Hey galera :) Como podem perceber, a formatação da postagem tá um pouco diferente, mas é só por causa de um novo editor de texto que eu tô usando. E isso não importa muito na verdade. Então, leiam e comentam, ah, vocês conhecem o esquema xD

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Adolescentes

Teenagers - My Chemical Romance

FINAL DE JULHO

         Nathalia subiu as escadas, com um copo de água cheio até a borda na mão. Derramou algumas poucas gotas, que secariam no carpete fofo ou na madeira da escada. Só esperava que não manchasse.
         Quando chegou à seu quarto, já havia derramado o suficiente para matar a sede que sentia - fora idiota em descer para a cozinha e esquecer de tomar um copo d’água -, mas não se importava muito. Talvez por que carregava água da torneira, e não podia imaginar por onde aquilo passara antes de chegar à sua casa.
         Na mesa de cabeceira, à luz do sol, um lírio branco, perfeitamente bem cuidado, reluzia, refletindo a luz para o quarto inteiro. Não o tornava menos escuro, mas o tornava incrivelmente mais belo.
         Derramou aos poucos o conteúdo do copo ao redor da planta, fazendo a terra brilhar encharcada. A flor já durava três semanas agora. Na verdade, a terceira semana se completava naquele mesmo dia. Ela não sabia como conseguira - não conseguia nem plantar um pé de feijão num pedaço de algodão molhado -, mas o belo lírio sobrevivera até ali, em suas mãos. Todo dia, pegava o mesmo copo de água, molhava o mesmo carpete e a mesma escada para enfim molhar a planta. E todo dia esquecia que seu quarto tinha um banheiro, e que poderia muito bem pegar qualquer potinho vazio dali. Seria bem mais fácil. Mas essa palavra já perdera o significado em sua vida.
         Quando, por fim, pousou o copo vazio na mesa, esquecendo-se totalmente que isso a mancharia, percebeu uma pétala, caída no chão. Sentiu um aperto no coração, e abaixou-se para pegá-la. Foram várias pétalas que tiveram o mesmo destino, e Nathalia preocupava-se tanto com elas como se preocuparia se fosse o seu cabelo caindo em tufos gigantescos. Ela cavou, com as unhas bem feitas que sobreviveram àquela situação sem desmanchar o esmalte rosa tantas vezes quanto pétalas caíram, um pequeno buraco no pequeno vaso, e depositou ali a pétala caída e já amarelada.  Não sabia absolutamente nada de botânica, mas talvez, assim novas flores nascessem. Quem sabe não o fariam? E quem sabe, se estivesse errada, não serviriam de adubo para o presente de Yago?
         Ela ainda não sabia, mas dali a poucas semanas, o primeiro brotinho surgiria. E logo depois, teria um belo buquê de lírios brancos, que cresceria mais e mais.
         Pegou a mochila jogada na cama, abarrotada de livros grossos de ensino médio, e fez o mesmo esforço que fazia todas as manhãs para jogá-la nas costas. Três semanas fizeram-na perder o jeito, afinal, havia largado as aulas de verão no primeiro dia, pouco importando suas notas em álgebra.
         E agora tinha que voltar para a escola, para a outra metade do ano.
         Só esperava que não fosse como a primeira.

***
         Ela estava errada.
         Entrou na escola, sem ver Yago. Olhou para o relógio, e, para variar, ainda faltavam dez minutos para começar a aula, o que significava que ainda tinham quinze minutos para a aula começar de verdade. E ele não desperdiçaria os últimos quinze minutos de sua liberdade com nada além de cama. Nem que tivesse que chegar atrasado - o que raramente fazia. Então, ficaria sozinha por um bom tempo.
         Ou foi o que pensou.
         Assim que pôs os pés na escola, sentiu os olhares pularem para cima dela. Alguns, que no entanto pareceram um mundo inteiro.  Eles logo desviaram o olhar. Nathalia não soube o por que. Continuou andando, olhando para os lados. Capturou mais dois olhares, que voltaram, corando, à seus lugares. Os tênis faziam barulho ao amassar folhas e quebrar cascalho, mas eram quase abafados pelos cochichos. Estavam todos organizados em pequenos grupos, de três, quatro, cinco, oito pessoas. Não parecia haver ninguém que não conversasse, encabulado - havia até mais velhos ou mais novos se amontoando com desconhecidos, apenas para entrar no assunto.
