E ae galera :) Desculpem pelo imprevisto semana passada, foi um problema com o Background do blog. Mas não se preocupem: a partir daqui, será um capítulo por semana, toda sexta, se não houver outros imprevistos, o que creio que não haverá. Semana que vem tem capítulo novo sim, sem problema nenhum. Esperou que curtam esse :)

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Quase Fácil

Almost Easy - Avenged Sevenfold

Nathalia virou-se de lado. Com um suspiro de cansaço, relutou ao abrir os olhos. Ficou listando motivos para não fazê-lo, que ainda devia ter tempo, que o despertador ainda não tocara. Quando este enfim tocou, deu-se mais cinco minutos, que acabaram sendo dez, que acabaram sendo quinze. Quando viu, já estava com a manhã inteira atrasada.

O quarto ainda estava a mesma bagunça de antes. As flores jaziam no chão, e, em algumas pétalas mais claras, pôde ver gotas de sangue. Lembrou-se de terem pisado nos espinhos dezenas de vezes, até o momento em que desistiram de se levantar. Olhou para os pés, no final do lençol branco - um toque de Yago, talvez para deixar a noite inteira temática, talvez para fazer contraste com o edredom negro -, e não viu manchas de sangue. Talvez o ferimento tivesse estancado, não lembrava se havia feito algum curativo.

Sua mente viajou até Yago. Ao perceber que ele não estava no quarto - e nem no banheiro, por que as flores no caminho estavam intactas e o cômodo não surtia barulho -, tomou um susto. Olhou para o lado da cama, só para confirmar. A janela estava aberta, e a luz do dia fazia dos lençóis brancos uma coleção de luz, um inimaginável número de sóis recolhidos. Passou os olhos no quarto, mais uma vez. Pensou se ele não havia descido até o primeiro andar, para tomar café ou coisa assim. Mas então ele teria de se encontrar com sua mãe. E ambos sabiam que isso não era nada bom, com ou sem consentimento da parte dela.

E então, viu um envelope, exatamente igual ao da noite anterior. Ficou pensando se Yago o havia reaproveitado ou se havia comprado outro. Dentro, apostava que haveria mais um pedaço de papel, mais uma mensagem.

E, ao lado, estava o lírio branco, com todas as pétalas ainda presas, com o caule ainda verde. Intacto. Nathalia se arrependeu de tê-lo deixado cair. Deveria tê-lo segurado a noite toda.

Puxou o envelope com a mão esquerda, e com a direita pegou a flor. Cheirou-a, exatamente como havia feito na noite anterior. Abriu então o envelope, e tirou a mensagem, escrita na mesma letra garranchada de Yago.

Amor,
Bom dia, antes de mais nada, pois espero que a noite já tenha sido boa o suficiente. Tive de sair mais cedo, p/ arrumar umas coisas (lê-se "minha mãe ñ sabe que saí"). Desculpa por ter q te deixar sozinha, mas ñ teve jeito. Tive de...
vire ->

Virou a mensagem, e viu o garrancho escrito até a metade do outro lado. Notou então que o papel era novo, e perguntou-se se Yago levara um de emergência. E quantos daqueles papéis realmente comprara, já que não deveriam ser vendidos separadamente.

...deixar esse bilhete p/ vc, e odeio isso. Da próxima vez, vamos acordar juntos, prometo. Te vejo na escola, então lá a gente conversa direito.
Beijos, te amo
Yago

Ela sorriu. Sabia que tinha apenas trinta minutos para se arrumar, mas não ligou em deitar-se novamente. Perderia o primeiro tempo do curso de férias mesmo. Então descansar, sentir o cheiro de seu namorado em seu corpo, e nunca mais querer sair da cama, pareciam boas ideias.

***

Entrou silenciosa na escola. Estava disfarçada, no meio de tantas pessoas, de modo que ninguém poderia notar nela. De modo que Felipe não poderia notar nela.

