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Perdoe-me

Frogive Me - Evanescence

            - Nathalia - uma chorosa Alex disse ao telefone, mas não pôde continuar.
            Estava trancada num banheiro, extremamente mais limpo do que imaginara, falando o mais baixo possível. Olhava para os lados e aguçava os ouvidos todo o tempo. Mordia o lábio com tanta força que quase sangrava, deixando a pele da boca inchada. Já apertara as unhas contra o braço diversas vezes, até deixar marcas. Os olhos estavam marejados, e refletiam o total desespero que sentia.
            - Nathalia - recomeçou, com a voz ainda menos firme, e sentiu-se a ponto de desmoronar, literalmente - Eu... eu fiz uma bobagem. Uma merda. Muito merda.
            Engoliu em seco, ainda escolhendo as palavras. Sentia como se houvesse uma faca cravada em seu peito, roubando seu ar.
            - Eu não sei o que fazer - continuou, com as lágrimas rolando pelas bochechas - Eu to ferrada. Muito ferrada. Todos nós estamos ferrados, por minha causa.
            Respirou fundo, abraçando a si mesma com a mão livre, e sentenciou as últimas palavras.
            - Então, quando receber essa mensagem - o choro subiu a garganta, ainda mais forte, tornando sua voz um guincho irreconhecível - Por favor, me liga. Por favor, eu preciso de alguém, preciso de todo mundo...
            A voz da operadora surgiu, seguido de um tom de ocupado. Ela desligou o telefone, com as mãos tremendo. Chorou baixinho, reprimindo-se quando soluçava alto demais. Por vezes se encolheu ainda mais na banheira feita de pedra branca, cheirando a desinfetante, por pensar ter ouvido passos no lado de fora. Por vezes bateu pé, com uma criança, e teve vontade de bater a cabeça na parede até sangrar. O dia, quente, tornava-se cada vez mais frio, e ela sentia que congelaria ali.
            Levantou-se, com cuidado, tentando não fazer barulho com o tênis.
            Olhou para a caixa onde esbarrara quando entrara, e passou bem longe dela. Chegou à porta sem nenhum acidente, e rezou do fundo do coração para que a madeira velha não rangesse. Girou a maçaneta, e puxou-a lentamente, parando a cada segundo, ouvindo um mini-ruído escapando das dobras. Quando parou pela última vez, viu que a passagem era pequena demais, e ela teria de se apertar para passar. Com cuidado, passou primeiro a perna direita, e logo depois o braço. Avançava de lado, respirando muito levemente. Seu tronco empurrou a porta um pouco, arrancando dali um leve rangido, fazendo congelar. Como não ouviu nenhum movimento no apartamento, continuou, até estar completamente do lado de fora.
            Olhou para a cama desarrumada, e sentiu imenso alívio ao ver que ainda havia alguém deitado ali.
            Correu para a porta final, e abriu-a sem medo de fazer barulho. Chegou ao corredor, e correu para longe do quarto. Para longe do hotel. Para longe daquele lugar.
            Então, acabara de dormir com Yvonne, transformando a francesa numa criminosa.
            Acabara de terminar de ferrar a si própria, sentindo-se suja.
            E acabara de ferrar a seu coração.
            Fantástico.

***

            Suzana chorava em seu quarto.
            Felipe havia acabado de ir embora, com o rosto sombrio e cheio de dor. Ela se agarrava aos próprios lençóis, e pensou em não levantar nunca mais. Sua barriga doía, mas sabia que o bebê estava bem. Era com ela que havia algo errado, muito errado.
            Eles estavam ali, juntos. Sozinhos em seu quarto. Perfeitos. Rindo, sorrindo, felizes. Num beijo apaixonado, num ritmo perfeito.
            Mas então, ela o afastara.
            Ela gritara.
            E chorara.
            Numa melancólica revolta, envolvera sua barriga, e gemera de dor no peito. Afastara-o a chutes, e se espremera contra a parede. Gritava em um choro incontrolável e desesperado, e se esquecera de que amava aquele menino. E nem percebera quando ele fora embora.
            E agora estava sozinha com seus demônios.
            Com o corpo sangrando, de tanto se jogar, se arrastar e fugir, manchava suas roupas. As lágrimas desciam quietas, sem alarde nenhum. Seu rosto mantinha-se inexpressivo, fitando o nada. Simplesmente piscava, expulsando mais água salgada. Em algum lugar dentro de si, pensava. E não sabia se algum dia teria vontade de voltar a se mover novamente.
