Hey galera :) Num comentário no último capítulo (30), um(a) Anônimo(a) reclamou do tamanho dos capítulos. Bem, acho que a partir de agora, não haverá muito o que reclamar quanto a isso. Esse capítulo, o 31, ficou com ONZE páginas, e é pouco provável que os próximos capítulos tenham menos de ~seis~ páginas. Então, espero que aproveitam o novo tamanho mínimo para os capítulos (sem tamanho máximo, todos comemora) e, como sempre, leiam e comentem :)

31

look after you

The Fray



JUNHO

Com o atestado médico e judicial na mão, Suzana entrou no hospital, sozinha.

Haviam passado-se exatamente doze semanas, setenta e oito dias, desde aquele horrível sábado de Semana Santa. Andava passos pequenos, reprimindo lágrimas que teimavam em aparecer, depois de tanto tempo trancadas no fundo da alma. Afinal, fora sua decisão, não fora? Aquilo seria melhor para ela, não seria? Depois disso, poderia viver uma vida normal.

Não poderia?

A barriga crescera, muito pouco, mas crescera; quem olhasse para ela pensaria que havia apenas engordado, e não que carregava um bebê, fruto da violência e da inocência de uma garota sempre tão esperta. Comia bastante durante o dia, apenas coisas saudáveis - não se permitia pensar por que alimentava um bebê que teria de matar antes mesmo do nascimento. O cabelo desgrenhado, que não fazia questão de arrumar, esvoaçou ao sentir o característico aparelho de ar que ficava na porta de qualquer estabelecimento - qual era o nome daquilo mesmo? Não sabia. Sabia apenas que era para impedir o gélido ar produzido pelo ar condicionado saísse porta afora. Num timing perfeito, sentiu frio. Tremeu. Sua pele estava acostumada ao calor do seu quarto e à sala de aula preguiçosamente arejada apenas pelas janelas abertas e ventiladores barulhentos - imaginou-se rindo por um segundo, ao lembrar de Alex lhe falando que "sabíamos agora o por que a Marlene de história parecia derreter, apesar de sempre considerar a opção 'Bruxa Má do Oeste'", mas ao tentar rir de verdade, viu que não conseguia. Novamente num timing perfeito, seus ouvidos captaram o barulho do aparelho, do ar condicionado. Estava disfarçado pelas dezenas de vozes, de pessoas, de médicos, recepcionistas, parentes e vítimas, de modo que a sala parecia um grande cenário de uma série médica, afobado e caótico na pressa de atender tanta gente. Suzana nunca entendeu como uma cidade tão pequena como Costa Valença podia ter tantos feridos; sequer morava em uma área turística, cujos limites terminavam pouco depois de Cabo Frio e muito antes de Costa Valença. 
 
Estremeceu ao lembrar da cidade onde passara as férias todo ano, a cidade à qual jamais voltaria em sua vida.

A televisão estava ligada, também, falando novamente de gente morrendo no centro do estado. Sempre imaginara o Centro com um lugar horrível; se todas as notícias falassem de morte, morte, acidente, morte, desastre e morte, o que mais poderia-se pensar? E, num fatídico sábado de feriado, descobriu que qualquer lugar poderia ser horrível.

Percebeu que estava parada há um bom tempo ainda na porta, travada. Não a porta, quero dizer. Ela. Por sorte, não atraíra atenção de muito pacientes (se você corta um dedão fora com uma faca de açougueiro, acho que não tem muito que se preocupar com uma garota - ligeiramente - gorda parada num hospital, pensou sem emoção alguma), apenas uma das recepcionistas a encarava. Uma mulher de cabelos curtos e alaranjados. Ruiva, é claro. Não o estilo de ruiva que ela gostava, preferia cabelos vermelhos de verdade, quase cor de sangue ou mais vermelhos ainda. A mulher ainda usava uma daquelas horríveis camisas de botão floridas, deixando ainda mais evidente o quão gorda era. Via a pele dobrando-se antes de descer para o pescoço, o que de longe poderia parecer rugas, mas ela sabia bem que era banha. Seus olhos eram negros como os de noventa por cento dos habitantes daquela cidade. Debaixo do balcão, podia ver seus pés: tamancos cor-de-vinho quase opacos de tão foscos que eram, e calça azul DarkTurquoise, tão larga que parecia calça de marinheiro. Olhando bem para ela, pode ver que, apesar de não parecer, mesmo com toda aquela banha e aparência horrível, passava dos sessenta anos. Fazia sentido. Vestia-se como uma vovó, tinha óculos de vovó, era uma vovó.