Usava um chinelo, por causa de um machucado no pé. Dava para ver a linha vermelha, que ia do dedão até a sola do pé, proveniente de um acidente com uma faca. Cada passo ardia um pouco, mas nada que ela não pudesse aguentar. Tivera de vir andando, de modo que agora arfava um pouco. Batera o dedão, já machucado, na quina da mesa de um jornaleiro, de modo que seu pé também latejava.
Mas dor nenhuma lhe importava. Só tinha que chegar logo na sala, e sentar o mais longe possível de Felipe, e, consequentemente, de Nathalia e Yago.

Eram poucos os que sabiam de sua gravidez, mas sua barriga já começara a ficar um pouco proeminente. Logo todos perceberiam. Não ligava para as piadas de gorda, sabia que não tinha mais forças para meter a mão na cara de alguém. Dessa forma, quando passou pelo portão, um garoto caçoou dela. Pensou em ignorar, mas jogou uma pedra. Acertou bem no meio de sua testa, de modo que ele se calou e se encolheu de volta para seus amigos. Suzana continuou a andar. Ninguém olhava para ela. Talvez, todos soubessem que uma hora isso aconteceria.

Virou no corredor das salas. Totalmente deserto, talvez por que o relógio ainda marcava 6h30. Todos os alunos que haviam chegado, ou vieram por pressão dos pais, ou não podiam perder o ônibus. Seria dificil encontrar uma exceção ali. Logo, todos estavam ainda no portão, o ponto preferido de todos, conversando e brincando.

- Suzana - chamaram à suas costas. Não era nem um grito, nem um comando. Era simplesmente um chamado numa voz sem a menor expressão.

Ela se virou lentamente, e esperou ele chegar.

Não havia nenhum sorriso em seu rosto. A expressão não era tão vazia assim, mas de longe, Suzana não conseguiu identificar. Quando ele se aproximou, ela viu. Ele expressava dúvida. Provavelmente a vira fugindo. Provavelmente a chamara mais de uma vez. E ela quase conseguira fugir.

De repente, eles estavam frente a frente. E ela não conseguiu identificar o momento em que o ar se tornou tão quente e pesado.

- Oi - ela disse. Não percebeu que havia gaguejado até muito tempo depois.

- Oi - ele respondeu de volta, com a voz sussurrada e rouca. Seus olhos dançavam pelo corpo de Suzana, como se ali fosse encontrar alguma explicação.

Ela suspirou.

- Está tudo bem? - ele perguntou.

- Não - ela disse, sem deixar a voz se embargar.

Ele suspirou, de um jeito exatamente igual ao que ela havia feito.

- O que foi?

- Eu não tô pronta pra isso.

- Isso o que?

- Nós.

Ele engoliu em seco. Talvez fosse exatamente essa a resposta que ele esperava. Que ele sabia que ia receber. A pontada de esperança que deveria haver em seu coração agora desaparecera completamente. Suzana pulava, inquieta, com as pernas tremendo.

- Você me amava antes disso tudo - ele disse.

Ela não conseguiu controlar a voz. Muito menos seu corpo e seus olhos. Chorou, e deixou a voz afinar com o descontrole.

- Amava - ela disse, e não conseguiu continuar.

Ele assentiu, apertando os lábios. Engoliu em seco, e olhou ao redor. Nunca entendera por que as pessoas na televisão faziam isso. Parecia tão irreal e dramático. Agora entendia o por que. Faziam para não ter de olhar nos olhos da outra.

- O que mudou agora?

Ela levou a mão à barriga.

- Isso - ela disse, deixando duas lágrimas escaparem - Isso mudou. Eu vou ter um filho, Felipe. E esse filho não tem pai. Não importa o que você faça, você nunca vai ser o pai dessa criança. E, se você ficar comigo, é isso que vai parecer. Que eu tô contigo só pra ela ter um pai.

A essa altura, ele também chorava.

- Eu não ligo - ele disse.

Ela sorriu, e soltou um risinho choroso. Sentiu o sorriso fixar-se amargamente.

