Fala ae galera o/ Hoje, sexta-feira, eu tô viajando, então não vou poder escrever por um tempo. Aí, o capítulo 37 já tá pronto, e será postado na próxima semana, normal, mas o 38 só poderá ser postado dia 11/03 :/ Se eu tiver algum jeito de escrever antes disso, eu aviso e posto. Então, leiam ae e comentem :)

36

Poderia Eu

May I - Trading Yesterday

- Nunca soube desse lugar antes - disse Yago.
Passaram pelo bar, e subiram as escadas. Ao chegarem ao segundo andar, Yago torceu para Yvonne não fazer nenhum comentário sobre a numeração nos quartos. Todos na cidade sabiam bem que o segundo andar era tipo um hotel - motel, na verdade. Costa Valença não era turística, e, devido a localização, seriam poucos os parentes que dirigiriam até ali apenas para uma visita, então hotéis eram desnecessários. Mas a cidade transbordava adolescentes... então, era preciso ter um local de escape. Yago lembrou-se, com certa repulsa, de Felipe subindo para aqueles mesmos quartos com uma desconhecida, cinco, seis meses antes. Uma ideia que na época não lhe parecia estranha, agora parecia simplesmente errada. Principalmente se essa estranha fosse como Gabriela.
Porém, passaram direto pelo corredor principal, que abrangia do número um até o vinte. Nos corredores paralelos, haviam mais quartos, mas Yago não sabia quantos.

- És a aréa VIP - respondeu Yvonne - Se não conheces, não és VIP o bastante.
Revirou os olhos, tropeçando numa caixa cheia de cinzas de cigarro. Yvonne soltou um risinho francês, sem abrir os lábios.

Chegaram na última porta do corredor mal-iluminado - Yago imaginou se seria proposital, e teve de sorrir como uma criança maliciosa -, e Yvonne tirou um molho de chaves do bolso da calça jeans escura. Com alguma dificuldade para acertar qual chave abria a porta, e onde ficava o buraco da fechadura, conseguiu abrir na quarta tentativa. Fez a persiana que cobria a pequena janela, logo acima da fechadura, farfalhar assim que afastou a porta. Entrou primeiro, com passos rápidos, quase como se conhecesse o lugar. Yago a seguiu, mais lentamente. Ouviu os passos de saltos pararem, e logo em seguida uma luz florescente se acendeu.

- Se essa é uma área VIP, por que se parece tanto com um escritório? - perguntou.

As paredes cinzentas não pareciam transmitir muito o espirito de festa. Havia uma mesa de madeira no centro da sala, abarrotada de papéis. Um ou outro enfeite havia desaparecido entre o mar de documentos. A cadeira, ao que parecia antes preta, agora era um misto de marrom com cinza. Pequenos montinhos de poeira pulavam de diversos rasgos. Yvonne se sentou ali mesmo.

- Esta não é a parte VIP da aréa VIP - retrucou, no mesmo tom - Talvez queira se sentar ali.

Apontou para o outro lado da sala, e Yago viu um sofá roxo, de um material que podia confundir com couro. Não havia almofadas - seria ridiculo se houvesse, pensou -, mas aquela parte era incrivelmente melhor iluminada, de modo que se perguntou como não havia notado naquele canto primeiro. As paredes estavam pintadas, cheias de desenhos grafitados. Haviam duas poltronas, uma vermelha e uma amarela, tão chamativas quanto o sofá, postadas do lado do mesmo.

Havia também um globo colorido no teto, que Yvonne fez questão de ligar.

- Totalmente desnecessário - disse Yago.

- Mas vous sabe que também adora.

Ele riu.

- Acho que botar música seria desnecessário.

- VIP demais - concordou Yago.

Yvonne soltou um risinho, sem sarcasmo dessa vez. Yago viu-se obrigado a pelo menos sorrir, mas sua tentativa acabou tornando-se um glorioso sorriso falso. Deu de ombros para si mesmo. Percebeu então que suas pernas doíam; seus braços, sua garganta. A última principalmente; sentia como se tivesse engolido areia, como se mil agulhas fossem enfiadas, uma por uma, em sua traqueia. Apostava que logo sua voz começaria a falhar. Tirou um chiclete do bolso, enquanto sentava-se. O sofá fez barulho, em atrito com seu corpo, e Yago torceu para que Yvonne não fizesse nenhuma piada.

- E então? - ela disse, ignorando todo o resto.

- E então o quê?

- Gostou de sua "performance"? - Yvonne admitiu as aspas, ao dobrar os dedos indicadores e médios das duas mãos.

