E ae galera :) Hoje não tenho nada pra falar (até tenho, mas seria tipo surtar no twitter) então vamos logo ao capítulo, espero que gostem xD

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Comigo

With me - Sum 41

A warning to the people
The good and the evil
This... is... war...
To the soldier, the civillian
The martyr, the victim
This... is... war...

***

Nathalia fitava o nada, enquanto o vento arrastava folhas que pareciam subir numa espiral à seu redor. Não foram poucas vezes as que olhou para o pequeno corredor, esperando que alguém tivesse a dignidade de sair e lhe explicar o que ela vira. 
 
Seu cabelo agora estava bagunçado e meio armado, e seu salto, tão fino, quase quebrara na corrida.
Agora que examinava os danos, podia ver sua calça, normalmente tão escura quanto a noite, quase branca em diversos pontos. Poeira. Olhando para o chão do estacionamento, pôde ver, com a luz amarelada do poste a poucos metros de onde caíra, pequenas partículas se remexendo, dançando para lá e para cá. Nojento. Levantou-se, batendo nas próprias coxas para tirar a poeira, apenas para cair de novo, dessa vez quase batendo a cabeça no tronco de uma pequena imitação de palmeira, muito mais baixa do que uma planta do tipo deveria ser - mas ainda assim machucava. Gemeu, sentindo o couro cabeludo sendo arranhado e o cabelo loiro sendo posto de pé pelo movimento. Agora não tinha jeito mesmo: o salto esquerdo quebrara, machucando seu tornozelo - mas não quebrando-o, graças a Deus, pensou - e dando-lhe o ultimato de que deveria voltar descalça para casa. Andando? Rezava para que não.
Levantou mais uma vez, dessa vez tendo certeza de que se segurava em algum lugar, e equilibrou-se no pé sobrevivente, quase como que se se equilibrasse numa corda a vinte metros do chão.

Jogou o cabelo para trás, torcendo para que assim desse um jeito, e massageou o pé doído. Sussurrou um palavrão, mordendo o lábio com a dor. Quando tornou a pisar com os dois pés, agradeceu por pelo menos conseguir ficar em pé. Não sabia se poderia andar normalmente, mas achou que talvez isso fosse pedir demais.

E então, ouviu passos de salto ritmados, e suspirou. Não, não poderia ser o garoto de aparência extremamente feminina (e extremamente alto) que seria, a segunda alternativa, ou seja...

Era mulher. De salto.

Andando elegante e finamente, pelo que Nathalia podia ouvir.

Tentou não ficar com inveja, ainda pensando em seu salto quebrado.

Ela demorava tanto que achou que não sairia mais, de modo que Nathalia mordeu-se de curiosidade. É claro que não esquecia as circunstâncias em que se encontravam, mas é claro que precisava conhecer a pretendente da amiga.

E então, quando ela saiu, Nathalia teve de deixar o queixo cair e tremer, num movimento involuntário de surpresa e choque.

***

It's the moment of truth and the moment to lie
The moment to live and the moment to die
The moment to fight,
The moment to fight,
To fight, to fight,
To fight!

***

- Bien - disse, Yvonne, passando a mão no cabelo desarrumado; Nathalia tentou não lembrar do momento em que o vira sendo desarrumado - Isso foi cõnstrangedor.

Continuou caminhando, em direção à patética figura que Nathalia deveria ser, de boca aberta e cabelo desarrumado. Sentiu o rosto queimando, vendo a francesa se mover tão graciosamente quanto uma águia levantando voo. De algum modo, ainda sentia um pouco de inveja, mesmo sabendo que, se houvesse uma competição, claramente o time que torcia para Yvonne não seria o mesmo que torceria para Nathalia.

Subitamente entendeu o por que não devia se preocupar em perder Yago para a estrangeira.

Tentou esconder um pequeno sorriso. Se aquilo fosse um filme ou um livro, estaria morrendo de rir. Tivera ciúmes de uma lésbica? Tivera medo de uma lésbica roubar seu namorado?

E de repente sentiu-se uma ciumenta psicótica, o que fez seu sorriso desaparecer antes mesmo de dar as caras, e então voltou ao choque inicial.