- Você nunca vai ligar. Você nunca vai ver o outro lado disso tudo. Sempre vai me amar, e isso é horrível.

Ele fechou os olhos, e engoliu em seco.

- Então, o que você vai fazer?

Ela pensou por um momento, e limpou os olhos. Não havia colocado maquiagem naquela manhã, de modo que suas olheiras ficavam mais aparentes.

- Amigos - ela disse. Parecia mais uma pergunta do que uma afirmação, e sua voz deixava claro o quão incerta estava sobre aquilo.

Felipe meneou a cabeça negativamente.

- Nunca - ele disse, com a voz firme e embargada ao mesmo tempo - Nunca, vamos ser só amigos.

Suzana fechou os olhos. Seu rosto se contorceu numa expressão de dor.

- Então o que Felipe?

- Nada - disse ele - Melhor ser nada do que olhar no seu rosto todo dia, ficar vermelho, chorar e querer morrer.

Ela assentiu.

- Nada.

- Nada.

- Então tá.

- Tá.

Ela se desviou dele, e seguiu seu caminho.

- Suzana - ouviu às suas costas, e se voltou, com o rosto ainda contorcido de dor. Lágrimas escapavam de seus olhos, e suas covinhas pareciam um pequeno lago.

- Eu te amo.

Ela soltou um gemido de dor, e um soluço alto.

- Eu também te amo.

- É você quem está indo embora.

- Sou eu quem não tem escolha.

Dizendo isso, virou-se e entrou na sala de aula vazia. Toda a discussão não durara mais que dois minutos. Dois minutos para destruir completamente duas pessoas. Aproveitou o resto do tempo que tinha, e chorou como nunca havia chorado na vida.

***

- Doeu? - Cristina perguntou.

Estavam na casa dela. Suzana ia lá bastante vezes. Era o único lugar que se sentia segura. Sua casa não era suficiente. Lá se sentia sufocada, com tanta preocupação da mãe. Com Nathalia, ainda havia uma sensação de paz, mas não conseguia evitar de olhar para os lados, sempre checar se havia mais alguém ali.

Na casa de Cristina, não havia isso, pois não havia nada para olhar.

Era a terceira vez que a visitava, então já memorizara alguns detalhes. As paredes eram azul claro. Um tom calmo, não berrante. Havia uma mesinha, sem gaveta, apenas madeira e quatro pernas, próxima à porta, com envelopes, papéis, contas e um vaso de flores coloridas em cima. Do outro lado do pequeno muro, de um metro no máximo, que dividia esse corredor, ficava a cozinha. O balcão que se estendia era coberto com uma pedra de negrito, e estava mais limpa que sua cozinha jamais estaria. Haviam fotos, diplomas, espalhados pelas paredes, mas Suzana nunca deu muita atenção à elas. Algo em fotografia a entediava. O sofá ficava no outro canto da sala, ao lado da escada que levava ao segundo andar, e era marrom. Simples, de tecido mesmo. As sete almofadas transpostas no móvel agora estavam jogadas no chão, para dar espaço para elas sentarem-se. A mesinha que ficava no centro da sala, feita de madeira e vidro, também fora afastada, e, mais próximo do sofá, estava um suporte de pé, bem como água oxigenada, curativos e produtos que Suzana nem sabia o nome. Cristina estava cuidando do corte em seu pé. Segundo ela, sua mãe não havia desinfeccionado direito o ferimento, e a crosta negra de sujeira que se formara devido ao chinelo era prova disso.
Ela passou um pedaço de algodão, já molhado sujo de poeira e sangue do ferimento reaberto, com força pela linha vermelha que descia o pé. Deixaria uma cicatriz, Suzana não duvidava.

- Um pouco - e gemeu.

- Não isso, isso eu sei que dói. Quis dizer seu namorado.

