E então galera :) Bem, aqui está o prólogo que prometi, e como acho que já disse, se vocês aprovarem, vai assim mesmo pro livro. Sim, o resto dessa história será lançada em livro, quando eu tiver uns 16 ou 18 anos, sei lá, mas preciso da ajuda de vocês com esse prólogo. O inicio de um livro é basicamente uma primeira impressão, e a primeira impressão é a que fica. Então, esse prólogo tem que estar MUITO bom para ser publicado. Todas as pessoas que já leram já aprovaram, então espero que aprovem também. É um gênero totalmente diferente de SILENCIAR, então peço que leiam sob uma perspectiva diferente, já que SILENCIAR é drama, essa história sem título é uma fantasia/terror/mistério. E comentem, por favor, só assim saberei a opinião de vocês. Enfim, espero que gostem MUITO, pois assim ficarei ainda mais animado para escrever o resto e publicar o quanto antes :)

PREVIEW

O vento entrou novamente pela janela do escuro porão, produzindo seu característico ressoar. Respirou fundo a nova lufada de ar, coisa que tornara-se rara com o passar das horas. A luminária presa ao teto acompanhou o suave movimento, novamente tornando a sala escura por poucos segundos. O rangido metálico pareceu arranhar seus tímpanos, fazendo de seu rosto uma eterna expressão de dor. Seus ouvidos queimavam, e por vezes perguntara-se se não estavam sangrando. Sua testa estava. O calor em forma de rio que atravessava seu rosto não deixava dúvidas. Sentiu novamente sua bile subir ao pescoço, e então queimar seu caminho de volta ao estomago. Carlos puxou novamente o ar fresco que restava na sala, quase desmaiando no ato. Reteve-o nos pulmões o máximo que pôde, e então exalou o ar inutilizado e quente.

Engoliu em seco. Uma nova gota de suor desprendeu-se de sua testa, sem importá-se em passar pela bochecha, caindo direto ao chão. Seus pulsos doíam, presos aos braços da cadeira. Nem dormentes mais estavam. As pontadas haviam desaparecido, deixando apenas a sensação da falta de sangue corrente nas veias. O pescoço doía, pouco importando quantas vezes estalasse-o. Lembrava de seus dias de escola, sempre que o fazia. Estalando o pescoço após um mal jeito na educação física, levando uma porrada na cara logo depois. Riu consigo mesmo, lembrando do momento em que todos correram ao seu redor para avaliar o quão feia fora a bolada. Dias passados, anos passados. Anos passados sem sequer imaginar aquele novo mundo. Poderia viver bem do mesmo jeito, morrer bem. E no entanto, encontrava-se num porão escuro e fétido, sem jamais importá-se em cavar um pouco mais fundo aquela história. Sem jamais ligar para aqueles segredos, que no entanto arranjaram um jeito de entrar em sua vida, sem ao menos bater a porta ou aceitar um cafezinho.

Ouviu o relógio apitar, anunciando uma nova hora. Olhou para o aparelho pelo canto do olho. Sete horas.

Via agora que não entrava mais luz pela janela também, tornando o quarto ainda pior no quesito iluminação. Olhava para a porta fechada, tão escura que quase misturava-se à escuridão. Quantas vezes não imaginara se entrara por ali? Horas atrás, via apenas escuridão. Lembrava das palavras da linda mulher, que falhava em esconder seu rosto na escuridão.

- Liga não - dissera, apertando as amarras metálicas em seu braço - Se daqui a cinco horas você tiver vivo, a gente te dá uma moral - Lembrava-se de ter gemido nesse momento, sentindo a mão inchar com o sangue inutilizado ali preso. Lembrava de vê-la sorrir, um lindo, quase sobrenatural sorriso. Afrouxara o aperto de ferro, beijando-lhe a boca logo em seguida.

Estonteara-se no momento. Deus, era fascinante a excitação que percorria por seu corpo só de lembrar.