            A campainha tocou, dando-lhe um susto que a fez pular.
            A questão do movimento estava resolvida, afinal.
            Com as pernas duras e pesadas, tentou levantar-se. Gemeu, tentando fazer força. Quando enfim estava de pé, seu corpo todo tremia. Sentia uma imensa vontade de avançar dois passos, apenas até sua cama. Dormir por cinquenta anos, até não haver mais nada com que se preocupar, exceto um filho idoso.
            Mas resistiu a esse impulso, por que tinha quase certeza de que Felipe tinha voltado.
            Não foi fácil descer as escadas. Quase teve que sentar-se e quicar degrau por degrau. Agarrou-se no corrimão, e a campainha soou mais três impacientes vezes antes que chegasse ao andar de baixo. Ao fim da pequena jornada, sentia-se como madeira podre. Qualquer pequeno abalo a faria cair, desmoronar. E esperava não ter mais nenhum abalo naquele dia.
            Quando finalmente abriu a porta, sentiu-se corar de raiva. Tudo aquilo que passara para nada.
            - Oi - disse Gabriela.
            Suzana fechou a porta, antes de notar a hesitação que havia na voz dela.
            Virou-se, sem ouvir um baque, e jogou-se no sofá.
            - Sabe que já levei muitas portas na cara pra cair nessa, não é?
            Suzana suspirou.
            - Tive a leve esperança que sua experiência de puta não servira pra nada.
            - Então me desculpe por estragar suas fantasias - Havia um sarcasmo cansado em sua voz, como se estivesse se controlando.
            Suzana não se levantou. Sabia que não podia contrair a barriga.
            - O que você quer?
            - Conversar.
            - Para duas pessoas conversarem, uma tem que gostar da outra.
            - Não, isso se chama amizade. Conversar é outra coisa.
            - Então você mordeu a isca.
            Ouviu um suspiro, e imaginou qual seria a expressão de Gabriela. Raiva? Tédio? Talvez, só talvez, um pouco de humanidade?
            - Só preciso que você escute, por que eu acabei de ver seu namorado de cabeça baixa na rua, saindo da sua casa, e acho que isso não é nada bom.
            Suzana virou-se no sofá, fazendo apoio com uma das mãos e levantando de leve. Com algum esforço, conseguiu não machucar o bebê em sua barriga. Assim que se sentou, dirigiu o melhor olhar cínico, que sem querer saiu também cansado, que conseguiu.
            - E desde quando você se preocupa com os outros?
            Agora que via sua expressão, sentia medo. Nunca vira aquela expressão antes. Nem quando ela estava mais vulnerável, ao lado de Yago, nem quando estava perto o suficiente para presenciar um de seus encontros com Nathalia.
            - Eu não me preocupo com a maioria - disse ela, com a voz triste - Mas me preocupo com você.
            Suzana não conseguiu retrucar, tamanha emoção que via em Gabriela. Com seus olhos um tanto marejados, porém ainda aguçados, pôde ver que seu lábio inferior tremia. Pôde ver que havia um brilho estranho em seus olhos. Pôde ver que ela mantinha os dedos das mãos entrelaçados, como se os controlasse para não tremer.
            No final, elas estavam na mesma situação.
            Gabriela se aproximou, e sentou na poltrona, que ficava mais próxima das fotos da família. Era estranho vê-la assim, como uma garota normal, com os sentimentos que nunca deixava transparecer.
            Ela inclinou o corpo pra frente, apoiando-se nos seus joelhos.
            Suzana reprimiu o impulso de mandá-la levantar-se.
            - Com quantos anos - Gabriela começou, hesitante, com uma terrível dor estampada nos olhos; Suzana sentiria tamanha angustia mesmo a um quilometro de distancia -, você acha que eu perdi a virgindade?
            Suzana corou, surpresa. Ignorou todas as imagens que passaram em sua cabeça, e pensou um pouco.
            - Você, você sempre disse que foi aos catorze, um ano antes do Yago chegar.
            - E quantos anos eu tenho agora?
            - Dezessete. Quase dezoito - ela respondeu, lembrando-se do jeito que Gabriela falava, antes de Nathalia e de tudo aquilo.