Yago suspirou, com um sorriso no rosto.

- Direto ao ponto, não é?
- Não sei se vous já ouviu a expressão, mas tempo és dineiro. Em qualquer país.

- Não sou eu quem devo decidir se gostei ou não, não é? - ele respondeu, depois de uma pequena pausa.

- Se fosse assim, você já teria assinado comigo - com sangue, ela gesticulou com os lábios -, porquoi não fui só eu que vi a reação do público. Vous não és burro, deve ter percebido também.

- Nem metade daquilo deve ter ido pra me ouvir cantar de verdade - ele disse, olhando para os próprios pés, como se estivesse envergonhado.

- Notre, mas isto és ótimo! - ela exclamou, arqueando as sobrancelhas numa expressão de "como ele não pode perceber?" - Suas primeirras posers. Mais dineiro no teu bolso, e no meu.

Yago bufou, prendendo no fundo da garganta uma risada sarcástica, e meneou a cabeça negativamente. Ameaçou levantar, mas acabou por apenas se acomodar, quase deitado, novamente fazendo barulho.

- E as fãs de verdade? - perguntou.

- Estão ali, não duvides - disse Yvonne - mas as posers tendem a serem dessesperradas... muito mais do que o normal de uma fan. Por isto és dificil discerni-las, talvez haja uma fan tão dessesperrada que faria de tudo por vous.

Ele assentiu.

- E, além disto, vous és bonito; muito bonito, na verdade; isto atraí poser, pouco importando se tua música és boa ou não.

- Minha música é boa.

- Gee, não tenho com saber, não és? Apenas fez covers. Até agora não vi une de suas originais, e não é por que cantas bem que escreves bem. Vai que tu escreves uma Pentada Violenta?

Yago riu.

- Eu ganhei concurso de poesia.

- Traga provas e acredito em você.

Os dois sorriram, por um breve momento, e no segundo seguinte já estavam sérios novamente.

Yvonne apoiou os cotovelos nas coxas, e entrelaçou os dedos das mãos. Passou à mesma expressão séria do dia que se encontraram na escola, e baixou a voz, tornando-a talvez ainda mais doce.

- O único que pode decidir o que quer fazer és vous - disse ela - Ou talvez sua namorada - e deu um rápido risinho, sem sarcasmo, como quem dizia "Já sabemos quem manda aqui". Recuperou o ritmo sério à medida que Yago corava - Mas és teu futuro. Vous decide. Sua voz, sua garganta, seu sangue.

Yago assentiu, fitando-a.
- A única pergunta é: vous gostou ou, com dizem por aí, vai fazer cu doce?

Ele sorriu.

- Eu gostei.

- Então estava fazendo cu doce desde o inicio?

- Não, eu só não tinha certeza.

- Amigo, não sei por que alguém teria o cu doce, mas acho que o significado é esse.

Yago se obrigou a sorrir, deixando claro o sarcasmo que empregava nos lábios.

- Eu vou assinar contigo - ele disse - Quem tá fazendo cu doce aqui é você.
 
- Wooow - ela disse - Não estou me recusando, só fazendo uma observação. E, attendez une minute - O sarcasmo voltou a seu rosto, deixando-o com a linda aparência de sempre - Vous dissestes que vai assinar comigo?

- Isso aí - ele respondeu, com um sorriso.

- E estás falando sério?

- Por que não falaria? - Fingiu um ar de inocência, arregalando os olhos como que se fingisse surpresa.

Ela sorriu, e endireitou a postura.

- Deixa eu curtir esse momento - e suspirou, respirando fundo e soltando o ar logo em seguida.

- Na França também tem aqueles filmes de comédia escrachada, não é? - disse Yago, depois de alguns segundos em silêncio, com Yvonne sorrindo e olhando para o nada.

- Temos. Mas esse ainda és meu jeito de curtir o momento.

- Mas bien - ela disse, passados mais alguns segundos - O que tens que fazer és assinar alguns desses papéis - ela puxou diversas folhas da gigantesca pilha em cima da mesa, todas digitadas de cima a baixo, com tinta preta e letras minúsculas. Assim que juntou todos os papéis, havia formado uma nova pilha de contratos. Yago gemeu ao pensar em ler tudo aquilo - Vous é menor de idade, nem carta de motorista tens, então acho que você e sua mãe devem passar aqui amanhã.

- Amanhã é terça.

- Sua mãe trabalha?

- Trabalha.

