Hey galera =] Quero agradecer a TODOS que leram o prólogo, e que mandaram suas opinião, via Twitter, comentários ou mesmo no Tumblr (!), e gostaria também de dizer que, quem me deu sua opinião, aprovou :D Então, o prólogo irá assim mesmo pro livro, e esse livro será lançado o quanto antes (pois a continuação não será postada no blog, será lançada em livro). Mas enfim, leiam SILENCIAR, e só quando eu tiver idade legal para lançar livro eu mando mais informações xD

28

Construímos E Então Quebramos

We Build Then We Break - The Fray

Uma semana bastou.

Felipe pesquisara por aquela semana inteira. Pedira para seu amigo na cidade do Rio pesquisar por ele, na verdade. O computador que trouxera não tinha os programas necessários para encontrar o que queria. Tinha recebido a ligação naquela manhã (a cobrar, pra variar), e não deu corda para conversa. Com alguma descrição, conseguiu fugir para uma lanhouse, imprimindo tanto a foto quanto todas as informações pessoais de Guilherme. Onde morava, a idade, o número de seu CPF, a carteira de motorista. Pais: mortos. Pai por câncer e mãe por cirrose, bebedeira descontrolada. Seria seu modus operandi uma vingança contra o cruel mundo que tirou-lhe o pai e deprimiu a mãe o suficiente para matá-la também? Ou seria um simples distúrbio mental, uma necessidade incontrolável como um vício? Os olhos frios desceram a ficha, impedindo-se de sentir qualquer tipo de compaixão que um ser humano deveria sentir por outro. Pouco importava o motivo, aquele monstro destruíra a vida de sua amada e de sabe-se lá quantas outras garotas inocentes.
E ele agora destruiria sua vida. Ou poria um ponto final nela, o que quer que lhe deixasse satisfeito.
Enfiou as folhas recém-impressas - e bastante suspeitas para quem quer que visse, soube pelo olhar do menino do caixa, que logo depois voltou a atender os novos clientes que chegavam - no grande envelope pardo que trouxera dobrado no bolso da calça jeans, voltando para a rua, sentindo a chuva gelar seu couro cabeludo. Entrou no carro, voltando a examinar os papéis, dessa vez mais minuciosamente. Pelo que via, ele morava no Peró, um bairro mais no interior de Cabo Frio.
E era para lá que iria.

***

Tragou mais uma vez, jogando fora o cigarro já inútil e retirando outro da pequena caixinha branca, bem como o isqueiro de seu pai, que sempre guardava no bolso.

Tirou também o celular, infestado de fotos, números e mulheres em posições que nem deve-se descrever. Entrou direto nos contatos, revirando os mais de duzentos números. Não tinha mais família, muito menos amigos, então de nada servia manter aqueles números ali. Deixava apenas números de suas possíveis pretendentes - sem se importar se elas se entregariam a ele ou se resistiriam. Não fazia diferença mesmo. Tudo terminaria do mesmo jeito. E quando tivesse acabado com elas, visitaria uma de suas amiguinhas. Elas sabiam bem como ele gostava. As garotas que escolhia aleatoriamente eram apenas uma entrada - as prostitutas eram a verdadeira refeição. Dinheiro nunca fora problema, então uma por noite era sempre uma boa pedida. Às vezes pegava duas. Não importava. Sempre tinha o que queria e não tinha aquele sentimentalismo de se importar com o que fazia. Era livre de todas as emoções humanas que poderiam atrapalhar-lhe. Fazia questão de manter apenas a raiva, o ódio e o êxtase. Afinal, aquelas eram as sensações mais deliciosas com que a humanidade fora abençoada, não eram?
Tragou mais uma vez, recomeçando a caminhada.
Já decidido do que faria pelo resto da tarde - e bem provavelmente pela noite inteira -, Guilherme viu movimentação à suas costas. Os reflexos mostrados nos vários carros em fileira, a poucos centímetros de onde andava, não mentiam: alguém o seguia. Não era mais uma sensação paranóica - sentira muito dela no inicio, e então decidira que era descartável, apenas útil quando havia perigo. Mas aquilo era perigo real. Quase podia sentir um determinação no perseguidor. Virou na primeira esquina, apenas como teste. Pela vitrine da loja de óculos, viu-o virando também. Pôde ver em detalhes dessa vez: estava agasalhado, um casaco preto com letras brancas em destaque - não pôde ler o que significavam apenas por estarem ao contrário no reflexo -, com o capuz cobrindo a cabeça, porém revelando parte do cabelo ondulado e levemente loiro. Talvez fosse loiro, apenas a vitrine que não oferecia tanta precisão. O casaco estava aberto até o peito, revelando uma camisa também preta. O jeans era igualmente escuro, de modo que o fez questionar-se se era um gótico. Suas mãos estavam enfiadas nos bolsos do casaco. Então havia algo a esconder, e coisa boa com certeza não era.
Continuou andando até virar num beco, certificando-se de que estava tudo deserto.
Agora estava encurralado. Mas o gótico também estaria.

