HEEEEEEEY =) Estamos aqui, no primeiro capitulo de SILENCIAR postado numa terça-feira o/ Enfim, leiam logo, sei que não se importam com isso, e, ah, voltem no blog amanhã para o prólogo de um futuro livro. Se esse prólogo for bem aceito por vocês, leitoras e leitores, o prólogo vai assim mesmo pro livro. Mas leiam SILENCIAR hoje, esse prólogo fica pra amanhã :)


27

Assassinato

The Kill - 30 Seconds To Mars

- Tem certeza que não precisa de mim com você?

Nathalia meneou a cabeça negativamente mais uma vez, engolindo em seco enquanto guardava pequenas caixinhas de papel no saco da farmácia. Encarava-as por poucos segundos, respondendo automaticamente a cada fala de Yago. Não sabia se eram as respostas que ele gostaria de ouvir, muito menos se eram as respostas que daria se prestasse atenção.

Havia passado na farmácia, poucos minutos antes. Comprara o almoço também, mais para disfarçar do que por fome. Não havia espaço para comida em sua barriga, as borboletas revirando-se em seu estomago tomavam conta. Mesmo assim, seu plano dera meio que errado. A atendente da farmácia, até então olhando para a praça do outro lado da rua, deixara claro com o olhar que pularia da cadeira se pudesse. Soltou um "hum" baixinho, o que foi suficiente para fazer Nathalia corar. Sentiu lágrimas - de vergonha, dessa vez - acumulando-se nos olhos, e assim que pagou, praticamente mergulhou na chuva, sem importando em molhar-se. Parecido com o que havia feito na semana anterior. Tentara comprar pílulas-do-dia-seguinte - num raro flash de quando se lembrava do que se passava na aula de Programa de Saúde -, mas segundo o farmacêutico, precisava de prescrição. "Mas é urgent..." "Não, precisa de prescrição". Algo a ver com a grande quantidade de hormônios, e os tais riscos sussurrados em uma bronca de dez minutos. Passara por diversas farmácias, e as que estavam abertas diziam a mesma coisa: prescrição. Se pelo menos pudesse ir à um médico ali... mas era domingo, de Semana Santa ainda por cima. E no dia seguinte, as chances de impedir uma eminente gravidez já seriam quase nulas.

Agora, já em casa, seca, preparava-se para receber a resposta para a pergunta que preferia não ter feito.

Estava agora hospedada na casa de Yago novamente. Já estavam em Cabo Frio a uma semana. Uma semana de espera, pelo tempo mínimo permitido.

Podia ouvir Yago batendo pé, mas estava desligada demais para entender o que quer que dizia.

- Não. - respondeu, por fim - Temos que fazer isso só nós duas mesmo, sozinhas.

Yago aproximou-se, pegando em suas mãos novamente geladas, talvez pela chuva, talvez pela hipotermia de medo que apoderava-se de seu corpo.

- Eu posso ser pai, Nathalia.

- Arranje um útero pra carregar o bebê e aí você pode vir comigo.

Yago fez um muxoxo de desaprovação.

- Ei - disse Nathalia - Encare isso como conversa de menina. Você não quer ficar no meio de conversa de menina, não é?

Yago encarou-a, com aqueles olhos azuis tristes semi-cerrados que apenas ele sabia fazia. Repuxou um canto da boca num sorriso improvisado, dando de ombros, enfim deixando-a passar pela porta, dando-lhe aquele olhar de "O que não faço por você".

Mas a verdade era que queria tê-lo a seu lado. Queria tê-lo para abraçar, para consolá-se caso desse positivo, e queria tê-lo para abraçar, para comemorar se desse negativo. Desejava mais que tudo seguir com a própria vida, ajudar a por a vida de Suzana nos trilhos, também.

Mas passaria por aquilo sozinha. Não era uma provação, não era um ato de coragem. Era uma necessidade boba que sentia subir pela espinha.

***

Abriu a porta lentamente, deixando ranger como que para alertar Suzana de que havia chegado. Viu-a virando a cabeça para encarar-la na hora, a dor quase desaparecendo do rosto. A ansiedade tomava conta dela agora. Um rosto carregando uma sentença tão cruel e trágica, um rosto de expressão tão danificada. Era isso que melhor resumia os últimos dias, dano.

E havia medo, claro. Muito medo.

- Oi. - disse, simplesmente.

Não houve resposta.

- Comprei dez. - disse, levantando o saco cheio de caixas - Cinco pra você e cinco pra mim.

Suzana assentiu, quase deixando cair no chão o teste que Nathalia jogou pra ela.

- Quem vai primeiro? - perguntou ela, puxando um objeto branco com aparência de palito.

Nathalia engoliu em seco, sem responder. Suzana passou a encará-la então, com a boca meio aberta e expressão digna de quem não sabia o que falar. Nathalia encarou o silêncio como uma resposta, virando-se para o banheiro. Voltou dois minutos que arrastaram-se como dois séculos depois, respirando fundo, com o cabelo desgrenhado. Tentava ajeitá-lo, mas não adiantava. Ela mesma deveria ter feito isso, de tão nervosa que estava. Sentia como se fosse vomitar tudo que comera na última semana.

Suzana levantou-se, tremendo não menos, com as pernas bambas, e deixou-se guiar. O cerebro não fazia muita diferença em meio àquela confusão de pensamentos, tornando-se apenas um órgão inútil em sua cabeça, carregado de hormônios e das mais horríveis previsões.