Avançou, parando em frente à mesma mulher que a encarava. Agora, de perto, podia ver as marcas de tensão em sua testa, e o rosto não inspirava muita calma. Ela tirou os olhos do monte de papel que jazia em cima do grosso pedaço de vidro por apenas um segundo.

- Bom dia querida - disse, com uma voz grossa e impaciente, voltando a ler o que pareciam relatórios médicos e fichas de pacientes - Boa tarde, já, né.

- Boa tarde - disse, impressionando à si mesma ao perceber o quão normal sua voz estava.

A mulher novamente tirou os olhos dos papéis, esperando uma resposta de Suzana.

- Vim me hospedar - Suzana disse, por fim.

A mulher deu um sorriso tosco, como que se forçando a achar graça de algo.

- Isso aqui não é hotel, querida.

Suzana corou de leve, imaginando se alguém ria às suas costas.

- A senhora sabe muito bem o que eu quis dizer - disse, e sem querer deixou um pouco de raiva estampar sua voz.

Viu a recepcionista encará-la - Paula, era seu nome, o crachá reluzia diante de seus olhos, chamando atenção para seus seios enormes e caídos. "Eca", pensou. Mas não se engane, ela não estava calma o suficiente para pensar nisso como uma brincadeira. Pensou mais como uma observação.

- Muito bem. Nome?

- Suzana.

- Completo, por favor, querida.

- Suzana Vasconcelos.

- Só isso?

- Só isso.

Paula anotou seu nome, logo virando para encará-la novamente.

- Data de nascimento?

- 17 de setembro de 1994.

Com um ar cansado e um suspiro, Paula voltou a olhá-la.

- Sabe a doença ou tratamento?

Sei a doença, pensou, tristemente. O tratamento é que não parece certo.

Disse a única palavrinha que fez as lágrimas instantaneamente rolarem seu rosto, talvez um pouco alto demais. Todas as recepcionistas pararam o que faziam, e passaram a encará-la, assim como alguns pacientes. A única coisa à que Suzana prestava atenção era Paula, que estampou a mesma mistura de expressões que o resto a seu redor.

Viu-a largando a ficha, com o que parecia ser raiva, e só então voltando a encará-la.

- Sinto muito, querida, mas isso não fazemos aqui. Não sei o que vocês adolescentes pensam que vão fazer depois do bem-bom, mas tem que ser muito burra pra vir anunciar na frente de um hospital intei...

- Tenho uma ordem judicial - interrompeu o falatório, estendendo a ficha.

Ela teria de aceitar a ficha, pois ali estava o carimbo do Fórum de Costa Valença, bem como a permissão, escrita formalmente, quase como um mandamento sagrado. Paula leu rapidamente, quase em choque. Ainda quando terminou a carta, não acreditava. Tanto que puxou o telefone, ligando diretamente para o diretor do hospital. Desperdiçou poucas palavras de protesto, antes de bater novamente o telefone na base.

- Seu Mauro, não é? Pois é, eu que falei com ele. Ele mesmo autorizou que seja feito aqui.

Com uma expressão derrotada, Paula retomou a ficha, e preencheu-a em silêncio, apenas perguntando informações pessoais de Suzana. Ao fim, ninguém mais prestava atenção; todos perderam paciência no que parecia demorar demais.

Paula puxou novamente o telefone, discando apenas dois números; código interno, como o do colégio, pensou.

- Oswaldo? Sim, sou eu, Paula. Prepara a sala de parto, por favor. Temos uma paciente.

Desligou o telefone, batendo-o no gancho com talvez um pouco de força demais.

