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Jarro de Corações

Jar Of Hearts - Christina Perri

            Abriu a porta praticamente ao fim da primeira série de batidas, já ansiosa. Havia esperado-o a tarde toda, por mais que soubesse que haviam marcado de sair apenas à noite. Teve de esperar ainda mais, pois ele se atrasara. Não tinha vontade de ouvir a desculpa, no entanto. Queria apenas sair para a tão desejada noite e talvez não voltar para casa tão cedo. Talvez não voltar até amanhecer.
            - Oi - ela disse, dando um selinho em Yago. Porém, o selinho se transformou em um beijo completo, até que sentia o peito queimar. Pela paixão que sentia, a euforia, mas também por que lhe faltava ar.
            - Oi - ele respondeu, com um sorriso, assim que se separaram.
            - Só vou pegar minhas coisas - ela disse, apontando com o queixo para as escadas.
            - Precisa mesmo delas?
            - É minha bolsa, querido.
            - E se não saíssemos do quarto, ainda precisaria delas?
            Nathalia acertou um tapa no braço de Yago - outra tentativa de lhe infligir um pouco de desconforto que falhara. Havia dias tentava fazê-lo sentir alguma coisa, mas nunca conseguia acertá-lo com força o suficiente.
            Ela se desvencilhou do abraço, dando-lhe as costas. Ele ainda tentou alcançá-la com um dedo, mas acabou segurando apenas o ar. Ela riu, e subiu as escadas com passos leves.
            Yago então acomodou-se no sofá. Não pôs as pernas na mesa, pois sabia que tanto Nathalia quanto sua mãe odiavam aquilo, e era um hábito que estava se esforçando bastante para perder. Então, simplesmente apoiou os cotovelos nas pernas, curvando o tronco.
            O telefone de Nathalia começou a vibrar, dançando na mesa e quase caindo no chão.
            Yago puxou o Nokia, de touchscreen, que tanto odiava. Nunca conseguia mexer naquilo. Nunca acertava onde queria clicar de primeira. Só viu um alerta de mensagem, e cancelou. Pôs o telefone de volta na mesa, acomodando-se novamente.
            Até que seu telefone tocou em seu bolso dianteiro.
            Tocou o mesmo hino de sempre, um solo de guitarra sem nenhuma voz. Vibrava em sua coxa, de modo que lhe dava uma sensação nervosa. Puxou o próprio aparelho, vendo que também havia recebido uma mensagem. Número desconhecido. Sem nome, nem nada.
            Simplesmente abriu a mensagem, e travou.
            Puxou o telefone de Nathalia, e, após algumas tentativas, viu a nova mensagem.
            Uma promoção de uma operadora de telefonia, garantindo internet grátis por um mês.
            Ele empurrou o aparelho, vermelho de vergonha e confusão. Continuou encarando o próprio aparelho, sem saber o que devia fazer. Sua vontade era de jogá-lo na parede e apagar aquelas palavras de sua cabeça.
            Nathalia descia as escadas, tagarelando algo sobre as únicas três salas de cinema da cidade.
            Sentia lágrimas se acumulando nos olhos, e não sabia se era tristeza ou raiva.
            Nathalia agora decidia qual filme veriam.
            Em alguma parte dentro de si, Yago já não confiava mais no que seu coração dizia. A mente havia calado o sentimento rubro, dando lugar aos mais sombrios pensamentos.
            Nathalia o chamava.
            - Yago?
            Ele virou o rosto, encarando a obra de pura beleza a sua frente. E sentiu uma facada no peito ao perceber que sempre soubera. Que aquela mensagem era apenas uma lembrança. Que nunca passou um dia que não sufocasse aquela indagação.
            - Tá tudo bem? - ela perguntou, deixando a bolsa na mesinha que ficava do lado da porta, de frente para as escadas.
            Ele assentiu, com a boca meio aberta, sem conseguir falar nada. Sabia que seus olhos brilhavam mais do que o normal, de modo suspeito, como um garotinho ferido.
            - Tá - ele disse, a voz saindo forte, e, ao mesmo tempo, como uma casa a ponto de desmoronar e enterrar tudo o que carregara até ali - Tá ótimo.
            O rosto de Nathalia contorceu-se numa expressão assustada e preocupada.
            - O que...