- Então dá teu jeito. Falsifica, arrasssta ela do escritório... é você quem sabe, de novo.

Ouviram a porta bater, e no mesmo momento pararam de se encarar.

- E aí? - Nathalia disse.

- Estava ouvindo atrás da porta?

- Não, ué.

- Você sempre chega num timing muito perfeito.

Ela sorriu.

- O que aconteceste com vous? - Yvonne perguntou, levantando-se da cadeira, quase que para examinar o estrago em Nathalia mais de perto.

- Ah - ela disse, e imaginou se ela teria visto a cena lá embaixo. Qualquer uma das duas - Eu caí. - Tecnicamente, não era mentira.

- Num nacho gigante?

- Numa vasilha de nachos gigante.

Yvonne pareceu pensar um pouco, e então deu de ombros. Voltou-se para Yago, e recomeçou o discurso.

- Então, passe aqui amanhã. À hora que quiser. Só bate ali na porta e pede pro dono entrar. Não mencione o nome dele, afinal nem eu nem vous sabemos. Traz também as letras, do que quer que vous compõe. Pode ser a poesia da quarta série, ou sei lá. Nós damos um jeito. E por favor - ela pôs todos os papéis que pôde na bolsa, e os que sobraram ela pegou nos braços; os que ainda restavam na mesa deviam ser do clube mesmo, Yago pensou - sem funk. Letras, por favor, sexo e drogas tem na internet.

Caminhou até a porta, e Yago entendeu o sinal. Puxou a maçaneta, e tentou abrir a porta, mas a francesa foi mais rápida. Chutou-a, fazendo a madeira bater com força contra a parede. Yago sempre teve medo de fazer isso e quebrar o vidro; mas ela pareceu não se importar, de modo que continuou caminhando pelo corredor mal iluminado.

- Au revoir, Yago. Au revoir, Nathaly. Tenha uma bonne nuit.

Yago até saiu da frente.

- Você deve ter algum prazer sadomasoquista de... - Nathalia nem completou a frase. Yvonne já havia desaparecido do corredor, e podia ouvir seus saltos batendo na escada.

- Calma, nem - Yago disse, repuxando um canto da boca num meio sorriso.

- O que isso quer dizer? - ela perguntou. - Não au revoir, eu sei o que. Bonne nuit. Ela falou isso da primeira vez. O que isso é?

Yago riu.

- Boa noite. Ela te desejou boa noite.

- Por que desejaria isso?

- Educação?

- Quais são as chances?

- Ah, deixa quieto vai. Vamos logo. Tô cansado, e com a garganta doendo como se tivessem enfiado uma faca.

Os dois passaram pelo corredor, sozinhos, sem o minimo barulho além de seus pés. Sem conversarem. Marcavam exatamente 22h49, faltando pouco mais de uma hora para o fim de seu aniversário.

***

Felipe freou o carro de leve, em frente à casa de Suzana. Incrivelmente, não se sentia tonto. Não tinha sono, e conseguia pensar direito. Ainda sentia o gosto do alcool na boca, e agora parecia que tinha comido algo estragado, amargo. A única falha em sua visão era a luz; a luz estava inquieta demais para ser fruto da realidade.

Saiu do carro, e abriu a porta para Suzana antes que ela pudesse fazê-lo.

- Obrigada - ela disse, ainda surpresa por ele ter sido tão rápido.

Ela se apoiou no ombro do amigo, e levantou-se. As pernas estavam um pouco fracas; não haviam mais muitos dias em que ela ficava tanto tempo em pé.

Caminharam pela pequena calçada, que levava até a porta da garagem - a única porta que levava até o quintal, uma grande obra de madeira, com desenhos em estilo tribal, uma obsessão de sua mãe. Abriu a bolsa, e remexeu até achar um molho com cinco chaves, que iam da cor prateada até um bronze envelhecido, de vários tamanhos diferentes. Tropeçou os dedos em papéis, batões, cremes, mas por fim conseguiu pegar o chaveiro de Mickey Mouse.

Estava tonta também; não por bebida, mas talvez por um enjoo matinal. À noite.

- Ei - Felipe disse - Você tá bem?

- Aham - ela respondeu, com as sobrancelhas arqueadas, olhos fechados e respirando fundo. - Isso passa rápido. Já acostumei.

Felipe assentiu, apertando os lábios de hesitação.

- Foi divertido - Suzana disse, com um sorriso no rosto, que Felipe não soube distinguir entre o falso e o verdadeiro.

- A maior parte - concordou ele.

