Hey guys =] Eu tava baixando música outro dia, e topei com a trilha sonora de The Vampire Diaries, série que recomendo pra todos que tenha paciência em lidar com os primeiros episódios, mas garanto que a partir do episódio 10 fica legalzinho de se ver. Enfim, se já não fosse uma trilha sonora de série, eu cataria pra mim e diria que era soundtrack de Silenciar, sério, as músicas tem TUDO A VER. Recomendo a todos, se quiserem baixar, cliquem aqui. Anyway, leiam ae e comentem =]

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9 Crimes

9 crimes - Damien Rice

Com olhos vermelhos, encarava a praia, denunciando que estavam perto de casa. O vidro embaçava com a chuva, que evoluíra do fraco chuvisco à uma janela d'água. Trovoava ao fundo do céu, fazendo rápidos flashes iluminarem o céu. As nuvens negras impediam que o rosto de Nathalia fosse iluminado, mas Yago sabia que estava chorando. Pensou em parar de dirigir, mas não. Tinha que chegar logo em casa, e então animá-la.

Olhou pelo canto do olho. Estava quieta, chorando em silêncio. Sem soluços, sem cena. Era isso que o entristecia mais. Força ela tinha. Apenas não tinha coragem para ser fraca e chorar. Sentir a dor e abraçá-la, até que um dia ela se esvaia completamente.

Estacionou o carro do melhor jeito que pôde, deixando uma roda na calçada e três na rua. Saiu do carro e puxou Nathalia, que foi à seus braços, inerte. As pernas não a suportavam, e os olhos dirigiam-se para o nada. Pegou no colo, girando a chave da casa com os três dedos desocupados da mão direita. Deixou-a sentada no sofá, vendo-a deitá-se como uma doente mental. Voltou para o carro, e puxou Felipe. Suzana empurrou o corpo do amigo, colocando o braço esquerdo em seu ombro. Cambalearam pelo curto trajeto, quase escorregando na água suja da chuva. Largaram-no em seu quarto, fechando a porta com cuidado para não acordá-lo.

- Eu sou um abacaxi - puderam ouví-lo rindo-se - Eu sou um abacaxi e vocês são virgens, vadias!

Suzana riu sozinha, vendo que Yago já não estava a seu lado. Foi para o próprio quarto, pensando em Nathalia. O que havia acontecido com ela?

Yago puxou Nathalia em seus braços novamente, mas essa livrou-se do abraço. Caminhou, como quem acaba de sair de um coma onde esteve mergulhado há meses, e não encontra força nas pernas. Subiu as escadas sofrivelmente, quase caindo. Mas pedir ajuda de Yago, isso não. Não aqueles braços. Não aquela sensação que percorria por seu corpo a cada toque.

Chegou na porta de seu quarto, sem saber o que fazer. Engoliu em seco pela milésima vez, reprimindo uma lágrima. Ela teria muito tempo para chorar quando estivesse só.

- Nathalia - disse Yago, parado em frente à escada.

Ela virou-se, deixando o cabelo esconder os olhos até o momento em que pôde encará-lo.

- Tá tudo bem mesmo?

Soluçou. Deixou as lágrimas escaparem, gemendo alto com a falta de ar e com o aperto que debatera-se sobre seu peito.

- Você realmente não sabe, né, seu filho duma puta.

Entrou no quarto, batendo a porta.

- Filho duma puta!

Trancou a porta, fazendo questão de fazer barulho. Jogou-se na cama, cobrindo o rosto com o travesseiro. Abafou o próprio grito no colchão. Gritou novamente. Uma, duas vezes. Sentia a garganta moer-se, tornar-se areia. Deixou as lágrimas repletas de maquiagem mancharem o jogo de cama. Yago que limpasse. Esfregou as mãos no rosto, soluçando a plenos pulmões.

- Eu te disse, não disse - ouviu sua própria voz, a Outra falando.

- Sai daqui! - respondeu num reflexo, e o quarto tornou-se silencioso novamente. Ela sumira. Bom, ao menos uma coisa boa.

Ouviu Yago bater na porta.