            - Você sabia disso? - ele perguntou, interrompendo-a, levantando seu celular a altura de sua cabeça. Sua voz saiu como a de uma fera ferida, um trovão gigantesco numa nuvem pequenina.
            Ela travou, sem saber o que dizer, sem saber o que estava acontecendo.
            - Vamos, leia - Yago disse, e jogou o aparelho.
            Nathalia pegou-o no ar, com as duas mãos, por puro reflexo. Sua mente ainda estava paralisada. Nunca o vira assim. Nunca sentira tantas emoções numa única voz, e nunca tivera tanto medo do que elas poderiam fazer.
            Não esperava que fosse possível travar ainda mais, porém foi o que aconteceu assim que baixou os olhos para mensagem.
            Em dois segundos, já não sabia o que dizer.
            Em mais um segundo, lágrimas se formaram em seu rosto.
            Em tempo nenhum, sabia que a ferida era profunda demais para ser curada, e que era ali que o coração pararia de bater.
            Ela levantou o rosto para Yago, com a expressão atônita praticamente entregando a guerra que se desenrolava em seu peito.
            - Isso...
            - É verdade? - Yago interrompeu.
            Nathalia franziu os lábios, sentindo o peso de um mundo sobre seus ombros, e sua voz saiu fraca, mais fraca do que qualquer vez que já a ouvira.
            - Yago...
            - É verdade?
            Nathalia apertou as unhas contra o metal o aparelho, e sabia que mais tarde suas juntas doeriam. Sabia também que essa dor seria facilmente sufocada. Era sempre assim: uma dor maior sufoca a outra.
            - Não - ela disse - Claro que não - tentou formar um sorriso, mas seu rosto tornou-se ainda mais preocupado.
            Yago mordeu o próprio lábio com tanta força que logo sentiu o gosto de um jorro de sangue.
            Sentiu as lágrimas descendo as bochechas.
            Por que, sempre que olhava naqueles olhos, sempre que admirava aquele quadro irreal, o brilho daquele anjo, sabia quando ela mentia.
            - Tá, então - ele disse.
            - Yago...
            - Não, Nathalia.
            - Por favor...
            - Para - ele disse, com a voz firme.
             - Me escuta, só me escuta!
            - Eu te dei a chance - ele disse - Eu te dei a chance. Você mentiu.
            - Não, eu to falando, eu jamais faria isso! Eu...
            - Eu disse pra parar!  - ele gritou.
            Nathalia se calou, com as lágrimas finalmente deixando o porto seguro que eram seus olhos. Simplesmente encarou-o. Simplesmente olhou naqueles olhos, e não viu nenhum pingo do amor infinito que antes ali estavam estampados. Apenas ódio e escuridão. Algo tão profundo e ao mesmo tempo tão enjoativo. E sentiu nojo de si mesma, pela milésima vez.
            - E como você pôde esconder isso de mim? - ele disse. Não era o mesmo Yago. A voz, ferida, parecia carregar o sofrimento de mil pessoas. - Como pôde beijar a minha boca, dormir na mesma cama que eu, e nunca sentir nada? Nunca - ele deu de ombros, abrindo um sorriso sofrido - Nunca se arrepender?
            - Eu me arrependo todos os dias - Nathalia disse, com a voz na defensiva - Todo santo dia eu me lembro, e todo santo dia eu tenho que pensar em você pra esquecer. Todo santo dia eu percebo que eu amo você, e não ele, e não importa quanto tempo passe, eu nunca, nunca vou esquecer do que eu fiz.
            - E você tem dúvidas que eu te ame?
            - Não tinha - ela disse - Agora eu não sei.
            Ele cerrou os punhos, respirando fundo. Queria mais do que tudo estampar raiva. Emitir raiva. Mostrar para ela o quanto a odiava. Mas tudo que seu rosto conseguia demonstrar era a dor de um leão ferido.
            - Se você na tinha, por que nunca me contou?
            - Por que eu tinha certeza que na hora em que eu contasse, você nunca me perdoaria.
            - Acho que nunca saberemos, não é?
            Nathalia levou a mão ao pescoço. Havia algo ali. Algo não a deixava respirar. Algo bloqueava seu sangue. Algo a matava, e ela sabia o por que.
            Yago caminhou até a porta, determinado a passar direto por Nathalia, com um olhar frio.
            - Até parece que você é o inocente da história - ela disse, no momento em que sua boca estava próxima o suficiente do ouvido de Yago.