- Mas, moça - disse Suzana, preocupada - Não é parto que vou fazer não.

- Eu sei, querida, mas onde você queria que fosse feito, no laboratório de sangue?

Ouviu repulsa em sua voz. E era isso que sentia por si mesma. Repulsa.

- Espere por uns cinquenta minutos.

Suzana dirigiu-se às cadeiras do corredor, particularmente às vazias. Na verdade, o corredor inteiro estava vazio, apenas queria afastar-se da recepção. Lá eles a olhavam com pena. Claro que olhavam, se havia uma ordem legal, havia um motivo. Tinha quase 16 anos, então o motivo não seria risco de vida. Quem espremeu-se o suficiente para ler a ficha pôde confirmar o pensamento: estupro. Será que pensavam que com olhares de compaixão, ajudaria a acalmar um verdadeiro furacão dentro de seu corpo? Não ajudava, e era isso que as pessoas pareciam não perceber.

Não passaram-se nem dez minutos, e viu seu acompanhante chegar.

Felipe sentou a seu lado, preenchendo o corredor com mais uma respiração entrecortada.

- Ei - disse.

Suzana respondeu apenas com um olhar, e, a julgar pelos pequenos rios escaldantes que desciam de seus olhos, estava chorando.

Felipe olhou para os lados, quase debilmente.

- Cadê sua mãe?

Suzana fungou.

- Ela disse que estaria aqui. - mentiu.

- Quer que eu ligue para ela?

- Não! - respondeu rapidamente. Sabia que o telefone tocaria até a ligação cair. Sabia que a mãe estava em casa, trancada no quarto. Sabia que estava chorando, por mais que não a visse a mais de vinte horas. - Não, não precisa.

Felipe abraçou-a então, puxando-a pra si. Seus ferimentos estavam todos curados, deixando apenas uma pequena cicatriz na bochecha direita. "Ah, mas é charmosa", dizia, sempre fazendo todos a seu redor rirem. Seu sorriso era uma pequena tranquilidade para Suzana - um sorriso muitas vezes oculto, que parecia desabrochar todos os dias nos últimos dias. Via falsidade no sorriso? Não sabia. Felipe sempre fora muito genuíno.

Sentiu ele passando a mão em seu braço, uma pequena carícia.

Nem perceberam os tais cinquenta minutos passarem. Ficaram em silêncio, esperando sozinhos no corredor, até que um senhor parou à sua frente.

- Seu Mauro? - perguntou Suzana, olhando para o homem careca com uma entrada grisalha a cada lado da cabeça.

Viu que o homem iria rir, mas ele mesmo se impediu.

- Seu Oswaldo - corrigiu - Parteiro - e estendeu a mão, como um cumprimento.

Suzana pareceu não saber o que fazer, então Felipe apertou a mão do médico por ela.

- Felipe - disse - Amigo dela.

- Pai da criança?

A expressão de falsa felicidade de Felipe murchou.

- Não - disse secamente.

O médico não pareceu surpreender-se com a resposta. Será que havia perguntado propositalmente ou apenas não sabia da situação inteira?

- Consegue andar? - o médico continuou dizendo.

Suzana assentiu.

- A operação começa imediatamente. Venham comigo, é no terceiro andar.

Algo em suas palavras deixava um "ala da maternidade" no ar.

- Nathalia e Yago ainda não chegaram - sussurrou Suzana para Felipe, e só mais tarde percebeu que se esquecera de Alex.

- Não vai dar tempo de seus amigos chegarem - disse o médico, tendo claramente ouvido a conversa - E você realmente quer que eles vejam isso?

Era a primeira vez que Suzana pensava nisso. Nathalia iria querer segurar suas mãos. Yago estaria a seu lado, sussurrando alguma coisa animadora em seus ouvidos. E Felipe faria tudo o que estava a seu alcance. Mas no fim, todos veriam. Aquela enxurrada de sangue que tantas vezes sonhara, em seus piores pesadelos. E o pequeno corpinho da bebê, o quão grotesco aquilo seria?