Logo começaram os gemidos. O silêncio permitia sua audição evoluir de um jeito que nunca fizera antes, permitindo-lhe ouvir todo e qualquer som na completa extensão daquele lugar. Eram gemidos humanos? Animais? Um misto de ambos, talvez. Seriam pessoas naquela mesma maldita situação? Não ouvira sequer uma palavra, descartando logo a ideia. Gritou quando chegou ao limite de sua curiosidade, e desde então não tivera paz. Lembrava que eram quatro da tarde, passando-se apenas uma misera hora desde seu enclausuramento naquela sala, quando vira a primeira mão adentrar pela porta. Quem era? Gemidos. A mão movia-se descoordenada no vão que a corrente que a mantinha fechada permitia existir. Era doente mental? Não respondeu a seus gritos, deixando-os morrer no silêncio.

Gemidos.

Uma segunda, terceira, quarta mãos surgiram pela porta. Quatro pessoas?! Livres, ainda por cima? A que parecia ser a terceira mão pousou sobre a corrente, puxando-a num ato inútil. Tentava arrebentá-la com as mãos? Era definitivamente doente! Puxou-a novamente, uma, duas vezes, e largou-a.

Os quatro braços desapareceram, um por um, dando lugar aos olhos das criaturas. Não eram doentes. Muito menos humanos.

Pulou na cadeira ao ver à frente do que estava. Aquilo em seus lábios, era sangue?! Carne?! Que olhos eram aqueles, pelo amor de Deus! Via um rio de sangue no lugar dos olhos, tornando mais medonhas ainda as criaturas. O que eram? Pareciam humanos, via os rostos humanos nos monstros, mas, por Deus, não eram humanos! Uma cuspiu, rosnando ao ver sua nova refeição. Poucas gotas de sangue e um dente foram junto. Podre. Gemeu incrédulo, arrastando a própria cadeira para o mais longe possível, quase encontrando-se à parede. Presenciou horrorizado à nova tentativa de abrir uma entrada, um chacoalhar da frágil porta. Mesmo de longe via o quão podre a madeira estava. A criatura cujo rosto parecia dividido no meio com um profundo corte. O rubro globo ocular encontrava-se igualmente partido, o sangue seco congelado no ato de jorrar. Era essa a que fazia mais força, quase destruindo a porta. Carlos via a raiva em seu rosto, a fome consumindo sua expressão. Desespero, era isso que a criatura deveria sentir. Pressa. Viu a criatura desistir após incontáveis tentativas, todas inúteis contra a porta claramente mais forte do que parecia. Seus três parceiros já haviam deixado o plano de invadir a sala, Carlos percebia isso agora. A criatura encontrou-se desconcentrada, sem um plano A na mente. Deu meia volta e saiu, esquecendo-se de seu alvo.

Então, quando Carlos sentiu o aperto de ferro libertar seu pulso, sentiu instantaneamente um alívio incomparável a qualquer coisa que já sentiu na vida. Deveria ser a "moral" que sua sequestradora mencionara. Jogou-se no chão, tamanho prazer que sentia. Passado o êxtase, sentiu terror. Como defenderia a própria vida contra aqueles monstros? Claramente não eram pacíficos. O que quer que fizessem, o matariam primeiro. Lembrou-se do brilho metálico que vira do outro lado da sala, nas horas de sol. Tomou o cuidado de passar longe do raio de visão que a porta escancarada permitia para as criaturas do lado de fora, temendo nova revolta. Uma barra de ferro! Passara longe do que queria, o que queria mesmo era uma escopeta ou pelo menos uma calibre 38, mas deveria servir mesmo assim. Revirou o resto da sala, novamente tomando cuidado para não chamar a atenção das criaturas, seja por barulho, seja pela visão proporcionada pela porta. Nada. Respirou fundo. Sairia mesmo assim, sem a minima proteção. Não poderia esperar o dia amanhecer. A luz não estava a seu lado, quem lhe garantia que sobreviveria ao resto da noite?