         Nathalia sentiu um arrepio, e caminhou mais rápido, entrando no corredor que dava para as salas.
         A situação não estava melhor ali. Na verdade, conseguia ser pior. Um amontoado de pessoas se reunia ao redor do mural, no fundo do corredor, impossibilitando qualquer visão a uma distância maior que dois metros.  Ela caminhou até lá, esquecendo-se de deixar a mochila pesada na sala. Abriu caminho entre os que estavam mais atrás - os mais baixinhos, e consequentemente mais impossibilitados de abrir caminho para si mesmos -, chegando até uma fileira um pouco mais próxima, porém ainda impenetrável. Se espremeu por ali (teve certeza que sentiu uma mão de homem em suas pernas, e era bom o desgraçado rezar para que ela não descobrisse sua identidade), quase perdendo a mochila no caminho. Jogou-a contra alguns colegas e alguns desconhecidos, fazendo-os gemer e reclamar. Ela fazia o mesmo, sentindo cotovelos, braços, ossos e cabelos contra todo seu torso.
Mas, bem, a confusão já estava ali bem antes, não é?
         Quando finalmente chegou na frente o suficiente - havia quase que um vácuo de pessoas ali, como se ninguém ousasse se aproximar demais, talvez por medo de serem espremidas contra a parede -, conseguiu ver o que atraia tanta gente.
         Sentiu as pernas fraquejarem, e o rosto corou, tornando-se tão vermelho quanto um tomate.
         Não sabia se aquilo que queimava seus olhos eram lágrimas ou uma dor de cabeça súbita, mas sabia que pioraria muito depois.
         Alex.
         Beijando Yvonne.
         Numa foto.
         O mesmo estacionamento, a mesma escuridão.
         Sua expressão devia estar muito engraçada, mas - com sabedoria -, ninguém ousava gargalhar.
         Um garoto, no entanto, fez graça.
         - Essa sua amiga curte essas coisas contigo? - ele disse, rindo-se e acarretando uma onda de pequenas risadas nos garotos às suas costas.
         Mais tarde, Natalia não soube dizer se todos pararam de rir do nada ou se pararam no momento em que sua mão voou no nariz do engraçadinho, quebrando-o e tirando sangue.
         Imaginou se a convivência com Suzana não a estava transformando.
         O garoto caiu, gemendo, com lágrimas saindo dos olhos. Nathalia deixou escapar uma risadinha psicótica, fazendo todos se afastarem ainda mais dela. Percebeu então os olhares assustados ao seu redor, tanto de garotos como de garotas. Assentiu, pensando que era a coisa mais inteligente a fazer. Limpou o punho na calça jeans, sentindo os ossos doerem. Erro de principiante, ou talvez fosse como naqueles filmes em que socava-se forte demais e doía de qualquer forma. Tentou-se imaginar esfregando um saco de ervilhas congeladas na mão, até lembrar que sua mãe comprava ervilhas apenas em lata.
         - Ai - o garoto ainda gemia.
         - Vai... vai se arrepender disso! - ele choramingou, segurando o nariz, sangue jorrando por entre seus dedos. A voz saia distorcida, e só então Nathalia notava os músculos por debaixo da camisa, o que tornava a cena ainda mais estranha. Não se sentiu mal ao repetir uma risadinha, debochada dessa vez, e perceber que a multidão inteira a acompanhava.
         - Mal posso esperar por isso - para sua surpresa, soou mais durona do que pensava; imaginou-se com a voz embargada, a ponto de pedir desculpas.
         O garoto levantou-se, e parecia a ponto de retrucar num choramingo mal-educado, mas uma voz grossa o interrompeu.
         - Que droga é essa? - a voz gritava, e os alunos sabiam que vinha do fim do corredor, apenas por que já haviam se acostumado com ela; qualquer forasteiro diria que o dono da voz estava a seu lado.
         E qualquer forasteiro também pensaria, pesarosamente, que “droga” poderia muito bem ser substituída por “porra”.
         Passos pesados avançaram no corredor, subitamente silencioso. Era o barulho de sapatos de couro misturado com um terremoto em Nova York. Todos ali sabiam que podiam considerar-se mortos, apenas por respirarem.