- Nathalia - dizia, com a voz abafada pela madeira - Nathalia me deixa entrar.

Afundou o próprio corpo na cama, agarrando-se ao travesseiro.

- Nathalia, pelo amor de Deus, Nathalia!

Soluçou novamente. Limpou as lágrimas que manchavam seu rosto, dando lugar à novas. Sentiu borboletas formando-se em seu estomago.

- Nathalia! - repetiu Yago.

Cada vez que aquela voz entrou em seu ouvido naquela noite , abriu um talho em seu coração. Sentia o sangue escorrendo pelo peito, mas de alguma forma continuou viva. Por alguma maldição ainda respirava. Uma hora ele iria embora, era o que dizia para si mesma. Não acreditava. Por que sabia que, não importa o que havia acontecido naquela noite, ele ainda a amava. Ou uma ilusão a fazia acreditar que amava.

***

Não sabia se havia dormido ou se apenas encarara o teto até o amanhecer. Olhou para o relógio. Marcava onze e trinta e oito da manhã. Esperava que o sol a acordasse, mas logo lembrou-se das nuvens negras na janela. Lembrou-se da noite anterior, de tudo. Era por isso que seu coração doía tanto? Sentiu a boca seca. Passou a mão no rosto. Rígido e grudento. Passou a unha do indicador pela bochecha, e quase pulou vendo a mancha preta impregnada nela. Rímel? Era definitivamente maquiagem. Espalhara-se com lágrimas, tinha certeza. Limpou a unha no cobertor, e pulou da cama. Almejava o banheiro, ver a extensão do show de horrores que seu rosto havia se tornado. Caiu na primeira tentativa. As pernas estavam fracas. Lembrou-se novamente da noite passada. Na segunda tentativa, conseguiu cambalear. Apoiou-se na pia. Parecia um panda com quatro olhos. Os olhos de verdade mais as manchas na bochecha. Engoliu o riso. Era o máximo de humor que tinha. Limpou o rosto, gastando metade do sabonete. Pegou o removedor de maquiagem no armário do espelho, e quando acabou viu-se séria. As maçãs do rosto estavam elevadas como sempre estiveram, porém pareciam rígidas. Pegou-se soluçando novamente. Deixou as lágrimas caírem dos olhos. Se conseguisse simplesmente respirar bastava.

Yago encontrou a porta destrancada. Nathalia teria acordado? Estaria calma agora? Entrou no quarto, rangendo a porta. Madeira podre. Há anos pedia pra mãe trocar aquilo. Há anos a mãe deixara de ir à casa de praia.

Nathalia estava sentada na cama. Encarou no momento em que entrou no quarto. A mala estava pronta a seu lado. Yago não preocupou-se em montar uma expressão de espanto e dúvida. Já a havia feito por reflexo. E por pavor.

- Você sabe de um hotel por aqui? - perguntou Nathalia, sem esconder a voz novamente embargada.

Yago fez que não.

- Acho que vai ter que dar assim mesmo - disse Nathalia, dando de ombros.

- Nathalia.

- Que?

- O que que houve?

Nathalia sorriu, deixando um quê de sarcasmo no ar.

- Nada - disse - Nunca é nada pra você.

- É sério, que foi?

Sorriu novamente.

- Eu sei, sabe? - respondeu, pegando a mala - O que você fez ontem, com aquela Gabriela.

Yago ficou branco.

- O que ela te disse?

- E nem se importa de negar? Que lindo, lindo mesmo.

- Nathalia, o que ela te disse?

Nathalia engoliu em seco, encarando os próprios pés. Voltou-se para os olhos de Yago, encarando-os sem medo.

- O que eu devia saber a muito tempo.

Yago calou-se, apenas ouvindo a voz serena de Nathalia. Não embargou-se, como se tivesse ensaiado aquela cena milhares de vezes. Ou como se estivesse vazia por dentro.

- Eu não posso confiar em você, né?

- Devia.

- Então eu só não consigo. Já foram duas vezes. Duas, Yago, com essa mesma garota. Me explica como eu posso confiar em você?

- Eu não faço isso.