Aproximou-se da porta, passos pequenos e silenciosos. Engoliu em seco. Com o pouco de luz fornecida ao quarto pela luminária mais o luar, podia ver um nó simples na corrente, travando a porta. Um pouco mais de força e desfaria-se facilmente. Fez o sinal da cruz, livrando-se dos pensamentos macabros. Com cuidado, puxou uma das pontas da corrente, soltando-a instantaneamente. Caiu no chão fazem estardalhaço estrondoso. Qualquer criatura no lugar inteiro ouviria o choque metálico da corrente com o piso. Sem pensar, instinto tomando seu corpo, puxou a porta, tamanha força que arrancou-a dos trincos. Deixou-a cair no chão, adentrando uma escuridão sem fim. Que lugar era aquele? Menos seguro ainda do que o porão sujo do qual chamara de prisão. Deu o primeiro passo. Seguro. Segundo. O silêncio contaminava o lugar. Terceiro. Esbarrou em algo, produzindo novo estrondo. Apurou os ouvidos. Não captou nenhum movimento. Caminhou lentamente mais uma vez. Seus olhos, agora acostumados com a escuridão, desviaram-se do novo obstáculo. Um corpo. Inerte. Não era uma das criaturas, era humano. Era. O sangue manchando-lhe a camisa denunciava a causa da morte para qualquer um que a notasse. Passou por cima com cuidado, sempre empunhando a barra de ferro. Olhou pra um lado, olhou para o outro. Estava sozinho ali. Novos passos, tão acostumados com o silêncio que deixaram de produzir o característico ruído da sola de sapato em contato com o chão. Revirou a primeira mesa que achou, depois o única armário da sala. Não havia nada ali, bem como no porão. O interruptor não funcionava, deixando-o convicto de que estava preso em eterno breu até achar uma saída. Apurou novamente a visão, e encontrou-a junto com uma escada. Subiu-a degrau por degrau, tomando o cuidado de segurar no corrimão. Madeira podre novamente, mas para alguma coisa serviria. Deparou-se com o último degrau. Ao topo, uma porta. Passou a mão. Destrancada.

Luz.

Cegou-o por um rápido momento, logo recobrando a visão. Um corredor. As paredes brancas, incrivelmente bem iluminadas pela luz elétrica que pensava inexistir naquele lugar, reluziam um brilho rubro, quase vinho. Sangue. Mais alguns segundos e foi apresentado aos novos corpos, espalhados pelo corredor correspondendo a sua respectiva mancha de sangue. Passou lentamente, gemendo ao deparar-se com o odor fétido que cada corpo exalava. Revirou o primeiro. Documentos, carteira, fotos. Inúteis. Puxou o celular. Descarregado. Jogou os pertences de volta ao morto, passando para o segundo corpo. Mesma coisa. Desistiu ao revirar o quinto. Eram pessoas normais, assim como ele. Não haveriam novas armas. Muito menos telefones funcionando. Aquele fim de mundo parecia estar afastado de tudo, bem como um fim de mundo deveria ser. Abriu com cuidado a primeira porta, levando-o ao próximo corredor. Era um hospital? Viu a primeira criatura no novo cômodo. Sozinha. Arrastava-se pelo chão, espalhando o sangue que jorrava de sua boca. Aproximou-se lentamente, sabia que o bicho não iria a lugar nenhum. Acertou um golpe na cabeça da criatura. Nenhum resultado. Um guincho de dor, no entanto. Virou-se lentamente, e recebeu um novo golpe, dessa vez caindo. Carlos desceu sua arma improvisada na cabeça do monstro, fazendo-a finalmente estourar em sangue. Morta. Chutou-a, vendo-a rolar inerte.

Continuou seu caminho, olhando pela pequena janela para dentro dos quartos. Vazios. Nem humanos, nem criaturas, nem aparelhos. Seguiu para o novo corredor, não encontrando novas criaturas. Assim fez com o próximo, e ainda com o outro.

Congelou chegando à porta da recepção.

Via pela janela inúmeras criaturas, desaparecendo entre os vários acessos que a recepção disponibilizava. Quantas haviam ali? Pôde contar vinte com os olhos, e o número parecia aumentar com a chegada de novos parceiros à já complicada fuga.

Pulou para trás, indo ao chão, ao deparar-se com o repentino rosto de uma nova criatura.

