Hey guys :) Hoje, não tenho nenhuma novidade nem nada pra falar, então vamos partir logo pro capítulo, ~todos comemora~

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Sombra Do Dia

Shadow of the day - Linkin Park

Respirou fundo a frente do portão verde da escola. Era bonito, até. Grades verdes, um único portão gigantesco, que tanto permitia entrada de alunos quanto de carros. Lembrava-lhe de filmes de terror antigos, mas o que veio a sua mente primeiro foi Mansão Mal Assombrada. Com certeza parecia o portão do filme, porém colorido. E sem fantasmas. No topo, tentou ler o nome da escola, mas a luz cinzenta que conseguia atravessar as nuvens machucava seus olhos, impedindo-a de identificar as gigantescas - e absurdamente desenhadas - letras. Seguiu então por debaixo do grande arco de metal, olhando para trás. O carro de seu pai não estava mais ali.

Manteve as mãos nas alças da mochila, segurando-as com tamanha força que podia sentir as unhas penetrando sua pele, mesmo de casaco e com a camisa, uniforme do colégio, grossa protegendo-a do frio. O capuz do casaco estava levantado - nem ela mesma sabia por quê. Talvez para esconder o cabelo no primeiro dia de aula, por mais que sua bela franja escapasse da invisibilidade; seu cabelo tingido de rosa trazia um baita preconceito de quem a via pela primeira vez. Deixava-o crescer picotado, com as pontas de uma mecha maiores que as pontas de outra, por toda a extensão de seu cabelo - até sua franja era mais ou menos assim. Escolhera um belo casaco preto, mas mudara de ideia antes de sair. Afinal, uma garota de franja rosa, de casaco preto e com o capuz escondendo o topo da cabeça seria o que? Uma estranha. Até o fim das aulas seria uma estranha. E quem andasse com ela seria estranho também.

Por fim, escolhera um casaco que era um misto de várias cores mais pequenos diamantes falsos, e uma calça jeans escura colada às pernas, brilhando de glitter na altura das coxas e com um cinto marrom trabalhado envolvendo a cintura em destaque, chamando atenção para o pouco de sua barriga magra e morena que aparecia debaixo da bainha do casaco.

Demorou alguns segundos para perceber que não havia um prédio principal, não havia segundo andar: as salas ficavam dispostas uma do lado da outra, com uma marquise protegendo as portas. Talvez fosse por estética, talvez fosse para proteger os alunos do lado de fora da chuva. De longe, viu os números: SALA 01, 601/602, 5ª SÉRIE. SALA 02, 701/702, 6ª SÉRIE. E assim por diante. Deduziu que as turmas número 2 estudavam de tarde, já que a partir da sala da oitava série marcava apenas uma turma, 901, 1001, 2001. Não precisou passar pela secretaria - já abarrotada de alunos querendo pagar suas mensalidades ou reclamando por que o inspetor os puniu muito severamente -, seguiu direto para a sala 6, do segundo ano.

Não encontrou muitos alunos, pode contar apenas catorze. Sabia que deveria haver pelo menos quarenta alunos ali, principalmente ao faltar cinco minutos para o inicio da aula. Não lhe era estranho, no entanto. Certas coisas não mudavam, não importando em que escola se estudava, e uma delas era que os alunos sempre rondariam a escola, sem nada para fazer, até o professor entrar na sala, como se aproveitassem os últimos minutos de liberdade que tinham antes de começar a aula.

Mas soube que aquele seria um dia cheio, ao ver a quantidade de mochilas em cima das carteiras. Podia agora ouvir a gritaria que ignorara, do lado de fora. Correu os olhos pela sala cor-de-gelo, quase amarelada, procurando uma carteira vazia num mar de mochilas. Ninguém prestava atenção na garota extremamente baixa para sua idade, de casaco colorido e calças brilhantes, o que era bom por enquanto. Encontrou sua almejada cadeira livre do lado esquerdo da sala. Como se alguém pudesse tomá-la o lugar, sentou-se rapidamente, fazendo barulho ao jogar a mochila na cadeira, fazendo-a assemelhar-se a todas as outras. Olhou para frente, agora examinando a sala com olhos curiosos, percebendo que havia mais um lugar vazio bem à sua frente. Ao lado, havia uma mochila preta, simples. Ainda mais à frente, havia uma mochila rosa e preta - quase igual à minha, pensou com as orelhas corando - e uma mochila azul surrada ao lado. Não simplesmente azul. Era da cor de uma calça jeans, e, depois de examiná-la um pouco mais, percebeu que tinha textura de jeans também. Logo, chegou a conclusão de que o lugar vazio estava rodeado de três pessoas, mais ela. Seria um amigo - ou amiga - do trio à sua frente? Seriam sequer amigos os componentes do trio? Achou melhor não buscar companhia imediatamente, permanecendo em seu lugar. Talvez a cadeira vazia estivesse reservada para alguém, e não era bom arranjar briga em seu primeiro dia de aula, ainda mais por algo tão estupido.

