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Caído

Fallen - 30 Seconds To Mars

Nathalia bem que lhe avisara.

Desceu as escadas lentamente, como se tivesse as pernas atrofiadas - e as tinha, na verdade; passara os últimos dias jogada na cama, fingindo uma febre, facilmente simulada ao passar o dia inteiro debaixo de cobertas. Não fazia nada: comia pouco, bebia menos ainda (desejava mais que tudo uma garrafa de vinho, mas logo lembrava-se do maldito bebê). Não ligava a televisão para passar o tempo; este passava tão lentamente que já se acostumara, e de dia até noite parecia decorrer apenas uma piscada de olhos.

Era sábado, naquele dia. Ouvira a voz de Nathalia no telefone todas as noites, mas não vira nenhum de seus amigos.

Abriu a porta, só então lembrando-se de que ainda estava de pijama, apesar de já passar das quatro da tarde - um habito para os dias sem aula, porém daquela vez era apenas a melancolia do esquecimento que a dominava.

E então viu uma Nathalia, de queixo proeminente, rosto sem expressão e braços cruzados, na altura do peito. Parecia uma modelo, encontrando apoio na perna esquerda, de modo que o quadril ficava mais alto daquele lado.

- Você mentiu - disse, com a voz igualmente fria e controlada.

Suzana engoliu em seco, baixando o olhar, como se estivesse admitindo.

Logo sentiu os braços de Nathalia em seu ombro. Um abraço. Pela primeira vez em semanas, sentia o abraço de Nathalia sem chorar.

Sua expressão suavizara-se também. Passara do frio e controlado ao seu silencioso preocupado.

- Eu vou te ajudar, tudo bem? Hoje eu te ajudo.

- Mas eu não quero - disse, como uma criança de 5 anos recusando-se a comer seus legumes.

- Acho que ela vai notar quando você começar a vomitar suas tripas toda manhã e sua barriga crescer horrores, não acha? - disse Nathalia, em sua voz aveludada e calma que parecia deprimir todo pensamento na casa, tornando sua dores não tão cruéis, talvez até confortáveis.

Suzana mergulhou a cabeça nos ombros de Nathalia. Pela primeira vez, retribuía o abraço sem deixar marcas de unha, que as vezes chegavam a sangrar, nas costas de Nathalia. Retribuía o abraço como se fosse normal, como se pela primeira vez aceitasse o seu destino, tendo a certeza de que talvez jamais aceitaria.

E então assentiu, sabendo que a amiga sentiria o movimento de sua cabeça contra seu ombro.

Nathalia sorriu, e, como havia repassado a cena tantas vezes em sua cabeça, procurou suavizar ao máximo suas palavras, para não transmitir uma ideia fútil.

- Mas bem - disse Nathalia - Não importa a desculpa que usou com sua mãe, não justifica passar o dia todo na cama. Olha só, nem pijama tirou! Vai pro banho, que eu te espero aqui na sala. Aproveita e tira essas remelas do olho e passa um creme na cara, por que você tá brilhando e não é no bom sentido. Então sobe logo, rápido, e procura não cair. Eu te espero aqui.

***

- Certeza de que ela chega às seis? - perguntou Nathalia, olhando o grande relógio que ficava acima da pratilheira de livros. Já marcavam seis e meia.

Suzana agora estava limpa. Ela mesma se sentia limpa. A água estava um gelo, mas era assim que gostava. Agora vestia um short jeans - costumava usá-lo para sair, mas pensou, se logo não caberia-lhe mais, por nove meses, de que adiantava guardá-lo no armário? (sorriu com este pensamento. Pela primeira vez naquelas semanas, não pensava na gravidez como um fardo, e sim como algo que acontecera na sua vida, como se fosse um chiclete debaixo de seu sapato) - e sua camisa rosa favorita, com nenhuma estampa além de um belo "This is War", escrito na altura do seio direito. Andava descalça pela casa, servindo Nathalia quando pedia um copo d'água ou um sanduíche, como uma anfitriã deveria fazer. Estava feliz com a amiga em casa, finalmente com alguém para conversar.

- Às vezes se atrasa - disse, mexendo nas unhas como uma criança sem nada para fazer - e chega mais tarde; o recorde foi às oito horas.

- Não posso ficar aqui até oito horas! - exclamou baixinho, mais para avisar Suzana do que por revolta.

- Ela vai chegar - disse. Até parece que é você que tem algo a falar pra ela, pensou, mas não disse nada, com medo de magoar a amiga.

- Eu posso ligar pra minha mãe, digo que vou dormir aqui; ela vai deixar, se ouvir você no telefone, por que ainda tá preocupada que eu possa dormir de novo com o Yago, por que pra minha mãe, eu conto as coisas, sabe...

Ouviram a porta se fechar, num timing quase perfeito, e olharam pra trás.

- Olá meninas - disse a mãe de Suzana, num júbilo talvez real, porém descaradamente exagerado; todas as mães são assim, pensou Nathalia - Suzana, já levantou? Mas não estava doente?

