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Cem Sóis

100 Suns - 30 Seconds to Mars

Havia um parque, bem, não exatamente um parque, mas uma praça, uma linda praça próximo á saída de Costa Valença. Yago ia lá com seu pai, quando era pequeno. Na época, haviam brinquedos, barracas de doces, crianças correndo de um lado para o outro, enquanto os pais tinham uns poucos minutos de paz nos bancos próximos ao portão. Hoje não. Não havia mais comerciantes ou brinquedos, apenas o colorido das flores e o sussurrar do vento ao bater nas altas árvores. Não havia mais motivo para alguém ir ali. Talvez por isso o lugar fosse tão perfeito.

Fora o primeiro lugar que passou pela cabeça de Yago. Era deserto, oras! Podiam fazer o que bem entendessem ali. Não havia ninguém para repreendê-los. Nathalia já havia ouvido falar daquela praça, porém nunca fora lá. Nem o caminho sabia. Apenas imaginara centenas de vezes, tantas quanto na hora que ia à Costa Valença. E, do mesmo jeito, era diferente de tudo que imaginara: sabia que era deserta, mas não tanto. Realmente não havia ninguém ali, bem como não havia ninguém na cidade.

O portão rangeu, no momento que o abriram. Não havia cadeado ali, indicando que não estava fechado ao público, apenas ninguém o havia aberto ainda. A relva ainda estava molhada da geada que abatia-se toda manhã na cidade. Uns poucos pedaços de carvalho estalaram-se sob seus pés. Nathalia olhava para todos os lados, como se tentasse absorver todas as informações daquele lugar. Tão lindo! E do mesmo jeito tão abandonado. Ouviu alguns pássaros cantando. Realmente, era perfeito. Uma simetria perfeita entre solidão e beleza. A própria solidão, tão melancólica, agora parecia maravilhosa. Talvez por que a solidão que se seguiria seria insuportável.

Andaram pela trilha de pedras, criando eco ao chutá-las. O braço de Yago vinha envolvido em seu pescoço desde que saíram de casa. Agora parecia confortá-la. Aquecê-la. Era ele, sabia disso. Ele exalava uma certeza, um poder sobre si. O medo parecia derreter longe, deixá-la em paz pelos poucos momentos que estavam juntos. Mas então ele se afastaria e sentiria tudo novamente, talvez até pior. A memória de como era estar com ele machucaria ainda mais.

Logo estavam longe do portão. A distância enganaria a visão de quem quer que passasse ali por perto, e continuariam andando, achando que o parque estava deserto como sempre, sem nem desconfiar que dois adolescentes se despediam ali. No momento que perceberam isso, se beijaram, caindo no chão. Yago machucou as costas nas poucas pedras que saíram da trilha. Nem ligou. Tinham de aproveitar o pouco tempo que tinham. Pararam quando tornou-se insuportável prender a respiração. Não importaram-se em encará-se. Era perda de tempo, mas um bom tipo de perda de tempo. Levantaram-se, então, sentando.

- Tudo bem? - perguntou Yago.

Ela fez que não, deixando as mechas presas atrás da orelha caírem em seus ombros.

Yago puxou sua cabeça até seu peito, beijando o topo de sua cabeça.

- Ele me machucou, sabia? - disse Nathalia - Meu pai.

Yago assentiu. Sabia mesmo. Por que Nathalia deixaria-se assustar tanto assim se ele não o tivesse feito?

- Foi por isso que vim pra cá - continuou - De certa forma, até agradeço, senão não teria conhecido você - dizendo isso, beijou-o de leve - Mas...

Ela se apertou mais no peito de Yago, que a abraçou mais forte. Estava à beira de chorar novamente.

- Ele te bateu, foi isso?

- Ás vezes batia, quando tava bêbado. Todo dia ficava bêbado e eu tinha que me esconder, mas tinha dias que eu não conseguia, que eu tinha que limpar a casa enquanto mamãe trabalhava - Nathalia fez uma pausa, respirando fundo, e continuou - Ela nem sabia. Quer dizer, que ele me batia.

- Quando ela descobriu?

Ela permaneceu calada, engolindo em seco.

- Eu não sei - ela sussurrou, sem conseguir controlar a voz para fazê-la alta o suficiente - Um ano, dois, talvez até menos do que o tempo que levou pra se divorciarem.

