem no escuro e a arma travar, o que não vai acontecer.
            Três passos...
            - Não falta muito até o fim do beco. Você realmente acha que vou passar por sua lixeira e não te notar?
            Yago ainda não percebia como ele não havia notado nas escadas.
            - Cordeiro, cordeirinho, contra o lobo nada pode fazer... Só lhe resta fugir, e até a morte temer...
            Agora.
            Yago atirou a bota na tampa da lixeira, ao mesmo tempo que atirou o amontoado de moedas numa montanha de sacos de lixo. A bota atingiu o alvo com estrondo, e fez o metal enferrujado tombar para frente e chocar-se com ainda mais barulho, enquanto as moedas desfizeram o montinho de lixo. Os sacos se rasgaram, espalhando o conteúdo no chão, contribuindo para a bagunça.
            Talvez fosse o maior barulho que aquela rua já tenha escutado a noite.
            Foram apenas seis segundos de barulho, mas bastou para que Yago batesse três vezes contra a janela a seu lado, com força. Ele rezou para que seu barulho tivesse sido abafado. Rezou para que houvesse alguém em casa.
            Rezou pela própria vida.
            Gustavo se virou. Olhava fixamente para a lua. Fixamente para as escadas. Acabou, Yago pensou.
            Mas ele desviou o olhar para as lixeiras, e Yago agradeceu à escuridão por encobri-lo.
            - Esse velho truque? - caçoou Gustavo - Sinto muito, mas isso não pode salvá-lo. Você só pode ter jogado... o que quer que tenha jogado de lá - ele apontou para o fim do beco, mais próximo do que Yago esperava -... ou daqui - e apontou para as lixeiras a seu lado.
            - Onde quer que você esteja, eu vou te encontrar. E não preciso repetir que vou te matar.
           Yago prendeu a respiração no exato momento em que Gustavo estava a sua frente.
         Nesse mesmo momento, a janela se abriu, arrastando-se contra a parede.
         Gustavo destravou novamente a arma, e apontou-a para a cabeça de Yago.
         Uma senhora de idade pôs a cabeça para fora, com os olhinhos apertados, tentando enxergar no escuro. Os cabelos grisalhos desciam lisos até seu pescoço. Estava de moletom, coberta dos pés até o pescoço.
         Tão logo quanto percebeu o alarme falso, Gustavo abaixou a arma, subitamente branco.
         - Mas que bagunça... - a senhora perguntou, com a voz doce e arrastada, com tanta gentileza que nem parecia que havia acabado de acordar às três da manhã.
         Mas Yago a interrompeu, arremessando seu corpo contra o dela, adentrando a janela e caindo no chão.
         A senhora gritou, apavorada.
         Um segundo depois, a janela se estilhaçou, com o barulho do silenciador abafado, novamente destruindo o silencio da noite.
         Os cacos de vidro caíram no chão, partindo-se novamente ao contatarem o piso frio. Com o impacto, o molde de madeira, mais leve sem o plano de vidro, escorregou, batendo com toda força contra seu limite na parede.
         A senhora gemeu, não conseguindo respirar.
         Yago levantou-se, tomando cuidado para não pisotear a velha, e pôs-se a correr novamente. Atravessou o quarto, abrindo a porta e passando por ela rapidamente, logo alcançando a pequena cozinha. Com a pouca luz proveniente do abajur aceso, de uma cor indefinida pela adrenalina que corria em seu sangue, conseguiu ver o molho de cinco chaves esparramadas numa mesa de madeira, que deveria servir para os jantares.
         Quando chegou à porta, precisou tentar três chaves, antes que pudesse abri-la na quarta tentativa.
         Assim que abriu a porta, ouviu os passos de Gustavo na escada de ferro, que só agora devia ter notado.
         Assim que puxou a maçaneta, conseguiu ouvir a senhora ferida exclamar, gritando, bem menos gentilmente do que na janela:
         - Que porra...
         Fechou a porta antes que pudesse ouvir o resto ou perceber o corte que com certeza abrira na testa da velha.
         Virou para a direita, e correu até a única porta clara do corredor. Estava certo, aquelas eram as escadas. Não parecia haver elevador, mas mesmo que houvesse, demoraria demais para percorrer apenas um andar.
         Desceu quase pulando os pequenos dois lances de escadas, de aparentemente doze degraus cada, e chegou novamente à uma porta branca. Puxou-a, adentrando o corredor de entrada, vazio, sem porteiro, e totalmente escuro.