Ela assentiu, e o sorriso diminuiu um pouco.

- Acha que eles - continuou, não ousando mencionar o nome de Gabriela e Gustavo - vão ser um problema?

- Você ainda tem dúvida?

- Eu não sei - ela disse, depois de uma pausa - A Gabriela nunca foi bem de aceitar que perdeu, tipo ela disse, e o Gustavo...

Os dois sabiam. Suzana por ser amiga de Nathalia. Felipe por não ser nenhum idiota. Sabiam o que Gustavo sentia. E sabia que, se estava envolvido com Gabriela, ou estava sendo usado, ou havia concordado em qualquer que fosse o plano dos dois.

- Ele não é do mal - disse Felipe.

- Eu já disse: eu não sei.

- Ele é nosso amigo.

- Ele era. Aí quase ferrou tudo.

- Não é bem da nossa conta.

Suzana engoliu em seco.

- Passou a ser - Não precisou completar a frase.

Ambos sentiam o estomago revirar. Falar assim, dos outros, escondidos, quase como uma fofoca, não era agradável. Ainda mais assuntos críticos. Os dois guardavam o segredo de Nathalia, mas não sabiam se Gustavo - ou mesmo Gabriela, quem sabe? - guardariam.

Olhou em seu relógio.

- Vai dar onze horas - disse Suzana.

- Toque de recolher?

- Regras da casa.

Felipe assentiu, com um sorriso no rosto.

- Quer que eu te leve pra dentro?

- Não precisa - ela sorriu de volta.

Mal disse isso e caiu, numa convulsão instantânea.

Chegou ao chão rapidamente, já com as mãos envolvendo a barriga, e gritou. Uma dor tomou conta de seu peito, suas pernas... e viu-se imobilizada, sem conseguir se mexer. Deixou o corpo terminar de cair, e bateu a cabeça na calçada ainda quente de um dia escaldante. Ouviu-se gemer, como se estivesse vendo aquela cena toda em terceira pessoa. Mas a dor, ainda sentia. Percebeu que estava chorando. Por um momento, perguntou-se se sangrava.

- Suzana! - disse Felipe, mas sua voz parecia distante demais.

O mundo inteiro parecia silencioso. A única coisa que ouvia era o próprio sangue, pulsando em suas veias.

Seu corpo tremia; seus olhos reviravam.

E então, recuperou o controle do corpo, ficou de quatro e vomitou tudo o que havia comido no dia.

- Enjoo matinal - disse, arfando, ainda cuspindo o que sobrara do suco gástrico na boca.

Retorceu-se um pouco, soltando mais um gemido.

- Essa foi... - Iria dizer "forte", mas uma nova onda de vômito surgiu em sua garganta. Dessa vez, não sujou apenas a calçada; sujou também seus braços e sua roupa.

Levou a mão à barriga. Todos seus músculos doíam.

- Vamos pra dentro - disse Felipe, numa tentativa falha de manter a voz controlada.

Ela assentiu, o máximo e mais rápido que pôde fazer. Ainda arfava e gemia, como se estivesse parindo ali mesmo. Sentiu a bile subindo o pescoço novamente, e tentou não vomitar na própria camisa - e em cima de Felipe, também. Andava curvada, com uma mão ainda na barriga e outra se apoiando em Felipe. Mancava, como um animal com a pata ferida. Não usava salto, mas sentia como se mil agulhas perfurassem a sola de seu pé esquerdo. Seu lábio tremia, sujo e amarelado, e, por mais que tentasse controlar, não conseguia.

Deixou a bolsa cair, e Felipe teve de confiar em sua capacidade de ficar em pé por um momento.

- Qual é a chave? - ele perguntou.

Ela repassou a mesma imagem que repassava todos os dias na mente. Sete chaves, três amareladas, três prateadas, e uma com um emblema azul. Uma era da casa de sua avó; outra era de seu armário na academia. A azulada era da porta da frente, mas não era essa que procurava. Primeiro teria de achar a do portão da garagem. Pensou tanto que voltou a sentir a ânsia de vômito, e por fim cedeu à vontade de dizer:

- Eu não sei - arfava, com a voz dramaticamente falhando - Tenta qualquer uma aí.

Felipe encarou-a, com um olhar quase desconfiado, mas por fim assentiu, já passando as chaves nos dedos, uma por uma.

- Fica aqui - disse, deixando-a apoiada na parede do outro lado do portão.

Na quarta tentativa, conseguiu abrir. Suzana estava errada; a chave de emblema azul abria o portão.

