Hey guys o/ como já disse, a partir desse capítulo, SILENCIAR volta a ser postado apenas nas sextas. Só um lembrete né. Mas enfim, espero que gostem como sempre, e lá vai mais um o/


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keep holding on

Avril Lavigne

Mais um arrepio de pânico percorreu o corpo de Yago. Ouvindo a conversa - e alguns gritos, devo acrescentar - detrás das cortinas negras, não pôde deixar de tremer. Com os ouvidos apurados, pôde ouvir ainda um típico ruído metálico, que se ouvia de um microfone com mau contato. Podia ouvir a banda preparando tudo e - no estado paranóico que se encontrava - podia jurar que ouvia os fios sendo conectados às respectivas tomadas e instrumentos. Sentiu duas gotas de suor se multiplicando para centenas em sua testa.

- É a grande noite. - disse Nathalia, segurando seu braço, com um sarcasmo carinhoso na voz.

Yago a fitou.

- Não seria uma grande noite se você tivesse mantido o bico calado.
 
- Não vem com essa não que eu sei que você tá gostando.

- Eu tô com cara de quem tá gostando?

- Vai ficar.

Engoliu em seco, fazendo drama, arregalando os olhos para a namorada.

- Quanta gente tem lá? - perguntou.

- Tipo, umas setenta, oitenta.

- Oitenta?

- Eu não conto com os olhos, querido.

Saltou um gemido que saiu arranhando a garganta, em protesto.

- Eu nem falo com tanta gente!

- Mas tanta gente fala com você.

Yago mordeu o lábio, subitamente se arrependendo do que havia feito. Seria melhor simplesmente ter negado. Ou adiantado a resposta, para não parecer um babaca na frente da escola inteira. Tudo menos aceitar. Se recusasse, logo o esqueceriam novamente, e ele voltaria a ser simplesmente Yago. Cantando, porém... se alguma coisa fosse errado, já até podia ver. Ah, os apelidos! Ah, os valentões botando o pé na sua frente e quebrando o que quer que trouxesse (na falta de óculos)! O coração pesou, e cada vez mais sentia a barriga revirar como se houvesse um gigantesco engavetamento de carros se formando. Sentiu a bile subindo, e pensou se não colocaria para fora todo o vinho que havia roubado de sua mãe na noite anterior. Claramente fora inútil; o álcool não o acalmara.

- Ei - Nathalia disse - Vai ficar tudo bem.

Ele sorriu, sarcástico.

- É fácil para você falar. Sou eu que vou ficar na frente de oitenta pessoas.

- Mas você vai conseguir. Escolha uma música que eles gostem, por favor, e vai ficar tudo bem.

Yago lembrou-se do que Yvonne havia lhe falado, minutos antes. "Se a música não agrada, o ser humano logo tem uma ideia de que é o cantor que canta mal, e isso não é verdade". Exemplos não faltavam, pensou. Não adiantava tentar agradar todo mundo, sabia que boa parte fora vê-lo apenas para fazê-lo passar vergonha, e, se não estragasse tudo, não lhes daria o prazer de tal coisa. Já tinha a tracklist inteira pronta. Todos os instrumentos necessários, desde de um simples violão até uma barulhenta guitarra. Ficaria apenas com o teclado, que pertencia a ele mesmo. A banda, formada apenas por mais quatro pessoas que se revezariam de acordo com as necessidades da música, era-lhe totalmente desconhecida, de forma que não sabia o quão confiável eram, principalmente com músicas pouco conhecidas. Não tiveram direito a treino, pelo menos não com todos reunidos; as férias começaram naquele dia mesmo, segunda-feira, e na manhã seguinte, bem mais que cinquenta por cento dos alunos da escola iriam viajar. Era uma oportunidade única em um mês inteiro, segundo Yvonne, e deviam aproveitar-la.

- Não se preocupe com isso. - disse, por fim - Quanto a isso, a porta fica perto do bar pra quem não gostar.

Nathalia riu, e então decidiu acompanhá-la. Só então percebeu a rima em suas palavras.

- Só vamos esperar que não sejam tantos à optar por essa opção. - disse, não escondendo a negatividade que voltava à sua voz.

- Fodam-se eles. - disse Nathalia, entrando no jogo.

Sorriu mais uma vez.

- É, fodam-se eles. - Mas não tinha tanta certeza em seu coração quanto tinha em suas palavras.

Yvonne entrou, num timing perfeito, como se estivesse esperando o momento certo, coisa que já se tornara habitual à sua presença.

- Tudo prrronto - ela disse, sem conseguir evitar a prolongação do r.

Yago sentiu-se corar. Engoliu em seco uma vez, que logo se tornaram vezes. A garganta doeu, e sentiu novamente o gosto da horríveis pastilhas de framboesa que tivera de chupar para preparar a voz para esse pequeno show. Quantos pacotes tinha chupado, uns quatro?

Sacudiu a cabeça, livrando-se de todas as distrações. Bem como bagunçando o cabelo, dando-lhe um ar charmoso no meio de um quase-ataque nervoso.

- Vamos te esperar lá embaixo - disse Nathalia.