- Você? - ela sussurrou, vendo a francesa a poucos centímetros de estar a seu lado, e não soube dizer se Yvonne a tinha ouvido.

Ela sorriu.

- Nunca disse qual era meu tipo - ela retrucou, fazendo seu habitual biquinho, acompanhado de duas sobrancelhas arqueadas. Nathalia se perguntou que mulher Yvonne não tornaria lésbica.

- Seu tipo são garotinhas de quinze anos?

Ela manteve o sorriso, e Nathalia teve a impressão de que, se pudesse, o aumentaria ainda mais.

- Não venha ralar comigo - disse, com a voz tão doce que nem parecia grosseira, por mais que fosse essa a intenção. - Não sabes nada da vida, Nathaly.

E continuou a caminhar até a entrada mais próxima, exatamente no meio do prédio; uma pequena porta de vidro, que dava exatamente para a fileira média do estacionamento.

Dirigiu-lhe um sorriso, junto com uma expressão que não conseguiu decifrar se era sarcasmo ou simples sinceridade, e entrou novamente no prédio, sem saber que ali dava na cozinha.

- Oi - disse a doce voz de Alex bem às suas costas.

***

A warning to the prophet
To the liar, to the honest
This... is... war...
To the leader, the pariah, the victim, the Messiah
This... Is... War!


***

Virou-se, lançando-lhe um olhar venenoso. Deixou o queixo proeminente, quase fazendo uma careta.

- Alexandra da porra Ângelo!
Alex olhava para os próprios pés, com o rosto completamente vermelho - o que não era difícil de se conseguir, com sua palidez de um tom quase igual ao de Yvonne. Será que fora isso que atraíra as duas? Eram lésbicas que gostavam de gente branca? Não, pensou. Quem escolhia parceiros pela cor da pele além de vovós racistas?

E por que lésbica de repente virou adjetivo para tudo?

- Você tá com cara de lixo - Alex disse, surpresa, sem querer ser grosseira.

- E você tá com cara de lésbica - retrucou, quase vociferando.

Alex suspirou.

- Isso que você viu...

- Eu sei o que eu vi.

- Eu sei que você sabe.

- Que bom - quase cuspiu as palavras - Não tente negar. Você me custou um salto hoje.

Alex segurou o riso, deixando-se apenas sorrir.

- Pra que você veio aqui?

 - Pra que eu vim? Você quase me matou de susto! Sabe o quanto eu te procurei? Sabe o quanto eu fiquei preocupada? Você podia...

- Ter morrido? - ela terminou, com sarcasmo na voz, agora sem conseguir controlar o sorriso.

- Ter se machucado! Você sumiu da mesa, o que você acha que eu pensei?

- Que eu fui no banheiro? Fala sério, o que você pensou que eu podia ter feito?

Nathalia suspirou.

- Não o que você podia ter feito.

- Eu posso lidar com pedofilia, querida.

- Não isso.

Alex deixou de sorrir, subitamente, e seu riso transformou-se num perfil sério. Excessivamente dramática, deu as costas para Nathalia, como gostava de fazer quando discutia algo sério - não havia um momento em que deixavam de caçoá-la por isso, mas decidiu mantê-se calada dessa vez. Quando voltou-se para a amiga, mantinha uma expressão tão séria que assustaria a qualquer um, mas Nathalia já estava acostumada a lidar com isso também.

- Eu sei me cuidar - disse, por fim, num sussurro arrastado e rouco.

- Não me deixa menos preocupada.

Suspiraram, juntas.

- Não devia te deixar preocupada de jeito nenhum.

- Você não pode esperar que eu deixe de cuidar de uma amiga tão...

Não conseguiu completar.

- Olha, Alex - controlou o instinto de pronunciar seu nome completo, como uma mãe faria - Eu te amo. Não no sentido de pegação lésbica, mas você me entendeu. Eu faria qualquer coisa por você. Por qualquer um de vocês. Vocês são meus amigos, e são meus. Não vou deixar nada acontecer com ninguém debaixo do meu nariz.

Alex então riu novamente.

- O.k., mamãe - disse - Não tem motivo pra se preocupar, eu já disse.