Virou-se tentando acertar um soco no rapaz, mas este era mais rápido. Desviou-se na hora, e pegou em sua mão. Virou-a, quase torcendo seu pulso, se não fosse um movimento sincronizado de Guilherme. Livrou-se das mãos de seu perseguidor, voltando a atacar com um gancho de direita. Felipe pulou para trás, escapando do golpe, porém quase tropeçando. Seu capuz caiu, revelando o cabelo que movia-se ao ritmo da briga. Acertou o primeiro golpe em Guilherme, um soco no peito, porém mais fraco do que pretendia. Guilherme soltou um gemido rouco e arfou, correndo para um abraço que tiraria o ar de seu adversário. Felipe sentiu os pés saindo do chão, com a característica sensação do sangue descendo mais rápido. Percebeu que tinha poucos segundos para livrar-se do próximo golpe, senão quebraria algumas costelas e provavelmente desmaiaria com o impacto contra a cabeça. Guilherme avançou, com Felipe em seus braços. Pressionaria seu corpo contra a parede, assim terminando a luta. Não contava apenas com a rápida recuperação do garoto gótico, que acertou os dois punhos fechados em forma de concha no topo de sua cabeça. Deixou-o cair aos tropeços, enquanto ele mesmo ia ao chão, cobrindo o couro cabeludo que latejava forte. Felipe respirou fundo, apenas uma vez, garantindo força para os próximos segundos. Acertou um chute no lado direito do rosto de Guilherme, dessa vez realizando seu desejo: um dente, bem como um bocado de sangue, saiu voando de sua boca. Guilherme cuspiu, expelindo mais sangue, e rebateu com um olhar, primeiro sem expressão e logo tornando-se uma expressão ameaçadora. Rosnou como um animal, levantando-se de volta ao ataque. Tentou novamente agarrá-lo para pressionar seu corpo contra a parede, mas Felipe esquivou-se novamente, fazendo-o voltar ao chão. Sentiu novos golpes em sua barriga, chutes carregados com uma força arrebatadora. Sentiu mais sangue escorrendo por entre os dentes. Virou-se de barriga para cima, escapando de um último golpe e segurou o pé de Felipe. Fê-lo cair, tendo tempo suficiente para montar nele. Acertou um soco em seu rosto, devolvendo parte da vermelhidão que ele com certeza causara a seu rosto perfeito. Acertou outro, e mais outro, finalmente arrancando sangue de Felipe. Não suspeitou que ele fingia, estava ocupado demais com sua própria vitória. Mas mudou de ideia ao sentir um impacto contra a barriga - os pés do gótico que nem sentiu se acomodarem embaixo de seu corpo. Foi lançado para cima, e depois sentiu-se caindo para trás, batendo as costas contra o chão. Felipe já havia se levantado, soube quando sentiu-se sendo puxado pelas costas da camisa. Sentiu seu corpo sendo virado de costas, de modo que ficou frente a frente com o garoto gótico. Atrás, estava a parede.
Após uns poucos segundos de silêncio, e sentindo-se perturbado pelo olhar sereno de seu agressor mesmo após ter levado - e ter dado - uma surra, decidiu falar.
- Quem é você? - disse, com a voz arrastada, e descobriu que a garganta doía.
Felipe enfim sorriu.
- Desculpe minha falta de cortesia - disse, com sarcasmo - Meu nome é Felipe.
Com um braço contra o pescoço do inimigo, e outro desdobrando o papel que carregava em seu bolso, disse:
- E seu nome não é Guilherme.
Estendeu o papel, sem preocupar-se em explicar mais nada.
- Aí consta que seu nome é Carlos. Deve ser falso também, não é?
Não respondeu, passando para a próxima pergunta.
- O que você quer?
Felipe voltou a cutucar o bolso, dessa vez tirando o celular.
- Lembra dessa garota? - perguntou, abrindo o telefone e revelando um foto dele e de Suzana, abraçados, um ano antes. Estavam no mesmo parque que Nathalia e Yago estiveram um mês antes, no último dia que tiveram juntos, antes dela voltar a São Paulo. Aquela foto, porém, era de uma época diferente. Naquela época, Yago havia escapulido com qualquer uma, que nunca mais fora mencionada depois daquele dia, de modo que foi possível tirar uma foto apenas deles dois.
Guilherme manteve o próprio silêncio.
- Lembra dela? - perguntou novamente, dessa vez entredentes, com a voz beirando a um grito.
- Não - respondeu quase automaticamente - Quem é? É sua namorada?
Bem que eu queria, pensou um Felipe triste, escondido por trás do Felipe agressivo que corria em seu sangue.
- Se ela ficou comigo - continuou Guilherme -, não posso fazer nada. É culpa dela, não minha, que é você é corno, e olha que você também pode ter um bocado de culpa...
Felipe acertou um novo soco, muito mais forte do que qualquer coisa que já havia feito, no abdômen de Guilherme, que poderia ser Carlos.
- Cala essa boca - disse logo em seguida, enquanto Guilherme/Carlos ainda arfava e cuspia mais sangue - Cala essa boca.
Tudo que ele fez foi rir, quase engasgando com o próprio sangue.
- Ah, então eu vejo o que acontece - disse - Eu comi ela quando era você que queria descabaçar ela?
Voltou a rir, deixando Felipe ainda mais furioso.
- Eu já disse, nada disso é culpa minha. Se ela não te quer, que merda pra você. Mas não muda em nada minha vida. Ela vai seguir a vida dela como puta e você vai ficar sozinho se não começar a olhar pra quem te quer de verdade. E se você é assim com mulher, não vou te enganar não, são poucas as chances que você vai ter, por que mulher só gosta de apanhar na cama. - disse ele, e então sua boca retorceu-se numa expressão de surpresa, longa demais para ser verdadeira - Ah, foi isso que aconteceu?
Riu novamente, com filetes de sangue misturados à saliva escorrendo pelos cantos da boca.
- É isso que você é? - disse, arrastando ainda mais a voz como se o ar tivesse acabado em seus pulmões - É isso que você é? Pega tanto pau para essa garota que virou o justiceiro dela?
- Cala a boca - sussurrou baixinho, cego de raiva.
- Correndo atrás do lixo que machucou ela, que destruiu ela? - continuou Guilherme, entretido pelo espetáculo de raiva que seguia-se à sua frente - E você acha que ela faria o mesmo por você? Por mais que eu bata palmas pra quem conseguir estuprar você...
- Cala essa boca!
- ... primeiro por ter me atrapalhado logo quando eu ia almoçar e segundo pelo seu tamanho. Caraca! Só se você for um babaca gigantesco pra querer apenas uma quando você pode ter todas, por que olha...