- Oui, junto com os plebeus - completou Yvonne, com sarcasmo.

Yago assentiu, virando-se para a cortina negra enquanto as duas partiam pelas escadas que davam na pista de dança da boate.

Ficou ali, encarando o véu negro. Respirou fundo, de olhos fechados. Não sabia qual reação acarretaria, e tinha muito medo disso. De não ter mais nada planejado.

- Ei - Nathalia disse, ao seu lado. Percebeu então que ela não saíra dali, assim como Yvonne ainda estava parada nas escadas, olhando para eles. Apenas dois segundos deviam ter se passado - Vai com calma, o.k.?

Ele sorriu.

- Quando eu não vou? - disse, com seu habitual deboche na voz.

- Estou falando sério - disse ela - Só entra aí quando tiver pronto.

Yago deixou o sorriso amarelar e por fim morrer, tornando o rosto tão sério quanto o de Nathalia. Engoliu em seco, sentindo a preocupação da namorada queimar em sua pele, à medida que as unhas dela abriam cinco leves rasgos em seu braço. Assentiu, piscando os olhos.

- Boa sorte - ela disse, deixando a boca entreaberta. Olhou pra Yvonne rapidamente, e depois voltou a olhar nos olhos de Yago, indecisa. Beijou-lhe os lábios então, um beijo rápido. Assim que separaram-se, olharam nos olhos um do outro, e sorriram.

Nathalia voltou-se para a escada, correndo para chegar até Yvonne, e as duas saíram por uma segunda cortina negra, deixando Yago sozinho.

***

- Ele vai ficar bien.

Nathalia respirou fundo.

- Eu sei, é só...

- Não estás dando para trásss, como vocês mesmo dizem, estás?

Nathalia a encarou. - E tem como dar pra trás agora?

- Realmente.

Nathalia suspirou, mordendo os lábios e batendo os pés. Agora tinham chegado ao chão, deixando as escadas de madeira improvisadas para trás. Havia um certo burburinho entre os vários adolescentes e jovens adultos, afinal, já eram nove horas, hora do show. Não viu nenhum professor, porém. Os professores deviam ter mais o que fazer além de vir num show de um aluno.

- Vous tem estado meio ranzinza esses dias.

Nathalia mordeu o lábio ainda mais forte, sentindo um leve gosto de sangue na boca, e corou. Tomou coragem, inflando os pulmões.

- É, é só que você e o Yago tem passado muito tempo juntos - gaguejou -, sabe?

A boca de Yvonne primeiro se abriu, e depois teve seus cantos repuxados num sorriso. Nathalia pôde ouvir um risinho saindo de sua boca, e então percebeu que as duas haviam parado. Yvonne levou a mão a boca, para abafar os risos.

- E - continuou, com a voz ainda falha - Eu... eu já perdi ele, uma vez, por burrada e paranóia minha. Não tô disposta a fazer isso de novo, não quero paranóia de novo, não quero ficar imaginando... Dá pra parar de rir, por favor?

- Me excuse, me excuse - disse, ainda rindo - Vous não pode falar uma coiça dessas e esperar que eu fique quieta!

Nathalia cruzou os braços e começou a remexer os pés, inquieta.

- Não se preocupe - disse Yvonne - Não gosssto de mais jovens. Não há motivo para se preocupar.

Nathalia sentiu um tom firme a afirmativo na sua voz, como se ela não sentisse atração nenhuma por Yago. 
Como se os dois não tivessem chance nenhuma.

- Um dia, vous verá.

Yvonne então olhou por cima do ombro de Nathalia, fazendo a mesma olhar para trás. Uma cabeleira loira, tão clara que beirava ao branco, caminhava em sua direção. Uma mecha vermelho-claro pendia do lado esquerdo. Se não fossem pelos olhos verdes e pela altura anormalmente baixa, não teria reconhecido que era Alex.

- Vá brincar com seus amigos, vai, Nathaly - disse Yvonne, cheia de um sarcasmo brincalhão na voz, dando as costas para ela.

- Qual a dificuldade de botar um a no final do meu nome? - disse, mais para si mesma do que para a francesa, que já estava longe.

- Nathalia - disse Alex, também olhando para a mulher que partia.

- Ah, oi - respondeu ela, se virando para amiga.

- Quem era aquela?

- A futura empresária do Yago, se Deus quiser, mas esquece isso, que cabelo é esse?

Alex riu.

- Meu cabelo - disse - Enjoei de parecer um Power Ranger com aquele cabelo rosa. Ah, e nem vem, por que eu parecia tudo menos a Hayley Williams com aquilo. Então, refiz ele todo. Hoje vim de Avril Lavigne, o que achou?

Nathalia riu, e só então percebeu que a tal mecha não era vermelha; era rosa. O cabelo loiro (não sabia se era fruto de tinturas ou se era um loiro natural; nunca pensara em perguntar para a amiga, e perguntar agora seria grosseria) brilhava demais, e era insanamente mais claro que o seu. O de Alex tinha um tom de amarelo claro, enquanto o seu era de um amarelo vivo, bem cuidado. Enquanto o seu se ondulava em cachos largos, de modo que parecia uma boneca. A boneca mais linda de todas, que todas as crianças brigavam para ter. O de Alex ainda estava cortado com uma mecha maior que a outra, com as pontas, um pouco abaixo dos ombros na época em que entrou na escola, agora descendo até a metade das costas - o que não era lá muita coisa, pensou Nathalia.