            Ele se virou, a raiva crescendo dentro de si.
            - O que você disse?
            - Eu não sou a única traidora aqui, Yago. Eu não sou a única que guarda segredos.
            Ele abriu a boca. Sua voz puxava forças de seu corpo todo, num grito de ódio. Como ela ousava? Ela começara tudo aquilo. Se não fosse por ela, estariam felizes no shopping. Fariam suas compras, veriam um filme, partiriam para sua casa e fariam amor pelo resto da noite, pouco importando se havia aula de matemática pela manhã. Se não fosse por ela, ainda teria vontade de amá-la, invés de ter de sufocar o amor no peito.
            Mas, antes que qualquer som saísse de sua boca, Nathalia disse:
            - Com quem você perdeu a virgindade?
            Ele travou.
            - Foi realmente comigo?
            - Foi - sua resposta foi automática.
            - Você acha que eu não ouço? Os rumores? A Gabriela e o caralho a quatro?
            - São mentiras.
            Ela soltou um riso sarcástico, cheio de escárnio.
            - E eu que tenho que acreditar?
            - Você não tem direito nenhum de levantar isso agora.
            - Por que? - ela disse, empurrando-o pelo peito - Por que você tem que estar certo? Por que eu sou a puta? Por que você sempre será o certinho, e eu serei a péssima namorada que quebrou seu coração?
            - Estou indo embora.
            - Essa é sua resposta final?
            - Sai da minha frente.
            Yago pegou-a pelos ombros, e jogou-a para o lado com força. Ela bateu contra a parede, e sentiu seu músculos se esfarelarem. Caiu lentamente no chão, sentindo o sangue correr até suas costas, seus braços. Ardia. De olhos arregalados, fitou Yago, enquanto ele caminhava até a porta.
            Ele mirou-a com um olhar frio, e ela sentiu como se uma bala atravessasse sua cabeça.
            - Mande lembranças para Gustavo.
            E saiu.
            Nathalia se abraçou. Finalmente seu choro ganhou vida. Expelia verdadeiros rios pelos olhos. A parte de cima de sua camisa logo ficou encharcada. Ela chutou a parede, os móveis. Bateu em si mesma. Sentou na escada, limpando os olhos. Ficou ali até sua mãe chegar e encontrá-la, fria e desesperada. Finalmente conseguira uma reação de Yago. Finalmente provocara-lhe dor.
            E a única coisa que desejava era que a ponta da adaga não tivesse voado para o peito dele, mas sim para o seu.

***

            Yago caminhou pela rua, se afastando cada vez mais da casa de Nathalia. Com o celular ainda na mão, quase esmagando-o, discou o único número que lhe interessava. O único número que poderia lhe ajudar. Depois de duas raivosas tentativas e três toques, por fim, atenderam.
            - O que é? - disse a voz cansada de Gabriela, e Yago reconheceu aquele tom; ela estava no segundo drink da noite, faltando apenas três rodadas para ficar tonta e seis para ficar bêbada.
            - Onde está ele? - perguntou com raiva.
            - Yago?
            - Onde. Está. Ele?
            - Ele quem?
            - Seu namorado - disse, com o máximo de sarcasmo que pôde juntar na voz.
            - G... Gustavo?
            - Jesus Cristo que não seria.
            Ele ouviu um suspiro assustado.
            - Ele fez mesmo - ela disse, debilmente.
            - É, isso aí, agora cadê seu namorado?
            A voz de Gabriela passou do medo para preocupação.
            - Yago, não faça isso. É isso que ele quer.
            - Então vamos fazer a alegria dele essa noite.
            - Você não tá entendendo!
            - Ah, eu tô entendendo. Ele acabou com tudo que eu amava e você ajudou!
            - Não, ele é perigoso! Ele vai acabar contigo!
            - Você não vai me dizer?
            - Yago...
            - Você não tinha direito algum de falar com a Nathalia, sua filha da puta!
            Ele nem esperou a resposta. Simplesmente jogou o telefone no chão, fazendo a tela se partir ao meio e se desprender do resto do aparelho. Já não funcionaria mais, mesmo que Yago voltasse e pegasse a carcaça.
            Continuou caminhando, pela rua, pela cidade. Uma hora acabaria achando um dos amigos de Gustavo. Acabaria achando alguma informação. Acabaria achando ele.
            E mal podia esperar.
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