- Cala a boca! - gritou, a voz saindo como um guincho desesperado.
Foi a brecha que Guilherme esperava.

Acertou um novo chute na barriga de Felipe, satisfeito por seu elemento surpresa ter funcionado. Sentiu os pés tocando no chão novamente, e sorriu ao ver a expressão de raiva ceder um pouco de espaço para a surpresa no rosto de Felipe. Suas dores agora não passavam de formigares incômodos, de modo que sentia-se forte para brigar novamente. Acertou um novo chute no peito de Felipe, fazendo-o cair de costas, totalmente rente ao chão. Viu-o arfar, como um peixe fora d'água buscando por oxigênio antes de sua inevitável morte. Ele se arrastou, levantando aos poucos, precisando apoiar-se na outra parede para levantar-se. Guilherme viu tudo com um sorriso no rosto; se o garoto gótico estava se recuperando, era apenas por que ele deixava que tal coisa acontecesse. Assim que viu levantando, correu, dessa vez sem tentar repetir o golpe que falhara duas vezes, apenas concentrando-se em acertar um soco na cara de Felipe. Arrancou sangue pela segunda vez, manchando a pele morena dele, bem como sua camisa preta. Felipe acertou um soco em sua barriga, fraco demais para causar qualquer dor além de um arfar pesado. Guilherme pegou-o pelo pescoço, acertando repetidos socos em seu rosto, até que seu olho ficou roxo e sua bochecha não passava de uma gigantesca bola vermelha, com um corte do qual jorrava sangue. Atirou-o no chão, e viu-o sendo arrastado por dois metros pela gravidade e pela força empregada, rasgando a manga da camisa e do casaco, além de abrir pequenos arranhões no braço.
Lentamente, retrocedeu dois passos. De trás de uma lixeira de metal, tirou uma pequena barra de ferro, de um metro, no máximo, que vira enquanto estava sob o domínio de Felipe.
Caminhou até Felipe lentamente, como se quisesse causar um terror incontrolável. Felipe tentou levantar duas vezes, caindo novamente. Guilherme estava cada vez mais próximo. Na terceira tentativa, conseguiu equilibrar-se, flexionando os joelhos, mas voltou ao chão com um golpe da gélida barra. Gemeu e em seguida gritou, levando as mãos aonde fora ferido. Sentiu a área esquentar. Sangue? Torceu para que não.
Guilherme continuou a se aproximar, e Felipe viu-se obrigado a agitar as pernas numa defesa débil, soltando um gemido assustado.
Guilherme recuou dois passos, sem se dar conta da intenção de Felipe, e riu.
- Não é tão durão agora, não é? - provocou.
Felipe levantou-se o mais rápido que pôde - dez segundos mentais, pelo que contou -, e correu para a saída, uma tentativa desesperado e inútil. Felipe acertou a barra de ferro em seu peito, como um jogador de beisebol ao rebater uma bola. Felipe caiu, totalmente sem ar, e sentiu um chute nas costelas, bem como havia feito poucos minutos atrás. Jorrou sangue de sua boca, como jorraria de um gigantesco corte recém-aberto. Arrastou-se para trás, sob o olhar de um Guilherme divertido, e tentou levantar-se uma última vez, remexendo os bolsos.
Dane-se, pensou Guilherme, descendo a barra de ferro em sua cabeça.
Felipe sacou uma arma, apontando diretamente para a cabeça de Guilherme.
Aquilo acabaria ali.
Guilherme, de olhos arregalados, ouvir o destravar da arma. Pela sua própria experiência, demoraria pouco mais de cinco segundos para um tiro, que seria fatal.
Felipe abriu um sorriso, encarando a expressão surpresa de Guilherme.
Um sorriso que sumiu no momento em que a barra acertou sua mão, rendendo uma nova dor e impedindo o homicídio.
 