- Tá estranho - ela disse, não terminando a frase para admirar a nova perspectiva que o cabelo loiro dava ao rosto da amiga.

Alex não gostou do meio comentário.

- Olha aqui - disse ela, já elevando e engrossando a voz para rebater com um ataque - O cabelo é meu e eu faço o que eu...

- Mas tá lindo! - disse Nathalia, com a voz cansada, interrompendo-a.

- Jura? - Alex perguntou, com uma calma repentina, até estranha devido ao começo do ataque - Demorei um tempo fazendo ele, não é fácil descolorir o cabelo todo, e confesso que quando a tinta saísse, estivesse grisalho. Gri-sa-lho, acontece com algumas pessoas. Mas não, tava normal, e aqui estou eu, loira natural di-va.

Nathalia riu a medida que Alex a cada vez que dava ênfase à uma palavra, separando as silabas.

- Tá lindo - disse, e continuou, com uma malícia fingida na voz - Pode até pegar alguém hoje, hein?
Alex primeiro arregalou os olhos, e depois riu. Nathalia nunca falava assim, só quando estava brincando.

- Guarda seu homem que a bruxa tá solta - ela disse, seguido de um risinho desconfortável que tirou todo o senso de humor da brincadeira.

Era o que ela fazia, afinal. Ficava desconfortável ao falar de romance.

- Vamos logo pegar uma mesa - disse.

- Não tinha uma reservada?

- Ah, é, tem sim, mesa quatro, acho.

- É distante do palco!

- É a que tem, agora sossega aí.

Alex fez um muxoxo, mordendo o lábio com as pernas inquietas do mesmo jeito que Nathalia estava fazendo minutos antes. Nathalia teve de rir; afinal, era engraçado mesmo. Sentaram-se então. Com os olhos, procuraram por Suzana. Já devia ter chegado. Ela não perderia isso por nada, não é? Não havia superado aquele episódio todo, como Alex havia feito? Alex havia sido honesta, então Suzana tinha que ter alguma coragem... não é?

- Psiu - disse Alex, e o mais descarada e discretamente possível, apontou com o queixo para o bar, o único lugar que havia se mantido intacto na boate - agora um clube - inteira(o).

Suzana estava ali, sozinha, revirando um copinho cheio de um líquido negro, com pequenas bolhinhas de ar subindo até a superfície. Coca, pensaram as duas juntas.

- Devemos ir lá chamar ela? - perguntou Nathalia.

- Não - disse Alex, depois de uma breve pausa - Ela deve querer ficar sozinha. Vamos respeitá-la.

Em sua voz, havia um tom de "sei como ela se sente".

O ar ao redor das duas se tornou pesado, e ambos os corações alternavam entre batidas fortes e rápidas e batidas leves e lentas. Mordiam os lábios - um hábito que uma pegara da outra. A conversa se tornou estranha, e as duas mal podiam esperar por um momento que aliviasse aquele peso todo.

- Acho - começou Alex, com a voz baixa a principio e tornando-se mais confiante a medida que a frase evoluía, como que para quebrar a tensão -, que vou pintar meu cabelo de verde, da próxima vez. Tipo Dobradora de Terra, sabe?

Nathalia virou-se para a amiga, e então, com um riso que saiu como uma tosse, jogou a cabeça para trás, com a mão na boca, controlando-se para não rir alto.

- Você é tããão nerd!

***

Yago respirou fundo, uma única vez. Reteve o ar nos pulmões, e soltou-o, devolvendo ao ambiente mais quente do que nunca. Estalou o pescoço, e deu pequeno pulinhos, como um lutador antes do primeiro round, mas parou ao ouvir a madeira quase podre ranger. Não sabendo mais o que fazer, apertou as próprias unhas contra as palmas das mãos.

Bebeu a água que estava no copo na mesinha a seu lado. Quente, de tanto tempo que enrolava. Quando o último gole desceu por sua garganta, soltou um ah involuntário. Meneou negativamente a cabeça, e deu tapas fracos em seu próprio rosto, como se quisesse acordar. Quanto tempo de espera já havia se passado, quarenta minutos? Olhou para o relógio. Cinco minutos de atraso.

Corou sozinho.

- Seja o que Deus quiser - sussurrou para si mesmo.

Abriu as cortinas, revelando o palco improvisado, e se revelando para o público.

O lugar inteiro parecia completamente diferente. As pessoas na pista de dança estavam sentadas em mesas e cadeiras, como um barzinho com show no jantar ou uma festa de criança rica, com banda improvisada. Aquele cenário inteiro lhe parecia bizarro. Se lhe pedissem, não conseguiria imaginar a única boate/clube de Costa Valença assim, sem música e arrumada. O chão era visível, até, sem as dezenas de sombras de pessoas dançando e as luzes alucinadas que lhe davam dor de cabeça, bem como o cegavam por alguns segundos. Engoliu em seco ao perceber que boa parte tinha notado sua chegada, e tanto Yvonne como Nathalia puxaram uma salva de palmas. Obrigou-se a sorrir.

