ESTAMOS DE VOLTAAAAAAAAAA NO CALDEIRÃO -N! Depois de um mês da vagabundagem chamada "férias", voltamos com Silenciar e com as besteiras do blog =] Agora, todo mundo já deve ter visto o novo modelo do blog, o novo template, o azul, o preto, bla bla bla, e tudo foi feito pelo @Sasuke_ap, mais conhecido como Rayan ^^ Sigam lá ele :)

Nessas férias, eu conheci um blog, apresentado pra mim por sua dona, e gostei MUITO, é o blog Duns Brothers, da @arielpinguelli. O endereço: http://dunsbrother.blogspot.com/ e dou destaque especial para o post Noite Inesperada, postado no dia 24 de dezembro de 2010. Comentem lá, e talvez um dia, ela estará aqui, no Histórias & Besteiras, escrevendo sua própria história ^^

Ah, e eu não quero encher o saco com tantos comunicados não, mas só mais uma coisa a falar: dia 10 de janeiro, a próxima segunda-feira, faço 15 anos *-* E vou matar a voadoras TODOS que não comentarem no post que farei, ok? xD

Mas enfim, leiam os novos capitulos, que espero que vocês achem ÓTIMOS, depois de tanta espera, e lembrem-se: SILENCIAR agora, toda terça e sexta! :D

PS: No dia 12 de janeiro, uma quarta-feira, eu postarei o prólogo de um futuro livro, que sim, será lançado em formato de livro, com papel e tudo. Preciso MUITO da opinião de vocês, pois é um gênero totalmente diferente de SILENCIAR. Então, conto com a ajuda de vocês, e espero que gostem, tanto de SILENCIAR quanto do prólogo =D

25

Ferido

Cut - Plumb

- Como isso foi acontecer? - perguntou Nathalia, fitando o nada sem esperar resposta alguma.

Suzana soluçava em seu ombro, o rosto tomado pelo breu. Sabia que chorava, pois sentia as lágrimas queimando ao entrar em contato com sua pele. Ela mesma não sabia de onde vinha força para não desabar junto com a amiga. Era muito mais fraca, muito menos controlada. Se tivesse visto tal situação num programa de televisão ou lido num livro, era capaz de desmanchar o rosto em lágrimas. Era a pior coisa que poderia acontecer à uma mulher. E no entanto, fitava a janela, iluminada por uma fraca luz cinzenta, tornando-se negra com o aproximar da noite. Não havia dormido tanto assim. Duas horas no máximo. Era pouco para alguém que mal dormira na noite anterior. Deixando-se levar pelos detalhes, percebeu que não dormiria tanto nessa também.

Sentia tantos apertos no coração que chegou a pensar que suas veias haviam estourado. A respiração, que teimava em pesar, não ajuda a acalmá-la.

Suzana mantinha o silêncio de palavras. Seu pranto tomava conta do quarto.

- Você foi na polícia? - perguntou, a voz falha claramente denunciando que não sabia o que fazer.

A resposta veio com um menear negativo, uma tentativa de fala convertida em novo soluço.

- Você tem que ir - sua voz falhou novamente, dessa vez as lágrimas emergiam aos poucos.

Suzana então assentiu, e Nathalia pela primeira vez percebia que ela tremia. Pela primeira vez percebia o quão molhada estava, o quão grudenta sua pele era. Pegara chuva. Tivera de voltar andando, onde quer que estivesse? Ficou vermelha de raiva. Ela estava com frio, mas não era apenas por isso que tremia.

- Vem - disse, já dando impulso aos pés - Vamos te dar um banho, botar alguma roupa decente, aí a gente volta e...

Não terminou a frase. Não havia como terminar. Puxou o corpo de Suzana, e gritou ao vê-la cair. O baque do corpo inerte contra o chão gélido foi o que mais a aterrorizou. Não era um "inerte" morto, mas parecia. Nathalia tapou a boca com as mãos. Agora chorava também. Suzana sentia dor. Estava presente em seu rosto, em seus gemidos, em suas lágrimas.

- Suzana - disse Nathalia, a voz abafada por suas mãos, porém ainda audível -, levanta, Suzana.

Não houve resposta. Suzana era uma estátua, congelada numa eterna expressão de dor.

- Levanta Suzana!

Aproximou-se dela aos poucos. As lágrimas pareciam afogá-la, impedindo uma respiração normal. Ressoava como um aparelho velho.

- Suzana...