            Ela assentiu, e fitou os próprios pés. Tirou uma mecha de cabelo da testa, e voltou a encarar os olhos de Suzana.
            - Você sabe que eu minto.
            - Sempre, todo dia, toda hora, em qualquer lugar, pra qualquer um...
            - Assim me faz corar.
            Nenhuma das duas riu, mas Suzana conseguiu abrir um sorrisinho fingido.
            Gabriela abaixou a cabeça novamente, e quando voltou a levantar, uma lágrima descia de seus olhos.
            - Eu não fiz pela primeira vez com catorze - ela disse, com a voz extremamente embargada, chegando a ser doce.
            Suzana deixou o queixo cair lentamente, e os próprios olhos encheram-se novamente, contagiados pela tristeza da sala.
            - Eu, eu vim pra essa cidade com catorze. Sozinha, se você se lembra. Eu morava com a Igreja, Suzana, por que tinha fugido dos meus pais.
            - Mas eles te encontraram.
            Gabriela sorriu, encabulada.
            - Sim - disse - Me encontraram, me deram onde morar, me deram comida e dinheiro. Mas não quiseram ficar aqui, comigo, então de que adianta?
            Suzana engoliu em seco, e corou. Não havia melhorado as coisas, como pensara que faria.
            - Mas - Gabriela continuou - Eu sempre disse... que o motivo pelo qual fugi, era por que não agüentava mais meus pais e o discurso de castidade. Bem, eu menti. De novo. Há um motivo pelo qual vocês nunca viram eles. Como eu disse, eu não transei pela primeira vez com catorze anos.
            Ela parou, e Suzana sabia que não conseguiria continuar.
            - Quando, então? - ela indagou, com a voz fraca de tensão.
            Gabriela fungou, e sua voz saiu ainda mais embargada, fina e sofrida.
            - Treze. Pouco depois que fiz treze.
            Suzana a encarou, e quase ouviu um estalar em sua cabeça.
            - Não teve discurso nenhum, teve? Seus pais não tiveram problema nenhum com isso, não é?
            Gabriela meneou a cabeça negativamente.
            - Teve problema sim. Pra mim, pra eles, pra todo mundo. Por que, naquele mesmo dia, eu engravidei.
            Suzana sentiu um tremor percorrer seu corpo. Sentia a bile subindo o pescoço, e sabia que já havia se passado tempo demais pra ser enjôo matinal.
            Gabriela passava as costas das mãos nos olhos sem maquiagem, inutilmente. As lágrimas pareciam jamais acabar.
            - Eu tive meu filho. Com treze anos, eu tive meu filho e larguei a escola. Não passou um dia que não me olhassem torto. Não passou um dia que eu não me acabasse de chorar - ela sorriu de tristeza - e não me arrepende-se.
            - Você se lembra - continuou - qual foi o mês exato em que eu cheguei?
            Suzana mordeu o lábio. Sua memória perfeita estava bloqueada pelo turbilhão que sentia crescer dentro de si.
            - Dezembro de 2006 - ela disse.
            - Foi nesse mês que abandonei meu filho.
            Um silêncio incomodo tomou conta da sala, porém não perdurou muito.
            - Ele nasceu em julho daquele ano, quando eu ainda tinha treze. Agora, ele deve ter quatro anos, e deve achar que meus pais são pais dele. Deve achar que eu sou a irmã rebelde que fugiu de casa para um fim de mundo, e que jamais voltaria.
            “Você sabe o que é isso? O que é ficar quatro anos sem ver o próprio filho? Ficar quatro anos vivendo uma vida que não é sua? Quatro anos sem sequer saber se ele fez amiguinhos, se já ta dando uma de macho e se já tem uma namoradinha, ou se estão criando ele bem, do que ele gosta?
            “Eu não sou a mãe dele, por que eu não sei de nada. A mãe dele morreu há muito tempo.
            “Você sabe o que é isso?
            Suzana teve de limpar os próprios olhos, pois ela também chorava.
            Abriu a boca, para dizer “não”, mas Gabriela levantou as mãos no mesmo momento. Limpou os olhos com uma, fazendo um sinal de “pare” com a outra.
            - Não foi pra isso que eu vim. Eu vim por sua causa.
            Suzana engoliu em seco.
            - O que você quer dizer?