Pow! Um tiro.
Guilherme, ainda sorrindo, olhou para o próprio corpo. Nenhum novo ferimento, nenhuma nova dor. O sorriso cresceu ainda mais, tornando-se quase sobrenatural. Encarou a expressão aterrorizada de Felipe, e voltou ao golpe final, descendo a barra na cabeça de Felipe.
Felipe desfaleceu, com um novo corte no topo do couro cabeludo.
Guilherme largou a barra, com um pequeno ponto ensanguentado, ouvindo seu retinir metálico no chão. Olhou para a saída do beco. Ninguém deveria ter passado ali, e quem tivesse passado ou ignorara, ou correra com medo. Olhou para o céu. Já era noite. Quanto tempo gastaram naquela dança macabra? Sorriu, de qualquer forma. Não houvera testemunhas, já que eram poucos os loucos que passavam por aquela parte da cidade depois do anoitecer. Sem testemunhas, cada um seguiria com suas vidas - um mês a mais ou menos para voltar à habitual aparência, pouco importava. Voltaria a suas prostitutas e suas mulheres e garotas com qualquer cara. Começaria já naquela noite, afinal a vida era curta.
Exceto, talvez, para Felipe, se é que esse era seu nome. Felipe poderia muito bem estar morto a seus pés.
Olhando bem para ele, pensou se não deveria esconder o corpo. Olhou para as lixeiras, grandes e quadradas. Não era a ideia mais original mas serviria para alguma coisa. Tateou as calças do garoto, puxando celular e carteira. Um curiosidade mórbida pela vida do talvez-recém-morto. Um celular bonito, de primeira linha, touchscreen - se não o tivesse visto lutando, chamaria-o de mauricinho. Não havia jogos, mas havia câmera de alta definição, que poderia tanto tirar foto quanto gravar, com oito megapixels. Eram tantos modos, tantos estilos de foto, tantas molduras ridículas que desistiu de continuar investigando ali. Descobriu que havia músicas ali também, cento e vinte e oito, pelo contador acima do player. Havia tantas músicas em inglês quanto em português, e mal reconhecia certos títulos, mas pôde reconhecer alguns artistas. Linkin Park, The Beatles, Legião Urbana. Alguns que nunca ouvira falar, outros que não sabia sequer pronunciar. Músicas de merda, pensou. Músicas velhas, músicas de merda. Jogou o celular de volta no peito de Felipe. Abriu a carteira, parando os olhos bem sobre uma foto do dono com um homem mais velho. Muito parecidos. Pai dele, talvez. Com um fardo azul, que reconhecia de algum lugar. Quando lembrou, precisou arregalar os olhos, arrependendo-se de sequer dar corda para aquela briga inútil.
O merdinha era filho de tira!, pensou. Tô ferrado. Fodeu de vez.