Entrou lentamente pelo corredor, chamando a atenção de seus irmãos. Todos iriam para cima de Carlos! Puxou a barra de ferro, levantando-se rapidamente, estraçalhando no primeiro golpe a cabeça da criatura mais próxima. Acertou a ponta da barra no peito da segunda na fila, empurrando-a o suficiente para o próxima golpe acertar a ela e mais dois irmãos, caindo os três inertes no chão. Desceu a barra novamente sobre a cabeça de um novo monstro, sem importá-se em manchar-se de sangue. Chutou o corpo morto em direção às outras criaturas, desconcertando-as por um instante. Sete foram ao chão. O resto encontrou a morte tendo sua cabeça destroçada pela barra, agora já tingida de sangue em toda sua extensão. Pisoteou os monstros caídos, esmagando no ato a cabeça de alguns, adentrando a gigantesca recepção. Deus, haviam muito mais do que imaginara! Pelo menos cem! Golpeou sem dó os que o rodeavam, tornando de seus inimigos uma sequência de corpos inertes, caindo um por um. Chutou novamente alguns corpos, distraindo seus irmãos, tempo suficiente para acertá-los, matando-os instantaneamente. Com o caminho aberto, correu para a porta. Bloqueio, inúmeras criaturas voltaram a importuná-lo. Fez a primeira leva cair morta, simplesmente atrasando o resto. Puxou as cadeiras, mais leves que imaginara, na fração de segundo em que se viu livre das criaturas, bloqueando-as por segundos. Que seja, pensou, era um começo. Destruiu os caídos, logo seguindo para o resto que estava de seu lado. Acertou o primeiro no pescoço. Eram lentos, de nada podiam fazer. Golpeou o queixo do próximo, fazendo a cabeça virar num ângulo de noventa graus medonho. Tremelicou de leve ao som do eventual crack de um pescoço quebrando. A criatura tombou, como todas as outras. Fez nova sequência, derrubando três de uma vez. Golpeou o quarto, fazendo os olhos sangrentos pularem das orbitas. Sentiu mãos envolvendo seu pescoço, logo soltando um grito ensurdecedor. Idiota! Pensou consigo mesmo, iria atrair o hospital inteiro! As mãos apertaram seu pescoço, quase sufocando-lhe. Sentiu a língua suja da criatura tocar seu rosto. Provando a comida antes de devorá-la.

Passou a barra para sua mão esquerda, empregando toda força possível ao golpear a cintura do monstro.

Um novo crack. Criaturas moles, pensou, finalizando o golpe de misericórdia.

Voltou-se para o que havia de seu lado. Nada. Todas mortas. Voltou-se para a recepção. Criaturas jorravam das portas. Haviam muito mais de cem ali. Uma pulou a reta de cadeiras formada por Carlos, logo seus irmãos o imitariam. Viu-se rodeado de dez novas criaturas em um segundo, um número que crescia constantemente. Destruiu apenas uma, inutilizando as outras ao quebrar-lhes a bacia. Não ficou para vê-las cair no chão. Olhou para as portas, sem ver nada através do vidro negro. Acharia ajuda! Sairia dali vivo, e teria suas respostas, nem se tivesse de passar por aquilo novamente.

Quebrou a janela, espalhando os cacos de vidro no chão lamacento fora do hospital.

Uma floresta.

Uma gigantesca e densa floresta.

Carlos sentiu seu coração parar. Como um hospital no meio de uma floresta? Como fora parar ali? As pernas fraquejaram. Como escaparia? Olhando para as árvores, viu o luar penetrar dentre as várias folhas, fornecendo-lhe um pouco de luz. Olhou para trás. Mais perto. Escuridão. Via seus rostos, via sua fome. Pôs-se a correr, passando dentre as árvores quase conectadas. Correu, tropeçando aos poucos, indo ao chão muitas vezes. Correu pela própria vida. As criaturas pareciam ganhar velocidade, correr em seu encalço. Viu nove com fraca luz dentre as folhas. Levantou-se sempre, sem parar de correr. Pulou por sobre os galhos, desviou-se dos ramos de folhas. Deixou a barra de ferro cair no caminho, um peso extra que não seria necessário se corresse mais rápido. Espremeu-se entre duas árvores quase gêmeas, quase prendendo seu pé. As criaturas pulavam entre os vãos, como se conhecessem aquela floresta.

Sentiu um gigantesco peso, um gigantesco impacto em suas costas. Foi ao chão.

As pedras, os galhos, tudo parecia espinhos. Sentiu-se sangrar. Sentiu dor, mais dor do que sentira em toda a vida. Sentiu novamente uma língua suja em seu pescoço, marcando-lhe. Percebeu que queimava. Doía como tantas outras dores em seu corpo. Falhara, e pagaria com a vida por isso.

Foi arrastado de volta para a escuridão, encarando o céu vermelho tingido pelo luar.
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