- Não - disse simplesmente, sentindo os olhos cheios de lágrimas. Felipe ficaria ao seu lado. Era mais do que suficiente apenas uma pessoa marcada com ela para a vida toda.

***

- Sh - disse Felipe, sem alongar as letras - Não se preocupa, eu tô aqui.

Suzana encostou as costas na cadeira de couro, típica de um hospital. Olhando pela grande janela de vidro, via um corredor vazio; não ouvia o som de bebês, muito menos de trabalhos de parto. Todas as pessoas da cidade poderiam ferir-se diariamente, mas não eram todas que decidiam parir um bebê em tal dia. Era bom. Não ouvia gritos, e isso a acalmava. Não muito, mas o fazia.

Doutor Oswaldo segurava uma seringa do tamanho de sua mão, o que não era pouca coisa.

- Ow ow ow - disse, quase berrando - Vai ter anestesia?

Oswaldo sorriu, dessa vez sem procurar reprimir-se.

- Tem que ter, filha.

- Mas eu pesquisei, disse que não precisava!

- Até a oitava semana. Você está indo pra décima terceira. Tem que tomar anestesia, senão vai doer.

Suzana estremeceu.

- Por que? Tem medo de agulhas? - o sorriso do médico cresceu um pouco mais.

Ótimo, Suzana pensou. Simplesmente ótimo.

Ela olhou para Felipe, respirando fundo e arfando ao mesmo tempo.

- Eu seguro ela - ele disse, e Suzana agradeceu-o e amaldiçoou-o mentalmente.

E então ela sentiu o metal frio penetrando sua pele. Não era a anestesia, mas soro. Pôde contar uma gota por segundo caindo na mangueira que levava o líquido à sua veia. Suou frio, e assim que a primeira agulha estabilizou-se no lugar certo, relaxou.

- Segura ela firme agora, garoto.

Sentiu as mãos suadas de Felipe em seus ombros, descendo um pouco até os braços, sem interferir no fluxo do soro. Sentiu-o apertando com força, mais força do que empregava em qualquer abraço. Com certa raiva até. Ela gemeu.

- Desculpe - disse Felipe, porém sem afrouxar o aperto.

Sentiu uma nova agulha entrando em sua carne, dessa vez no outro braço. Sentiu a sala ficar um tanto pequena e abafada demais, e logo sentiu a pressão que esperava na sua veia, um pouco forte demais. O uniforme azul do médico, bem como o que ele obrigara Felipe a usar, transformaram-se em borrões, presos à realidade por muito pouco. Sentiu todos os músculos relaxarem, mas não totalmente. Tanto que gemeu quando a agulha foi retirada bruscamente de seu ombro, e só então sentiu o álcool em sua pele queimar.

- Conte de dez até um - disse o médico, apertando algo contra a ferida aberta pela agulha. Possivelmente um algodão.

Assentiu. - Dez, nove...

Respirou fundo, sentindo o mundo ficar turvo. Sentiu as mãos de Felipe largando seu ombro.

- Oito...

Houve uma grande pausa. Com os olhos entreabertos viu Oswaldo se dirigir à suas pernas.

- Sete... - sussurrou, quase inaudível.

Mas não dormia.

Sentiu então o metal tocar seu tornozelo. O metal frio do aspirador elétrico, usada a partir da décima segunda semana de gestação. Será que o bebê sentiria dor?

- Seis...

Qual era mesma a semana que o bebê desenvolvia emoções? A que ele se apegava à mãe, pouco importando o pai? A que ele sentia dor ao ser morto por algo que parecia um aspirador de pó - ou pior, era retalhado naquelas clínicas horríveis que sempre estremecia ao ouvir falar?

Estremeceu naquele exato momento.

- Espasmo - pôde ouvir a voz do médico, alta e clara - Não é nada, pode deixar.

Ouviu o gemido do aparelho ligado.

Era aquilo mesmo que queria? Um aborto?