Um gemido alto, seguido de um grande soluço.

- ... por favor, Suzana, vem comigo...

Seus ouvidos desligaram-se do mundo. Queria ouvir a amiga. Queria parar de chorar, mas uma vontade incontrolável tomava seu corpo. Aquela não era ela. Aquela era uma garotinha assustada. Para que tanto medo, meu Deus? Para que tanto receio? Seu corpo agiu sozinho. Ficou ali deitada, os músculos dormentes. Não sentiu quando as mãos de Nathalia a puxaram pelo braço, mas pôde dizer que estava sendo arrastada ao ver os móveis afastando-se, com o máximo que pôde juntar de sua visão turva. Nathalia a pôs de pé com toda a força que pôde juntar. Respirou aliviada ao perceber que ficava de pé. Saiu do banheiro, e então fechou a porta. Recostou-se de costas para a madeira, arranhando a porta com as unhas.

- Suzana - disse, elevando a voz para a amiga poder ouví-la através da porta - Toma um banho tá? Só... faz isso, e a gente resolve o que faz depois.

Permaneceu ali, parada, por não soube quantos minutos. Olhava para a porta com o canto do olho, como se assim pudesse ver através dela. Mordeu o lábio com tanta força que sentiu o gosto de sangue na boca. Ajeitou-se, sentindo a respiração pesar novamente. Apenas quando ouviu a água em contato com o piso acalmou-se. Deixou-se deslizar pela superfície lisa da madeira, com as mãos na boca e o rosto retorcido em lágrimas. Atingiu o chão, com os joelhos na altura de sua cabeça. Passou a mão no rosto, do queixo à testa, desfazendo a franja que tanto adorava. As lágrimas rolavam em soluços barulhentos. Estava cansada de chorar. Estava cansada daquele peso em seu coração. De todos os engolir em seco que sufocavam-a.

Puxou o telefone, ligando para o único que poderia ajudar naquele momento.

Entrou no banheiro dez minutos depois, ainda ouvindo a água cair. Encontrou Suzana paralisada no box, molhada, nua. Limpa, no entanto. Missão cumprida, pensou tristemente. Puxou uma toalha e pôs sobre seus ombros, deixando enxugar-se sozinha. Viu-a vestir-se lentamente, automaticamente. Estendeu sua mão, esperando que ela a pegasse. Quando finalmente o fez, levou-a lentamente até o quarto, como se fosse uma senhora idosa. Deixou-a sentar-se na cama novamente, mais uma vez fitando o vazio da luz que entrava pela janela.

- Quer alguma coisa? - perguntou Nathalia, pela enésima vez sem saber o que fazer.

- Não quero ficar sozinha - respondeu finalmente.

Nathalia assentiu.

- Não vai - disse - Prometo que não vai. A gente fica aqui, pelo tempo que você quiser, não precisamos voltar agora.

- O filho-da-puta nem parou pra nada. - disse, sem se importar em responder - Ele continuou, não importava a dor que eu sentia, não importava o que diabos acontecesse depois.

Terminando de dizer isso, a cor fugiu de seu rosto, pior que da primeira vez.

- O que foi? - perguntou Nathalia quase que imediatamente.
Suzana não respondeu, engasgando com a própria perplexidade. Cuspiu no chão, levando a mão a boca como via Nathalia fazer. Recomeçou a chorar, dessa vez quase gritando. Sentiu vontade de vomitar. Vontade de pular pela janela e foda-se o resto.

- O que foi, Suzana? - perguntou novamente, dessa vez elevando a voz e puxando seus ombros para poder olhar no fundo de seus olhos. Assustou-se com o tom que usou, mais severo que o desejado.
Suzana deixou passar um momento de susto, logo retorcendo o rosto mais uma vez.

- O quarto tava escuro - disse, gaguejando entre os soluços - Tava escuro, mas eu vi bem. Eu vi muito bem. Eu gritei pra ele parar, pra prestar atenção, mas...

Deixou as lágrimas escaparem silenciosamente dessa vez, fungando ao respirar.

- Ele não se protegeu. Ele não parou pra pensar, não se protegeu, não fez nada!

Suzana livrou-se então dos braços de Nathalia, dando as costas para ela. Chorou alto. Não teria conseguido se Nathalia mantivesse a mesma força que usara segundos antes, e ela não havia afrouxado o aperto por pena. Havia afrouxado por pavor. Pavor do que poderia acontecer à Suzana e à ela mesma. Yago também não havia se protegido. Não tiveram tempo de pensar nisso, mas ainda fora burrice de sua parte. Sua boca travara-se, transformando seu rosto numa expressão de susto, um susto que parecia que jamais passaria. As lágrimas que acumulavam-se em seus olhos eram agora involuntárias, de medo. O que seria de sua vida se estivesse...