Suzana limitou-se a encará-la, com seus grandes olhos arregalados e a boca entreaberta. Nathalia não pôde fazer muito melhor, alternando ao encarar Suzana e sua mãe.

- A temperatura dela já abaixou? - perguntou, dessa vez dirigindo-se a Nathalia.

Demorou uns poucos segundos para perceber que era ela quem deveria responder, vendo que Suzana fez o mesmo, porém eram segundo o suficiente para seu rosto passar da confusão inocente ao débil na mente de um adulto.

- S-sim - disse, gaguejando de surpresa - Sim, melhorou sim, é um milagre.

Esboçou um sorriso, como que para aliviar a tensão que tomava seu rosto.

- Que bom, então - disse a mãe, tirando os belos sapatos roxos, com salto alto tão fino quanto um grande fio de telefone - Então, se me derem licença, mamãe tá com sede. Suzana, vem tomar seu remédio, só por precaução.

A mulher seguiu para a cozinha, sem olhar direito para os dois rostos estampados com o que parecia ser expressões de quem estava para morrer de ataque cardíaco. Olharam uma para a outra. As lágrimas já haviam subido aos olhos de Suzana. Nathalia foi a primeira a recuperá-se, tocando o ombro da amiga com a mão direita.

- Agora é sua chance - disse, ajudando-a a levantar.

Postou-se atrás do corpo de Suzana, com as duas mãos nos dois respectivos ombros, mantendo uma pequena distância entre a amiga. Caminhava com ela, como que para dar-lhe força, impedí-la de cair.

Entraram na cozinha, e encontraram a mãe virando um copo de água.

- Aqui, Suzana - disse, estendendo o remédio logo ao notar que chegaram - Dez "ml", e depois o outro, de comprimido, pega uma faca e corta na metade, e tenta não se cortar também...

Parou, ao ver que a filha chorava nos braços da amiga loira que ainda fazia certo esforço para gravar o nome.

- Suzana...

Nathalia soltou-a, deixando-a correr até um abraço com a mãe. A mulher sentiu um impacto que quase fê-la cair, pôde ver, e logo estendeu o braço para as costas da filha. Sentia o calor das lágrimas escorrendo em sua camisa. Arregalou os olhos, e foi sua vez de estampar um expressão débil. A filha nunca chorava. Nem nos momentos mais dificeis, era sempre terrivelmente controlada. Olhou para Nathalia. Ela encarava a cena como se tivesse visto aquilo repetidas vezes, com os olhos brilhando de lágrimas. Piscou, e assentiu para ela. Não fazia ideia do que a situação se tratava, mas faria de tudo para melhorá-la. Faria de tudo para deixar tudo bem.

Nathalia devolveu o gesto, e voltou para a sala, ouvindo uma porta fechar-se. Era claro que queriam privacidade.

***

Passaram-se mais de duas horas desde que Suzana e sua mãe trancaram-se.

Nathalia já havia ligado para sua mãe. Ouvira um imenso discurso sobre as consequencias de voltar a dormir na casa de Yago, mas por fim, sua mãe deixara. Não ousou ligar a TV, muito menos o rádio. Não parecia certo, distrair-se enquanto as duas sofriam no banheiro. Apurou os ouvidos algumas vezes, ouvindo parte da conversa, mas logo desistiu. Com tanto choro e palavras emboladas, não entendia nada - e sentia vontade de chorar também. Olhava para o relógio de trinta em trinta segundos, como se aquilo fizesse o tempo passar mais rápido.

Por fim, ouviu uma porta se fechando a suas costas, e Suzana saiu sozinha.

Podia ouvir a mãe chorar nos poucos segundos que a porta ficou aberta.

- Acabou - ela disse, os olhos marejados e as bochechas manchadas de lágrimas - Está feito.

Nathalia levantou-se, e abraçou a amiga pela enésima vez. Não sentiu a amiga retribuir. Não sentiu-a se mexer.

- Sinto muito - disse, sem pensar muito.

- Eu também.

Recomeçara a chover. Chuva do caramba, pensou. Sempre começa nos piores momentos.

- O que ela disse?

- Não muito.

Nathalia sentiu um arrepio descer pelo corpo - sabia o que ela queria dizer.

- Mas - disse Suzana - disse que há uma solução judicial. Só precisa de um mandato e eu tô livre disso.

Nathalia assentiu.

- E que solução é essa?

Foi então que entendeu. Sentiu algo subindo sua garganta, travando sua respiração. Passou apenas a encará-la, sem conseguir dizer nada. Sentiu o estomago revirar, e as pernas tremerem. Olhou para a barriga da amiga, e levou as mãos à sua própria, como se pudesse sentir a dor do processo. Ai, pensou. Massageou o pescoço, sentindo que logo iria vomitar. Não pensou em motivos, não pensou na coragem necessária para aceitar tal opção. Apenas sabia que poria para fora todas as refeições do dia; da semana.

- Suzana...

A amiga mantinha-se sem expressão.
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