E então ela sufocou um grito. Sentiu como se seu pé havia sido aberto e que agora só restavam ossos. Mas sabia que devia apenas ter rasgado a pele mais um pouco. Mordeu o lábio, e sentiu que logo isso ficaria tão desconfortável que seu lábio incharia. Ou talvez apenas não quisesse responder.

- Suzana? - Cristina levantou o rosto. Talvez o silêncio tivesse durado muito tempo.

- Ele não é meu namorado - disse ela, por fim.

- Desculpa, querida, mas do jeito que você falou, parece que é namoro sim.

Suspirou.

- Quando você tinha quinze anos, essas coisas de namoro deviam ser mais fáceis. Uma pessoa amava outra, ponto. Amor bastava. Quisera eu que amor bastasse para mim. - ela se encolheu um pouco, deixando apenas o pé machucado esticado.

- Amor nunca é o suficiente, seja qual for a época. Já viu aquelas novelas antigas? Que tudo que adolescente fazia era falar "qual é", "aí, mano", "gatinha" e engravidar e fumar? Então. Era assim. Menos exagerado, mas era assim.

Ela trocou de algodão, puxando um ainda branquinho e seco. Mergulhou-o em água oxigenada e voltou a passar pelo corte, dessa vez um pouco mais de leve.

- Naquela época - ela continuou - Não se namorava. Foi ali que começou esse negócio de hoje em dia ter puta e galinha. Mas amor que é bom mesmo, ah, era raro. O que todas queriam era beleza e dinheiro.
Suzana corou.

- Não quero dinheiro.

- Sei que não, querida - olhou para ela, com uma expressão maternal, e passou as costas da mão limpa na bochecha de Suzana. Uma carícia - Só estou falando que amor não é suficiente. Naquela época, era um motivo. Hoje são vários. Você escolheu um. Por que?

Ela se encolheu mais.

- Não quero que ele carregue esse peso - ela levou a mão à barriga.

- Mas ele não está disposto a fazê-lo?

- Ele não pensa direito.

- Mas isso já não seria problema seu.

Ela apertou os olhos. Achou que tinha esgotado seu estoque de lágrimas naquela manhã, mas agora percebia que estava enganada.

- Você não sabe o quanto é.

- Eu sei que nós já falamos sobre amor não ser o suficiente, mas ele te ama. E você também.

- Acho que em qualquer outra situação, eu acharia isso o suficiente. Em outra vida, em outro plano de existência. Algum lugar mais simples. Mas aqui não é simples.

Cristina jogou o algodão na pilha de usados. Puxou um curativo com um suspiro. Estava quase no fim.

- Você tem alguma razão para viver? - perguntou ela, tirando o plástico do primeiro band-aid.

Ela pensou, por um instante.

- Não - disse, por fim, cabisbaixa. Não sabia onde Cristina queria chegar, mas havia começado mal.

- Nenhuma? E esse bebê na sua barriga? Se ele não fosse uma razão, você o teria deixado morrer naquela mesa de hospital.

- Ah - ela disse, e então assentiu desanimada - Onde quer chegar?

- Todos tem uma razão para viver. Eu pensei que também não tinha nenhuma. Depois daquilo tudo, eu tentei me matar duas vezes, você lembra. Duas vezes no primeiro mês. Na verdade, na primeira semana.

Colocou o primeiro curativo, e então tirou-o com delicadeza, desapontada. Seriam necessários pelo menos três band-aids para isolar o corte, e sabia por experiência própria que eles se soltariam fácil. Resolveu passar gaze e esparadrapo, o que, por sorte, havia trago consigo quando buscou os remédios.

- Eu não parei por que havia desistido da morte, assim como achei que havia desistido da vida. Meu único erro foi esse, desistir. Sempre fui de levantar a cabeça e ir pra frente. Minha mãe morreu quando eu tinha dez anos, e chorei por uma semana inteira. Acho que isso bastou pra me mover pra frente. Então, por que eu não podia superar?

Enfaixou seu pé completamente. Suzana não tinha certeza de que devia responder, então ficou calada, enquanto ela desenrolava o esparadrapo com um barulho de cola um pouco alto demais para sua dor de cabeça.