         O inspetor Victor chegava cada vez mais perto.
         Estava vestido como sempre: terno preto empoeirado, com os ombros absurdamente largos, mesmo para ele, gravata vermelha de bolinhas (à primeira vista, não dava para levá-lo a sério, mas o inferno começava de qualquer jeito), sapatos de couro original, absurdamente hipócrita para um membro da Sociedade dos Animais. O cabelo ralo, o único resquício do que já fora uma cabeleira gigantesca anos antes de tornar-se inspetor, e o queixo proeminente contribuíam para o visual sinistro e irritadiço do senhor.
         Ele também era conhecido por perseguir alunos, e, entre os alunos mais novos, havia um rumor de que uma vez socara um aluno do oitavo ano que o desrespeitara. Os alunos mais velhos sabiam que isso não podia ser verdade. Tinham quase certeza. Uma boa certeza. Alguma certeza.
         Quando ele estava à um passo da horda de alunos, o gigantesco grupo de jovens abriu-se como o Mar Vermelho, com medo de criarem um segundo Mar, só que de sangue.
         - O que todos vocês estão fazendo aqui?! – ele perguntou, ainda gritando, por mais que o aluno mais distante estivesse a poucos metros dali.
         É claro que a nova gritaria atraiu novamente os alunos que já haviam se afastado dali.
         A atenção do inspetor voltou-se para o mural, onde estava pendurada a foto com Alex e Yvonne - a segunda não estava tão visível, mas Nathalia podia dizer que era a francesa da mesma forma que os outros podiam dizer que era mulher; a palavra “LÉSBICA!!!” escrita, grifada e escurecida, logo abaixo do limite da fotografia, também ajudava a distinguir -, e Nathalia sentiu um certo peso no peito ao lembrar-se do por que tinha socado o garoto. Preocupou-se mais uma vez, imaginando qual seria a reação da amiga ao ver aquilo.
         Um pouco da preocupação se esvaiu quando notou a reação do inspetor.
         Ele arrancou a foto da parede, com o rosto vermelho e a expressão contorcida em puro ódio - Nathalia imaginou se tal comportamento, bem como sua maneira de agir no dia a dia, não era causado por falta de sexo -, levando consigo boa parte da cartolina colorida que cobria o mural. O papel vermelho contorceu-se em sua mão, pendendo de maneira cômica, enquanto o inspetor Victor segurava a foto com a maior leveza possível - e isso quer dizer que quase a furava com as unhas.
         - QUEM. FEZ. ISSO? - ele perguntou, e os alunos já sabiam que aquele não era um berro normal. Aquela veia saltada que ele tinha no pescoço parecia a ponto de explodir, e Nathalia quase podia vê-la com a forma de um órgão. Talvez um coagulo tivesse se formado devido ao estresse. Em trinta segundos.
         Alguém, do mesmo grupo do garoto de nariz quebrado, disse, ao fundo:
         - Foi a Alex.
         Ninguém ousou rir, e o inspetor demorou alguns segundos (foi possível perceber por sua expressão) para perceber que era brincadeira, e quando o fez, conseguiu transparecer ainda mais raiva.
         - VOCÊ! – ele apontou, a voz já não soando tão estridente; agora parecia rouca e cansada, porém ele ainda fazia questão de gritar - PRA INSPETORIA!
         Não foi só o condenado que ficou branco.
         Ele nem tentou argumentar. Apenas cambaleou, desajeitado, até o fim do corredor.
         - VOCÊS - ele voltou a gritar, e dessa vez passou o dedo por cada rosto, parando por fim em Nathalia. Ela sentiu vontade de afastá-lo, mas sabia que apenas pioraria as coisas - QUEM. FOI?
         Após um silêncio constrangedor, habitado apenas pela respiração de raiva de Nathalia, ele brandiu novamente:
         - SEUS INÚTEIS! - e, como não havia castigo que pudesse dar, continuou simplesmente: - VÃO PARA SUAS AULAS!
         - Sim, senhor, general – disseram em coro.
         Você que está lendo, deve pensar que estavam brincando. Mas não estavam.
         E, no burburinho que se seguiu, Nathalia avistou um rosto distante.