Não conseguia nem pensar.

Ouviu três batidas repetitivas na porta. Quase que imediatamente pulou da cama.

- Oi - disse, ao abrir a porta.

- Oi - respondeu Felipe, a expressão confusa de sempre intensificada pelo repentino chamado - Que que é tão urgente?

Nathalia abriu mais a porta, dando espaço para ele passar. Não o fez de primeira, apenas observando a imagem de uma chorosa Suzana. Deixou a expressão desmoronar. Estava desesperado com a simples visão. Algo que nunca deveria acontecer.

Passou sem olhar para Nathalia, abraçando Suzana no momento que sentou a seu lado. "Shhh, vai ficar tudo bem, vai ficar tudo legal", repetia.

Nathalia olhou-o uma última vez antes de sair. Sabia o que ele sentia por Suzana. Podia esconder muito bem, mas a Yago não enganava. E aquele segredo ele não fez questão de guardar com ela. Por isso nunca ficava muito tempo por perto. Por isso embebedava-se em toda festa, para não vê-la nos braços de outro. Por isso dormia com qualquer uma, para tentar esquecer-la. Rangeu os dentes, a preocupação subindo a garganta. Felipe desviou o olhar, fitando seus olhos. Mordeu os lábios, assentindo uma única vez. Nathalia devolveu o gesto. Era bom que ele soubesse que ela sabia.

Sentindo a calma esvair-se cada vez mais, fechou a porta, deixando Felipe e Suzana sozinhos.

26

Única Esperança

Only Hope - Mandy Moore

- Acorda, Yago - pôde ouvir de longe, como um murmúrio desajeitado num silêncio tão profundo que sufoca qualquer ruído que tenta escapar - Anda logo, levanta.

Sentiu duas mãos gélidas sobre seu peito, fazendo pressão. Gemeu baixinho, como uma criança que acha que são seis da manhã quando na verdade são onze. Apertou os olhos, como se dissesse "Estou acordado, me deixe em paz e talvez eu volte a dormir". Apertou os lábios também, um gesto mais visível e mais poético. Logo percebeu que as mãos não pressionavam seu peito, mas faziam seu corpo balançar. Começara suave, mas agora era um movimento grosseiro, típico de alguém tentando acordá-lo. Cedeu às tentativas, abrindo lentamente os olhos, grudados como se alguém tivesse despejado cola ali. A imagem, primeiro embaçada, formou-se lentamente, primeiro vendo o brilho amarelado que descia do topo da cabeça até a cintura. A pele ligeiramente bronzeada, pelos poucos dia de sol que puderam passar na praia.

Não precisou ter a imagem completa para reconhecer que era Nathalia.

Abriu um sorriso preguiçoso, fechando lentamente os olhos novamente, dessa vez sem intenção alguma de dormir. A repentina corrente de ar gélida denunciou duas coisas: primeira, a janela estava aberta. Podia ouvir a chuva com mais facilidade, e o vento trouxera boa parte de suas gotas também, refrescando o incrivelmente abafado quarto. Era noite, pôde ver pela falta de claridade, que era apenas um faixe de luz falha, uma bela luz acizentada. A lua, pensou. Segunda, ainda estava nu debaixo dos lençóis. Não precisou pensar muito para lembrar-se de tudo que acontecera. Um jato do que parecia ser adrenalina percorreu seu corpo, eriçando cada pelo por onde passava. Sabe aquela sensação de prazer, alegria pura e inocente, uma paixão silenciosa e viciante como uma droga, similar à uma criança antes de contaminar-se pelo vírus que é o mundo real? Uma adrenalina para quem gosta de perigo, um copo de vinho para um alcoólatra. Não sabia muito sobre os próprios hormônios, logo deduziu que era adrenalina. O perigo não importava, apenas sentia-se bem, ao lado de quem amava verdadeiramente, como poucas pessoas são capazes de fazer.

- Bom dia - disse, abaixando a voz para falar logo em seguida - de novo, linda.