Yago continuou olhando para o nada, sentindo borboletas revirando-se em seu estomago.

- Ela só pediu o divórcio no fim do ano. Só depois viemos pra cá. Ele me ligava todo dia, como se quisesse me lembrar que ainda estava lá, esperando. Disse que ia vir nos visitar, sem mais nem menos, então me deixou esperando. Sei lá por que. Só apareceu do nada e quer me levar junto.

Respirou fundo novamente.

- Ele parece ter melhorado, parado de beber, se acalmado - disse, após um momento de silêncio - Mas eu sei que é impossível ele mudar - Deixou então as lágrimas pularem de seus olhos - Ele sempre vai ser um monstro. Ainda vejo isso nos olhos dele, que ele não se importa com ninguém.

O vento fez os montes de folhas espalhados pelo parque se remexerem e se espalharem pelo lugar todo. Foi o único som que se fez, junto com as lágrimas de Nathalia, controladas e simplesmente emocionais.

- Então por que você vai? - perguntou Yago, com a dúvida revoltosa estampada na voz.

Nathalia liberou todo o ar que prendia no pulmão, soluçando então.

- E eu tenho escolha? - ela disse, com a voz já habituada de tanto que embargava-se. 

Não tinha. Ambos sabiam. Havia tanto medo na voz dela! Uma junção do medo de seu pai e do medo de perdê-lo. Não queria passar o resto da vida negando o que sentia, isso não era vida. O coração acelerou, sem nem pestanejar. Levou o rosto às mãos, enterrando-o ali. Quando finalmente o tirou, beijou Yago. Era o último dia. Ambos conheciam-se como ninguém mais os conhecia, era um fato. Amavam-se como nunca amaram, e deveriam fazê-lo por esse dia. Esse pequeno dia, que parecia passar tão rápido. Nathalia logo estaria em casa, arrumando as malas que não deveriam ser arrumadas. Rolaram novamente na relva. Mais um beijo. Tiraram os casacos, não suportando o calor. Arrastaram-se até o pé de uma árvore. Lembraram-se do dia anterior, quando haviam feito o mesmo. Riram, entre o beijo. Chegava a ser engraçado, o modo como as coisas eram antes. No inicio, nem imaginavam tudo isso. Queriam, mas não imaginavam. E agora, quando finalmente tinham um ao outro...

Espantaram os pensamentos, beijando-se com mais força.

- Eu te amo - repetiam, um para o outro, com facilidade. Ambos diziam isso sempre. Não viam o por que daquele drama todo que viam na TV, era tão fácil mentir!, ninguém sairia magoado. Mas diziam com fidelidade às palavras. Tinham certeza. Não era paixão, era amor. Uma simplicidade que assustava, um conhecimento tão certo.

Sussurravam "Eu te amo" entre os beijos, sem ligar para o quanto doeria depois. Apenas o momento bastaria.

***

Nathalia não sabia o que Yago fez ao chegar em casa, mas ela foi direto para seu quarto. Sentou-se na cama, enterrando o rosto nas mãos novamente. Soluçou, sem deixar as lágrimas escaparem. Talvez tenham acabado, pensou, rindo sozinha. Não ligou pras roupas que levaria, apenas jogou-as aos montes na compacta mala, sem dobrar nem nada. Fechou-a de qualquer jeito, deixando pequenos pedaços de pano presos no zíper. Jogou a mala no chão, fazendo um baque surdo.

- Tá tudo bem, filha? - o pai disse, abrindo a porta. Era claro que ouvira, o maldito.

- Tá, claro - ela disse, tirando o cabelo empapado de suor grudado na testa, com uma mão na cintura.

O pai varreu o quarto com os olhos, encontrando a mala no chão.

- Já tá tudo pronto, então, hein?

- Tá, pai, tudo aqui. Amanhã então a gente vai né? - Nathalia respondeu, deixando claro a fúria na voz.

O pai percebeu. Os olhos tornaram-se frios, do mesmo modo como haviam feito no dia anterior.

- Então tá. Boa noite - ele disse, saindo.

Nathalia engoliu em seco. Havia feito aquilo mesmo? Não sabia, não se importava. Jogou-se na cama, agarrando o travesseiro. As lágrimas novamente tingiram o jogo de cama. Amanhã estaria longe dele, de Yago. Longe daquele lugar, que tornara-se sua casa em tão pouco tempo. Longe de tudo. Longe de paz.
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