Felipe voltou, e pegou-a no colo, como recém-casados ao sair da igreja - um pensamento que não agradou muito à Suzana. A barriga aquietou-se, um pouco, mas só um pouco mesmo. Viu-se obrigada a envolver o pescoço dele com os braços, isso se não quisesse cair e vomitar mais, além de conseguir um hematoma nos ombros. Piscou os olhos, subitamente com sono. Sentia a brisa fria no seu rosto, e tinha certeza de que estava corando.

Ouviu-o chutar o portão, e depois fechá-lo novamente com um outro chute; Suzana nunca soube como ele fazia isso.

Ouviu mais passos, e então uma voz feminina, estridente em exclamação.

- O que? Suzana! - Sua mãe gritava.

- Ela está...

- O que aconteceu? Suzana! Suzana! Está me ouvindo?!
 
- Ela está bem! - Felipe concluiu. - Não foi nada, só enjoo.

- Não foi nada? Não foi nada? Pelo amor de Deus, o que aconteceu?!
 
- Enjoo - ele repetiu - Vou levar ela pra dentro, ela precisa de cuidados e...

- Você não - ela disse; já perdia a voz, tornando-se falha - Eu levo, vem filha. Põe ela no chão, agora!
 
Por um momento, houve silêncio. A cabeça de Suzana girava muito para ouvir sequer as respirações tensas, então pôde aproveitar a brisa que zunia em seus ouvidos. Sentiu Felipe afrouxar os braços, e odiou sua mãe por um momento. Estava até confortável. Ele era quente. Já estava quente o suficiente por uma noite, mas se sentia confortável com o calor.

E não se importava de se sentir confortável demais.

Sentiu os pés tocando no chão, e a tonteira voltou. Sentiu novamente a bile subindo o pescoço, e, com o pouco de auto-controle que lhe restava, tentou não cair novamente e vomitar o que não tinha comido. Fechou os olhos, como se ajudasse em algo, e respirou fundo. O ar puro fez cocegas no fundo de sua garganta, e sentiu vontade de tossir, com bafo vomitado e tudo. As pernas tremeram. Tinha de se deitar novamente. Apenas deitada se sentiria bem.

- Vem pra dentro - sua mãe disse, com a voz doce novamente.

Envolveu o próprio corpo com os braços, não importando-se em sujar mais ainda sua roupa. De repente, pensou no quanto a roupa de Felipe estaria suja agora, mas não teve coragem de olhar e encarar aquela expressão decepcionada. Caminhou com passos pequenos até sua mãe. Todo seu corpo tremia agora. Sentiu que tinha andado demais quando percebeu passos apressados às suas costas, e mãos em seus ombros. Foi obrigada a diminuir o ritmo, a fim de que aquelas mãos não soltassem aquele abraço frágil entre mãe e filha.

Não precisou virar-se para perceber que, antes de entrarem, sua mãe lançou um olhar gelado para Felipe.

Subiram as escadas, e assim que chegaram ao banheiro, sua mãe a despiu. Seu peito estava coberto de sujeira e dejetos, que deviam ter ultrapassado os limites do pano da camisa. O líquido escorreu até suas pernas, fazendo Suzana querer vomitar novamente. Deixaram as roupas jogadas no chão, cheirando a remédios velhos. Sua mãe abriu a bica da banheira - que elas nunca usavam, com medo de acidentes, quedas, cortes ou qualquer tipo de ameaça de morte. Mas era necessário agora. Mãe sabe. Sempre sabe. Sabia o que ela estava sentindo, e também se perguntava o por que era tão forte dessa vez.

Quando a banheira estava cheia até a metade, ela ajudou Suzana a se sentar na pedra fria. Água gelada, era tudo o que tinham. Assim que sentou-se, sentiu-se mais limpa. Sentiu a água borbulhando com seu peso, e quebrando o líquido seco que cobria seu corpo. Teria de se esfregar, claro. E mal podia esperar por essa parte.

A água terminou de cobrir seus ombros, e ouviu a torneira fechando.

- Mergulha - sua mãe disse docemente.

Ela o fez.

Perguntou-se se não seria melhor ficar ali, embaixo da água, para sempre. Parar de respirar ali mesmo. Acabar com o sofrimento. O bebê também morreria, mas pelo menos não viveria marcado por ter uma mãe estrupada e um pai criminoso.

Mas então, dois fatores vieram em sua cabeça: a) sua mãe a puxaria, e b) a vontade de viver sempre voltaria no último suspiro. Sempre. Lembrou-se de Cristina, e perguntou-se se foi assim que ela se sentiu.