Queria ser mãe. Disso ninguém duvidava. Queria segurar uma criança nos braços, uma menininha, empurrá-la num balanço e abraçá-la quando caísse por se jogar alto demais. Uma criança pra brincar de esconde-esconde na rua, deixá-la preocupada por desaparecer por tempo demais. O que teria acontecido, um estranho a pegara na rua? Ah meu Deus, e o que eu faço agora? Ah, ela estava apenas na árvore... Não, não, não! Cuidado, vai cair! E cuidaria de seu machucado novamente. Cuidaria pra que tivesse o melhor primeiro namorado de todos, e chutaria a bunda de quem quer que a magoasse uma única vez. Faria a melhor festa de 15 anos de todas. Ralharia quando ficasse de recuperação em matemática, mas logo depois beijaria o topo de sua cabeça e ajudaria com o dever de casa. Cuidaria para que tivesse a primeira vez com segurança, com um cara legal, com regras, claro: depois dos 18 anos, preferencialmente casada. Ou não, pensou, sorrindo mentalmente. E então ela casaria, teria filhos e tudo mais, e o ciclo continuava. E se fosse um menino? Meninos são mais independentes, não? Então não teria tanto trabalho. Mais uma vida totalmente diferente.

E em todas as vidas, casava-se, e então traria uma criança a vida, com planejamento, pois era assim que uma criança merecia vir ao mundo.

E não fruto de um pai que jamais conheceria, a não ser que fosse morto ou preso.

E quando finalmente sentiu o metal tocar suas pernas, mais uma vez, gritou.
 
- Não!

Chutou o médico, tendo certeza de que deixaria uma marca. Não queria que fosse com tanta força, apenas queria afastá-lo. O cabo do aspirador foi ao chão, sugando o mais nada possível - nem sujeira havia naquela sala, de tão limpa que era. Sentiu os braços de Felipe agarrando seu tronco, e só então percebeu que sentara-se. Suzana! Ouviu.

- Senhorita Suzana! - ouviu um grito em seu ouvido, e percebeu que não era Felipe.

Claro, eu devia ter pensado nisso, pensou, em meio à adrenalina. É necessário uma equipe de médicos.

Acertou a barriga do homem com a maior força que pôde, por um segundo temendo se seria o suficiente por causa da anestesia. Quando ouviu um grande ugh em seu ouvido, percebeu que tinha funcionado. Sentiu os braços saindo de suas costas, e o corpo do homem ferido caindo ao chão. Os olhos já não viam mais borrões. Eram quase nítidos, de modo que viu Felipe, adentrando a sala, a seu encontrou. Ele sequer a deixara? Pensou.

- O que houv... - mas não terminou a frase. Suzana jogou seu corpo contra o dele, e chorou.

- Shhhh - falou, mas não conseguiu fazer mais que isso.

- E-eu não quero fazer i-isso maaiiis - disse, com a voz embargada de uma pessoa em meio a uma crise de choro - Nã-não quero mais. E-eu queeero ele pra mim.

E Felipe entendeu.

Acenou a cabeça, fazendo não, para o resto da equipe médica.

E deixou-a chorar em seus braços, sabendo que aquela vida jamais seria a mesma.

- Desculpe - disse ela, em seu ouvido.

- Não faz mal, a decisão é sua.

Ela fungou, e soltou um gemido agudo.

- N-não é por iiisso - disse, quase se engasgando com as próprias lágrimas.

Felipe abraçou-a mais forte, respirando em seu ouvido, sem saber como devia reagir.

- Eu sei, Felipe - disse-lhe, a voz embargada controlada o suficiente a ponto de parar de gaguejar - Eu sei de tudo. E me desculpe por não poder sentir o mesmo.

E foi a vez de Felipe desabar.

***

- Você tem que vir - disse Nathalia, puxando a amiga, porém sem o sorriso babaca no rosto de quando fizera isso no parque de diversões, no cinema, na lanchonete, meses atrás. - Eu tô aqui com você.

E não era ela quem Suzana queria. Era Felipe.

- Eu também tô aqui - disse Alex, de modo desagradável. Como se percebesse como havia dito, corou, e desculpou-se pela enésima mancada que dera desde que se conheceram.

Suzana fez que não.

