Hey galera :) Hoje eu chego com uma notícia nem tão boa: SILENCIAR voltará a ser postado somente nas sextas. Apenas um capítulo por semana. Isso por que eu descobri que, além de aulas na manhã, terei aulas a tarde, o que torna IMPOSSÍVEL escrever mais que um capítulo por semana. Mas não se desanimem (desculpa, não tinha frase mais inteligente): cada capítulo de SILENCIAR agora tem mais de 6 páginas, como já havia dito, e a média fica em torno de 8 a 12 páginas. Há bastante coisa para ler, então acho que não fará muita diferença xD Então, leiam e comentem :)

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Olá, adeus

Hello, goodbye - The Beatles

Yago acordou ao som do despertador, e murmurou um sonoro "Saco", como fazia todas as manhãs.

Vestiu o uniforme do colégio depois de um rápido banho, complicando-se em ambas as ações - nem banho frio o acordava totalmente às seis da manhã - e só então notou o computador ligado. Havia esquecido ele na noite anterior? Qual era a noite anterior? Com os olhos cansados, olhou para a própria cama, e nada de Nathalia. Não fora sexta, sábado ou domingo. Piscou, deixando os olhos um pouco mais cerrados ao abri-los, e lembrou-se. Era quarta-feira. Dormira na mesa, e, como um zumbi, havia levantado-se cansado para cair na cama. Por sorte, já estava de pijama aquela hora, de modo que suas pernas não estavam doídas e cheias de marcas como acontecia quando dormia de jeans. A tela do computador mostrava apenas a área de trabalho, com seu wallpaper de trocentas bandas reunidas numa só imagem, fruto do trabalho de horas e mais horas. Não havia nenhum programa aberto, o que o fez pensar se já não estava planejando desligá-lo quando dormiu na mesa. Fez então seus cliques, e as diversas cores da área de trabalho passaram para o azul típico do Windows desligando. Yago apertou os olhos ao ouvir aquela irritante musiquinha, sentindo a cabeça a ponto de explodir.

Descendo as escadas, teve um outro surto de lembranças.
Estava revendo os próprios vídeos, corando ao ouvir sua própria voz, como se houvesse alguém ali para o envergonhar - por mais que sua voz realmente não fosse nada mal.
Bocejou, para espantar os pensamentos, e, pelo calor momentâneo em sua face, percebeu que corava.

Desceu direto, sem tomar café da manhã, sem falar com Lucas ou com sua mãe, nem nada. Ignorou quando o chamaram, e passou direto pela porta. Não era um charminho sarcástico, como normalmente fazia, simplesmente não queria falar com ninguém - por enquanto, pensou. Quando chegasse na escola, teria alguém com quem falar.

***

Só não esperava que fosse esse alguém.

Desde metade do caminho (o que não era lá essas coisas em termo de distância), percebera uma mulher lhe seguindo. Olhando pelo canto dos olhos, podia ver muito pouco. Fingiu parar para ver o reflexo de seu cabelo na janela de um carro para tentar ver alguma coisa da estranha. E, novamente, sentiu suas espectativas murcharem: a mulher mantinha um pouco mais de distância do que esperava. Pensando por alguns poucos segundos, recomeçou a andar. Dessa vez mais rápido do que antes. Não por medo, mas por fazer parte de seu plano A. Virou uma esquina quase correndo, controlando-se para parecer normal. Com o canto do olho, viu que a mulher o acompanhava; o único detalhe que conseguiu perceber fora o cabelo preto esvoaçando, fazendo dela um clichê de modelo. Sem dúvida, era linda como uma modelo. Parou então, e escondeu-se o mais próximo possível da virada da esquina. Quando viu a mulher passando, segurou seu pulso com força, e puxou-a, obrigando-a a olhar em seus olhos. Procurou estampar o máximo possível de calma, e tentou não parecer um frio serial killer como consequencia.

A primeira coisa que percebeu foi: ela era branca como um cadáver.

Ficaram se encarando por um, dois segundos - Yago a admirava. Era o clichê mais perfeito de "bonequinha de porcelana". E sentiu calor, por um momento. Do tipo de calor que faz corar.

A mulher sorriu.

- Pracer em te conhecer, jovem Yago.

O calor extinguiu-se no mesmo instante, dando lugar a uma certa fúria.

Em sua mente, gritava trocentos palavrões, e a matava lenta e dolorosamente, mas, na vida real, o máximo que disse foi: - Puta que pariu.

Yvonne sorriu ainda mais, livrando sua mão do aperto de Yago.

- Confessssso que achei que vous seria um tanto maisss parecido com o vidéo.

- Como?

- Pic-sealizado - disse, sarcasticamente, com uma mistura de sorriso e biquinho, com ambas as mãos na cintura, uma imagem que fez Yago lembrar-se de uma garota de dez anos.

Yago meneou a cabeça negativamente, levando as mãos ao cabelo. Só quando Yvonne chegou ao seu lado, percebeu que repetia a palavra "não".