Nathalia deu um sorriso que deveria sair despretensioso, porém, acabou como uma careta preocupada.

- Mas você é tão pequena!

- Mas ainda consigo acertar os genitais do idiota que se engraçar comigo.

As duas riram, e então deixaram o pesado ar de tensão se esvair. O vento ainda bagunçava seus cabelos, danificando mais o de Nathalia. As folhas voltaram a rodopiar à seus pés, trazendo sujeira junto. O estacionamento de repente pareceu deserto novamente, e apenas as duas estavam ali. Os carros, parados, vazios, tinham um tom excessivamente triste, quase como um ferro-velho à noite.

- Então... - começou Nathalia, sem conseguir se impedir de fazer a pergunta. - Você já era... você sabe, a palavra com L, antes do... daquilo?

Alex sorriu, como se estivessem falando da cor do pijama que usaram na noite passada.

- É - respondeu, sorrindo - Antes mesmo daquilo - Nathalia sentiu um "O que tornou tudo mais difícil", ao olhar nos olhos de Alex - Por que? Tem algum preconceito com mulheres que gostam de se pegar?

- O que? Não! Não! Claro que não, é só... - fez uma pausa, decidindo as palavras - Não é todo dia que eu vejo uma das minhas melhores amigas... sabe... se agarrando no beco com uma francesa, por que todas as francesas tem que serem lésbicas?

Alex soltou um riso quase escrachado por entredentes.

- Vamos logo pra dentro - disse ela, e logo imaginou se a amiga não havia interpretado errado, então completou - Pra dar uma arrumada nesse seu cabelo. Tem que estar divo hoje...

- Hoje? - perguntou, esquecendo-se do assunto principal - Por que? O que tem hoje?

Inabalável, Alex sorriu.

- Seu aniversário de quatro meses, não?

Nathalia soltou um ah. Claro, depois de tamanha homenagem (particular), como poderia se esquecer?

- Vamos, vamos - disse, acompanhando, usando a amiga como apoio para o pé que tornara a doer no primeiro passo.

***

It's the moment of truth and the moment to lie
The moment to live and the moment to die
The moment to fight,
The moment to fight,
To fight, to fight,
To fight!

***

As duas chegaram naquele exato momento - Nathalia já de cabelo arrumado e apresentável novamente -, a ponto de ouvirem gritos de dezenas de adolescentes, que arrastavam seus namorados para a antiga pista de dança, deixando-os claramente desconfortáveis, fazendo caretas e conversando entre si. Então Yago tinha um público alvo. Nathalia já podia imaginar as críticas, as injustiças, as mentiras... se ele se tornasse famoso, claro. E, bem, fama não era necessária; tudo que Yago precisava fazer era lançar um CD, e pronto: teria concluído seu sonho secreto.

Que Nathalia sabia que ele sonhava.

- Acha que ele tem chance de gravar mesmo? - perguntou Suzana, fitando Yago enquanto este fazia diversas poses no pequeno palco - De fazer sucesso?

Nathalia sorriu.

- Tem que ter. Olha essa voz, é linda.

- Você é suspeita por falar.

Virou-se para Alex, pondo as mãos na cintura. Fingiu deixar o rosto assumir um tom sério.

- Bem, você não é nem um pouco - retrucou, fazendo bico apenas com o lábio inferior.

Alex quase que obrigou-se a rir.

- Touchè - disse, apenas arqueando um sobrancelha.

E então Nathalia o viu.

Devia estar bem óbvio em seu rosto, pois Alex logo perguntou: - O que foi?

Sua boca tremeu.

Gustavo estava apoiado na parede, encarando-a, com a exata mesma roupa do último dia em que se viram. Com o pé esquerdo no chão e o direito cruzado na parede. Outros o imitavam - boa parte tentava fugir das namoradas, que se amontoavam na ex-pista de dança, quase com vergonha de Yago receber suas atenções -, porém nenhum conseguia transmitir tanto charme, tanta confiança, tanta glória como Gustavo fazia. Tudo aquilo que não vira nele em Cabo Frio, agora parecia transbordar dele. E ele com certeza não controlaria a boca. Ser humano nenhum deixaria-se ser humilhado daquele jeito.