- E o que eu percebi, é que não havia um motivo. E Deus me deu um.

Quando Suzana abriu os olhos novamente, percebeu que haviam se passado bem mais do que os trinta segundos que pensava, de modo que seu pé já estava pronto. Cristina deixou o esparadrapo cair a seu lado, dando a entender que acabara naquele exato momento.

- E qual foi esse motivo?

Cristina sorriu. Estava esperando essa pergunta. Olhou para o relógio, e suspirou.

- O motivo já devia estar em casa agora.

E a porta se abriu.

Uma garota, loira, de olhos escuros e pele de uma cor indefinida, entre o albinismo e um leve bronzeado, entrou a porta. Ela era alta, mas tinha um rosto infantil. Suzana não conseguiu dizer que idade ela tinha. O cabelo descia até sua cintura. Usava uma camisa rosa, com um colete preto por cima, e calça jeans azul. Parecia que acabara de voltar de uma saída. Tinha fones no ouvido, um fio branco, e remexia a bolsa. Tirou dali um celular igualmente branco, e apertou um único botão - Suzana deduziu que era para tirar a música - e tirou os fones, escondidos de baixo das belas mechas brilhantes, e deixou os fios caírem.
Sua voz era tão linda quanto ela mesma.

- Oi, mamãe - ela anunciou, com um sorriso que parecia o equivalente a um abraço.

Suzana deixou a boca cair, disfarçadamente.

- Oi, Dani - ela respondeu, casualmente demais para quem escondia a filha - Como foi o filme?

- Ah, foi bom. Aquela Bella é enjoada demais, mas a Chris fez lanche quando voltamos pra casa, valeu o dia.

Cristina sorriu.

- Que bom, então.

Daniela - Suzana pensou que esse fosse o equivalente de Dani - sorriu de volta, e pôs os olhos em Suzana pela primeira vez.

- Quem é sua amiga?

- Ah, hum, uma colega do grupo.

Daniela soltou um "ah", e sorriu genuinamente para Suzana.

- Vou deixar as duas sozinhas, então - ela disse - Vou fazer o jantar, daqui a pouco tá pronto.

- Dever de casa primeiro, mocinha - Cristina gritou com uma risada, enquanto sua filha seguia para a cozinha.

- Você sabe o que eu adoro - ela respondeu, com um sarcasmo carinhoso, sem virar-se.

E então, ela estava fora do alcance das palavras que seriam ditas na sala. Cristina voltou-se para ela, com um sorriso no rosto, porém transmitindo uma expressão séria.

- Espero que possa confiar em você com isso - ela disse - Ninguém do grupo sabe sobre a Dani, e prefiro manter assim.

Suzana assentiu automaticamente, ainda cozinhando aquela ideia em sua cabeça.

 - Q-quantos anos ela tem?
-
Treze. Faz catorze em menos de dois meses.

Ela sentiu um arrepio percorrer pelo corpo. Agora não havia mais duvidas: ela entendia. Ela sabia como se sentia. Elas eram iguais.

- Ela foi o meu motivo. Ela me fez viver e me manteve viva esse tempo todo. Eu não guardo segredos dela, e passamos por cima disso juntas. Se algo acontecesse com ela... Deus, eu nem sei.

Suzana mordeu o lábio.

- Ela é o meu motivo - repetiu - Você tem um. Não vai querer outro?

***

Suzana corria.

Cristina estava certa. Felipe estava certo. Nunca houve escolha para ela. Ela nunca resistiria a qualquer caminho que fosse posto em sua frente. Podia escolher: a eternidade sozinha ou a eternidade. Simplesmente a eternidade de felicidade.

Agora, corria com os pés doendo. Aquele curativo agora não servia de nada, a pressão fazia o sangue bombear novamente. Podia sentir o esparadrapo encharcado chocando-se contra o chinelo. O flop flop. Aquele pé doía ainda mais. Não era simples ardência, era dor. Sentia como se o pé estivesse sendo fechado e reaberto milhares de vezes. A qualquer momento, sua perna inteira parecia que ia cair.