Então encolheu-se na cadeira, e sentiu um zumbido na cabeça ao ouvir o sinal, insuportável de alto, tocar. Olhando para o resto da sala, viu que a maioria dos alunos parecia pensar o mesmo. Sorriu então, apenas uma vez, esperando o professor entrar.

***

- Nem gravei o nome de todos vocês e já tem mais uma chegando?

Levantou o olhar, percebendo que o professor devia estar falando dela. Afinal, era a única aluna nova que entrara na escola no meio do ano letivo, pensou ela. O professor, de matemática, pelo que ouviu falar das garotas à suas costas, não tirava os olhos da ficha de papel, com um sorriso no rosto. Olhou para o trio à sua frente, enquanto a fofoca tomava conta da sala. Eram realmente amigos - dois garotos e uma garota, a garota sendo namorada de um deles. Captou apenas um nome: Nathalia, a garota. Os outros dois ainda não haviam revelado-se, porém o que estava mais próximo tinha o rosto gravemente ferido - cortes, um olho roxo, as duas bochechas vermelhas de tão inchadas - e movia o braço com dificuldade, gemendo ao fazê-lo. Não pareciam prestar atenção no que o professor dizia, até anunciar a aluna nova; havia uma tensão estranha entre os três, uma agonia silenciosa que podia ser lida em cada par de olhos - azuis para o garoto mais a frente, negros como a noite para o garoto ferido e castanho-claros, quase cor-de-mel, para Nathalia.

- Senhorita... - o professor apertou os olhos detrás do óculos, fingindo um problema ocular mais grave do que realmente tinha - Ângelo, pode vir aqui na frente, por favor?

Engolindo em seco, levantou lentamente. Com o barulho da carteira sendo empurrada, pareceu chamar a atenção de todos os alunos na sala, inclusive do trio à sua frente. Cambaleou para fora da cadeira, logo retomando sua pose habitual. Ereta, continuou a caminhar, e ouviu um pequeno comentário sobre sua altura. Corou de leve, sem deixar-se abalar. Era sempre o que percebiam primeiro, quando o capuz estava levantado.

- Meus queridos alunos - o professor disse, com a voz carregada de um sarcasmo que pareceu não magoar os presentes. Piscou os olhos, imaginando se ele era assim todo o tempo - Quero apresentar-lhes a senhorita - puxou o papel de novo, dessa vez genuinamente para ver seu nome completo - Alexandra Ângelo Cruz, de 16 anos, nova participante do jogo.

Dizendo isso, esboçou um sorriso que fez quase todos os alunos rirem baixinho.

Examinando-o de perto agora, viu que crescia uma pequena barba de seu queixo a sua bochecha. Talvez não passasse gilete ali a alguns dias. Debaixo do jaleco, usava camisa polo, azul, com pequenas letras escritas no lado esquerdo do peito. Uma barriga proeminente começava a crescer, o que era estranho; já devia ter crescido, pensou, para um senhor de pelo menos uns cinquenta anos. No entanto, o velho agia como se fosse o professor jovem e malandro que todo mundo gostava, e talvez fosse. Exceto pela parte do jovem.

- Vou chutar e dizer que não parece gostar muito de "Alexandra". - disse, porém dessa vez em voz baixa, como se falasse apenas para ela.

Sorriu para o bom senhor.

- Alex está bom.

- Muito bem, Alexandra - disse, dando ênfase ao inicio do nome - Devo dizer-lhe que a escola não tolera qualquer tipo de chapéu, seja boné, gorros ou o capuz de seu casaco. Dica de amigo, na minha aula não tem problema, mas se inspetor entrar na sala, vai ralhar com você.

Alex baixou os olhos, apertando os lábios timidamente. Baixou o capuz, e quando olhou de volta, viu um sorriso no lábio do professor.