         Nessa mesma escuridão, ouviu algo pesado tombar no andar de cima.
         Talvez não fosse nada demais. Talvez fosse um objeto, um livro, alguma coisa do tipo. Ou talvez, Gustavo simplesmente tivesse feito a senhora desmaiar, com uma coronhada.
         Yago engoliu em seco, e rezou para que estivesse certo.
         Voltou a correr, e, para sua sorte, as chaves já estavam penduradas na porta de vidro. Girou-as duas vezes, e correu para o gigantesco jardim florido. Seguiu o caminho, feito de cimento, até o portão de grades de ferro. Talvez fosse verde, ou talvez fosse preto mesmo. Na noite, não conseguia distinguir.
O portão estava trancado. Descobriu isso ao sacudi-lo, cada vez mais forte, fazendo cada vez mais barulho, e nada de se mover. Não tinha tempo para tentar a sorte e voltar, torcendo para que uma daquelas chaves abrisse o portão. Simplesmente pôs o pé na parte de cimento do muro, como fazia quando era criança, e trepou nas barras, investindo toda sua força nos braços. Lançou-se para cima, com as pernas buscando um frágil apoio nas grades.
Os cortes, causados pelos cacos de vidro da garrafa de vodca, aumentaram com a pressão, abrindo ainda mais os rasgos em seu pé. Ele gemeu de dor.
         Com mais algum esforço, conseguiu chegar ao topo, e jogou-se lá de cima, caindo em pé. Seu sangue se espalhou pelo chão, e ele gritou, caindo de joelhos logo em seguida.
         Pôde ouvir a porta de vidro se fechando, dentro dos limites do jardim.
         Levantou-se, ignorando a dor, e voltou a correr, agora mancando. Observou as marcas de sangue que deixara antes, na calçada, que agora competiam com as marcas ainda maiores que deixava para trás.
         - Ei - Gustavo gritou, ainda dentro do perímetro do prédio.
         Yago virou-se, e apenas mais tarde foi perceber o quão idiota fora. Novamente.
         A bala chocou-se conta uma das grades, fazendo faíscas voarem. Desviou-se da trajetória, indo parar dezenas de metros mais a frente, numa parede de tijolos, passando longe de Yago, independentemente de se houvesse acertado a grade ou não.
         O barulho metálico fez Yago se abaixar.
         Tão logo quanto ouviu os passos apressados de Gustavo, pôs-se a correr.
         Virou a esquina no exato momento em que ouviu as grades do portão sacudirem com Gustavo se apoiando nelas. Correu ainda mais, tornando impossível ouvir quando os pés bateram no chão. Seja pela distancia, pela adrenalina ou pelo simples fato de seu sangue correr freneticamente por todo seu corpo, não só nas orelhas.
         Não faltava muito mais que vinte metros para sua casa.
         Com os calcanhares, freou os pés, parando sua corrida. Subiu as escadas da frente sem parar, com o impacto contra a madeira fazendo os ferimentos em seu pé esguicharem sangue. A porta ainda estava aberta. Entrou rapidamente, e fechou-a com estrondo. Girou as chaves duas vezes, e pela primeira vez respirou. Suas mãos tremiam. Passou-as em seu cabelo, e então decidiu trancar a segunda fechadura, na altura de sua cabeça.
         Quando a chave virou pela última vez, ouviu os passos de Gustavo na escada que acabara de subir.
         Dois punhos chocavam-se contra a porta.
         - Yago! - era Gustavo gritando - Yago, seu filho da puta! Meus parabéns! Você conseguiu sobreviver por mais de dez minutos! Mas isso acaba agora!
         Yago se afastou. Chegou cada vez mais perto do sofá, com passos pequenos e silenciosos. A adrenalina corria livre em seu sangue, mas somente agora que parara podia voltar a sentir uma dor em seus pés. E era imensa.
         - É assim que quer jogar? É assim que você quer jogar?! Tudo bem, então!
         Yago esperou o tiro, que atravessaria a porta e furaria seu peito.
         Ouviu a trava estalar, e pôde jurar ouvir a respiração selvagem de Gustavo.
         A dor infernal não veio, nem o rio de sangue.
         Yago ouviu os passos de Gustavo, se afastando da casa. Descendo as escadas de madeira. Com cuidado, mancou até a porta, e encostou sua orelha silenciosamente na madeira. Silêncio. Pelo olho mágico, via apenas uma rua vazia.