Fechou a porta do banheiro suavemente, sem quase fazer barulho nenhum. Sentou na privada, com ambas as tambas abaixadas, usando-a como cadeira. Deixou o teste ainda fechado cair na pia, sem se importar em pegá-lo. Bateu com a cabeça levemente na parede, de olhos fechados, fazendo barulho ao engolir a saliva que cismava em acumulá-se em sua boca. Abriu os olhos rapidamente ao sentir a garganta queimar. Levantou-se, levantando logo depois ambas as tampas da privada e vomitou tudo que havia em sua barriga. Vomitou o jantar da noite passada e o café da manhã, afinal o almoço que Nathalia trouxera esfriava na cozinha, bem como vomitou suco gástrico, não havia mais nada para expelir. Apoiou a cabeça na borda do vaso sanitário, sentindo o cheiro podre invadir suas narinas, bem como o cheiro de produtos de limpeza. Aquele cheiro irritava seu nariz. Espirrou com força, batendo a cabeça na cerâmica do vaso, gemendo baixinho com a dor. Deixou duas lágrimas doloridas escaparem, enquanto levantava-se. Deu descarga. Olhou-se no espelho, vendo sua testa tornar-se vermelha rapidamente. Puxou sua escova e passou-a pura nos dentes, mergulhando-os na água que brotava da torneira, agora aberta. Quando terminou, ainda sentia um gosto podre na boca, bem como uma queimação na garganta que descia até o estomago.

Respirou fundo, mais uma vez, largando a escova no pequeno apoio acima da pia. Puxou então o teste, abrindo a caixa.

O fez em meio às lágrimas. Não desapareceriam tão cedo, pouco importando o resultado.

***

- Acha que já deu tempo suficiente? - perguntou Nathalia, com uma voz rouca de nervosismo.

Suzana deu de ombros. Já haviam esperado o que pensaram que era duas horas, quando na verdade havia-se passado apenas trinta minutos. - Vamos ver. - disse, sem a típica confiança que carregava na voz.

- O meu é aquele na mesa - disse, apontando para a pequena obra de madeira logo abaixo da janela.
Suzana não disse nada. Sabia que o dela estava no banheiro. Dirigiu-se para o cômodo, deixando claro para Nathalia sua resposta.

Com passos pequenos, Nathalia caminhou até a mesinha. Suas pernas estavam bambas, e as mãos tremiam. Os olhos ardiam, por isso os mantinha semi-cerrados. Sentia tantas lágrimas subindo que não sabia se os olhos seriam capaz de suportar a enxurrada. Puxou então o palito, virando-o para ver o resultado.

Uma barra azul.

Negativo.

As lágrimas pareceram secar nos olhos. Abriu um sorriso gigantesco de surpresa, piscando diversas vezes. Soltou toda a respiração que prendera até então, mordendo os lábios. Agradeceu à Deus com uma oração silenciosa, o coração entrando em taquicardia de tanta alegria. Sentiu a boca encher-se de saliva, e finalmente se concentrou nos pequenos detalhes. Nos tamanhos das gotas dos chuviscos. Na quantidade de luz que entrava no quarto. Repetia a oração inúmeras vezes, sentindo o sangue correr rápido pelas veias.

Então ouviu um gemido.

Um soluçar choroso, um lamento barulhento.

Virou-se para a porta do banheiro, quase correndo. Sentiu o vento gélido do dia bater em seu rosto. Entrou rapidamente, encontrando Suzana de costas, chorando alto como uma criança machucada. Virou-a para si, não conseguindo encará-la nos olhos por que estes estavam fechados. Seu rosto brilhava de lágrimas, que escorriam numa quantidade absurda, quase manchando o rosto inteiro. Abraçou-a com força, sentindo lágrimas saltarem de seus olhos também.

Viu o teste jogado no chão. Não precisou ver o resultado para saber o que significava.

Duas barras, azul e vermelha.

Positivo.

- Shhh - dizia - Calma, calma.

Não ousou confortá-la mais que isso. Não ousou fazer falsas promessas. Apenas chorou com a amiga, com o destino selado para sempre.

- Pode nem ser o resultado mesmo - disse, agora fitando-a nos olhos - Esses testes nem são cem por cento, tem que fazer mesmo é teste de sangue. A gente espera mais, fica mais um tempo aqui, e faz o teste juntas, com certeza...

- Não! - gritou ela, em meio ao choro - Não, não, não, não quero mais esse lugar, quero minha casa, quero minha mãe! - literalmente bateu pé enquanto falava, soluçando alto, enterrando a cabeça no ombro da amiga.

Nathalia a abraçou, ouvindo seu lamento sem poder responder nada. Deixou-se chorar também, encarando o nada com a boca meio aberta. Seus lábios tremiam. Não tinha mais medo por si mesma. Agora temia por Suzana.

***

Entrou novamente no quarto de Yago, que esperava olhando a chuva. Assim que ouviu-a entrar, ele virou, sem falar nada. Engoliu em seco, com os olhos arregalados, esperando o veredicto.

- Negativo para nós - disse Nathalia, numa voz tensa e pouco amigável.

Yago sorriu, jogando-se de costas na cama - talvez caindo fosse uma palavra mais certa. Bufou de alegria, bem como Nathalia havia feito antes. Sorriu mostrando todos os dentes, finalmente respirando aliviado.

- Então tá tudo bem? - disse.

Não ouviu resposta alguma. Levantou-se, olhando para o canto escuro em que ficava a porta. Nathalia saiu de lá, mostrando os olhos vermelhos e as lágrimas que rolavam sem parar de seus olhos.

- Não, não tá tudo bem - disse, em meio a soluços e novas lágrimas - Tá tudo uma merda. Nunca estivemos tão ferrados na vida. Está longe de estar "tudo bem".
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