Cumprimentou a banda com a cabeça: um barbudo meio gordo com uma guitarra preta na mão, camisa cinza e jeans surrados. Clichê. Um baterista magricela, com uma franja caindo apenas no olho direito. Da raiz até pouco mais da metade dos fios, seu cabelo era de um tom castanho claro, entre um marrom claríssimo e um amarelo escuro. A partir daí até a ponta, era loiro. Luzes, pensou. Achava aquilo tosco, mas era iniciante no negócio. Dali a alguns anos, se fizesse sucesso, podia muito bem fazer um moicano colorido e botar um piercing a cada centímetro de seu corpo. Havia mais um homem - este estava sentado. Segurava um violino, como Yago pedira para a primeira música; às suas costas, havia um violão cor-de-madeira. Ele devia ser o que alternava entre os instrumentos, pensou. Não havia baixo, de modo que ele pensou que o guitarrista teria de improvisar.

Seguiu para o microfone, percebendo que não havia mais quase nenhum olhar pairando sobre ele.

- Obrigado a todos por virem. - disse, achando que deveria começar com um falso discurso, para parecer que não fora praticamente empurrado para cima daquele palco. - É muito importante...

Parou ali mesmo. Ninguém prestava mais atenção. Alguns não tinham pudor ao demostrar o tédio, deixando a cabeça apoiada numa das mãos. Nathalia passava o dedo no pescoço, num sinal de "Corta, corta", fazendo que não com a cabeça.

Ao inferno, pensou.

- Seja o que Deus quiser - repetiu, e deu um sinal positivo à banda.

Tirou o microfone do "apoio" - não sabia o nome daquele negócio - e o prendeu em cima do teclado, fazendo novamente um irritante barulho metálico. Alguns olharam para o palco, com olhares incomodados, reclamando baixinho. Sussurrou um pedido de desculpas no microfone, corando.

Depois de alguns segundos em silêncio, tocou.

Teclou de leve, fazendo apenas um único ruído. Repetiu as mesmas teclas, fazendo o máximo possível para o ritmo torná-se parecido com o da música original; afinal, não achara nenhuma tablatura, que já eram difíceis de achar, quanto mais uma música quase desconhecida. Aquele solo de piano com violino demoraria quase dois minutos inteiros, e não podia se dar ao luxo de enrolar tanto. Depois de dez segundos tocando seu instrumento, sozinho, assentiu para o violinista - era o sinal que haviam combinado poucos segundos antes. O homem, cujo nome ainda era desconhecido para Yago, começou a tocar também. O guitarrista levantou-se, sem chamar a atenção de ninguém, e pegou o violão; sua guitarra brilhante e polida não seria necessária tão cedo.

Com mais um sinal de Yago, o violão começou a tocar, e tanto o violino quanto o teclado, que não seriam mais tão necessários, tiveram de diminuir seus ritmos, e logo pareceram que tocavam apenas para dar à banda algo pra fazer.

Todos olharam para o Yago, o garoto que cantava que ainda não estava cantando.

Reunindo o máximo de sua voz que pôde, com a mesma força que usava para cantar em seus vídeos, Yago começou.

I'm here again
A thousand miles away from you
A broken mess
Just scattered pieces of who I am

No mesmo momento, Nathalia teve de prestar atenção à Yago. Não por sua voz, não pelo respeito de ser uma convidada especial. Mas pela música. Pela letra. Pelo ritmo, quase irreconhecível, de modo que não identificara a música original. Não conseguia decidir se sorria ainda mais ou se deixava os cantos da boca voltarem a se alinharem, formando uma expressão séria e surpresa.

I tried so hard
Thought I could do this on my own
I’ve lost so much along the way

Sabia que música era aquela. Devia ter uma expressão incrivelmente retardada no rosto, pois já não se importava mais em controlar-se. Sua primeira tentativa de sorriso falhou, mas já na segunda, o repuxar de lábios se estampou em seu rosto. Sentiu os olhos marejarem, mas sabia que não iria chorar. Era apenas sua primeira reação àquela música.
Era música que tocava em sua cabeça na primeira noite que passaram juntos. Pieces, da banda Red.

Sua música favorita.

Então, na pausa entre esse segundo verso e o refrão, Yago virou-se. Podia perceber que estava a encarando nos olhos. Sem emitir um único ruído, movimentou sua boca, como se dissesse "eu te amo". Logo em seguida, gesticulou novamente com os lábios: "Feliz quatro meses".

Nathalia mordeu o próprio lábio inferior, ainda sorrindo. Atraiu o olhar de diversa garotas, que claramente haviam captado a mensagem. Elas a olhavam com inveja, o que só fazia Nathalia se sentir melhor ainda.

Esperou pelo refrão, e então percebeu que este não viria tão cedo.