- Mas olha só, temos uma rockeira na sala - disse, rindo-se.

Novamente os alunos abriram um sorriso e riram baixinho. Alex fez o mesmo, achando impossível ficar zangada com o velhinho. Afinal, ele não tentara humilhar-la.

Voltou para seu lugar quando o professor, de nome Adilson - novamente provando sua idade -, pediu, passando a mão no cabelo rosa de pontas picotadas, sem sentir vergonha dessa vez. Sentou, enquanto o professor fazia a chamada, sorrindo ao falar seu nome. Alex respondeu igualmente animada, logo voltando ao silêncio e ao esquecimento da turma.

Menos de Nathalia, percebeu. Ela a encarava com certo fascinio no rosto.

- Oi? - disse Alex, por fim.

- Aaah, oi - Nathalia respondeu debilmente, como que saindo de um transe.

- Tudo bem?

Nathalia assentiu, ainda encarando-a.

- Ficar se olhando é tipo um cumprimento por aqui? - perguntou, com o máximo de animação que conseguiu por na voz.

- Não, não, é só que... - respondeu, parando no meio da frase, procurando as melhores palavras para explicar-se - Caramba, como você é parecida com a Hayley Williams.

E então, como se desmontasse e examinasse a ideia, Alex jogou a cabeça para trás e riu.

***

- ... e hoje chegou uma aluna nova, Alexan... Alex - disse Nathalia, lembrando-se do ódio que a nova amiga tinha quanto a seu nome completo - O Adilson chamou ela de rockeira, mas ela é tão baixinha que acho que se pegasse uma guitarra ia ser esmagada por ela...

- Rockeira? - disse Suzana, do outro lado do telefone.

- É, ela tem cabelo rosa, tipo rockeira mesmo.

- Ah - respondeu Suzana, sem animação nenhuma.

Cada uma contara seu dia. Nathalia contara tudo sobre Alex, sobre as matérias, sobre o milagre que era não ter tido dever de casa naquele dia... E Suzana resumira seu dia a ficar no quarto. Fingira dormir quando os pais saíram para trabalhar e manteve-se agarrada à cama o dia inteiro - mas é claro que usara eufemismos e omitira alguns fatos, para não preocupar a amiga. Mas em sua voz estava a tristeza.

- O que foi? - Nathalia disse, quase esfregando na cara de Suzana que não podia esconder-lhe nada.

- Nada - respondeu Suzana - Mas sou só eu que tô com a sensação de que você me substituiu?

Nathalia riu forçada, e ouviu a tosse seca que era a tentativa de riso de Suzana.

- Falou com a sua mãe? - Nathalia forçou as palavras, como se não quisesse ter de chegar àquele ponto da conversa.

Silêncio.

- Suzana?

- Oi.

- Falou com sua mãe?

Ouviu um suspiro do outro lado da linha, e então a voz de Suzana voltou falhando.

- Não - disse - Falei não.

- Você tem que conversar logo com ela.

- E falar o que? - disse, e Nathalia soube que chorava - "Oi mãe, eu fui estuprada e agora tô grávida, desculpa se não foi o futuro que você planejou pra sua filha"?

Sentiu o fim da frase terminar numa pergunta, o que a fez engolir em seco novamente.

Passou os próximos minutos tentando acalmá-la. Quando finalmente o fez, mandou-a novamente conversar com a mãe - ou Nathalia o faria por ela. Desligou o telefone, espantando-se ao olhar para o relógio. 23h43. Passara quase uma hora no telefone, e quase vinte minutos tentando acalmar a amiga. Estava com fome, mas não sabia do quê. Não quis descer a escada, então abraçou as pernas. Precisava de Yago mais que nunca. Precisava dele a seu lado, precisava de um beijo dele e talvez até mesmo de uma nova noite com ele. Encostou o nariz no joelho, e respirou. Respirar não era apenas a base de sua vida para ela; respirar era um calmante. E ainda assim seu cerebro pulsava, como se as veias tentassem esmagar seu crânio. Pensar estava impossível. Não sabia o que faria dali pra frente. Não sabia como ajudaria Suzana. Não tinha ideia de nada.

Apagou abraçando a si mesma, e não sonhou com nada naquela noite. Seu mundo encantado havia desaparecido, e não havia refúgio nenhum para ela. Tinha de encontrar um maneira de fazer tudo voltar aos trilhos, e então todos teriam seu felizes para sempre.
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