         Alex, parada, com uma expressão estarrecida, fitando a foto que o inspetor ainda segurava.
         E a expressão que Nathalia imaginava não chegava nem perto do quão destruída ela parecia na vida real.
         Ela correu, voltando de onde vinha.
         Nathalia deixou a mochila, que só agora percebia que ainda carregava, escorregar em seus ombros e cair até o chão, e pôs-se a correr atrás da amiga.
         - Você - o inspetor Victor sussurrou, calma e ameaçadoramente, contradizendo um pouco com a face ainda vermelha - O que aconteceu com seu nariz?
         Nathalia virou-se por apenas um momento, e deixou o rosto transmitir toda a raiva que sentia naquele momento. Sentiu que estava sendo observada pelo garoto que socara, e voltou-se a correr. Não precisava saber leitura labial ou virar-se novamente para saber que o garoto dizia: “Um acidente”.
         Sorriu consigo mesma, mas o sorriso logo deu lugar à preocupação.
         O sinal tocou.

***

         Encontrou Alex encolhida no canto do banheiro feminino, chorando - e nem quis pensar em quantos germes havia ali, ou quantos vezes o lugar era limpo por dia, ou por ano, talvez.
         Fechou a porta do banheiro, trancando-se dentro.
         - Alex...
         - Não - ela respondeu, em meio ao choro, porém Nathalia não sabia o que aquele “não” significava. Recusa de ajuda? Recusa de ouvir bobagens do tipo “vai ficar tudo bem”? Ou talvez, era apenas aquilo que seu coração mandava dizer, sem sentido algum?
         - Alex, aquilo que você viu...
         - Não foi você, foi? - ela finalmente conseguiu completar a frase, quase ininteligível em meio ao choro.
         Nathalia sentiu-se ofendida.
         - EU? - ela gritou, quase esquecendo o por que de estar ali.
         - Desculpe - Alex respondeu, com a voz diminuindo cada vez mais, e o choro voltou a tomar conta.
         Nathalia suspirou.
         - Não, desculpe eu - e ela nem se importou com o quão horrível a rase soou. Abraçou-a, fazendo a cabeça da amiga pousar em seu ombro.
         - Quem poderia fazer isso? - Alex sussurrou, numa pausa entre soluços e lágrimas.
         - Não sei, mas eu posso dar uma de Nikita com ela.
         Alex riu.
         - Pelo menos sabemos que é ela? - ela perguntou.
         - Tem de ser. Que homem se interessaria por isso?
         Alex tentou esboçar um sorriso.
         - Posso nomear pelo menos duzentos de quinhentos nessa escola, e os outros trezentos são gays ou menores de doze anos.
         Nathalia corou, e soltou uma risada.
         - Quis dizer por fofoca.
         - Ah - ela disse - O número de gays ta aí.
         As duas riram mais uma vez, e então o silêncio dominou. O peito de Alex voltou a se contorcer, e soluço mais uma vez.
         - Ah, não, Alex - Nathalia disse - Para de pensar! Não pensa, esquece tudo!
         - Não dá!
         - Foda-se, para agora!
         Nathalia receou ter sido dura demais, mas Alex controlou-se um pouco. Estava mesmo muito parecida com Suzana.
         O que a fez lembrar-se.
         - Eu soquei um garoto hoje - ela disse.
         Alex primeiro encarou-a, boquiaberta. Depois mordeu os lábios, esboçando um sorriso, e por fim, começou a contorcer-se numa risada.
         Nathalia tentava dizer “É sério!”, mas ela mesma não conseguia parar de rir. Tentou sacudir Alex pelos ombros, mas o máximo que conseguiu fazer foi segurar a amiga, enquanto as duas riam de forma que seus estômagos doíam. Acabaram então as duas caídas no chão, sem ar, com as testas latejando por chocarem-se contra o piso frio. Somente horas mais tarde Nathalia lembrou-se de higienizar o rosto todo, ainda por não confiar no serviço de limpeza da escola.
         Quando levantaram-se, enfim, voltaram ao silêncio.
         - Vamos pegar ela, tudo bem? Eu prometo - disse Nathalia.
         Alex assentiu.
         - Ou ele - completou.
         Nathalia assentiu de volta, esboçando um sorriso paciente, que também deixava claro que ela não acreditava muito na segunda opção.