Levantou os braços, como num sinal de que era para ela se aproximar, mas ela não o fez. Viu-a sentar lentamente na ponta da cama. Percebeu que ela estava um pouco afastada, o olhar distante, como que preocupado com as repentinas trevas que arrastavam-se do lado de fora do quarto. Quando ela o olhou nos olhos, viu os olhos vermelhos de tanto chorar, em contraste com o azul que eram em dias felizes, destacarem-se no escuro. Abriu a boca, deixando um ganido sofrido escapar da garganta seca, com palavras premeditadas como se tivesse bastante tempo para pensar nelas.

- A gente tá muito ferrado.

***

Chorava no peito de Felipe, vermelha tanto de falta de ar quanto de vergonha. Quando chorava, derramava pouco mais de duas lágrimas. O que era aquele oceano escapando de seus olhos? Limpou o nariz na manga na camisa de Felipe. Sabia que isso o irritava, mas pouco importava agora. Ele sabia disso. O braço dele envolvia seu ombro, puxando-a para si num abraço reconfortante. Passara suas mãos pelo tronco dele, apertando-o ainda mais. Quem visse, poderia confundir sua expressão chorosa com um sorriso, e a expressão fechada de Felipe com cansaço. Quem visse, diria que eram apenas dois amigos normais posando para uma foto invisível.

Mas não eram. Um estava apaixonado pela melhor amiga e outra desejava a morte.

Havia contado tudo para ele. Desde quando conhecera do desconhecido até o momento em que chegara. Falhara na parte em que entrara em seu quarto - a parte que, se fosse esperta, jamais aconteceria -, deixando o arrependimento, a culpa emergir como um tiro na cara.

Não falaram nada. Nem falariam em um bom tempo. Palavras trazem dor, e dor havia em excesso naquela sala.

***

- Mas como? - perguntou Yago, mais para si mesmo do que para Nathalia.

- Eu não sei, o fogo do momento, ou nós dois somos uns putas lerdos mesmo - respondeu mesmo assim Nathalia.

Yago coçou a testa. Agora vestia uma calça de moletom de Nathalia, já que suas roupas deixaram de estar limpas no momento que tocaram naquele chão imundo. Não cabia direito nele, a parte que cobria os tornozelos de Nathalia apertava sua panturrilha na metade. Tremia levemente a cada nova lufada de ar, principalmente por que sentia calor demais para adequar-se à temperatura ambiente. Estava vermelho, o sangue correndo rápido nas veias. Agora sabia muito bem que era adrenalina nas veias. O perigo estava ali. O perigo de perder toda sua vida.

Não que não quisesse ter filhos com Nathalia. Isso queria. Mas tinha apenas 16 anos!

- Você - disse, enfim - tá sentindo alguma coisa? Enjoo, coisa assim?

Nathalia olhou, incrédula.

- Com um bebê de quatro horas na minha barriga? - respondeu, com a voz carregada de sarcasmo.

Yago sentiu-se corar, mas viu-a corar também.

- Tô - ela disse - Não sei se é essa bolota de ar que fecha minha garganta quando eu tô assustada, ou se é gravidez mesmo, mas tô, e tô com muito medo.

Sua voz falhou no fim da frase, e ela desabou novamente numa crise de choro.

Yago levantou na hora, seu corpo chocando-se contra o dela num abraço triste, melancólico, e acima de tudo, assustado.

A verdade era que ele sentia tanto medo quanto ela, pois via-se passando por aquela situação milhares de vezes. Milhares de vezes imaginara como aquilo iria acontecer. Milhares de vezes via-se com uma garota qualquer, estragando a vida de uma pessoa que não conhecia. E no entanto, amava Nathalia. Era bom: significava que passaria o resto da vida ao seu lado. Era ruim: significava que levaria uma vida de merda, nunca seria ninguém, jamais poderia garantir decência para ela e para o possível filho.

Abraçou-a então, deixando-a enterrar seu rosto em seu peito nu.

- Quanto tempo até poder fazer o teste?

Nathalia fungou.

- Pelo menos uma semana. - disse simplesmente.

Yago apertou-a mais forte.

- Você acha que tá...

- Não sei - respondeu, mais rápido que Yago pôde completar a frase - Não sei.

***

Deixou Suzana adormecer em seu ombro. Foi mais rápido do que esperava até. Desfez o nó que eram aqueles braços gelados sobre seus ombros. Fez-os esticar ao lado do resto do corpo, e quando tirou a cabeça de seus braços, ela pendeu para trás, dando-a uma aparência quase morta. Talvez fosse assim que ela se sentia. Quase morta. Presa à vida apenas por que seu corpo assim queria.