Gustavo abriu um sorriso, e um arrepio percorreu o corpo de Nathalia.

Yago não podia saber.

- Fique aqui - disse ela, com a voz embargada, não importando quanto tentasse controlá-la.

- Nathalia - chamou Alex, com a voz séria.

- O que?

- Fico aqui só por que eu sou lésbica? - disse, com um sorriso no rosto.

Nathalia suspirou, e involuntariamente sentiu as lágrimas se acumulando em seus olhos.

- Agora não é hora, Alex.

Viu a amiga perder a bela expressão, e ela ficou séria novamente.

- Nathalia!

Virou-se, sem vê-la chegando. Sentiu o impacto de um corpo, algo espremendo sua barriga, arranhando-a, e mais tarde percebeu que seu abdomen estava vermelho. Sentiu algo subir seu pescoço, uma vontade de vomitar. Caiu de costas no chão, quase batendo a cabeça. Todos os ossos logo pareceram esmagados, moídos. Se não soubesse o mínimo sobre sobre biologia, poderia jurar que uma rachadura formara-se em seus quadris e subia até seu pescoço.

Sentiu uma queimação na coluna, e perguntou-se se não estava sangrando.

Teve de gemer baixinho, e corou ao sentir diversos olhares sobre ela.

Yago pareceu não ter percebido, pois a música seguiu sem parar, avançando para o refrão.

Cobriu o rosto com as mãos, engolindo as lágrimas que ameaçavam pular de seus olhos. Uma escapou, queimando no rosto vermelho. Havia mordido a língua também, e sentia agora um gosto de sangue na boca. A garganta se fechara numa tentativa de soluço, mas Nathalia fez força para parecer forte.

Sentiu uma mão pousando em seu joelho flexionado, e, tirando as mãos da frente, pôde ver uma segunda mão bem-cuidada estendendo-se em sua direção.

O que lhe assustou foi a dona dessa mão.

Gabriela.

- Uma ajuda aí, colega? - disse ela, com a voz controlada, quase normal... se não notasse a crueldade na última palavra. Uma crueldade que apenas ela parecia notar.

Tudo aconteceu como se tivesse sido planejado e ensaiado.

Nathalia foi obrigada a aceitar a ajuda, depois de uma pequena pausa. Torceu para a multidão de sete pessoas que a encarava não notar que ela se indagava se deveria realmente confiar em Gabriela - uma estranha, aos olhos dos outros. À seus olhos, porém, sabia que ela era a pior vadia louca de todas - e não no bom sentido.

- Obrigada - ela sussurrou numa voz embargada, quase forçando a barra ao fingir seus sentimentos, já que uma raiva incontrolável tomava conta de seu corpo.

Ao se levantar, percebeu o quão idiota deveria estar parecendo.

Viu uma tigela de vidro quebrada no chão - estranhou; não lembrava de ter ouvido um estardalhaço, talvez por causa da queda -, com uma estranha gororoba espalhada exatamente onde caíra. Sentiu cheiro de queijo, e, olhando os pequenos pedaços de salgadinhos quebrados espalhados pelo chão, deduziu que deveriam ser Doritos de queijo nacho, misturados naquele estranho molho de queijo - um redundância que nunca entendera - com cebola, pôde perceber, torcendo o nariz. Não sabia que ali vendia-se aquele tipo de coisa, bem como não sabia que brasileiro tinha um gosto tão refinado para porcaria. Olhou para a calça jeans, vendo-a suja novamente, agora não só de poeira, mas do molho amarelado também. Aquilo não sairia com alguns tapinhas e papel higiênico molhado, pensou. Pondo-se de pé, quase perdeu o equilibrio novamente: agora os dois saltos estavam quebrados, tanto o antes intacto quanto o nem-tão-consertado, percebeu. Não lhe admiraria se seu cabelo estivesse bagunçado e sujo... novamente.

Todos os curiosos voltaram-se para suas atividades anteriores, menos Felipe e Suzana, que observavam-as boquiabertos, ainda sentados no bar, do outro lado do largo corredor.