Mas tinha de correr.

Já quase anoitecia. As poucas pessoas nas ruas olhavam para ela. Devia parecer uma idiota, mancando e com cabelos e roupas esvoaçando. Mas a verdade era que corria tão graciosamente quanto uma atleta. Tivera de pular uma ou outra vez, caindo sobre o pé cortado, logo mordendo o lábio novamente. As pessoas deviam olhar-la, talvez, pelo seu arfar pesado. Pela barriga, que parecia ainda mais proeminente naquela blusa (não era todo dia que se via uma grávida correndo). Pelo suor, que parecia grudar cada pedaço de sua roupa e cada fio de cabelo ao alcance a seu corpo. Ou, talvez, e também o mais provável, por ela estar literalmente empurrando as pessoas em seu caminho. Como uma verdadeira fugitiva.

Uma ou outra vez, teve de ajeitar a bolsa em seu braço, e ficou pensando o que faria se ela caísse. Voltaria para pegar, claro, feito uma retardada. Não seria pior do que se ela, Suzana, caísse, no entanto.

E então, virou a última esquina da cidade, entrando numa rua larga e constituída apenas de casas e prédios residenciais. Havia árvores graciosamente altas e largas a cada dez metros. Suas folhas estavam amareladas, por causa do inverno. Fazia muito mais frio em Costa Valença do que em qualquer lugar no Rio. Faltava apenas nevar, mas a temperatura teria de cair mais uns quinze graus para isso. Sentiu a garganta arder com o frio, como se ele se intensificasse com o pensamento.

A pouca luz restante do sol, somada com a densidade das folhas, davam à rua um tom cinzento e sombrio, porém agradavelmente caseiro.

Continuou com sua corrida pela rua - já deserta, pois não havia comércio. Era longa demais, pensou. Em certo ponto, deixaram de existir casas, deixando apenas prédios altos aparecerem. Depois, as ruas paralelas deixaram de existir também. E os prédios pararam por ali. Viu o parque em que costumavam lanchar, quando mais novos. Agora não ousava mais ir ali. Era o ponto de Nathalia e Yago agora.

Passou direto, sem parar, até adentrar no bosque.

O caminho continuava asfaltado. Havia uma bifurcação, ainda na rua. Um caminho dava no bosque, e outro dava no parque, pelo qual já passara. No fim do parque, daria no bosque, do mesmo jeito. Ninguém passava por ali, com medo de se perder - ainda mais quando era quase-noite - mas ela precisava correr.
Tinha pouco mais de uma hora e vinte minutos até sua mãe chegar em casa e se descabelar por que Suzana não estava lá.

Depois de tropeçar em algumas árvores que cresceram no caminho de asfalto, num curto trajeto de cinquenta metros bosque adentro, encontrou a grande casa.

Parecia uma fazenda, na verdade. Um muro de grades envolvia o lugar. Um grande portão, talvez maior até que o da escola, estava postado ali no meio. Era a única entrada para o jardim. Já fora naquela casa milhares de vezes, e ainda sem lembrava do primeiro pensamento que teve ao vê-la pela primeira vez: "Ele é rico". E era mesmo. A casa mesmo estava a vinte metros do portão. Não sabia muito de matemática, mas estimara que aquele terreno devia ter 500 metros quadrados, ou qualquer número que valesse três casas normais.

Nunca entendera o por que dele morar tão escondido da cidade. Por paz, ele dizia. E agora entendia. Paz era tudo que ela precisava naquele momento.

O portão se abriu sozinho, causando um arrepio em Suzana, até ela ver que o pai de Felipe o abrira pessoalmente.

- Suzana - ele exclamou, com a voz cansada, porém com um sorriso genuíno no rosto - Você não vem aqui faz tanto tempo! Como vai?