         Por um momento, o coração pareceu pesar tanto quanto uma pena, e Yago respirou calmamente o ar frio da noite.
         Recostou-se na porta, e deslizou lentamente, até atingir o chão. Suspirou. Passou as mãos no rosto sujo de poeira e suor, dando-lhe uma aparência negra, como alguém que há tempos não tomava banho. Respirou rapidamente, para repor o ar que não inalara naqueles dez minutos.
         Silêncio e paz enfim.
         Perguntava-se por que Gustavo havia partido.
         A polícia, talvez?
         E, com um pensamento paranóico, ele percebeu que talvez Gustavo não tivesse ido embora.
         Levantou-se, com os músculos doendo, lembrando-se das janelas que deixara abertas no andar de cima. Passou a mão nos cabelos novamente, desesperado, e partiu para as escadas.
         Parou, apavorado, quando ouviu um impacto contra o chão, escadas acima.
         - Eu estou aqui! - Gustavo gritou, e soltou sua risada habitual, mas para Yago, aquele riso parecia maléfico e homicida.
         Passos pequenos e silenciosos, Yago se afastou das escadas. Não daria tempo de destrancar a porta da frente. Faria barulho, e chamaria a atenção de Gustavo muito mais rápido do que suas mãos trabalhavam. Caminhou até a cozinha, ainda cheia de cacos de vidro e com o álcool duro, formando uma crosta no chão. Seus pés queimaram quando teve de atravessá-la, mas seguiu em frente, desviando do vidro quebrado.
         Chegou até o pequeno portal onde encontrara Gustavo, o portal que daria numa salinha que não servia para nada além de abrigar um vaso de plantas e dar acesso à porta que levaria até o quintal traseiro, de muro baixo o suficiente para que pudesse pular até a casa da vizinha.
         Tendo outra ideia, simplesmente abriu a porta, destrancando-a e arrastando, fazendo o maior barulho possível, e se escondeu atrás do vaso de plantas.
         Ouviu os passos de Gustavo descerem as escadas e se aproximarem da cozinha.
         - Então é assim - ele disse, calmamente, e Yago sabia que havia um sorriso em seu rosto mesmo sem vê-lo - Muito bem. Traga mais gente para isso, seu covarde. Que todos vocês se encontrem no inferno e vejam o que é bom.
         Yago ouviu os tênis pretos de Gustavo esmagarem os cacos de vidros que restavam inteiros. Ele sentia o inimigo se aproximando... até que viu seu rosto de perfil no portal. Estava escuro. Sabia novamente que ele não seria detectado, mas mesmo assim travou. A rapidez de Gustavo ao seguir para a porta pareceu tão lento quanto um bicho-preguiça para Yago. Até que ele finalmente passou o primeiro pé pelo limite da porta, chegando ao quintal.
         Sem se importar em ser silencioso, Yago saiu de seu esconderijo.
         Gustavo virou-se rapidamente, mas não pôde pará-lo.
         Yago fechou a porta bem na cara de Gustavo, fazendo a arma que ele levantara cair, assim como ele mesmo. Pela porta de vidro, Yago pôde vê-lo atingir o chão. E pôs-se a correr, já sabendo qual seria a próxima reação.
         Ainda que corresse o máximo possível, com os pés doendo e mancando, não conseguiu passar da cozinha quando Gustavo arremessou seu corpo, fazendo os dois caírem.
         O peito e pernas de Yago se chocaram contra o chão. Fez esforço para seu rosto, bem como o pescoço, continuarem firmes e levantados, pois sabia que qualquer ferimento devido aos cacos de vidro poderia ser fatal.
         Ainda assim, urrou ao sentir a barriga superficialmente cortada e seus joelhos fraturados.
         Sentiu o cheiro do álcool entrando por suas narinas, e por pouco não desmaiou enjoado. Em parte por que sabia que a única chance que tinha de sobreviver era manter-se acordado.
         Gustavo virou-o, fazendo-o olhar bem em seu sorriso.
         - Acabou, Yago - ele disse - Foi divertido, mas acabou. Você sabia que ia acabar, pois tudo tem um fim. E o seu é este aqui.
         Ele não empunhou a arma de primeira. Apenas abaixou-se, imobilizando os ombros de Yago e aproximando-se para sussurrar em seu ouvido.
         - Era o que você queria, não é? Morrer. Deixar a dor morrer junto. Ver seu pai novamente. É tão ruim assim? Pois, para que um ganhe, o outro tem de morrer em algum momento.