Não conseguindo pensar em fazer nada melhor, decidiu ignorá-los.

- O que está fazendo aqui? - perguntou, numa voz baixa e mais forte do que queria, o que era bom.

- Ora, querida, vim ver o show do seu Yago - disse, com veneno na voz.

Nathalia endureceu o queixo.

- Você, melhor do que ninguém, devia saber o quanto temos ódio de sermos chamadas de querida - disse, referindo-se às mulheres como um todo. Logo em seguida se arrependeu de suas palavras; estava dando apenas corda no brinquedo favorito da vadia.
- Ah, mas eu sei. O que simplesmente prova o quanto você não me conhece.

Nathalia teve que se encolher diante de seu tom de voz. Havia tanta raiva ali, tanto rancor... E ela já vira uma vez o que tais coisas poderiam fazer.

- Você não tem o direito de estar aqui - vociferou.

- É um país livre.

- Você tentou me separar do Yago!

Sentiu-se uma idiota. Toda a inteligência parecia ter sumido de suas palavras, e tudo que conseguia falar era a verdade; e a verdade era que queria cair na porrada ali mesmo com ela.

Gabriela riu.

- Essa velha história? Um dia, você verá, estará contando-a para seus netos. E eu já disse, vim aqui apenas para ver como ia ser essa apresentaçãosinha, e, devo dizer, está mais entediante que novela das oito. Não que ele não saiba cantar - Nathalia quase pôde ouví-la dizer "Ele podia cantar pra mim quando quisesse" - mas ele simplesmente não sabe o que é música... boa.

Seu riso beirou ao histericismo.

- Não gosto de falar com você - disse ela, séria novamente - Então, se me dá licença, tenho um novo amor - em suas palavras, havia um certo sarcasmo, quase escondido, que lhe perfurou como uma faca - Tenho que voltar para ele.

E então virou o rosto, na direção de Gustavo, e lançou-lhe um beijo com as mãos. Gustavo deu uma piscadela, rápida, mas sugestiva.

Nathalia se sentiu enojada.

- Vê se não rouba esse também - Gabriela disse, com tanto veneno quanto uma cascavel - Esse eu quero pra mim. E eu sei de muitas coisas que podem acabar com você no momento em que se engraçar com mais um homem meu.

E deu as costas, jogando o cabelo e sussurrando um "hum".

Nathalia ficou parada ali, sem expressão. Ainda sentia os olhares de Suzana e Felipe nas suas costas, e, se não houvesse tanta gente ali, poderia jurar que acharia um cantinho e chorava.

Viu Gabriela se agarrar com Gustavo, num beijo nojento, sem pudor algum. As mãos dele desceram até seu quadril, e apertaram-no contra seu corpo. Ela passou seus braços por seu pescoço, puxando-o ainda mais para si. Nathalia pôde jurar que ela passara as unhas, com força, nas costas e pescoço de Gustavo, e puxara seu cabelo, quase numa tara sadomasoquista. Seu beijo parecia fazer questão de mostrar que usavam a língua.

- Está tudo bem? - perguntou Alex.

Nathalia virou para ela, mordendo os lábios com força.

- Onde você estava?

- Eu?

- É, você - vociferou ela, com a voz fraca, falhando - Onde você estava pra impedir tudo isso?

- E o que eu poderia fazer?

- Me tirar daqui. Me tirar daqui, me impedir de ver tudo isso! - deixou as lágrimas voltarem a rolar pelo rosto, desfazendo mais uma vez sua maquiagem.

Alex permaneceu calada. Olhou para o lado, uma vez - para Yago, que continuava cantando.

- Me tira daqui - disse Nathalia então, num tom de súplica, com mais duas lágrimas pulando dos olhos e os lábios tremilicando.

- Ainda não - disse Alex.

- Como assim ainda não?
 
- Você vai ver - continuou ela - Só senta, e espera.

Nathalia sentou. Sentou fungando, mordendo os lábios, sentindo gosto de sangue na boca. As costas agora haviam parado de arder, de modo que tinha certeza de que não sangravam. Todas as dores, no entanto, pareciam acentuadas; o pé voltou a dor. E estava começando a ter um enxaqueca descontrolada.