            - Sabe - disse ela, de olhos vermelhos, porém limpos. Fungou antes de continuar - Desde daquele dia, eu só dormi com um cara. E eu amava esse cara. Eu não fiz nada além de amar ele.
            Ela fez uma pausa, e fitou as escadas. Estava pensando?
            - Você está grávida, Suzana - disse, enfim - Não foi nas mesmas circunstancias que eu, então nem posso imaginar o que você sente. Mas uma coisa eu posso dizer.
            Ela se levantou, e sentou-se no sofá, bem ao lado de Suzana. Chegou perto, muito perto mesmo, até poder olhar bem em seus olhos, e ver seu reflexo neles.
            - Não foi sua culpa - sussurrou - Você não pode ser quem não é por causa de algo que aconteceu. E, sobretudo, você não pode deixar de amar. E o Felipe, ele te ama. Você também ama ele. E o que quer que tenha feito hoje, tenho quase certeza que eu sei. Se você acha que o que ele tentou fazer hoje foi sexo, ta enganada. Eu conheço o Felipe. Ele jamais, sob circunstancia alguma, faria isso.
            Ela levantou-se, e olhou para a janela. Suzana fez o mesmo, seguindo seu olhar.
            - Ainda não escureceu. E ainda não é tarde. Se você for bem rápida, acho que ainda consegue chegar na casa da bosque.
            Suzana olhou para seus olhos. Ambas sorriam agora. De olhos secos e corações partidos, porém confidentes.
            - Obrigada - ela disse.
            - Se contar isso pra alguém, eu vou negar.
            - É claro que vai.
            As duas riram, juntas. Nunca fizeram isso, não verdadeiramente.
            - Então, ta esperando o que?
            - Ah - Suzana respondeu - As, as chaves...
            - Ah, pelo amor de Deus, até parece que tem algum ladrão nessa cidade, vai logo!
            Ela correu.
            - Eu sei onde fica a saída - Gabriela disse, tristemente, sozinha na sala, e saiu também.

***

                Estacionou o carro uma rua antes do velho bosque. O lugar todo já estava deserto, sem nenhum outro carro ou pessoa na rua. As folhas mal ousavam cair, em tanto silêncio, e quando o faziam, pareciam fazer o barulho de uma bomba atômica. Quando saiu de seu Palio Weekend, o modelo mais atual e mais completo possível, comprado com as verdadeiras toras de dinheiro que seus pais cediam desde sua última visita, fechou a porta com leveza, porém a batida ecoou pela rua inteira, como um fantasma. Já havia feito aquilo tantas vezes que nem se assustava mais.
            Era noite. Exatamente 20h30.
            Gabriela caminhou, a passos leves, esmagando cascalho, até o parque. Não importava quando ia ali, sempre estava deserto. Por vezes, via criancinhas e seus pais ou professores, brincando ou dando trabalho. Sempre que via a cena, se afastava o mais rápido possível. Era uma coisa que tinha com crianças pequenas. Não podia ver uma sem se lembrar do pequeno Marcos.
            Abriu o portão, fazendo-o ranger, sempre mantendo a expressão séria.
            Passou pelo exato ponto onde Yago, Felipe, Suzana e ela faziam piqueniques, ou imitações de piqueniques. Não parou nem para olhar, nem para curtir as lembranças. Tinha pouco tempo.
            Continuou caminhando, até chegar até a parte mais afastada do parque. A grande clareira verde, envolvida por flores e árvores. A parte mais abandonada da cidade, que boa parte dos habitantes nem sabia que existia. Talvez por que eles nem sequer chegavam na entrada do parque. Talvez pelas densas árvores, que tampavam a clareira, impedindo a visão para quem não queria ver.
            Descobrira aquele lugar no mesmo dia que chegara em Costa Valença. Desde então, não se passou um dia que não fosse ali para pensar.
            Mas pensar se tornou o último motivo pelo qual dirigia até ali.
            Avançou a extensão verde, com os tênis fazendo um barulho estranho na relva molhada pela fraca chuva que já caía, adiantada. A chuva ali costumava cair na madrugada apenas. Quando chegou no limite entre as árvores e a clareira, tomou cuidado para não pisar nas flores que tanto admirava, por terem crescido num local tão frio para uma boa vegetação. Se espremeu entre duas árvores, passando o corpo levemente, como sempre fazia. Olhou para sua frente. Sempre tivera medo do escuro. Sempre que olhava para aquela paisagem fantasmagórica, tingida pela noite, de milhares de troncos de árvores, deixando pouco espaço uma entre as outras, sentia arrepios. Era quase uma floresta fantasma, quase como se um monstro fosse cair do céu e arrancar seu coração. Mas aprendeu que tal monstro jamais cairia do céu, pois já estava a seu lado há muito tempo.
