Hey galera =] Fiquei ontem a tarde toda escrevendo esse capitulo, e acho que é o capitulo que eu mais gostei de escrever até agora xD E também é o maior capitulo de todos. Tem seis páginas, o Marcos reclamou tanto quando eu disse que ia ter mais de três páginas HUAHUAHUAHUAUHAUHAHU mas enfim, leiam ae, eu acho que vcs vão comentar né #esperança

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Inocência

Innocence - Avril Lavigne

Nathalia estava jogada na cama. Pronta. Arrumada. Comera pouco do que devia ser seu último lanche antes de sairem. Comeria muito lá, de qualquer jeito. E estava cansada. Cansada de pensar. Cansada de imaginar o que Yago diria sobre Gustavo.

- Mas ele tá certo, sabia? Nada do que você fizer vai mudar nada.

Virou-se, sem se assustar. Estava acostumada com aquela voz.

- Se você tivesse aqui antes ia ver que já fiz o suficiente.

- Prefiro aparecer nos momentos de inocência, é mais divertido - disse, sorrindo.

Nathalia levantou-se e abriu a janela. Cheiro de chuva. Adorava aquele cheiro. Mas significava também que no dia seguinte não haveria praia. E então seria um dia inteiro com ela, ouvindo-a reclamar de sua vida e tentar consertar o que estava bem. Estava bem, não é? Seria um dia de Yago também. Sabia que ele expulsaria Suzana e Felipe de casa e os mandaria para algum lugar, um shopping, se existisse naquela cidade. Um dia inteiro para eles. Talvez ela até se calasse, e os deixasse a sós.

- Não contaria com isso, posso ser muito inoportuna quando quero - disse ela, sorrindo com sarcasmo.

Nathalia virou-se para a voz em sua cabeça. Para si mesma.

- Pode mesmo, não é?

- O que quer dizer com isso? - rebateu, enchendo-se de sarcasmo novamente. Bebeu um copo de suco inteiro, intocado pela verdadeira Nathalia.

- Se você tá na minha cabeça, como pode beber? - perguntou, mais pra si mesma do que para a Outra.

- Tecnicamente é você que tá bebendo, e devia ter bebido mesmo, tá caquética de magra - respondeu - Daqui a pouco vai parecer uma daquelas faveladas do Orkut.

- Você não vai ficar me seguindo o resto da noite, não é?

- Tá doida que eu vou perder isso, tem festa hoje, adooooooro festa.

- Então só fica longe de mim.

- Eu tô na sua cabeça, maluca.

- Vê, isso que é o pior, você sabe que não existe e ainda assim não procura um corpo de prostituta pra encarnar.

- Sua cabeça é divertida demais. Eu sei, quais eram as chances, mas é - disse, pondo na boca quase um sanduíche inteiro.

Ouviu Yago chamá-la, perguntando se estava pronta. Sorriu e respondeu com um "quase", lembrando-se então da Outra. Corou.

- Espero que seus filhos nasçam com sífilis - disse, olhando a verdadeira Nathalia com desprezo - Só não estraga seu corpo pra ele, você ainda pode fazer tanta coisa com tanta beleza.

Nathalia respirou fundo.

- E mesmo que não queira, sempre pode entregá-lo pra mim. Imagina só como íamos nos divertir? - continuou a Outra, batendo palmas e sorrindo com a ideia.

Nathalia fez que não com a cabeça.

- Eu amo ele.

- E você acha que ele te ama?

- Eu tenho certeza.

- Ah tá, e a Xena era hétero.

Nathalia jogou o pente contra a Outra, fazendo-o atravessar seu corpo.

- Só por que sou um fantasma da sua mente não significa que não tenho sentimentos - disse, fazendo beiço.

- Por que você não me deixa em paz? - disse Nathalia, deixando a voz naturalmente embargar com a estranha calma que sua voz carregava.

A Outra levantou-se, e afastou o cabelo da testa de Nathalia.

- Por que você precisa aprender muita coisa - disse, sem carregar a própria voz com sarcasmo - Olha pra você, tão linda e tão inocente. Se você acha alguém que te ama, você é velha. Tá no limite da juventude, é só então que você pode se apaixonar. Não existe amor à primeira vista, e duvido que realmente exista amor antes dos trinta. Quando se tem quinze anos, você sente alguma coisa por alguém e esse alguém te destrói quando fica enjoado.