Yago pulou para o terceiro verso, a fim de não entediar os "convidados" com uma poesia repetida.

I’ve come undone
But you make sense of who I am
Like puzzle pieces in your hand

***

Suzana virou um copo de refrigerante de um vez só, lacrimejando com o gás. Soltou o ar que prendia nos pulmões entredentes, observando Yago cantar. Mesmo sendo sua amiga há quase três anos, não fazia ideia de seu talento. Não sabia que ele gravava videos e postava na internet - ele nunca tivera cara de quem fazia isso, nem mesmo depois da chegada de Nathalia, quando uma nova personalidade sua fora inaugurada. Chegara a duvidar de que ele realmente cantasse bem, mas agora, todas as dúvidas se foram. Se fosse uma daquelas iludidas que haviam ido no show só com esperança de que Yago as notasse, certamente teria se apaixonado naquele instante. Porém, era uma simples amiga, e sabia bastante dos seus podres pra não cair de quatro por ele.

Pulou na cadeira ao ouvir um estranho chegar sorrateiramente à seu lado.

Se não estivesse grávida, já olharia quem era e, dependendo, já cairia na porrada com o abusado. Porém, dessa vez, as mãos partiram instintivamente para a própria barriga, formando uma concha protetora que seria inútil contra balas, facas ou pancadas, mas que em sua mente, era mais forte que tudo.

Olhou para trás, sem esconder o medo no rosto.

Quando viu que era apenas um inofensivo desconhecido, conseguiu respirar.

- Oi, gata - disse ele, e por um momento, Suzana deu-se ao luxo de pensar que tipo de garota era rodada o suficiente para ficar com um cara que ainda achava que "gata" era um bom cumprimento.

- Ah, oi - ela respondeu, desconfortável. Em sua mente, rezou para que não passasse daquilo, um cumprimento.

Mas ela sabia que jamais garoto algum desistiria até levar um toco.

- Veio sozinha?

- Com amigas - Bebericou um pouco mais do refrigerante no copo, agora cheio até o topo novamente.

O garoto sorriu. Suzana não permitiu-se admirar o quanto ele era bonito; idiota, pelo que parecia, mas bonito.

- Ninguém mais?

Suspirou.

- Olha, amigo, eu sei que você deve ser daquele tipo que praticamente fareja uma garota sozinha, mas eu não estou interessada, o.k.?

- Interessada no quê? - fez-se de bobo, elevando a voz à um nível quase feminino. Sorriu então, expondo os dentes incrivelmente brancos e a língua de um rosa perfeito. - Não crie uma opinião antes de experimentar, minha querida.

À esse ponto, Suzana corava, e sentia um pouco de sua raiva habitual revirando em seu estomago.

- Não me chame de querida.

- A gatinha tem garras, é? - zombou, e, se Suzana não tivesse o minimo, bem minimo mesmo, de educação, teria soltado um eca. De que época esse moleque saíra, dos anos oitenta?

- Cai fora - ela disse, por fim, não conseguindo pensar em nada mais inteligente.

- Ah, sério? Nem uma chance?

- Nem meia chance.

- Não se faz de difícil que eu vejo como você me olha.

Sentiu então algo estourar dentro de si. Quem ele achava que era? Como ela olhava? Não havia visto nele nada além do suficiente para fazê-la vomitar. Ficou vermelha de raiva, mas, sabendo o tipo de garoto que esses desconhecido era, sabia que ele tinha uma autoconfiança tão excessiva e iludida que interpretaria aquilo com vergonha. Sentiu vontade de gritar e de armar um barraco; os hormônios da gravidez facilitavam aquele sentimento.

O garoto pôs sua mão em cima da de Suzana. Quando ela deu a entender que iria se afastar rápida e bruscamente, segurou seu braço, com tanta força que se Suzana continuasse andando, era capaz de torcer o membro.

Seria ele um garoto violento?

Ah não, pensou Suzana, com uma lembrança assustadora tomando conta de sua cabeça. De novo não.

- Voltei, amor - disse uma voz, às costas da menina.

***

When I see your face
I know I’m finally yours
I find everything
I thought I lost before

You call my name
I come to you in pieces
So you can make... me whole...

***

Suzana virou-se, com um medo irracional estampado no rosto, dando de cara com um Felipe sorridente, excessiva e genuinamente sorridente.

- Quem é o seu amigo? - perguntou, quase que animado, com dois copos nas mãos.

Apoiou o copo com um líquido negro no balcão, segurando o que parecia cheio de cerveja. Com o braço livre, envolveu a cintura de Suzana, agindo de modo extremamente comum.

Suzana não conseguiu fazer nada além de gaguejar, o que deu uma brecha para o desconhecido.

- Quem é você? - rebateu, ainda segurando o braço de Suzana.

- Felipe - disse, como se fosse uma coisa extremamente óbvia - Namorado dela - Apontou com o queixo, já que suas mãos estavam ocupadas - E você, quem é?

Finalmente largou Suzana, e a expressão que parecia não se decidir entre o brincalhão e o sério desapareceu de seu rosto. Fez o queixo torná-se proeminente, como se assim pudesse assustar Felipe.