- Como diabos conseguiu meu endereço? Como diabos sabe sequer a cidade em que eu moro?!

- Own, ma chère, e isso realmente importa?

- Importa se vousss é uma puta aspirante a stalker!

Yvonne fingiu ressentimento.

- Na França, as crianças tem mais educación.

- Na França, devem responder oui, cherrie pra qualquer porra! "Quer uma dedada?", "Oui, cherrie" - respondeu, não medindo o fúria na voz, novamente falhando em imitar o sotaque da francesa - E não me chame de criança.

Recomeçou a andar, e, por mais que rezasse internamente, pôde ouvir o barulho dos saltos de Yvonne perseguindo-lhe.

- Ola - disse, falhando ao falar o típico som de "lh" - Não vim à brigar. Vim pra te ofertar novamente.

- Eu não trabalho sob pressão.

- É uma tática que funciona, ma chère.

Yago suspirou, e não encontrou uma boa resposta.

- Mas ennnfim - continuou - Não gostei de como as coiças terminaram naquela ligación. E não gosto de trabalhar assim. Prefiro falar-te pessoalmente a proposssta.

- Você não tem marido e filhos não?

Yvonne bufou sarcasticamente, esboçando um sorriso.

- Marido, não, e filhos, não que eu saiba - retrucou - Por mais que êsse piada não tem o mesmo sentido quando contada por une mulher.

- Mas o que viemos tratar aqui és de negócios, jovem Yago.

Yago parou, virando-se para ficar de frente para ela.

- Mas eu não quero porra de negócio nenhum!

- E és aí que se enganas, pois ouvi esse mesmo papo de boa parte de meus clientesss. Todos tem medo de algum... como aquèlo cantor chama? Monstro Invisível. Sempre a essspreita, procurando abocanhar seu desejo inocente. É por isso que o mundo és um lugar tão triste, ninguém segue a droga de seus sonhos. Ou a porrrrra de seus sonhos, como não me foi ensinado no curso mas ainda assim ouço muito por aí. Ssse falam tanto assim, coiça boa não és, posso ter certeça.

Yago então notou que ainda estava parado. E notou também que não queria correr.

- Olha - disse ele - Eu não sei que tipo de jogo você faz com seus clientes, mas se eles assinaram contigo, é por que quiseram ou por que mamãe e papai empurraram ele. E olha só: não tenho mamãe e papai - deu ênfase ao "papai", sem deixar nenhum resquício de dor transparecer no rosto - que se importem em me empurrar. Só uma garota, que aliás é muito importante pra mim, e quer muito que eu faça isso, por que acha que é o que eu quero. E no momento, eu não sei bem o que eu quero, então agradeço se você der o fora e nunca mais aparecer aqui. Foda-se sua gravadora, se eu quisesse gravar tinha te procurado. E agora eu tenho aula e... - olhou para o relógio. Queria muito dizer que estava atrasado, mas ainda tinha dez minutos para jogar fora.

Então simplesmente virou-se, e recomeçou a andar.

- Ah, as palavras dos brésiliene.

Yago fez questão de bater os pés com força ao caminhar - queria fazer barulho, pois sabia que Yvonne ainda o seguia. No pouco que conseguira examinar dela, notava o quão linda era: o cabelo negro fazia uma curva ao partir da raiz, deixando a pequena testa bastante à mostra. A ponta do cabelo batia um pouco abaixo dos ombros. Era tão branca que seus olhos, nitidamente negros, com a íris quase se misturando à pupila, faziam gigantesco contraste. Uma diferença hipnotizadora. As unhas eram cortadas com maestria - o que não as tornavam menores. Yago sentia os cinco buracos cavados em seus braços, e, vendo o quão magra ela era, teve que apostar no tamanho das unhas. Usava jeans, colados ao corpo, que desciam até o tornozelo, e a partir daí, sua pele era coberta por um sapato de salto finíssimo, cor-de-pele - cor-de-pele normal, pensou Yago. A camisa era preta, sem mangas, deixando um grande vão entre os ombros, um inusitado e diferente decote. Da altura dos seios até a barriga, havia algo escrito com diamantes falsos, em inglês, mas Yago não se deu o trabalho de ler. Por cima da camisa, usava um colete jeans igualmente escuro, mas não preto.

Era linda e vestia-se como uma modelo, e fazia da rua sua passarela.

Andava com tanta maestria que qualquer imperfeição era disfarçada. Homens e adolescentes a olhavam quando passava, e davam sorrisos de aprovação. Não pareciam notar em Yago - o que era bom -, mas ele sabia que, uma hora ou outra, os que o conhecia começariam novos rumores - o que era ruim.

E, para sua surpresa, seus pensamentos não funcionavam apenas por que ignorava todo mundo. Funcionavam por que Yvonne estava em silêncio.

- Não vai falar mais nada? - perguntou, sem conseguir controlar sua boca. E logo depois, torceu para não ter motivo para se arrepender.

- Vou deichá-lo considerar a oferta.

- Não é não.

- Mas nem ouviste a oferta!