- Espera só - disse Alex, receosa, como se falasse algo que não devia - Você vai ver.

O refrão da música terminou.

***

I do believe in the light,
Raise your hands up to the sky
The fight is done, war is won,
Lift your hands toward the sun

***

Alex levantou-se. Nathalia a olhou, sem saber o que ela faria. Ficou parada ali, em pé. Levantou a mão direita, fechando-a num punho, e então, como se comemorasse algo, deu socos no ar, e gritou.
- Fight!

Todo o lugar se voltou para ela, e a música continuou.

Yago sorriu. Era o complemento perfeito.

- Fight! Fight! Fight!

Toward the sun... Yago disse.

O lugar inteiro entendeu a deixa.

Em um segundo, não havia uma voz que não se juntava aos gritos de Alex. Todos gritavam do jeito que podiam - os que não sabiam inglês gritavam uma versão distorcida, que não sai parecida com nenhuma palavra em nenhuma língua; os que sabiam inglês deixavam a voz carregada com um leve sotaque; os que tinham voz baixa pareciam sentir dor de garganta, de modo que seus gritos saíam como música muito alto saindo de uma caixa de som.

Mas todos, em uníssono, gritavam a mesma palavra inglesa.
 
Fight!

Toward the sun...

- Fight! Fight! Fight! Fight! Fight!

The war is won...
 
E todas as vozes se uniram num último, gigantesco e alto: FIGHT!

Yago sorriu.

To the right! To the left!
We will fight to the death!
To the Edge of the Earth!
It's a brave new world, from the last to the first!

Nathalia não gritava.

Não sabia qual era a surpresa. Não sabia qual era o motivo de tanta alegria. Apenas deixou-se chorar, e inundou-se pela energia do ambiente, quase esquecendo de todas as preocupações, e sorriu.

To the right! To the left!
We will fight to the death!
To the Edge of the Earth!
It's a brave new world, it's a brave new world, it's a brave new WORLD!

Alex gritou uma gigante comemoração, um grito de guerra. OOOOOOH!
 
The war is won!

Todos acompanharam seu grito, logo esquecendo da palavra em inglês, que alguns entendiam, e outros não. Garotas, garotos, namoradas e namorados, todos. Não era como a música anterior. Não agradava apenas à certas pessoas. Agradava a todos; não havia como não agradar, uma música que praticamente espremia toda a essência do ser humano em meros cinco minutos; mesmo que nem todos no mundo entendam a letra.
 
A brave new world!

***

A música diminuiu. Não havia mais guitarra, bateria, nada. Apenas um violão, que tocava continuamente um ritmo. Um diferença de apenas cinco acordes, pelo que Nathalia pôde contar. Mas seus ouvidos não eram treinados para isso; poderia muito bem haver mais vinte acordes e ela não iria perceber.

Yago olhou para ela. Sorriu.

Tirando a boca de frente do microfone por um instante, sussurrou algo para as garotas da fileira da frente. Pôde vê-las assentindo. O violão ainda parecia ecoar no salão inteiro, sem estar conectado à nenhum aparelho; nenhum amplificador; apenas o som acústico, o lindo som acústico.

Voltando-se para o microfone - Nathalia pôde vê-lo um pouco corado -, sorriu mais uma vez, e então começou.

I believe in nothing, not the end and not the start...
I believe in nothing, not the earth and not the stars...

Sorriu mais uma vez, e engoliu em seco. Para sua surpresa, Yago tirou o microfone daquele apoio sem-nome, e abriu a mão, primeiro expondo todos os dedos abertos, depois deixando apenas o indicador esticado - um sinal. Nathalia só não sabia para quem.

As garotas das primeiras fileiras abriram caminho, fazendo um corredor perfeito. O resto ia imitando-as, no mesmo ritmo lento - o ritmo perfeito, pensou Yago.

Ele desceu do palco, tomando lugar no corredor que se abria, caminhando tão lentamente quanto as garotas se afastavam.

I believe in nothing, not the day and not the dark...
I believe in nothing, but the beating of our hearts...