         - Ei - ela disse - Seu cabelo tá verde.
         - E só percebe isso agora? - Alex riu - Eu disse que viria de Senhora da Terra.
         - Há, há. Tá bonito.
         Alex sorriu. Seu sorriso, somado às lágrimas negras de maquiagem borrada que desciam por seus olhos fizeram Nathalia lembrar-se de um Pierrot, o palhaço triste, de modo que a amiga parecia fazer parte de um fantasia distante, como se estivesse deslocada ali.
Mas seu sorriso desapareceu bem no momento em que uma nova voz surgiu no banheiro.
         - Eu não ficaria tão juntinha assim, de sua amiga, depois do que vimos hoje. Não é, Nathalia?
         Alex reconheceu aquela voz de algum lugar, mas sabia que Nathalia tinha mais história com ela por sua expressão.
         Uma menina linda saiu da cabine, por mais que Alex fosse suspeita por falar.
         - Olá - ela disse, simpaticamente. Tentou rastrear qualquer rastro do sarcasmo que sentira antes na voz aveludada, mas não conseguiu.
         Nathalia levantou-se, com a expressão firme e calma, bem como ela fazia quando estava extremamente zangada.
         - O que está fazendo aqui?
         A garota a ignorou.
         - Prazer, meu nome é Gabriela - disse para Alex, ainda com aquele sorriso estonteante.
         E um choque percorreu seu corpo, ao reconhecer aquele nome, e no que se seguiu, Alex não pôde ser mais do que uma espectadora.
         - Olha pra mim - Nathalia disse, empurrando o ombro de Gabriela - Me responde.
         Gabriela recuou dois passos com o empurrão, mas logo voltou à sua pose normal.
         - Eu estudo aqui.
         Nathalia estava a ponto de negar, mas a cor deixou seu rosto ao perceber o que ela queria dizer.
         - Não...
         - É mais fácil pedir transferência no meio do ano, sacas?
         Novamente, Nathalia sentiu-se incapacitada de dar qualquer resposta inteligente.
         - E eu trouxe ele - Gabriela disse, e Nathalia teve certeza de que ela divertia-se com sua expressão.
         Num momento de raiva, Nathalia disse:
         - Foi você, não foi?
         Gabriela formou uma expressão genuinamente confusa.
         - Nessa você terá de ser menos vaga.
         - Foi você que colocou aquela foto no mural!
         Ela apontou para o nariz de Gabriela, bem como ela via os padres fazer em filmes de caça às bruxas (palavra que, ironicamente, se encaixava bem na situação).
         Gabriela riu.
         - E eu vou me rebaixar pra isso?
         - Você se rebaixa até onde tem um colinho quente pra sentar, não é, minha querida?        
         Com essa, Gabriela sorriu, mas ao mesmo tempo mostrava seriedade.
         - Se não me quer nessa escola, não precisa ficar inventando coisas que eu não faço. Eu não coloquei aquela foto no mural. E tenho meus níveis de colinhos quentinhos, querida. Posso ser puta, mas sou refinada, e não se esqueça disso.
         Ela sorriu ainda mais, fato que deixou Nathalia ainda mais irritada.
         - Se não me quer aqui, basta dizer. Mas não prometo que vou me afastar.
         - Você já não tem o colinho quentinho da vez?
         - Ah, tenho. E se me lembro bem, eu mandei que ficasse longe dele. E é bom que fique, mà cherie.
         Ela sorriu, e depois voltou seu olhar para Alex.
         - Desculpe, não quis ofendê-la, mas francês está no meu sangue.
         - Deixa ela em paz - Nathalia brandiu.
         - E você? Vai deixar meu homem em paz?
         - Eu não vou ter culpa se o colinho quentinho dele não estiver satisfeito contigo.
         Dizendo isso, ela sorriu maliciosamente. Se não conseguisse ver a raiva estampada em seus olhos, Alex jamais admitiria que aquela era sua amiga Nathalia. A doce Nathalia, que a consolara até então.
         Gabriela obrigou-se a sorrir também.
         - Viu? - ela disse - Não somos tão diferentes.
         - Exceto que eu tenho alguém que me ame.
         - Agora - ela disse - Ele te ama agora.