Será que começaria uma nova briga? Por ela?

- Maycon - disse, engrossando a voz, quase preparando-se para bater no sujeito - E não sei bem se devo acreditar que você é o namorado dela, ela acabou de me dizer que veio...

Calou a boca e desceu os olhos à barriga da garota. A mão de Felipe parara ali, como se estivesse segurando algo.

Maycon empalideceu na hora.

- Quer saber, não vale a pena brigar por isso, não é? - disse. - Se você diz que é o namorado dela, deve ser mesmo, pra que duvidar? Bem, desculpe o incomodo, de qualquer modo.

E passou por eles, meneando a cabeça negativamente, como se se arrependesse do que iria fazer.

Suzana pensou em desvincilhá-se do abraço de Felipe também, mas o amigo o fez antes.

Não sabia se devia ficar agradecida por Felipe livrá-la de Maycon ou irritada por ter a gravidez exposta.

- Obrigada - ela sussurrou, por fim. Sabia que devia ser difícil para Felipe fazer esse papel.

Felipe, que desfizera o sorriso no momento em que Maycon não os via mais, olhou para ela, levantando o copo num quase-brinde.

- Disponha - Suzana sentiu um "sempre" em suas palavras.

Desconfortáveis, ambos tornaram a sentar. Suzana voltou a bebericar sua Coca-Cola, jogando o cabelo para o lado. Deixou os olhos caírem sobre a mesa novamente, e esboçou um sorriso, por todos os motivos do mundo e por motivo nenhum, ao mesmo tempo.

Olhou para Felipe, e teve de controlar a vontade de rir.

- O quê? - ele perguntou.

- Coca Diet? Sério?

Ele sorriu.

- Hoje eu fico sóbrio. Prometo.

Ela continuou com o deboche.

- Você já me prometeu isso muitas vezes antes.

- Mas hoje eu cumpro.

Ela sorriu, inocente, deixando crescer demais em seus lábios para depois normalizá-se. Observou ele, enquanto bebia refrigerante diurético como um bom adolescente menor de idade.

- Eu não consigo te ver assim, sério - disse Suzana, rindo.

- O quêee?

- Bebe aí sua cerveja.

- Mas eu odeio cerveja...

- Mas bebe mesmo assim. Termina e eu te peço algo que preste.

Os dois sorriram, e Felipe fez uma careta estranha. Um riso em uníssono escapou de seus lábios.

- Barman - disse ela, não achando nome nenhum melhor para chamar o homem detrás do balcão. - Cara?

- O que vão querer? - perguntou, sem sequer virar-se.

- Vinho tá bom - disse Felipe, depois de uma rápida encarada de Suzana.

- Vinho? Você é o que, uma moça? - disse o barman, puxando uma garrafa, porém sem derramar o líquido rubro no copo sujo de cerveja. - Tem identidade?

- Amigo, você quer ou não quer ganhar gorjeta?

A expressão do homem tornou-se ainda mais severa e, de má vontade, encheu o copo até o topo, fazendo algumas gotas caírem. Sussurrou um "perdão", sem demonstrar nenhum arrependimento.

- E pra segunda moça, vai querer o que? - perguntou.

Felipe então deixou a boca entreabrir, e odiou o homem, mesmo que ele não soubesse da situação de Suzana.

- Coca tá bom - ela disse, levantando o copo ainda cheio, com um sorriso debochado no rosto.

Felipe não mudou de expressão, enquanto o barman voltava-se para a estante cheia de garrafas não-tão-cheias. Passou a encarar Suzana, dessa vez de boca fechada. Quando ela havia superado? Como? Sentiu uma imensa vontade de abraçá-la e bagunçar o seu cabelo, sussurrando "boa garota" em seus ouvidos. A Suzana forte, que conhecia e admirava, estava de volta. Por quanto tempo, não sabia, mas, só de vê-la beirando à normalidade novamente, sentiu-se feliz. Genuinamente feliz. Sorriu, deixando o ar escapar entredentes. Era esse o brilho da gravidez do qual tanto falavam? Ou era apenas ele que estava apaixonado mesmo?

Suzana olhou em seus olhos, e sorriu, desviando o olhar. Os dois riram, como se fossem apenas amigos.

***

A bateria então começou a tocar, chamando a atenção de quase todos ali.

O violinista aumentou o ritmo do próprio instrumento, dando um tom quase épico à música, bem como Yago esperava.

Teclou quase que com raiva, já que seus dedos doíam, fazendo o teclado se sobressair no meio dos outros instrumentos, bem diferente de como a música realmente era. Mas um diferente bom. Um diferente romântico. Tornava a música quase apaixonante, perfeita para um baile de formandos.

O violino se sobressaiu também, como se estivesse numa competição.

Com a voz intencionalmente cansada, tentou não gritar no microfone:

I tried so hard....
So hard...
I tried so hard!