Não podia deixá-lo ali jogado, agora tinha um bom segundo motivo. Tirou-lhe a jaqueta, que parecia bem cara, bem como pegou novamente o celular e guardou-o no bolso, junto com a carteira. Tinha de fazer parecer que era um assalto. Apalpou novamente os bolsos da calça, conseguindo mais uma nota de cinquenta reais e várias moedas de dez centavos, no final. Olhou bem para a calça do rapaz. Gostara do cinto. Não precisava levá-lo, mas o queria. Tirou-o da cintura do garoto, então, e envolveu-o na própria cintura. Vestiu o casaco, escondendo o dinheiro. Subiu o capuz, para esconder alguns dos ferimentos. Pegou em seus braços o corpo do moleque, e jogou na lixeira. Puxou alguns sacos para cima do corpo, escondendo-o debaixo do plástico preto. Se estivesse realmente morto, não precisava se preocupar. A polícia de Cabo Frio nada faria, afinal não haveria nada de suspeito num beco - a não ser que denunciassem, o que não parecia ser o caso. Provavelmente o corpo de Felipe seria triturado num caminhão de lixo, e então despejado num aterro sanitário. Seu pai passaria a vida procurando-o, com uma inútil esperança de que ainda estivesse vivo.
Fechou a lixeira. Puxou a arma que só então percebera que ainda estava no chão, escondendo-a no casaco. Continuou a caminhar para fora do beco, com um sorriso no rosto, afinal, era só um dia normal com um pouco de emoção.

***

Chovia.

Sentiu uma gigantesca dor apoderar-se de sua cabeça. Apertou os olhos, e só então sentiu um cheiro podre entrando em seu nariz. Abriu os olhos, vendo nada além de escuridão. Tentou mexer-se, mas sentiu um grande peso em seu braços. Forçou, conseguindo subir um pouco onde quer que estivesse. Quando chegou ao topo, sentiu algo gélido e ainda mais pesado contra seu rosto. Fez força. Abriu a tampa, sentindo gotas geladas caindo no rosto. Queimava. Sua cabeça estava quente.
Arrastou-se para fora da lixeira.
Como chegara ali?
E então lembrou-se.
Sentiu-se corar, elevando ainda mais a temperatura em seu rosto. Olhando para o chão molhado, viu que sangrava; seu sangue misturava-se à água, obtendo uma coloração meio rosada. Tinha vergonha. Pensou em pegar o celular, mas percebeu que não estava em seu bolso. Não havia nada em seus bolsos. Sentiu frio ao perceber que também estava sem casaco. Levantou-se, saindo do beco. A rua estava totalmente deserta, de modo que ninguém poderia ajudar-lhe. Viu um orelhão, e agradeceu a Deus. Não tinha cartão, então deveria ligar a cobrar. Ligou para o único número que confiava, ouvindo o habitual toque de ligação a cobrar quando atenderam.
- Alô - disse a voz rouca de Nathalia do outro lado da linha.
- Nathalia? - disse, mais por surpresa do que por cumprimentos.
- Sim, sou eu.
- Cadê a Suzana?
- Dormindo.
- Ah.
Passou-se um momento de silêncio, com um Felipe ainda mais corado que antes.
- Tá aí? - perguntou Nathalia.
- Ah, oi, sim, tô aqui sim.
- Enfim, ligou pra quê?
- Eu ia pedir pra Suzana avisar ao Yago que eu não vou conseguir dirigir hoje, e pra ele vir me buscar e buscar meu carro e me levar até a casa de novo.
Nathalia suspirou.
- Bebeu de novo?
- Bem que eu queria.
Nathalia suspirou novamente, um suspiro cansado.
- Então tá, onde você tá?
Falou o endereço. Se Nathalia soubesse o minimo que fosse de Cabo Frio, surtaria ao ouvir o nome da rua.
- Ele já vai pra aí - disse por fim, desligando o telefone sem sequer despedir-se direito.
Colocou lentamente o telefone de volta ao gancho. Caminhou uns poucos passos, e logo tornou-se vitima do cansaço. Jogou-se contra a parede, sentindo as dores voltarem, nas pernas, nas costelas. Havia quebrado alguma coisa? Não sabia. Cuspiu sangue, surpreendendo-se dessa vez. Cada parecia gritar que ele falhara com Suzana, como um inseto rodando seu ouvido. Não poderia nem mesmo revidar. Afinal, falhara em dar o troco à Guilherme. Falhara em seguir os ensinamentos do pai, e em desobedecê-los. Falhara em tirar uma vida, quase perdendo a sua. Falhara.
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