- Então como posso considerá-la?

Yvonne sorriu, como se estivesse esperando tal reação.

- E já não está considerando a oferta que sua imaginação lhe propôs?

Yago contou de 10 até 1, e ainda não conseguiu entender como isso acalmava pessoas.

- Isso não tá indo bem como uma negociação normal.

- Vous não és um garoto normal.

E Yago sabia que era verdade. Sabia que queria fazer aquilo, como criança quer doce. Queria expor sua voz ao mundo, e fazer sucesso - pelo menos um sucesso moderado. Se tivesse reconhecimento apenas no Rio, estava bom para ele. Era uma ideia absurda, muito menos da metade dos artistas que se lançavam de cabeça numa carreira ousada conseguiam sucesso. Mas a esperança que brotava em seu coração a cada momento em que se imaginava diante de milhões de pessoas, iluminado por milhares de luzes, em que fantasiava o amor que teria de seus fãs, era do mesmo tamanho que o "não" que sua mente lhe impunha.

Mas batia pé, apenas para não mostrar que estava errado desde o inicio.

E, mesmo se admitisse isso, em voz alta, sabendo que todos já haviam feito isso pelo menos uma vez na vida (ou sua estada na Terra não teria direito de ser chamada de "vida"), sabia que tal situação não seria aceita.

Espantou os pensamentos. Deixou a barreira do "não" crescer novamente, novamente iludido na mentira de que não queria.

- Mas não do jeito que você deseja - retrucou então, baixando a voz como se não quisesse que Yvonne o ouvisse.

Cruzou o gigantesco portão da escola, vendo-se finalmente livre de Yvonne. Ou assim pensava.

Viu-a cruzar o portão, sem pudor nenhum, não muito diferente de um aluno entrando ali.

- Ow! - disse - Você não pode entrar aqui não!

- Claro que posso, o pé direito tá pra dentro e o esquierdo tá pra fora. Agora estam os dois pra dentro.

- Claro que não pode, aqui é escola, só entra alunos e responsáveis!

- Sou maior de idade, não posso ser tua responsáble?
 
Yago desviou o olhar para o porteiro.

- Arnaldo, diz pra ela! - implorou, como uma criança implora para um pai durante uma briga com o irmão.

- Senor Arnaldo, desculpo-me desde ya por importuná-lo - antecipou-se Yvonne, debruçando-se sobre um balcão - Mas, sabe como as crianças são, brigam com adultos e se acham cheias de si. O senor parece ter filhos, sabe como é, não?

Yago observou perplexo, enquanto via o porteiro ceder à baboseira de Yvonne.

- Este rapazote - continuou a francesa -, parece não saber as consequencias de ter um guardião. A senora Vieira - sorriu para Yago, no momento em que pronunciou seu sobrenome - não pôde trazer seu filho hoje. Sou uma velha amiga da família, Yvonne, e perdoa-me por meu sotaquie, como pode ver, não sou desti país. Mas conheço de longa data a senora mãe de Yago, e ela me capacitou de trazê-lo hoje. Aposto que o senor entende, estou cerrrta?

Como se disfarçasse o desejo que sentia pela mulher, Arnaldo deu de ombros, voltando a revirar seus papéis, com a mente claramente em outro lugar.

Yvonne voltou-se para Yago com um sorriso no rosto, caminhando lentamente até ele.

- Consiga seios assim e tem o mundo na tua mão - disse simplesmente.

Yago mordeu o lábio para não gritar.

- Você não pode me impedir de ir às aulas. - disse, logo depois não acreditando o quanto agradecia por ser estudante.

- Não, mas possssso te acompanhar até o momento que as aulas começam, do inicio ao fim do intervalo, e então na hora da saída, onde você tem um caminho para percorrer e então recomeçamos tuuudo de novo...

- Não é assim que você vai conseguir me fazer gravar esse CD.

A expressão de Yvonne se amenizou, e, pela primeira vez, ela sorriu com algo além de sarcasmo nos lábios.

- Siga seus sonhos, Yago - disse, como uma mãe, uma avó, uma família inteira dentro de uma só pessoa, ignorando todos os xingamentos e grosseiras - É um...

- Meu único sonho, no momento, é que essa cabeça preta pule do seu pescoço branquelo!

- É um - continuou, ignorando a interrupção. - ... camino para a Verdadeira Felicidade.

Yago apenas encarou-a, esperando uma tirada sarcástica, mas o que seguiu-se foi silêncio.

- Eu sei bem meu caminho para a minha Verdadeira Felicidade - e subitamente pensou em Nathalia. Fechou os olhos azuis, lembrando-se de cada momento que havia vivido ao seu lado. Sentiu então um toque de mel nos seus lábios, ao lembrar de cada beijo, cada lembrança, cada faísca que pulava de seu coração ao lado dela.

E, dentre essas faíscas, lembrava-se de cada música que passava por sua cabeça ao toque da amada.

E então, quando abriu os olhos, viu uma Yvonne de olhar sincero encarando-o.
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