Tudo pareceu diminuir a sua volta. O ritmo, a música, a letra, as pessoas. Só existia ele ali - e, se tivesse de existir outra pessoa, essa pessoa seria Nathalia. O violino fez um último acorde, antes de prendê-se num único ritmo. A bateria então parou, por uma última vez, assim como o violão. E então, tudo o que havia ali era o teclado, num tom longo e gentil. Com o canto do olho, via dois garotos que não conhecia levantando-se e indo embora. Um terceiro parecia que iria segui-los, mas uma garota - provavelmente a namorada - segurou-o pelo pulso, sem tirar os olhos de Yago.

Então o show estava com dois a menos. No meio de oitenta pessoas, isso importava?

E então, olhando uma última vez para Nathalia, sorriu, os nervos se acalmando um por um, até que estava totalmente em paz, e continuou:

When I see your face
I know I’m finally yours!
I find everything
I thought I lost before...

Nathalia devolveu o sorriso, controlando as lágrimas de alegria e paixão que mal se continham em seus olhos.

You call my name!
I come to you in pieces...
So you can make me whole...
So you can make...
Me whole...

A música diminuiu, até desaparecer completamente, e Yago encarou as teclas do teclado, alternadas entre brancas e pretas. Fechou os olhos, e imaginou milhares de palmas, milhares de gritos, no meio de um grande show, não para apenas oitenta pessoas - um número que agora lhe parecia pequeno demais -, mas para uma multidão inteira. E então percebeu que não imaginava; sua pequena multidão estava mesmo batendo palmas, gritando feito loucos. Garotas pulavam, garotos eram mais controlados. Adultos batiam palmas com sorrisos nos rostos, e Yago percebeu que não haviam mais oitenta pessoas. Haviam cem, cento e dez, cento e vinte. Um número incontável, fazendo a pista de dança parecer tão cheia quanto seria num dia normal, num dia em que o clube era uma boate.

Deixou-se sorrir, e encarou Nathalia, que sorria também.

***

- Isso é tão lindo - sussurrou ela, com a voz baixa e forte demais para o que seus olhos transmitiam.

Batia palmas tão loucamente quanto o resto das pessoas, mas não gritava. Deixou apenas um eu te amo escapar de seus lábios, e era o suficiente. Teve uma súbita vontade de atravessar aquela multidão toda e beijar seu amado, subir naquele palco e se jogar em seus braços. Como podia ter esquecido que faziam quatro meses naquele dia? Como podia ter esquecido de comprar um presente, e de ficar furiosa por Yago não ter nada para oferecer, e quando chegasse a noite, se derretesse toda com tamanha homenagem? Com tamanha homenagem particular, que não fazia sentido algum para os outros, apenas para ela?

- Não é? - disse, mais para si mesma do que para Alex.

Quando a salva de palmas parou, os presentes não tornaram a sentar-se. Continuaram em pé, quase que se espremendo contra o pequeno palco, dando ao lugar o sentimento claustrofóbico de sempre. Estavam sedentos pela próxima música - uma mais agitada do que essa, devia ser o que a maioria pensava. Jogou o cabelo, já sentindo o cheiro de suor e de gente demais. Gemeu baixinho, e passou a lacrimejar pela emoção e pelo fedor. O barulho que se seguiu tornou tudo a sua volta inaudível, de modo que teria de gritar se quisesse que alguém num raio de cinquenta centímetros a ouvisse.

- Alex? - berrou, e, ao se virar para a cadeira do outro lado da mesa, não encontrou a amiga.

- Alex? - sussurrou para si mesma, não esperando que ninguém a ouvisse.

Levantou-se, com alguma dificuldade, e caiu de novo na cadeira, quase empurrada por mais gente se juntando. Levantou-se novamente, dessa vez encontrando apoio na cadeira e um apoio de segurança na mesa. Sentiu mais gente esbarrando contra ela, e achou melhor levar sua bolsa e a bolsa de Alex consigo, para o caso de que alguém "esbarrasse" nelas.

Procurou com os olhos ali mesmo, no meio de tanta gente e, mesmo que sua amiga fosse pequena demais para ser achada ali, ela deveria pelo menos ver algum sinal da existência dela. Virou-se, usando o caminho que dava para fora daquele lugar, bem no caminho que dava para o banheiro e para a recepção, em geral vazia. Parou os olhos no bar, vendo apenas Suzana e Felipe, conversando e rindo. Por um momento, sorriu, mas logo voltou a preocupar-se com a amiga. Ela era tão pequena! Se alguém arranjasse confusão com ela, ela nem teria como se defender!

Saiu do meio do bolo de gente, caminhando mais para o fim do primeiro corredor. Se não estivesse tão atenta, se não se preocupasse tanto com onde pisava, em quem esbarrava, e como chegaria até o fim dali, teria percebido quem passou bem a seu lado. E teria paralisado bem ali, e tornaria-se tão perdida quanto Alex deveria estar.

***

Yago sorriu, mais uma vez, com tamanho êxtase que presenciava.

Levantou do banco que dava no teclado, tomando o microfone consigo. Por um momento, teve medo que fizesse novamente aquele barulho metálico, mas, felizmente, não fez. Engoliu em seco, e puxou um copo de água (quente) da mesinha à direita do palco e engoliu tudo no que pareceu um gole. Soltou novamente um ah! e sorriu. Olhou para trás, assentindo para a banda que, estranhamente, devolveram o cumprimento, como se não tivessem caras de punks mal encarados.