Voltou à superficie, e sua mãe já a esperava com o shampoo nas mãos.

Ela fez-lhe um sinal para se encostar na borda da banheira. Quando Suzana o fez, instantaneamente começou a massagear seu couro cabeludo.

Ela adorava aquilo. Adorava aquela massagem. Fazia ela se sentir um cachorrinho, sempre implorando por carinho e afeição. Adorava aquela sensação de afago, no topo da cabeça. E logo depois, viria a água gelada, em forma de jato, tirando o produto de seu cabelo.

Sua mãe parou no meio da massagem.

- Está tudo bem?

Ela assentiu. - Tá sim, mãe.

- Ele fez alguma coisa com você?

Suzana fez uma cara de horror, e se sentiu ofendida.

- Claro que não!

- Te deu algo de beber? Você sabe que não pode beber alcool, principalmente agora.

- Mas eu já disse que não.

Sua mãe suspirou.

- Eu não confio nele, Suzana - ela disse, voltando à massagem. Suzana sabia muito bem qual era a estratégia, acalmá-la até ela concordar - E não quero que você confie também. Ele bebe, Suzana - ela disse com nojo.

- Eu não - ela retrucou.

Sua mãe suspirou novamente. Estava cansada, e estava usando isso a seu favor.

- Só não dá muita confiança, ok? - ela terminou, sem querer dar mais corda à discussão.

Suzana somente assentiu.

Quando estava pronta, em sua cama, deixou sua mãe beijar sua testa. Odiava isso, mas deixou. Sabia que estava febril, e que na manhã seguinte mediria sua temperatura. Perguntou-se por que dormia de cabelo molhado; sua mãe simplesmente odiava quando ela dormia de cabelo molhado. O excesso de condicionador estragava os lençóis, descolorindo-os. Suzana nunca soube como tirar todo o excesso. Sempre sobrava um pouco, o que era motivo para novas brigas. Decidiu parar de lavar o cabelo à noite quando tinha doze anos. Naquela época, qualquer coisa lhe irritava, e não precisava de mais nada enchendo seu saco. Até poucos meses antes, ainda era assim. E essa época parecia tão distante, tão inalcançável.

Ouviu duas batidas na porta, e, apesar de sua mãe estar postada à sua frente, e logo não conseguir enxergar, sabia que era Felipe ali.

- O que está fazendo aqui? - sua mãe perguntou grosseiramente.

- Só vim dar boa noite à ela.

- Você não tem o direito...

- Deixa mãe - Suzana sussurrou, sem força, porém firme - Deixa.

Ela a encarou. Olhou para Felipe e depois a encarou novamente. E então assentiu. Piscou com força, e Suzana sabia que ela estava com raiva e contrariada. Saiu do quarto, porém sem deixar de olhar para Suzana uma última vez. Um olhar que dizia "Cuidado" ou "Grite se alguma coisa acontecer".

- Desculpe por isso - disse Suzana.

Felipe deu de ombros.

- Mães tem algo contra mim - ele disse, com um meio sorriso no rosto.

Suzana devolveu o sorriso.

- Está mais cheirosa agora - ele disse.

- Não provoca.

Ambos riram.

- Está melhor?

- Estou - assentiu, forçando um sorriso.

- O que era... aquela dor?

- Enjoo. Já disse, um dos fortes.

Felipe se aproximou. Suzana por um momento teve medo que sua mãe voltasse. Se o visse chegando cada vez mais perto, mais perto, mais perto...

Ele sentou-se na borda de sua cama, numa posição em que podia olha bem em seus olhos.

- Você gritou.

Foi a vez dela de dar de ombros.

- Forte demais.

Felipe sorriu, sem mostrar os dentes. Um sorriso falso, apenas tirar o desconforto da situação.

- Boa noite - ele disse, cessando a discussão, como sua mãe havia feito minutos antes.

Então se aproximou. Cada vez mais. Suzana não tentou se afastar. Deixou ele passar a mão em seu cabelo, passando a mecha que descia pelo lado de sua cabeça por trás da orelha. A mão de Felipe dançou até sua nuca, massageando o couro cabeludo molhado. Suzana apenas olhou para a porta, sem se importar com mais nada. Sua mãe não estava ali. Não parecia estar. Não deveria ver aquilo. Ficaria uma fera se visse.

E então simplesmente fechou os olhos, e esperou.