Alex novamente puxou um Oooooh, porém, dessa vez, lento, calmo, baixo. Todos pareciam cantar essa pequena onomatopéia ao mesmo tempo, porém, como era baixo demais, mostrava as imperfeições de suas vozes. Quanto tempo eles conseguiam cantar sem ter que parar para respirar. Quando desafinavam.

I believe in nothing, one hundred suns until we part...
I believe in nothing, not in satan, not in god...

O corredor terminou na mesa de Nathalia.

Subitamente percebeu o que Yago estava tentando fazer. Sentiu-se tomada por pânico ao ser o centro das atenções, e só então lembrou o quão desarrumada estava.

- "Seu cabelo tem que estar divo hoje!" - sussurrou Alex, lembrando-lhe do momento no estacionamento. Ela sabia. Ela sempre soubera - Levanta, vamos.

- O que? Não!

- Anda logo, isso é por você.

- Mas eu não posso Alex, eu tô toda desarrumada, toda suja...

Alex fez um shiu baixinho.

- Você está linda - e sorriu.

I believe in nothing, not in peace and not in war...

Yago estava à sua frente.

A luz fazia seu cabelo brilhar ainda mais. Seus olhos azuis não tinham aquele tom escuro de todos os dias - tinham um tom claro, claro como o mar numa manhão de sol. Estava lindo.

Torceu para seu cabelo não estar armado.

O sorriso de Yago cresceu ainda mais, e se tornou quase hesitante; como se soubesse o que fazer, soubesse o que queria fazer... mas tivesse medo de fazer errado.

I believe in nothing, but the truth of who we are!

E então a beijou.

Puxou-a para si, e deixou seus braços se entrelaçarem na altura do pescoço. Passou a mão por seu longo cabelo louro ondulado. Suas mãos se fecharam num abraço em suas costas. Suas bocas se moviam sincronizadas, num movimento perfeito.

Toda a multidão parou de falar, e então ouviram uma salva de altas palmas.

O violão ainda tocava, mesmo com a música tendo acabado.

Yago levou as mãos até o topo de sua cabeça, pressionando as duas bocas, uma contra a outra, num beijo forte.

Nathalia riu, entre seus lábios. Num surto de desejo, beijou-o ainda mais rápido, movendo sua cabeça de uma lado para o outro. Seus narizes roçaram, dando-lhes quase que um choque. E então suas bocas se separam. Deram mais um, dois, três selinhos, não querendo separarem-se nunca mais. Apertaram os olhos, como que com medo de voltar a realidade e terem de enfrentar tudo aquilo mais. As palmas continuaram, e pareciam que não iriam parar até que Yago voltasse ao palco.

Encostaram as testas, um no outro.

- Feliz quatro meses - disse, dessa vez com todas as palavras.

- Feliz quatro meses - ela repetiu, e deixou duas lágrimas de júbilo rolarem pelo rosto.

- Eu te amo - ele disse.

Nathalia tentou responder, mas o som saiu um murmuro ininteligível.

- Mais duas músicas - ele disse, depois de um riso.

- Você precisa mesmo voltar pra lá?

- Foi o que você quis.

- E nunca vou me arrepender.

Yago riu. Nathalia olhou por cima de seu ombro, vendo Gustavo e Gabriela com expressões que passariam facilmente da raiva para o ódio assassino. Gabriela foi a primeira a dar a volta pela multidão e sair, passando o mais longe possível deles. Gustavo fez o mesmo, empurrando um garota de treze anos no caminho, fazendo-a cair.

- Mais duas músicas - ele disse novamente - Mais duas músicas e sou seu.

Ela sorriu.

- Não se esqueça do que eu disse. Você vai assinar esse contrato nem que seja com sangue.

Roçaram os lábios.

- Por você - ele disse.

- Por você também.

E beijaram-se mais uma vez.

Yago voltou ao palco, sentindo o coração prestes a explodir. Nathalia chorava de alegria, segurando as duas mãos em punho na altura do coração, como se o segurasse para não sair do peito e voltasse para seu dono: Yago.

- Eu te amo! - ela gritou, no meio da novamente silenciosa multidão.

Yago sorriu.

- Eu também te amo - repetiu, como uma criança alegre.

E a música recomeçou.
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