- Eu não quero entrar.

- Mas é preciso - Alex disse, dessa vez com uma voz um pouco mais calma e doce.

Suzana por fim cedeu, e continuou a caminhar em direção ao grande prédio amarelo, uma escola pública um pouco mais afastada do centro da cidade, o que significava uns poucos quilometros de distância; afinal, não era a toa que Costa Valença era chamada de "a menor cidade do Brasil".

- Qual a sala?

- Entre os narcóticos anônimos e a recuperação infantil. - disse Nathalia, como se com "recuperação infantil" estivesse se referindo a criminosos, e de certa forma estava.

- Basicamente, entre os fodidos e os mais fodidos - completou Alex.

Ninguém deu-se o trabalho de rir. Não era dia pra isso.

Entraram pela pequena porta de um marrom enjoativo, como se aquele lugar já não fosse ruim o suficiente.

- Não entendo o por quê da gente vir pra esse lugar - disse Suzana - Aqui só tem gente fodida mesmo - olhou para Alex, como se lhe desse os créditos pela frase - Aposto que não vai ter ninguém fodida como eu.

Nathalia assustou-se com o tom tão passivo da amiga, mas logo respondeu.

- Só entra, espera, ouve todo mundo e verá.

Alex continuou calada, e apenas assentiu, sem estampar seu habitual sorriso bobo que sempre ajudava todo mundo nas horas mais difíceis. E essa hora era difícil pra caramba.

Assim que entraram, viram que as cadeiras foram arrumadas para parecer um auditório: exatamente sete fileiras com exatamente seis cadeiras. Quanta gente fodida havia nessa cidade, afinal? Pensou Suzana. Passando pelas outras salas, viu coisa parecida. Diversas fileiras para os narcóticos, diversas fileiras para os alcoolatras, e, se saísse da sala e andasse um pouco mais, tinha certeza de que haveria diversas cadeiras para a recuperação infantil, e possivelmente diversas mesas, também.

Assim que as três se sentarem, mais afastadas de todo mundo, uma mulher, loira e magrela, subiu ao palco, que tinha mais ou menos a altura de um piso comum.

- Meu nome é Cristina - falou, simplesmente, sem dar boa noite nem nada. Era assim que funcionava, afinal.

- Oi Cristina - respondeu o grupo de homens e mulheres, em coro, como faziam comicamente em desenhos animados, no sábado de manhã. Mas não havia nada de cômico naquela reunião.

- Vejo que temos vários novos membros aqui hoje.

Suzana sentiu as bochechas corarem, mas logo percebeu que não era apenas dela que falavam.

- Dennis, seja bem vindo - disse, e um homem negro gordo levantou-se, e foi recebido com palmas.

- Maria Lucia, seja bem vinda - disse, fazendo a salva de palmas repetir-se ao levantar de uma mulher baixinha, de cabelos grisalhos e óculos quadrados de lentes grossas.

E então Cristina olhou diretamente para o grupo de três jovens garotas. Suzana sentiu-se corar de novo, e viu a mulher no palco assentir para Nathalia. A amiga devolveu o gesto, e então encarou os olhos de Suzana.

- Você consegue - sussurrou.

- Suzana, seja bem vinda.

Nathalia a fez levantar-se, e Suzana foi obrigada a receber a salva de palmas.

Quando finalmente o barulho finalmente cessou, Cristina olhou para cada um dos rostos, mantendo a expressão serena.

- Quando eu morava em São Paulo - disse. Suzana mordeu o lábio para conter um sorriso de vitória. Sabia que conhecia aquele sotaque! - Eu fazia faculdade. Direito. Já estava no segundo ano, e era a primeira da sala. Mais um pouco e me formaria, me tornaria advogada e, com alguns anos de experiência, me tornaria juíza. Nesse meio tempo, escreveria livros. Adoro ler, sabiam? Sempre quis ser escritora, mas minha mãe dizia, "Não, livro não dá dinheiro no Brasil". E eu sabia que ela tinha razão. Afinal, eu era uma criança na época da ditadura. E naquela época, reprimiam tanto, censuravam tanto que o brasileiro perdeu interesse pela leitura. Perdeu o pouco interesse que tinha, vamos falar a verdade. E era só por isso que eu fazia direito. Ia botar comida na mesa, arranjar um marido, ter uns filhos e só então ia escrever. Escrever sobre qualquer coisa, na época nem sabia. Mas ia lançar um livro. Iria virar best-seller, e seria obrigatório para qualquer um que fosse gente ler meu livro como se fosse um vício. Mais ou menos como é esse Harry Potter e essa Saga Crepúsculo de hoje em dia.