O beijo veio doce, como nunca imaginara que seria. Sentiu Felipe pressionar sua boca de leve, de um jeito que nunca o imaginara fazendo até aquele momento. Sua língua pareceu desenhar algo em sua boca. Estrelas? Não, ela apenas via estrelas. Uma noite com a lua rosada, daquele jeito que sempre achava linda. Fogos de artifício? Não, muito exagero e clichê. Mas via vaga-lumes. Sempre quis ver um vaga-lume, sempre quis pegar um, e vê-lo brilhar na palma de sua mão. E então deixá-lo voar novamente. Mas agora, os vaga-lumes eram apenas o fundo, um enfeite. Assim como a linda música. Piano. Simplesmente piano. Sem letra. Era uma música... não conseguia se decidir entre o gótico e o romântico. Talvez fosse os dois.

Voltou à realidade apenas quando suas bocas se separaram.

Felipe subiu sua boca até o topo de sua cabeça, e beijou seu cabelo molhado. Fez barulho, propositalmente. Não para ser engraçado; Suzana teve certeza de que era apenas para que ela soubesse que era amada.

- Boa noite - ele repetiu, e então saiu do quarto em silencio.

Suzana não ouviu nenhuma discussão lá embaixo. Apenas mais silêncio. Ouviu a porta abrindo e fechando. Quase sentiu o gelo que sua mãe devia estar dando em Felipe.

A única coisa que conseguia pensar era que não havia escovado os dentes.

Encostou a cabeça molhada no travesseiro, e, com a dor finalmente se esvaindo, chorou.

***

Ela ficou calada.

Haviam parado em frente à sua casa há poucos minutos. Vieram à pé, pois nenhum dos dois tinha carro ou carta de motorista. Nathalia até se sentia envergonhada por andar por aí toda suja, mas, quando olhou ao redor, percebera que não havia ninguém na rua.

- Entra - ela dissera, sorrindo.

Ele assentiu. Sua garganta doía demais, e qualquer tentativa de fala sairia como o gemido de alguém à beira da morte. Tal gemido seria até mais gracioso.

Pegou sua mão. Ambos empurraram o portão, e Nathalia notou que o carro de sua mãe não estava ali. Talvez ela estivesse de plantão. Já havia até imaginado a cara feia que ela faria quando visse Yago. Não que não gostasse dele, pois gostava e muito, mas esse devia ser o papel de mãe que ela assumira. O de (fingir) odiar o namorado que havia tirado a virgindade da filha. Mas, sabia que quando nenhum dos dois estava olhando, a mãe agradecia por ter sido ele, e não um garoto qualquer. Um garoto que desse motivos para ser odiado.

Entraram em casa, encontrando a sala exatamente como haviam deixado.

- Acho - começou Nathalia, com a voz falha. Quando recuperou a compostura, recomeçou - Acho que vou tomar um banho e dormir.

Sentiu Yago beijar sua testa, em silêncio. Sorriu, e virou-se para as escadas. Não havia notado que Yago a seguia até ouvir um segundo par de passos no piso de madeira.

- O que está fazendo? - perguntou.

- Vou contigo - ele sorriu, genuinamente.

Ela riu-se.

- Não devemos abusar da sorte.

- Não estou abusando de nada - e levou as mãos ao ar, como um sinal de inocência, com um sorriso ainda maior.

- Vem logo - ela disse, por fim, após uma pausa - Mas nada, repito, nada vai acontecer, ok? Minha mãe está de plantão e ela confia em mim. Acho. Mas não importa, você me espera e depois vai embora, ok?

Yago assentiu.

E então pararam na frente de seu quarto. Nathalia tocou a maçaneta, e sentiu as mãos de Yago envolverem sua cintura. Um beijo na base de seu pescoço.

Virou-se para ele, encarando seus olhos.

- Promete? - disse firmemente.

- Prometo - a voz de Yago era tão falha que pôde sentir a dor na sua própria garganta.

E então abriu a porta.

As velas já estavam derretidas pela metade, e mais tarde perguntou-se como não haviam causado um incêndio. O chão estava coberta de flores, flores mesmo, não apenas as pétalas. Não sabia distinguir umas das outras, apenas sabia quais eram rosas, pouco importando a cor. Metade ali deveriam ser flores do campo. Várias tulipas vermelhas também. O chão era basicamente vermelho. Ao pisar no caule de uma das flores, sem querer, ouviu um crack. Nunca soube por que, mas não gostava de pisar em flores, nem mesmo as de um buquê, que já estavam mortas e seria apenas questão de tempo até apodrecerem. Parecia que ela estava as matando. E ela odiava isso, tanto quanto amava aquela cena.

