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19

O Sol

Jota Quest



ABRIL

Uma brisa de ar bagunçava-lhe o longo cabelo loiro, como há muito não fazia. Estava de óculos escuros, tomando cuidado com o forte sol e com a areia que eventualmente parecia levantar voo. O vento espalhava papéis, sacos, tudo dentro do carro, mas não se importava. Nem a pau ia fechar a janela.

Acomodou-se no banco novamente. Via apenas prédios, prédios e mais prédios, tingidos pelo brilho do sol e pelo lindo céu azul, sem nuvem alguma. Deixou a cabeça cair sobre o ombro de Yago, descansando um pouco do pequeno percurso que deveriam passar para chegar à tão falada praia.

Seja no que Yago tinha pensado, estava funcionando. Sua cabeça era um vértice total, pegando informações e enterrando-as no fundo da alma. Ficaria o fim de semana todo - o tão pequeno fim de semana, para seu desgosto - apenas admirando todo o lugar. E Yago, claro.

Havia recebido a carta uma semana antes. A maldita carta, enviada por um homem tão maldito quanto. A linguagem doce e as palavras suaves haviam desaparecido, dando lugar ao pai que Nathalia conhecia. Podia imagina-lo escrevendo. Não era digitada, o pai não gostava daquela tecnologia nova. Talvez por isso não tivesse mandado um e-mail. A tinta da caneta deixava manchas nos cantos da página. talvez houvesse estourado uma ou duas canetas, tamanha força que parecia ter feito. Tamanha força que poderia empregar nela, que a fez tremer as mãos.

Mostrara a carta para Yago, mas não pra mãe. Ela não poderia fazer nada, era assolada pelo mesmo mal. Pelo mesmo medo.

Pensara ter visto um brilho estranho nos olhos de Yago naquele momento, tanto que repassara a cena dezenas de vezes na cabeça. Seria raiva? Não soube dizer.

Yago amassou a carta e jogou-a no lixo, recobrando um olhar de falsa serenidade que tanto sabia fazer.

- Esquece isso - dissera - Ele fala, fala, mas no fim não faz nada.

Nathalia bufou.

- Total - ela disse, cheia de sarcasmo.

Yago abraçou-a, beijando o topo de sua cabeça.

- Eu já disse que vai ficar tudo bem - respondeu, sussurrando em seu ouvido - Quanto tempo vai passar pra 
que você confie em mim?

Ela sorriu, puxando-o para mais um beijo, como tantos nos últimos dois meses.

- Quer um jeito de esquecer isso? - Yago disse, após uns poucos segundos. A ideia viera-lhe estalando na cabeça.

Nathalia bufou alto, mal levantando os cantos da boca para esboçar um sorriso.

- Claro gatinho, tira as calças e me espera lá em cima - disse, elevando a voz para deixar claro o carregado sarcasmo.

Yago riu, deixando a voz aveludar-se involuntariamente.

- O que acha de guardar o fogo pra semana que vem?

- Que que tem semana que vem?

- Feriado, não vai ter aula. E quando não tem aula é pra viajar. Sol, drogas e rock 'n' roll.

Nathalia riu.

- Viagem pra onde?

- Cabo Frio.

- Ah, aquela cidade a trinta quilometros daqui? - respondeu, arqueando as sobrancelhas - Bom, muito bom.

- Lá tem praia.

- Um abismo também tem.

Yago mordeu o lábio, olhando para o teto. Puxou Nathalia então, e beijou-a novamente. Demoradamente. Queria tirar-lhe o folego, sabia. Assim ela concordaria. Maldita paixão. Ou não, pensou, rindo consigo mesmo, ainda que não encontrasse graça nas próprias palavras.

Então largou-a, mantendo seus rostos tão próximos que podiam sentir a respiração um do outro.

- Nem um chance? - perguntou.

- Não tô bem no humor pra praia.

- Praia melhora tudo. E ainda é Semana Santa, pô, vai ficar em casa sozinha?

- Não tem semana santa pra espiritas.

Porra!, Yago pensou.

- Nem por mim? - Yago disse, afeminando a voz.

Nathalia fez cara de séria, carregando nos olhos a brincadeira.

- Tá bom, minha nega, seu macho vai.

E então estavam ali, na areia queimando, em frente a um sem-número de prédios da mesma altura. Deveria 
ser bom morar ali, em frente à praia, com uma vista tão serena todos os dias.

Felipe e Suzana ainda estavam arrumando suas coisas na casa, à três ruas da bela e tumultuada praia. A única companhia que tinham era a de Gustavo, um amigo de Yago.

Gustavo era tão alto quanto Yago, porém mais magro. Seu cabelo outrora espigado, agora mantinha-se liso, bem penteado para o lado, deixando-o com um ar de Sam Winchester. Parecia ter uma alegria tão grande, um gás que nunca acabava, como a mãe de Nathalia costumava dizer.

Apresentou-o para Nathalia, sorrindo tanto quanto o amigo.

- Prazer - disse Gustavo, estendendo a mão.

Nathalia apertou-a, com cuidado. Seu corpo fazia fama de brutamontes, mas quando conversava, não era assim. Seria exatamente igual à Yago?

- Quanto tempo, cara - disse, voltando-se pra Yago.

Estendeu também a mão para Yago, que cumprimentou-o com um baque barulhento de mãos batendo.

- Ela é nova? - perguntou Gustavo, sussurrando enquanto Nathalia não olhava.

Yago riu.

- Nova e permanente.

Gustavo devolveu a risada.

- Então tá - disse.

Mas bastou apenas cinco minutos. Não haviam nem conversado direito ainda. Yago parecia estar feliz com ela. Radiando alegria. Jamais o vira assim, nem pensara que o veria.

Mas não importava. Nathalia era linda.

Yago virou-se, em pouco mais que dois minutos, desviando o olhar dos dois. Não precisou mais que isso.

- Cê é linda, sabia?

Nathalia voltou seu rosto para ele. Antes admirava a praia cheia, com as ondas debatendo-se na margem cheia de crianças.

- Huum, valeu.

- Tá com o Yago a quanto tempo?

- Faz dois meses segunda.

Gustavo fez beiço com o lábio inferior.

- E não cansou dele ainda?

Nathalia fechou os olhos, engolindo em seco. Temia que a conversa chegasse a esse ponto.

- Por que cansaria? - disse, voltando-se novamente para ele, com um sorriso inocente no rosto.

- Pela certeza de que não vai durar.

- Como não vai durar?

- Ah, tipo, isso só não é dele, sabe? Dois meses é quase um recorde desde quando conheci ele. Isso faz 3 anos. Já vi várias iguais a você, e nunca acaba bem pra maioria delas.

Nathalia olhou para os próprios pés. Quantas vezes ouvira o mesmo discurso?

- Ele tá diferente agora.

- Querida, ele nunca muda.

- Não me chama de querida!

Gustavo sorriu.

- Então não rola nem uma chance?

Nathalia encarou-o.

- Por que rolaria?

Gustavo sorriu novamente. Lá vinha.

- Por que eu posso te tratar tão melhor que ele, fazer coisas que ele nem imaginaria em fazer.

Nos cinco segundos que ficaram calados, Yago voltou.

Nathalia dormira pensando naquele garoto. Que diabos de intimidade ele tinha para falar assim com ela? Nem a conhecia! Yago perguntou se estava tudo bem. "Sim, tá sim", respondera simplesmente. Estava mesmo. Não deixaria algo estragar sua viagem inteira. Fora ali para se divertir. Era o que faria.

Afinal, a viagem estava apenas começando.
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