"Como vocês podem ver, já tinha minha vida toda planejada.

"E então eu conheci um cara. Um cara legal, já bem mais velho que eu. Na época, eu tinha o quê, uns 20 anos? Ele tinha mais de trinta. Era bonito, o estilo que eu gosto: cabelo curto, deixando no entanto a testa um pouco coberta, alto, e de barba malfeita. Ele não era exatamente um namorador, pois naquela época as garotas preferiam qualquer um que fizesse cosplay de uma banda de rock. E o engraçado é que hoje em dia é que preferem homem assim. Mas enfim, conheci ele e saímos duas vezes. Começamos a namorar a partir daí. Dormimos juntos no dia seguinte, no terceiro encontro. Ele sabia muito bem que, se você chega no terceiro encontro, você se dá bem - nesse momento, Cristina fez uma pequena pausa, respirando fundo. Suzana quase viu lágrimas em seus olhos. Mas tão repentinamente quanto parou, recomeçou:

- E a relação continuou por um bom tempo. Lembro que ainda estava com ele quando passei para o terceiro ano. Lembro que ele me enchia de presentes, anéis, cordões, pulseiras, e eu, pobretona, devolvia como podia: com sexo. Ele até mesmo se ofereceu para que eu mudasse de universidade, fosse para uma privada - e foi nesse momento que descobri o quão rico ele realmente era.

"Apesar de morar num apartamento bem próximo da universidade, o que foi pura sorte minha, ele tinha uma casa, uma mansão, num lugar afastado da cidade. Imaginem meu júbilo ao descobrir isso. E todo fim de semana, íamos lá. Sempre descobria alguma coisa, a cada fim de semana: seus pais já haviam morrido, e lhe deixaram a casa. Ele fora herdeiro de uma fortuna ainda maior do que eu imaginara. Tinha mais casas em diversos outros países, Estados Unidos, França, Inglaterra, e podia me levar lá quando eu quisesse. França! Caramba, sempre fora meu sonho. Mas eu tinha, e ainda tenho, a cabeça no lugar. Sabe-se lá até quando essa relação ia durar, certo? Então tinha que terminar a faculdade, pois eu podia ficar sozinha, no final das contas.

"E, um dia, eu percebi que ficaria melhor sozinha.

"Mas tente dizer isso para um moleque mimado. É como tirar brinquedo de criança, uma criança extremamente forte e cheia de raiva. No dia que eu terminei com ele, ele me bateu pela primeira vez. Um soco, e fui pro chão. A partir daí, não lembro bem o que aconteceu, mas acordei num lugar escuro. Um porão, pelo que eu percebi depois. Fiquei naquele porão por exatamente vinte e quatro dias. Eu sei, por que fazia riscos na parede. Só assim podia contar dias e horas. E todo dia, ele trazia comida pra mim. Trazia água. Me alimentava, e ponto. Um almoço e um lanche à tarde. Mas quem disse que não havia troca?

"Ele me estuprou em todos esses dias. Às vezes, mais de uma vez por dia. Às vezes, atrasava o almoço pra me estuprar. Teve um dia que ele simplesmente não fez mais nada além do almoço: me violentou o dia inteiro. Vinte e quatro horas seguidas, sem parar.

"E então, no vigésimo quinto dia, eu encontrei algo que abria a porta, no meio da noite. Fugi, mas não sem antes esbarrar nele. Ele me perseguiu com uma faca até o fim dos domínios da mansão. Tive de pular o portão, só com a roupa do corpo, o que não era muito.