         - Então que você saiba que o outro não sou eu e o momento não é agora.
         Soltando-se do abraço mortal de Gustavo, Yago socou o ar, passando a centímetros do nariz do ex-amigo, agora com a postura ereta novamente. Viu um sorriso sarcástico se abrir no rosto sujo e tão machucado quanto o seu, mas esse sorriso desapareceu tão logo quanto sua mão atingiu o verdadeiro alvo.
         A arma voou longe.
         - Não! - Gustavo urrou, e caiu para o lado assim que a mão de Yago atingiu sua cara.
         Yago desvencilhou-se das forças que restavam em Gustavo, e levantou-se rapidamente, apenas para cair quando sua perna foi puxada. Sentiu seu corpo se arrastar pelo álcool semi-solidificado, fazendo-o espalhar líquido e seus ferimentos queimarem. Gustavo acertou uma cotovelada em suas costas, e Yago gritou de dor. Seu corpo novamente foi virado, e dessa vez, levou um soco na bochecha. Devolveu o soco, sem tanta intensidade, porém com força o suficiente para fazer Gustavo virar o rosto. Ele voltou-se lentamente, sorrindo, e cravou as unhas no pescoço de Yago.
         Debateu-se, sem conseguir respirar, muito menos livrar-se do enforco. Gemia como um sufocado, fazendo barulhos grutuais para tentar puxar o mínimo de ar, sempre falhando. Suas mãos corriam soltas, agarrando-se ao que podiam, ao chão, passando as unhas na crosta de vodca, estapeando inutilmente o rosto de Gustavo, cujo sorriso só fazia crescer, arranhando com as unhas com a maior força possível as costas suadas do seu assassino...
         Até que seu corpo parou de mover, e seu pulmão parou.
         Gustavo riu. Seu sorriso cresceu ainda mais antes de largar o pescoço de Yago. Puxou-o contra si, praticamente rindo na cara daqueles olhos azuis vazios e fixos.
         Por fim, o soltou, deixando-o para cair no chão.
         Mas não houve barulho, nem choque. Yago simplesmente deu novo sinal de vida e acertou um soco no olho de Gustavo, rapidamente armando outro golpe e desferindo-o na bochecha.
         Gustavo caiu, e Yago armou guarda em cima dele.
         - Fingindo? - Gustavo perguntou, incrédulo.
         Yago respondeu apenas com novo soco, dessa vez quebrando um dente.
         Com um instinto de vingança, acertou uma cotovelada bem no centro do peito de Gustavo, onde doeria mais e interromperia a respiração por alguns segundos. Ele urrou de dor, e seu grito sacudiu a casa toda. Antes que pudesse fechar a boca e forçar seu pulmão dolorido a puxar novo ar, Yago acertou mais um soco, com a intenção de acerta-lhe o outro olho, porém seu descontrole fê-lo acertar a testa.
         Acertou a barriga apenas mais uma vez, e se levantou para correr.
         Gustavo segurou-lhe a perna, fazendo-o cair novamente.
         Sentia o inimigo se levantando, então, com um chute, Yago acertou a garganta de Gustavo.
         Ele caiu.
         Levou a mão ao pescoço. Se pudesse emitir qualquer som, seria um grito. O que saiu de sua boca, porém, foi um jorro de sangue. Ele cuspiu como se fosse vômito. Ficou de quatro no chão, expelindo o líquido escarlate, gemendo, o único som que conseguia produzir.
         Yago observou enquanto ele levantava o olhar furioso, e levantava seu corpo também.
         Mas Yago continuava no chão, agora mais indefeso do que nunca.
         Gustavo avançou.
         Yago se arrastou para trás, manchando sua roupa com a vodca e o sangue recém-derramado.
         Gustavo urrou, e ameaçou se jogar.
         Mas parou no ar, no exato momento em que Yago puxou a arma, instinto puro, e atirou.
         Ele caiu para trás, olhos arregalados, sem acreditar na dor.
         Seu gemido saiu fino, como o de um cachorro ferido.
         Pousou no chão violentamente, sacudindo toda sua roupa e batendo com a cabeça. Fechou os olhos.
         Yago largou a arma, e o barulho da trava voltando foi abafado por seu choque contra o chão.
         Arrastou-se até o corpo de Gustavo. O havia matado? O sangue pulava em esguichos da coxa esquerda, a perna que havia acertado.