Nathalia olhou a si mesma nos olhos, dessa vez incrivelmente honestos.

- Então, basicamente, se você não é uma vadia, você é burra.

Nathalia tirou as mãos da Outra de seu rosto, afastando-se dela para pegar sua bolsa.

- Eu entendo, eu sei que geralmente tem um diabo e um anjo pra cada pessoa - disse, encarando-a pela última vez - Se você é o capeta, cadê meu anjo?

Ela sorriu.

- Querida, o anjo é você. Por isso que eu tô aqui.

Nathalia meneou a cabeça negativamente, e saiu do quarto batendo a porta.

- Portas não me atingem, opa - disse ela, novamente ao lado de Nathalia - Posso ir na frente? Adoro passear.

***

- Tudo bem? Você parece que tá meio triste - perguntou Yago.

- Tô sim, né nada não - respondeu, ignorando a voz da Outra em seu ouvido. Sabia que ela falava, mas com Yago, sua voz parecia calar-se. Isso ao mesmo tempo a irritava. O que, para Nathalia, era ótimo.

***

Felipe dissera que não beberia naquela festa. Mentira. Estava jogado num sofá na gigantesca casa de Gustavo. Virava novamente o copo, cheio de cerveja. Fez sua típica expressão de nojo. Deus, como odiava aquilo, mas não parava de beber.

Suzana estava ao seu lado, controlando-o quando podia.

- Não vem vomitar em cima de mim não, te arranco os genitais - disse, virando o rosto de Felipe para o outro lado.

Felipe riu.

- Tô bêbado.

- A melhor parte da minha noite.

Felipe entornou novamente um copo na garganta, sob o olhar arregalado de Suzana. Como ele conseguia fazer isso sem engasgar horrores?

Nathalia estava com Yago, do lado de fora. Beijavam-se pela milésima vez, novamente parando ao perceberem que não havia mais ar em seus pulmões. Nathalia torcia para que Gustavo estivesse vendo isso. Fora ideia de Yago ir ali, e por que seria diferente? Nunca diria nada à Yago. Mas temia que qualquer coisa acontecesse. Não queria que Yago visse nada, soubesse de nada. Mas agora, percebia o quão bom tinha sido concordar com ele. Talvez vendo, Gustavo desistisse. Isso se já não tivesse desistido. Mas não importava, de qualquer jeito nada aconteceria.

Voltaram a beijar-se, dessa vez entrando num canto escuro do quintal. Riram ao pensar a mesma coisa, que aquilo podia pegar muito mal para os dois. Não conheciam ninguém ali, então pouco importava também. Yago pressionou seu corpo contra o de Nathalia, deixando-a presa entre ele e a parede. Segurou seu rosto, deixando-a girar o pescoço para acompanhar o beijo. Desceu então as mãos por suas costas, parando pouco abaixo dos braços. Apertou seu corpo contra o dela novamente. Ela gemeu baixinho como que num sinal de "tá machucando", o que o fez soltá-la. Pararam por um segundo. Não era o folego que os parava agora. Era algo mais. Talvez a certeza de que, se continuassem naquele ritmo, não parariam até chegar ao limite.

- Ele é bom - disse a outra - Ele é muito bom. Você é burra mesmo, devia ter pulado na cama quando teve a chance.

"Vadia", sussurrou, de modo inaudível, e puxou o rosto de Yago novamente. Dessa vez iriam mais devagar. O limite era algo longínquo em sua mente.

Yago entrou na casa. Tinha uma sede absurda. Se não o tivessem puxado pela nuca da camisa, teria zerado a geladeira. Os pais de Gustavo já ficariam putos o suficiente por uma festa sem a permissão deles. Não queria arranjar problemas para o amigo mas ele já estava metido em problemas o suficiente, então por que não?
Tanto não esperava que esquecera de travar as pernas. Simplesmente acompanhou a pessoa que o puxava até o armário debaixo da escada. Antes que pudesse ver quem era, a porte foi fechada. Ouviu gritos de aprovação vindo do lado de fora. Quem diabos estaria ali com ele?

- Eu te disse que sempre seria sua vadia, e hoje é a noite - disse uma voz familiar. Um arrepio, mais por susto do que por medo, cruzou seu corpo. Era Gabriela. A maldita Gabriela estava ali! Como? Como Gustavo a conhecia?