"E no dia seguinte, quando levei policiais, não havia nada. Nem sangue, nem nada mesmo.

"Mas nada escapou ao teste de luminol. E todos acreditaram em mim. Mas até hoje aquele homem não foi preso.

"Já faz 14 anos, desde que consegui fugir. Não terminei a faculdade... Estava deprimida demais pra isso. Tentei me matar, duas vezes: uma me afogando na banheira, o que foi burrice. O instinto de proteção humano sempre vai nos salvar. Então, tentei cortar os pulsos, mas não consegui: não estava pronta pra me livrar da vida. E então decidi superar. Qual era o nome dele? Não sei. Não lembro. Pois eu superei. Esse tempo, agora, não passa de uma janela sombria pra mim. Como um pesadelo, coberto por um véu negro. Por que eu superei. Superei fugindo de São Paulo, me mudando para cá, e aqui, encontrei amigos. Um grupo de debate sobre o que todos nós sofremos, esse mesmo grupo. Tive uma mentora, Isadora, que Deus a tenha, simplesmente maravilhosa. Superei graças a ela, e à esse grupo maravilhoso, que continua até hoje..."

Suzana chorava. Ninguém percebia, mas chorava. A sala agora estava escura, a luz concentrava-se em Cristina. As lágrimas brilhavam em seus olhos. Fora fácil assim para ela superar? Fora fácil assim, para alguém que ficara 24 dias sob o domínio de um monstro e ela, que ficara menos de uma hora, não conseguia? E Yago, que conseguira superar a morte do pai com lágrimas? Será que todos podiam superar, menos ela? Por que para ela não era tão fácil assim? E logo, sua memória viajou. Cristina e Yago não carregavam as sequelas consigo. Não dariam luz ao fruto de sua desgraça. Não estavam condenados à uma vida precária, sem estudo. Não tinha engravidado a partir de violência.

Nathalia estava entre ela e Alex, mas pôde jurar que ouviu mais um soluço.

Ao virar-se para o lado, viu que Nathalia também havia virado-se. Sussurrava algo baixo demais para seus ouvidos. E, assim que seus cabelos loiros deram uma brecha, viu lágrimas nos olhos de Alex. Lágrimas sofridas. E Nathalia a consolava. Será que ela havia começado a chorar antes? Nathalia com certeza consolaria a melhor amiga primeiro, e não Alex. Sentiu-se horrível pensando isso. Como que para espantar esses pensamentos, perguntou:

- O que houve?

- Eu não sei - Nathalia disse, imediatamente - Ela começou a chorar do nada, no meio do discurso.

Alex soluçou, quase indo para a frente. Seu capuz caiu, e ao passar os dedos nos olhos, borrou o pouco de maquiagem que tinha posto nos olhos.

Suzana nunca fora burra. Na escola, podia tirar notas baixas ou na média, no máximo, mas burra, quanto a vida, não era. Mesmo com tudo que havia acabado de sofrer, ainda se considerava muito esperta. E realmente era. Numa briga, sabia os pontos fracos dos homens e das mulheres, e os usava como bombas-relógio no corpo do inimigo. Pensou na única vez que falhara, dessa vez como analista, e não como vítima. Além disso, sempre descobria os problemas dos amigos. Não adiantava mentir para ela, ela sempre descobria.

E então, num surto de pavor, misturado com sua imensa inteligência, Suzana deu-se conta do que acontecia.

- Também aconteceu com você, não aconteceu? - disse, com a voz gélida e embargada de pavor - Você também foi...

Alex desabou, chorando tanto quanto um bebê ao nascer. Jogou-se no colo de Nathalia, e só então Suzana percebeu que todos olhavam para elas. As luzes agora iluminavam a sala inteira. As lágrimas já haviam se secado nos olhos de Suzana, mas ainda deviam deixar em seu rosto o rastro de tristeza que a pegara poucos minutos atrás. Nathalia, claramente sem saber o que fazer, passou os olhos na sala, e logo dirigiu um olhar apavorado para Suzana. Estavam agora mais ferradas do que nunca.
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