Fê-la deitar suavemente no colchão semi coberto. Puxou seus cabelos para trás, assim impedindo que ela acordá-se mais cedo por causa de uma coceira providenciada pelo cabelo molhado. Passou os dedos por sua testa, mais num gesto apaixonado que racional. Fitou seus olhos fechados, com uma raiva imensa subindo sua garganta.

Espantou os pensamentos. Deveria manter-se completamente imparcial numa situação daquelas.

Levantou-se da cama lenta e silenciosamente, no intuito de não acordá-la. Dirigiu-se instantaneamente para a mesa de cabeceira, com papéis, roupas e acessórios tão abarrotados que se fizesse bagunça ali, Suzana provavelmente nem perceberia. Abriu a primeira gaveta, procurando como seu pai o ensinara, encontrando apenas roupas e pulseiras. Assim como na segunda. Abrindo a terceira, descobriu dois cadernos: o primeiro reconheceu como o diário de Suzana, preto remendado com rosa, como se a capa fosse uma camisa velha, e mesmo se não tivesse reconhecido, saberia que tratava-se de um diário, pelo belo cadeado prateado entre as páginas. A chave estaria ali em algum lugar, mas não interessou-se. Sabia que ela tinha aquele diário desde dois anos antes, porém, nem metade das páginas haviam sido folheadas. Podia dizer isso pela quantidade de páginas meio amareladas e amassadas. Guardou o diário lentamente, puxando o segundo caderno. Lista telefônica. Lembrava que Suzana nunca anotava os números no próprio celular, sempre anotava numa lista telefônica.

Fechou então a terceira gaveta, abrindo o pequeno armário adjacente à ela. Encontrou apenas uma câmera. Antes de olhar as fotos, olhou o nível da bateria. Faltando 20% para acabar. Desligou na hora, pousando-a levemente sobre a mesa. Mesmo se não tivesse preocupado-se em não fazer barulho, havia incontáveis papéis ali para amortecer.

Lentamente, voltou-se para a cama, puxando a bolsa com cuidado suficiente para não acordá-la.

Puxou apenas o gigantesco telefone celular, não conseguindo pensar o quão antigo era, e entrou direto nas últimas ligações. Nada.

Passou para as mensagens de texto.

Um número, um nome.

78142917. "Guilherme".

"Em frente a casa do Gustavo. Vemk. T amo."

Fechou o telefone, colocando-o na bolsa novamente. Ligou novamente a câmera, revirando as fotos. 39, era o número. Viu uma sua, bêbado. Viu Gustavo posando com um desconhecido. Viu Nathalia e Yago, abraçados do lado de fora da festa.

Viu um desconhecido, posando ao lado da dona da câmera.

Passou a foto, vendo Suzana beijar o mesmo desconhecido.

Ignorou as próprias emoções, inúteis naquele momento. Aquele era seu cara. Aquele era Guilherme.

Ouviu um gemido, logo desligando a câmera.

Suzana encarou-o.

- Tá fazendo o quê? - perguntou, a voz estranhamente tranquila.

- Nada. - respondeu na hora, forçando um sorriso que rezou para que saísse normal - Só te dando um tempo sozinha. Vou voltar para a casa do Yago.

Dirigiu-se contra a própria vontade para a porta, parando no meio do caminho com um lamento em forma de gemido.

- Não vai - pediu Suzana, deixando então transparecer a dor na própria voz - Fica aqui comigo.

Felipe sorriu, desejando pela própria humanidade que fosse um sorriso falso, não voluntário.

- Então tá.

Sentou-se na cadeira, logo ouvindo novo murmúrio.

- Mais perto - uma Suzana de expressão doente disse.

Levantou-se tomando impulso ao fechar as mãos sobre os braços da cadeira, abaixando a cabeça para esconder um sorriso ainda maior. Não devia alimentar-se com esperanças, mas que era bom, era. Soltou a respiração gélida presa em seu peito. Apoiou-se na cama, deitando-se ao seu lado.

- Sem sacanagem, hein? - disse Suzana, numa tentativa de piada que saiu mais como um sussurro rabugento.

Ele riu, de qualquer jeito.

Ouviu sua respiração diminuir até ter certeza de que ela estava dormindo novamente. Não levantou-se. Nem iria. Ficaria ali até dormir, sem problema nenhum.

Sabia quem era seu alvo. E estava armado para derrubá-lo.
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