         Nathalia sentiu as orelhas queimarem.
         - Por que, pelo que eu sei, ele também amou outras garotas. Por dois dias. Três. Mas no final, era sempre pra mim que ele voltava.
         - Agora, me diz - Gabriela continuou, aproximando-se de Nathalia, até que sua voz não passava de um sussurro totalmente audivel - Você realmente acha que foi contigo que ele perdeu a virgindade?
         Naquele momento, Nathalia não pensou em seus atos; num momento, apenas sentia a raiva queimar dentro de si. No outro, ainda sentia a raiva, porém Gabriela estava no chão, com a mão no rosto e os cabelos, antes perfeitamente encaracolados, bagunçados de forma que parecia que rolara num monte de folhas. Quando ela tirou a mão da bochecha, viu um grande vermelho, e Nathalia sentiu sua mão esquerda doer. Era o segundo soco que desferia no dia - o segundo soco que desferia na vida -, e de alguma forma conseguira machucar ambas as mãos.
         Gabriela levantou-se, cambaleante, encarando o olhar vencedor de Nathalia. Quando enfim estava de pé, com os cabelos novamente arrumados, levantou a mão para devolver o golpe.
         - Faça isso - disse Nathalia, na metade do caminho da mão de Gabriela até a sua cara - e vai ter volta. E não esqueça do detalhe que você merece, e sabe disso.
         Gabriela continuou parada, por um instante, e então abaixou a mão. Apenas empurrou Nathalia uma vez, mas não foi o suficiente nem para fazê-la recuar mais que um passo.
         Uma mecha de cabelo negro recaiu sobre a bochecha de Gabriela, tapando a ferida. Era como se aquilo nunca tivesse acontecido.
         Contrariada, ela seguiu para a porta.
         - Isso ainda não acabou - ela disse, destrancando a porta, saindo para seu primeiro dia de aula, que Nathalia tivera o prazer em estragar.
         - Puta - Nathalia resmungou.
         - Eu devia ter socado ela ainda na boate - Alex concordou.
         As duas riram, mas suas risadas cessaram quando o inspetor Victor apareceu na porta.
         Nathalia olhou rapidamente para seu relógio. 7h23. Mais de vinte minutos de atraso, e ela tinha certeza que era a desculpa que precisavam para incriminá-las de matar aula.
         - Oh, oh - elas disseram, ao mesmo tempo.
         Às costas do inspetor, Gabriela passou rapidamente, fazendo um sinal de tchauzinho.

***

         Alex sabia que não deveria estar fazendo isso.
         Ela entrou no hotel, no limite da cidade, muito além do que já havia ido nos quatro meses que morava ali. Era uma área totalmente desconhecida, talvez até perigosa... Mas não se importava. Apenas não queria ficar sozinha.
         Pediu informações na portaria. O porteiro, um homem gordo e barbudo, sem uniforme, apenas de shorts florais e uma camiseta branca, com um blusão igualmente floral por cima, olhou-a sem interesse, e indicou o andar e o apartamento. Como não havia elevadores, teve de subir seis lances de escadas, até o último andar.
         Quando chegou naquele corredor mal iluminado, com apenas doze portas, todas enumeradas pelo número seis, de sexto andar, seguido por uma letra do alfabeto, teve medo de tropeçar em algum gato morto, ou qualquer coisa do tipo.
         O apartamento que procurava era o segundo, então começou a procurar pelo 6B.
         Quando achou, bateu na porta três vezes. E mais três vezes. A demora a deixava aflita, principalmente naquele lugar. Vai que houvesse algo - ou alguém, o que seria um pouco menos de paranóia - a observando?
         Para seu alívio, ouviu a parta destrancar.
         A primeira expressão da dona do apartamento foi de confusão.
         - Mas... Alexandra?
         Ela tentou não irritar-se com a necessidade de falar seu nome completo.
         - Oi - ela respondeu.
         - O que se passa aqui?
         Ela sentiu a ponto de desabar num choro incontrolável novamente.
         - Eu tive um dia.
         Ela entendeu na hora.
         - Posso entrar? - Alex perguntou.
         - Claro - Yvonne respondeu, dando espaço para a pequena garota entrar; logo fechou a porta, isolando-as do resto do mundo.
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