- Mas fazia. Fazia e sei que aí dentro ainda quer fazer. Ninguém muda da noite pro dia. Você não é exceção nenhuma, é só mais um escravo da própria vontade.

Yago deixou-a passar pela porta, ouvindo os passos no corredor.

- Vocês são todas iguais, sabia?

Ouviu os passos pararem, e então continuarem. Um soluçar acompanhou-os. E mais do que nunca, teve certeza de que a havia perdido.

***

Nathalia sentou na cama do hotel. Haviam sobrado apenas duzentos reais do total que havia pedido de sua mãe. Daria para uma noite ali. Não fazia mal. Voltariam no dia seguinte, afinal. Procurava não pensar, em ter de sentar novamente ao lado de Yago. E suas palavras então voltavam. Tantas promessas quebradas! Doía nela, ainda mais com seu coração gritando "Está tudo bem". Não estava. Não importa o quanto dissesse para si mesma que Yago não a amava, não entrava em sua cabeça. O aperto no peito aumentava.

Repassara a conversa milhares de vezes na cabeça. Era uma da tarde, não almoçaria. Estava sem fome. Cada vez que pensava naquelas palavras, sentia uma facada nas costas. Dor, dor e mais dor. A lógica perdera-se no meio daquela maré sinistra e assassina. Sentia mais lágrimas rolarem o rosto. Soluçava baixinho. Os cantos da boca estavam repuxados naquele irônico sorriso choroso.

Desligou o pensamento, por um momento, por um segundo.

Não era vingativa, isso jamais. Mas aquilo não era vingança, era o necessário para acalmar-se. Só assim teria paz, por um momento. Não era naquilo que tornaria-se, era uma exceção, aquele dia era um exceção.

Puxou o celular. Não procurou na agenda, jamais salvaria aquele número. Foi direto às ligações não-atendidas. Sempre deixava chamar, assim tinha esperança de que ele parasse. Agradeceu a Deus por estar errada. Ele era a peça-chave naquele dia.

O telefone chamou, por um, dois minutos. Quase desligou, quando finalmente atenderam.

- Alô?

- Alô, Gustavo?

- Quem é?

- Nathalia.

Ouviu uma respiração pesada do outro lado da linha.

- Olha, tô com mó ressaca, mó dor de cabeça, então se não for importante, fala depois, não quero grito no meu ouvido não.

- É importante sim - disse, sentindo-se boba. Precisava realmente dizer?

Tomou folego. Olhou para o teto, depois para o quarto. Precisava de coragem. De muita coragem.

- Sabe aquelas pedras, que tem entre a praia das Conchas e a do Peró?

- Aham.

- Pode me encontrar lá?

Ouviu novamente a respiração, cansada dessa vez.

- O que que cê quer lá? Parou de chover agora, não deve ter ninguém lá.

- É, por isso mesmo.

Quase pode ouvir o estalar na cabeça de Gustavo do outro lado da linha. A respiração voltou, e soube que um sorriso estava se formando naquele rosto.

- Escuta - disse, mais alegremente - Eu tô meio enrolado por causa da festa, minha mãe encarnou aqui, me botou de castigo e tal... Mas acho que dá pra eu dar um saída.

- Ótimo. Te vejo lá.

Não esperou a resposta. Desligou o telefone e jogou-o na cama.

O que havia feito? Sentia o pavor tomar conta de seu corpo novamente. Ela e Yago nem tinha terminado oficialmente! Mas o fim estava por vir. Disso sabia. Sentia no fundo do coração que não dava mais, tanto como queria que estivesse enganada. Sentiu mais lágrimas acumulando-se nos olhos. Reprimiu-as. Não iria chorar! Chorara muito por ele, e ele não merecia aquelas lágrimas. Nunca mereceu. Sempre enganando-a, sempre controlando-a! Não precisava de outro pai na sua vida. Não outro terror. Não desencadearia aquilo novamente.

Não daria pra trás. Iria em frente, até o fim.

Com aquelas palavras, e com o coração cheio de ódio, saiu para o escuro e gélido dia, pausado numa cinzenta iluminação entre a chuva que passara e a chuva que voltaria.
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