            Passou lentamente pela floresta, ignorando a sensação de adrenalina que sentia em seu peito. Não ousou fechar os olhos e respirar fundo, como sempre fazia. Apenas em frente. Tinha ainda muito chão para percorrer, e era bom que fizesse isso logo.
            Afastava-se cada vez mais da casa de Felipe, que ficava na direção oposta de seu destino.
            Quando finalmente achou a segunda clareira, já eram 20h52. O lugar era um vácuo completo, com exceção da casa de madeira em seu centro. Iluminada apenas pela lua, parecia tão abandonada quanto a floresta. De dia, tinha um tom alegre de madeira, mas de noite, era simplesmente negra e assustadora.
            Avançou, abrindo a porta que nunca ficava trancada. Um, por que não havia necessidade. Dois, por que não havia fechadura.
            Assim que entrou, deparou-se com o abajur ligado, e olhou para as cortinas fechadas. Mas é claro, pensou. Ele não se incomodaria de ficar no escuro.
            - Oi, amor - disse Gustavo, com o sorriso controlado e os olhos frios de sempre.
            Ele levantou-se, e beijou-lhe a boca. Não conseguiu resistir, nem afastá-lo. Sabia que não conseguiria. Deixou que ele mesmo o fizesse. Assim, não teria que trabalhar tanto para acabar em nada, e sairia com o coração despedaçado do mesmo jeito.
            - Como foi seu dia? - ele perguntou, assim que separou suas bocas.
            Gabriela fungou.
            - Hoje eu conversei com a Suzana - disse ela.
            Gustavo levantou uma sobrancelha.
            - Não fazia parte do que combinamos.
            - Não - ela concordou - Não fazia. Mas não teve nada a ver com o que combinamos ou deixamos de combinar. Eu contei pra ela do meu filho, e de como eu abandonei ele. E eu lembrei de como eu poderia ter sido. De como eu devia ter sido.
            Gabriela fez uma pausa, e olhou naqueles olhos inexpressivos. De certa forma, já esperava tal reação, mas a racionalidade não diminuía sua tristeza.
            - Eu lembrei da amizade que eu joguei fora. De tudo que eu ferrei nessa vida. E eu mandei ela viver. Mandei ela não desistir por algo que não era culpa dela.
            - E fez isso por que, se não fazia parte do acordo?
            - Por que não é isso que eu devia ter feito desde do inicio?
            Gustavo cerrou os olhos.
            - Com seu filho?
            - Com você.
            Ele se afastou, e Gabriela pôde sentir o controle em suas mãos, a vontade que ele tinha de empurrá-la e deixá-la cair violentamente. Por um momento, sentiu mais medo dele do que jamais sentira.
            - O que quer dizer com isso?
            - Que não tem mais acordo.
            - Você não pode voltar atrás agora - ele rosnou, por entre os dentes, com o rosto ficando vermelho.
            - Não só posso como vou.
            E, com algum esforço e muita dor auto infligida, ela poderia mesmo.
            Gustavo urrou de raiva, e chutou com força a mesa que estava a seu lado, fazendo uma das pernas de madeira voar.
            Gabriela manteve a expressão firme, com lágrimas nos olhos, não permitindo mostrar o medo que sentia.
            - Eu fiz tudo isso por você - ela disse - Eu menti, roubei, infernizei quem eu mais queria ajudar... por você. Joguei tudo fora por você. E tudo pra nada, por que tudo que vejo nos seus olhos é um vazio, um grande nada.
            Ela se aproximou, e a cada passo que dava, via-o ficar mais vermelho.
            - Eu desisti dos meus amigos, de concertar tudo, por você, e agora não tenho mais confiança nenhuma para recuperar.
            Ela tocou seu rosto, sentindo o calor das bolsas de sangue cheias de raiva.
            - Eu te amo - ela disse, e derramou as primeiras lágrimas - Mas eu não vou mais fazer isso.