         Com muito cuidado, pôs os dedos na têmpora do inimigo caído, sentindo uma pulsação fraca.
         Não sabia se sentia-se aliviado ou pegava a arma e terminava o trabalho.
         Puxou um pano de prato limpo, porém já velho e rasgado, e fez um torniquete no ferimento. O trapo branco logo se tornou vermelho. Yago continuou a aplicar pressão, e depois de dois minutos, percebeu que o pano já estava inutilizado. Desfez o nó, e fez outro torniquete com outro pano. Dessa vez, apertou o mais forte que podia. O pano começou a formar uma mancha vermelha, pequena, que crescia de pouco em pouco, em pequenos intervalos. Foi quando soube que estava fazendo certo.
         Levantou-se, com as mãos vermelhas, e mentalizou o telefone, já se lembrando do número da emergência. E logo depois descartou a idéia.
         Apalpou os bolsos de Gustavo, e puxou uma chave. Pegou-o no colo, com bastante dificuldade, pois seus pés ainda estavam feridos e seus músculos estavam em frangalhos. Abriu a porta da frente, olhando para os lados, e observou o carro de Gustavo, do outro lado da rua. Limpo e perfeito, ao contrário do dono.
         Deitou o corpo quase morto de Gustavo no banco traseiro, e assumiu a direção. Em cinco minutos, estavam em frente ao hospital.
         Pensando novamente, decidiu deixar o carro no estacionamento traseiro, onde não havia testemunhas.
         Assim que estacionou na primeira vaga que vira, mesmo com tantas opções, já que era noite numa cidade pequena, saiu do carro. Conferiu a distancia até a porta do hospital. O suficiente. Abriu a porta traseira, não sem antes olhar ao redor, bem como para as janelas, e puxou o corpo pesado. Seu sangue já havia manchado o banco traseiro inteiro.
         Gustavo ainda respirava de leve, mas Yago sabia que a situação não era nada boa.
         Ele tossiu sangue, ainda dormindo.
         Apoiou-o na roda traseira, fechando o carro. Levou sua carteira e celular (sem chip; obviamente, Gustavo sabia o que estava fazendo), para parecer assalto; pretendia jogá-los fora na primeira lixeira que visse pela frente. Desarrumou seu cabelo ainda mais, e surrou um pouco mais suas roupas, deixando-as sujas não só de sangue, mas de poeira. O cheiro de vodca em seu corpo ajudaria a fazê-lo passar por louco, ou bêbado.
         Levantou, olhando para a saída do estacionamento.
         Não deu um único passo, e sentiu uma mão fraca puxando a sua.
         Gustavo o encarava, com os olhos raivosos e a boca fechada, abrindo-se apenas para cuspir mais sangue, formando um rio em seu queixo. Sua expressão, vazia, era uma ameaça. Uma promessa de que aquilo não havia acabado. Uma promessa de que não haveria paz até o fim.
         Yago perguntou-se se deveria reconsiderar a idéia de deixá-lo vivo, e logo espantou esse pensamento.
         Soltou sua mão, e caminhou lentamente. Quando já estava a uma pequena distancia, viu Gustavo fechar os olhos, entrando no personagem. Quando já estava debaixo da sombra da saída do estacionamento, apertou um dos botões da chave, fazendo o alarme antifurto ressoar. As luzes dos faróis do carro se acenderam.
         Com seu trabalho terminado, tirou a camisa, manchada de sangue, e correu pela sombra de volta para casa.
         Em menos de dois minutos, um paciente reclamou.
         Logo depois, a enfermeira decidiu descer para averiguar se podia acabar com aquele barulho infernal.
         Quando achou o corpo de Gustavo encostado no carro, por pouco vivo, esqueceu-se do alarme, e chamou uma equipe médica inteira.
         Gustavo foi posto na maca e, naquela noite, recebeu todos os tratamentos. Teve a bala extraída de sua perna, os ferimentos saturados, e tomou analgésicos. Como não tinha identidade consigo, foi impossível abrir ficha.
         Pela manhã, aproximadamente às oito horas, quando a enfermeira foi checar se estava tudo bem, viu uma cama vazia. As roupas haviam desaparecido, bem como os medicamentos deixados na mesa de cabeceira. A janela estava aberta, mas ela logo descartou essa possibilidade. Era loucura. Ninguém em estado saudável conseguiria pular de três andares sem se ferir ao menos um pouco, quanto mais um garoto que acabara de ser baleado. Toda a idéia era impossível.
         Não era?
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