Virou-se então para seu público. O que faria? Bater palmas para si mesmo, acompanhando a platéia? Fazer uma reverência estranha, como se estivesse saudando um rei ou uma rainha? Levantar o dedão e soltar um riso retardado?

- Obrigado! - disse, simplesmente, deixando sua voz ecoar no ambiente. Haviam ainda mais quatro músicas, e então o DJ - que era um membro da banda, mas Yago não sabia dizer quem - voltaria com suas músicas eletrônicas. Voltou-se para a banda, e deu novamente o sinal para a próxima música. Começou a bater os pés, no exato ritmo do solo de guitarra. Segurava o microfone, com apenas uma mão, na altura da cintura, dando-lhe um ar do superstar que acreditavam que ele seria. Do superstar que tinha certeza que queria ser.

E então, sentindo sua deixa chegar, pôde ver uma cabeleira negra, lá trás, ainda entrando pela porta. Os olhos cruéis, que reconheceria em qualquer lugar. As roupas que calavam a boca de qualquer homem, atirando-os para a ação. Alguém que o deixara escapar, e não parecia querer deixar por muito mais tempo. E alguém ao seu lado. Alguém que conhecia e em quem confiava. Alguém que sabia que era seu amigo, mas suas companhias o faziam duvidar de tudo. E então, vendo-se sem Nathalia, nunca se sentiu tão vulnerável.

Engoliu em seco.

Gabriela e Gustavo entravam pela porta.

Com um súbito pesar no coração, deixou as palavras ritmadas saírem de sua boca.

***

- Alex?

Nathalia abriu a porta do banheiro feminino, não ouvindo nenhuma resposta. Saiu rapidamente, não se importando em procurar mais. Passou novamente por um bolo de pessoas, que pareciam chegar mais e mais. Acotovelou-se com outros até chegar à porta, quase perdendo as bolsas no caminho. Deixou uma moeda cair, mas valia mais a pena continuar do que se abaixar para pegar e ser pisoteada.

Abriu a porta, chegando à recepção. Estava vazia, até. Tirando por duas ou três pessoas que chegavam atrasadas, estava completamente sozinha. O porteiro, pra variar, não estava ali. Não se importou, então, de olhar na escada que dava no segundo andar - não fazia a mínima ideia do que havia ali. Ela também não estava lá, e, se tivesse o mínimo de prudência, não teria avançado até o segundo andar. Voltou a recepção, agora completamente vazia, mordendo o lábio. Já estava ficando nervosa, irritada e inquieta.

Então, com um medo estranho crescendo pela amiga, saiu para o estacionamento.

A rua estava deserta, como devia estar às nove da noite de um cidade pequena. O vento fazia diversas folhas se desprenderem de árvores, que estavam espalhadas pela rua toda. Sentiu seu cabelo ser jogado contra seu pescoço, e alguns fios tentando entrar em sua boca e em seus olhos. Afastou as mechas douradas do rosto, fazendo-as penderem para o outro lado. Assim, sua franja movia-se com o vento, deixando sua testa aparecer. Estava ventando muito, mas muito forte. Fechou a boca e cerrou os olhos para não ficar cega com a sujeira. Caminhou até a entrada de carros que dava na parte de trás do estacionamento. A entrada estava vazia, com ninguém passando, nenhum carro, nada.

Já o estacionamento, tinha diversos carros, mas estava igualmente deserto.

Sentindo o vento assoviando em seus ouvidos, continuou avançando, procurando em cada canto. Procurou entre os carros, olhou nas janelas dos carros, revirou as plantas. Olhou uma, duas, três vezes. Quando sentiu as pernas doerem de tanto correr, caiu próximo à saída. Onde Alex estava? Não podia ter se metido numa enrascada! Não era do feitio dela, a não ser... a não ser que alguém a arrastasse, e isso seria mil vezes pior!
E então, olhou para o mínimo corredor, do outro lado do estacionamento. O mínimo corredor, que as pessoas deviam usar para chegar à seus carros, mas nunca usavam. Um corredor que até então lhe era desconhecido.

E, ao chegar perto, pôde finalmente ouvir a amiga arfar.

- Ai! - Nathalia disse, sentido uma pontada na barriga, característica de quando corria demais.

- Alex - disse baixinho - Alex, que bom que eu te achei, você não sabe como me preocupou! Nunca mais faça isso, tô te procurando que nem louca... AH! Ah, meu, Deus, ai caramba!

Saiu correndo, no mesmo minuto, chamando a atenção da amiga. Correu até a saída da pequena passagem de pedestres, novamente caindo próximo às plantas, dessa vez muito próxima da segunda entrada da boate.
Gritara e saíra correndo por nada, podia ser muito bem sua imaginação lhe pregando uma peça, uma brincadeira mental que mais uma vez lhe levava à um novo caminho sobre a intrigante vida de Alexandra.

Mas podia jurar que viu a amiga beijando outra mulher.
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