            - Então prefere ficar sozinha, na seca, do que ter alguém a seu lado? - Gustavo retrucou, afastando com um tapa a mão de Gabriela.
            Gabriela recolheu a mão, e massageou-a. Doía, ardia muito. Como uma flechada em seu peito.
            - Do que ter alguém que não me ama a meu lado - ela corrigiu, sem vontade, deixando lágrimas pularem descontroladas de seus olhos.
            - Ah, e nisso você tem experiência.
            Ela acertou um tapa em sua bochecha, com muito mais força do que ela sabia que tinha. Fez-lo cair, com a mão no rosto, e expressão chocada.
            - Você nunca - ela disse - Nunca, vai saber o que é amar de verdade. Nunca vai saber verdadeiramente o que é sofrimento, até que enfiem uma bala em sua cabeça.
            Ela aproximou o rosto, flexionando os joelhos para ficar da altura do chão.
            - E Nathalia nunca vai ser sua, por que ela tem algo que você não tem, e esse algo é humanidade. Seres humanos não podem se apaixonar por monstros, não sem morrer mil vezes.
            Ela então esticou as pernas novamente, olhando aquele rosto raivoso com superioridade.
            - E eu vou concertar tudo. Antes que você possa ver, não haverá nada no caminho deles, e você vai apodrecer aqui, sozinho, sem ninguém.
            Gustavo abriu um sorriso diabólico.
            A cor fugiu do rosto de Gabriela, e ela sabia que Gustavo sabia.
            - Você tem certeza disso? - ele perguntou, com a voz calma e controlada novamente.
            - O que você fez? - ela falou, com a voz fraca e firme ao mesmo tempo.
            - Eu? Oficialmente, não fiz nada. Mas um número desconhecido não parece gostar muito da idéia de vê-los juntos.
            Gabriela sentiu suas mãos tremerem.
            - Queime no inferno.
            - É melhor fazer suas orações, por que posso te levar comigo.
            Ela se virou, o rosto contorcido de raiva, confusão, dor. Passou pelos vinte minutos de caminhada na floresta ainda mais rapidamente, mas sentiu como se tivesse corrido dez quilômetros. Pulou a flores da divisão entre clareira e árvores, e quase não parou para abrir o portão. Quando o fez, deixou-o aberto, um crime naquela cidade.
            Percorreu ainda mais rapidamente a rua, chegando a seu carro em poucos segundos.
            Bateu a porta com força, sob o risco de acordar todos os trabalhadores cansados que já tinham deitado-se para dormir, e enrolou seus dedos tentando fazer a chave se encaixar na ignição. O carro ligou com um estrondo, e saiu cantando pneus.
            Ignorou todos os sinais vermelhos.
            Não aguçou a vista a procura de pedestres que poderiam circular pelas faixas.
            Fez cachorros, gatos, diversos animais pularem rosnando de volta para as calçadas.
            Mas não diminuiu a velocidade.
            Chegou na rua de Nathalia, e parou de qualquer jeito, deixando um roda na calçada e três no chão, parecendo uma bêbada dirigindo. Freou com tanta força que seu corpo foi lançado cinco centímetros para frente, quase batendo os seios contra o volante. Tirou o cinto de segurança, que se provou inútil, e saiu do carro, deixando a porta aberta na rua deserta.
            Olhou a casa 330, vendo todas as luzes apagadas, menos a do que parecia ser uma sala.
            As cortinas amareladas estavam fechadas.
            Pensou em correr, bater na porta, e rezar para ser ouvida, mas então viu as duas sombras, contra a cortina.
            Mãos se levantavam.
            Um avançava contra o outro.
            Empurravam-se.
            Uma sombra levou as mãos aos cabelos, num gesto de desespero.
            A outra dava voltas na sala, parando para levantar o braços mais uma vez.
            Com seus ouvidos aguçados, ouviu gritos.
            Uma briga.
            E ela não duvidou que os donos das sombras eram Nathalia e Yago.
            Seu lábio tremeu, bem como suas mãos. Olho, incrédula, a cena que se desenrolava a sua frente. Caiu sentada no banco do carro, os olhos piscando, com se não acreditasse.
            Chegara tarde demais.
            Pôs as pernas para dentro, estarrecida, e ligou o carro novamente. Saiu cantando os pneus, com o coração pesando uma tonelada.
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