- Ah, gato, não faz essa cara - ela disse, e riu em seguida - Tá escuro, mas sei qual é a sua cara. E então? Se cansou daquela giganta?

Yago nada respondeu. Estava travado no lugar. A nuca queimou ao toque com os braços de Gabriela.

- Não vai falar nada? Vou então assumir que você quer mais ação do que conversa.

Quando seu rosto estava tão perto que podia sentir sua respiração, Yago afastou-a, empurrando-a. O choque do corpo de Gabriela contra a parede fez um baque surdo, e ela gemeu baixinho.

- Ai, seu bruto - ela disse, gemendo entre as palavras - Mas eu te perdôo. Eu gosto dos brutos.

- Não me cansei da Nathalia porra nenhuma. Eu não tô aqui sozinho.

Quase pôde ouvir um estalo na cabeça dela, e foi sua vez de saber qual expressão havia tomado conta do rosto dela.

- Tá com ela?

Yago fez que sim com a cabeça. Lembrou-se então que o pequeno armário era breu puro, e soltou um "tô" 
entredentes.

- E você realmente tá sério com ela?

Yago não respondeu. Era óbvio que ela sabia a resposta.

- Cê tem que tá brincando comigo.

- Você adoraria isso, não é?

- Esse não é você e você sabe disso. Tá querendo o que, fazer a pirralha sofrer depois, é? Nós dois sabemos que você vai largar ela.

- Cê sabia que segunda-feira a gente faz dois meses?

Gabriela contraiu o rosto novamente.

- É o quão sério a gente tá.

- Foda-se a seriedade, você tá levando ela pro fundo do poço contigo.

Yago calou-se, apenas encarando os olhos negros de Gabriela, tão negros que se misturavam à escuridão.

- No final de tudo, tudo que você vai fazer é voltar pra mim e largar ela à mercê de todas as mentiras que você deve ter contado pra ela. Então, cala essa boca, não acha que tem moral pra falar de amor comigo não. Poupe a nós dois, ou melhor, nós três desse drama e acaba logo com isso.

Gabriela pegou seu rosto entre as mãos, puxando-o para o beijo que tinha certeza de que ia virar o jogo. Aquela putinha não perdia por esperar. Ou pelo menos tentara. Yago travou o próprio corpo com tanta força que não saiu do lugar, fazendo-a parecer ridícula aos olhos negros da escuridão. Tentou novamente, uma, duas vezes. Largou-o por fim, e esbofeteou-o. O rosto novamente não se movera, e o alto baque do tapa discordava com a expressão vazia de Yago. Não havia-o atingido, ele continuava firme como uma rocha.

- Vai se arrepender por isso - disse, chorosa - Não perde por esperar. Vai se arrepender muito.

- Então quer dizer que já acabou? - disse, saindo do armário.

Caminhou para o banheiro. Que merda!, pensou. Olhou-se no espelho. Suava. Havia resistido! Sabia o quanto isso era bom. Amava Nathalia, mas nunca fora posto a prova para saber se realmente resistiria a Gabriela, ou qualquer outra que viesse a voltar a sua vida. Ficou tanto tempo parado que só então percebeu o que ela havia dito. O que ela faria? Nathalia estava só! Tinha de protegê-la do que quer que Gabriela fizesse!

***

Gabriela permaneceu parada no escuro. Como pôde? Ela era perfeita. Nathalia deveria ser sem graça, inocente. Só umazinha assim para fazer um garoto - garoto não, pensou, aquilo já é um homem perfeito - se apaixonar ou prender-se a uma ideia tão estúpida. Limpou as lágrimas - que ironia, pensou, lágrimas no meu rosto - e saiu do armário sorrindo, para manter as aparências. Mas seguiria suas palavras. Yago iria pagar por aquela humilhação.

***

Nathalia estava sentada no jardim, agora deserto. Olhava para o céu nublado. Não havia nem um buraquinho entre as nuvens, nenhum raio de luz escapando por aquele céu escuro. Podia ver a grama verde e molhada pela fraca garoa de antes apenas por causa da luz elétrica ligada ao jardim.

- Você deve ser Nathalia.

Nathalia pulou, olhando para a fonte daquela voz. Uma voz feminina, linda. Tão linda quanto a dona dela. Uma morena de cabelos longos estava a sua frente. Mesmo com o frio proveniente da eminente chuva, usava uma camisa apertada e um short curto. Puta, pensou. Mas quem era ela?