Quando seus olhos se acostumaram com a luz fraca que eram as velas, pôde perceber que eram todas brancas. Simples, sem nenhum desenho. As gotas de cera escorriam pelas beiradas, deixando aquilo tudo ainda mais bonito.

E bem em cima da cama, havia uma outra flor, que soube muito bem identificar.

- Um lírio branco - disse Yago. Nathalia pôde perceber que ele forçava a voz - Seu preferido.

O branco não era seu preferido. Qualquer lírio estava bom para ela. Mas agora, percebia que aquela era sim, a flor mais bonita de todas. Branca. Nem sabia se existia lírios brancos - nem sabia se tal flor crescia em Costa Valença, e se pegou perguntando se sequer crescia no Brasil. Era irônico, ela gostar tanto de algo e saber tão pouco sobre esse mesmo algo.

A flor estava postada bem no meio de sua cama; coberta por lençóis que variavam entre o preto e o vermelho-sangue. Bem no meio de seu caule, havia um bilhete, um envelopinho branco, lacrado com um ponto dourado, bem como via naqueles filmes antigos.

Olhou para Yago, e este encorajou-a a pegar sua mensagem.

Nathalia simplesmente caminhou, e parou ao pé da cama. Com as pernas bambas, estendeu o braço e esquerdo, e puxou a flor. Percebeu que o envelope estava grudado ao caule, e desconectou-os com cuidado, com medo de destruir o único lírio no quarto. Cheirou demoradamente a flor, e, ao voltar ao mundo real, decidiu não largá-la. Abriu o envelope com o lírio branco ainda na mão. Dentro, havia um pequeno pedaço de papel, parecido com o que usava como convite de festa. Branco, também. Naquela noite, branco passou a ser sua cor favorita. Puxou, e haviam apenas cinco palavrinhas, escritas num garrancho belo e charmoso, bem no centro do papel, numa linha única.
 
Nosso aniversário ainda não acabou.

- Você planejou tudo isso, não foi? - ela disse, com a voz fraquejando; sabia que, mais cedo ou mais tarde, estaria embargada de emoção - Você chegou atrasado por que ficou preparando isso, você entrou na minha casa de propósito... Como sabia que eu ia te convidar?

- Se não me convidasse, eu perguntaria, "Não vai nem me convidar pra entrar?".

Ambos sorriram.

- A Yvonne sabia? - perguntou - Aquilo que ela disse, quando a gente saiu. "Bonne nuit". Ela sabia?

- Não - respondeu Yago - Acho que estava sendo apenas educada. Mas, agora que você falou, ela pode sim ter lido minha poker face e descoberto. Eu não sou lá um bom ator.

Nathalia aproximou-se, num trote beirando à corrida, e o beijou.

- É sim - ela disse - É sim.

Ele sorriu, e a puxou pra mais um beijo.

- Mas e minha mãe? - ela perguntou, preocupada, e perguntou-se se devia se afastar - E se ela chegar do nada e nos pegar juntos?

- Ela não vai - respondeu Yago, prontamente - Você já viu que ela tá de plantão. Ela fez questão de ficar de plantão essa noite. A meu pedido, claro. Acho que ela está começando a aceitar que você não é mais criança.

- Dificil de acreditar - pensou alto.

Yago riu, parecendo mais com sua risada habitual.

- E isso importa? - ele disse - O que importa é que estamos juntos, não?

- E temos 43 minutos - Nathalia completou.

- Nosso aniversário termina quando nós terminarmos.

- Então temos a noite toda.

Yago a beijou, e mais uma vez, sentiu ela se afastando.

- Mas espera, eu tô toda suja, preciso de um banho, me arrumar...

- Vamos fazer o seguinte - ele disse, com uma impaciência fingida - A gente termina aqui, e aí eu dou pessoalmente um banho em você.

E, antes que ela pudesse responder, pressionou suas bocas.

Nathalia deixou-se vencer, e envolveu as pernas na cintura dele. Como ainda estavam em pé, Yago teve de segurá-la pelo quadril. Quando caíram na cama, a primeira coisa que fizeram foi tirar a camisa um do outro. Yago passou a beijar a base do pescoço da namorada, e tudo que ela pôde fazer foi olhar para o teto e sentir um formigamento de excitação percorrer seu corpo inteiro, até que suas bocas estavam unidas novamente.

Deixou o lírio finalmente cair no chão, e abriu um sorriso enquanto suas bocas ainda estavam juntas.
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