- Ah, tô bem, tio - ela respondeu, com a voz doce, porém apressada - Escuta, onde está o Felipe?

- No galpão, lá trás. Quer que eu chame ele?

- Não, não - ela se apressou em dizer. Precisava de tudo menos testemunhas - Eu vou lá.

- Sabe o caminho?

- Não deve ser dificil de encontrar.

Ele riu.

- Ah, se você soubesse quantas vezes já me perdi nesse jardim...

Abriu espaço para ela passar. Ela sussurrou um "obrigada", com um sorriso no rosto. Andou, quase correndo, até a entrada da casa, e então olhou para a direita, e depois para a esquerda.

- Direita - o senhor disse - Fica na direita, aí vai reto pelo corredor e vira só no quintal de trás. Não liga pra essas armas aí em cima não. É o que faço quando não tenho mais o que fazer.

Suzana pela primeira vez pousou os olhos na mesa à sua frente. Havia ali uma espingarda - nunca vira uma na vida -, munição, pistolas e armas das quais não sabia o nome. Lembrou-se que o pai de Felipe era militar. Policial. Ainda assim, tantas armas lhe derem um novo calafrio.

Fez o caminho que lhe foi instruído. Passou por novas árvores, e notou pela primeira vez as lindas flores que ali cresciam. Havia também um dente de leão. Sempre quis soprar um, quando era criança, mas nunca achara. Agora, parecia apenas um cenário de fundo. Passou direto, sem parar.

Parou e olhou para o galpão. Porta aberta.

Entrou.

Felipe estava ali parado. Martelando algo na mesa. Parecia concentrado demais, e Suzana concluiu que era isso que ele fazia quando precisava se des-estressar. Ele construía. Arfava, cansado e suado. Não havia ventilação ali, e por mais que fosse um galpão bem grande e aberto, era quente. Ele devia ter quebrado várias coisas, pela aparência do lugar, e agora estava reconstruindo-as.

Ela engoliu em seco. Sentiu vontade de vomitar, e um nervoso que nunca sentiu na vida.

Ele pareceu ouvir. Virou-se, com o rosto cansado, e arregalou os olhos.

- Suzana - ele disse, surpreso, como se não se lembrasse da manhã daquele dia. E era exatamente por causa daquilo que estava surpreso - O que tá fazendo aqui?

E então houve silêncio. Suzana estava calada, e Felipe apenas encarava. O que ela faria? Chegara ali, e não planejara nada para aquele momento. Sentiu vontade de refazer todo o caminho de volta e fugir. Sentiu vontade de gritar socorro, de cair e chorar.

Quando Felipe abriu a boca para refazer a pergunta, Suzana falou.

- Cala a boca - ela disse, com duas lágrimas escorrendo no rosto. Ela não sabia o significado daquelas lágrimas, apenas sabia que elas corriam soltas - Cala a boca, cala a boca, cala a boca...

A cada vez que falava, se aproximava. Rápido demais. Até que por fim estavam frente e frente, e, segurando seu rosto, o beijou.

Felipe por um momento ficou surpreso. E, no momento seguinte, passando-se menos de uma fração de segundo, fechou os olhos, e envolveu a cintura de Suzana com as mãos. Apertou-a, sem força o suficiente, para não machucar o bebê que ainda se formava.

Quando os dois caíram no chão sujo, riram e voltaram a se beijar, Suzana sabia que o corpo de Felipe havia amortecido a queda. Que o bebê estava seguro. Tudo que ela conseguiu se preocupar foi se seu cabelo estava desarrumado, como uma garota normal faria.

Não fizeram nada além de se beijarem. Não podiam fazer mais nada. Toda vez que tentavam conversar, não conseguiam e voltavam ao inicio. Acabou que se passaram bem mais de uma hora e vinte minutos, e, quando sua mãe ligou, ela simplesmente desligou o telefone. Estava viva de novo. Tinha motivos para viver. Não os deixaria escapar nunca.
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