Quando finalmente reconheceu aquele rosto, engoliu em seco.

Gabriela arfou por um segundo. Agora entendia por que Yago havia resistido tanto. Nathalia era linda até mesmo para ela.

- Você é aquela menina do shopping.

Gabriela sorriu.

- Você me viu? E ainda assim continua arrastando asa pro Yago. Que meigo.

Nathalia levantou-se.

- O que você quer?

- Conversar, horas. Acha o que? Que vou pular no teu pescoço por roubar meu homem?

- Querida, pelo jeito que se veste, duvido muito que qualquer homem te tenha por mais de trinta segundos.

Gabriela riu novamente. Inocente não era. Era linda, apenas isso. Não era paixão, era só mais um caso de Yago.

- Seu Yago me teve por muito mais que isso.

Nathalia travou.

- Não contei direito, mas a gente não se largava. Andava pra cima e pra baixo agarrado, sem ligar pra quem nos via - parou, encarando-a. Andava ao redor dela, como se quisesse intimidá-la - Ficávamos onde desse, não importava onde, não importava o que viria depois. Parece familiar para você?

Nathalia deixou um gemido escapar da garganta. Não respondeu.

- Foi o que eu pensei.

Gabriela parou, levando as mãos à cintura.

- Mas acho que você já devia saber disso, afinal, vocês não devem ter segredos, não é? Oh, desculpe, estraguei a surpresa? Ele não te conta nada, não é? É apenas um garotinho com saudade do papai que tá sempre viajando.

Nathalia segurou-se para não sorrir. Ela não sabia de nada. Estava apenas perdendo seu tempo.

- Pra você ter uma ideia do quão insignificante você é pra ele, eu o arrastei pra dentro do armário, lá dentro.

Nathalia travou novamente.

- Ele foi na boa. Bem, não vou te dar detalhes do que aconteceu lá dentro, não sou tão cruel assim, só achei que você deveria saber. Se duvida de mim, entra lá,pergunta pra qualquer um. Você ouviu os gritos, não é? Eles tavam me aplaudindo. Aplaudindo a nós dois.

Parou novamente. Chegou perto de Nathalia, perto o suficiente para olhar em seus olhos e ver o brilho das lágrimas prestes a descer. Sorriu. Havia conseguido.

- Acho que nossa conversa terminou, não é mesmo? - disse, dando as costas para Nathalia. Retornou à casa, mantendo o sorriso nos lábios.

Nathalia ficou ali, parada, não soube por quanto tempo. Segurou as lágrimas nos olhos e entrou na casa. Cutucou o ombro do primeiro que encontrou na frente.

- Oi - disse, sem jeito - Ahn, desculpa incomodar, mas, tá vendo aquela garota ali? Você viu ela entrando com alguém num armário ou algo assim?

O garoto bufou, deixando o hálito podre de cerveja escapar entredentes.

- Me diz um com que ela já não entrou. Entrou com o Alan, com o Bruno, com o Lucas, com o Yago... olha lá, tá entrando com outro agora - disse, apontando. Acompanhou os novos gritos de aprovação que surgiram.

- Tá, obrigada, moço - disse Nathalia, deixando a voz se embargar. Não foi ouvida diante de tantos gritos.

Voltou para o jardim. Sentou lá, abraçando as pernas. Encostou a cabeça nos joelhos, e deixou as lágrimas escaparem.

***

Quando achou-a, estava ainda no jardim, olhando para o nada. O rosto brilhava. Tinha chorado? O barulho da porta fechando chamou sua atenção. Os olhos vermelhos confirmaram seu pensamento. Engoliu em seco, caminhando até ela.

- Tá tudo bem? - perguntou, pela milésima vez naquele fim de semana.

Nathalia fungou.

- Tá, tá sim. Só tô com dor de cabeça, só isso. Deve ser uma ressaca adiantada ou algo assim

- Você tá chorando.

- Tá muito forte, não se preocupa não, depois passa.

- Quer ir pra casa?

Nathalia fez que sim, tomando cuidado pra não soluçar e entregar a mentira.

- Vou pegar a Suzana e o Felipe - disse, voltando a casa.

Nathalia encarou-o enquanto ia. O desgraçado realmente não tinha vergonha do que fizera. Voltou a encarar o céu, negro como seu pensamento. As lágrimas continuavam a rolar por seu rosto, tornando ainda mais fria aquela cruel noite.
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