Galera, postando mais cedo hoje (MUITO mais cedo) por que tô fazendo trabalho no colégio, vou ficar off quase que o dia todo. Tô usando meu horário de almoço pra postar XP enfim, leiam ae


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Me levante

Lift me up - Kate Voegele

O homem virou-se após alguns segundos em silêncio. Seu rosto transmitia calma, mas Nathalia sabia que antes de chegar, estava completamente tomado pela fúria. Uma fúria que sentira na pele.

- Filha! - disse baixinho. Ela sabia o porque daquele tom de voz. Seu pai sempre ficava rouco depois de uma noite de gritaria, sempre se assustava com isso. E ela também sabia que a última coisa que ele queria fazer era assustá-la.

Deixou-se ser abraçada, tentando controlar o tremelique que abateu-se sobre seu corpo. Engoliu em seco. Tentou falar alguma coisa, qualquer coisa, para amenizar a situação. Não do jeito falso e controlador de seu pai. Era o que mais temia, torná-se igual à ele. Engoliu as poucas palavras que lhe vieram a cabeça. Se falasse, gaguejaria, com a voz ainda falha por causa de Yago. E apesar do tom descontraído em sua voz, tinha medo de sua reação. Seu pai, sempre bruto, não admitia erros, falta de coerência na filha. Puxava a orelha, sempre "querendo o melhor para ela", comandando-a como um ditador. Em um dia qualquer, teria de elevar a voz se quisesse falar com ele.

Mas aquele não era um dia qualquer, sabia disso. Estava tudo longe do normal.

- Senta - disse, apontando para o pequeno sofá. Como se fosse o dono da casa, pensou Nathalia. Olhando para a mãe, levemente corada, talvez pela discussão ou talvez por aquele momento, pôde dizer que ela pensara no mesmo.

Nathalia o fez. Se não fizesse, poderia ser pior.

- Você veio - disse, forçando a voz. Não pudera pensar em nada melhor.

- Claro que vim, eu disse que viria.

- Quase dois meses atrás - respondeu, entredentes.

- Querida, o papai teve problemas. Pensei que você entendesse.

Respirou fundo. Queria levantá-se, armar barraco ali mesmo, na própria casa. Gritar que não era sua "querida". Gritar que não era criança para o pai referí-se a si mesmo como "papai". Não, ela não entendia, não queria entender. Amava-o quase tanto quanto o odiava. Acordou de seu surto momentâneo, piscando então para aliviar a própria tensão.

- Podia ter avisado - disse, somente.

- Ah! - respondeu ele, como que desculpando-se. Mas sabia que no fundo, ele não sentia nada. Era incapaz de fazê-lo.

Balançou a cabeça, deixando a testa desaparecer sob a franja improvisada.

- O que você quer? - atirou, simplesmente, sem conseguir se controlar.

Ele bufou. Fora o primeiro erro de Nathalia. Seu lado cínico aflorou, tornando o olhar vazio, de uma calma perturbadora. O medo, que tentara reprimir no últimos minutos, voltou, abatendo-se totalmente. Seu rosto todo estampou-se. O engolir em seco, tão repetitivo naquela noite, a fez perceber o quão fraca era diante daquele homem. Ela, Nathalia! Menos de vinte minutos antes, sentia-se a rainha do mundo. Conseguira, enfim, começar algo com o garoto que amava! Agora, no entanto, poderia desmoronar, literalmente desmoronar, com um pequeno toque dele, de seu pai. Ele exalava maldade, controle, frieza.

Respirou novamente. Aí vinha a resposta.

- Quero que você vá passar uns dias comigo, em São Paulo.

Assustou-se com um bater de copos, vindo da cozinha. Um som de vidro quebrando. Só então percebeu que sua mãe fora para a cozinha, de tão alienada que estava. Ela deveria ter assustado-se também. Saberia ela, que era essa a intenção dele? Ou apenas desconcentrara-se por ter de ouvi-lo? De qualquer modo, sabia que essa não era a vontade de sua mãe. Como poderia ser, afinal? Fora a mãe que decidira sair de casa com a filha. O pai sabia, claro, mas não aceitava. Jamais aceitaria. Pouco ligava para sua ex-esposa, queria sua filha, seu legado. Um errôneo legado, a seus olhos.

Isso por que nunca quis uma filha.

Repugnava maquilagens, cremes, essas "coisas de mulherzinha". Queria um homem, um garoto que pudesse levar para jogar bola, cujo respeito seria imposto de modo que o infeliz que levantasse o queixo na sua presença... bem, não haveria final feliz em sua vida. Não aceitava a colocação de "marginal". Afinal, ensinaria seu filho a ser um homem, como homens deveriam ser: respeitados. Pais de família, mesmo que nem sempre a família ficasse em primeiro lugar. E ai de quem ousasse dizer-lhe isso na cara.

Sua ex-mulher entrou na sala. Trazia consigo água, e dois copos em uma bandeja. Apoiou-a na mesinha central, em cima de uma pilha de revistas. Mal olhou para o homem, porém, na pequena brecha que dera, olhou-o nos olhos. Nathalia percebeu. Tentaram trocar um olhar falsamente confidente, mas tudo que viu fora puro ódio. Ressentimentos. Noites mal dormidas, pensando no ex-amado.

Não vira nada nos olhos do pai, no entanto.

Assim que sua mãe saiu, voltou-se para o pai. Matava a sede com um copo d'água, que mal durou cinco segundos. Apoiou o copo de volta na bandeja. Fez barulho, denunciando a força que carregava nas mãos.

Vendo o choque nos olhos da filha, ele voltou encará-la calmamente.

- Pensa, filha. Seus amigos estão em São Paulo, não é? Lembra de como lá era bom?

Ela lembrava. Lembrava também da única verdadeira amiga que tinha. O resto era apenas um monte de crianças influenciadas por sua beleza. Hipnotizadas pela sensação de vitória por estarem a seu lado.
Fora nisso que seu pai a transformara. Numa garota solitária, sem sentimentos. Mas tudo que fizera fora isolar ela. Os sentimentos estavam ali, magoados. Com medo.

Simplesmente assentiu, sem criar coragem para dizê-lo.

- Não precisa se decidir hoje, tá tudo bem - O pai cortou. Sabia o que fazer. Sabia que funcionaria - Ainda tem uns dias pro feriado de carnaval, eu espero até lá. Pensa com calma.

Ela assentiu, sabendo o que ele realmente queria dizer. Não tinha escolha. Ela iria, passar seus tantos dias de recesso ao lado de seu pior medo. Subiu as escadas, sabendo que a conversa terminara. Trinta minutos, fora essa a duração da conversa. Sentiu o dia todo perdê-se naqueles poucos momentos.

Lembrou-se de Yago. Ah, meu Deus, Yago! O que faria? O medo duplicou-se, agora por ele. Não conseguiria ficar longe de seu beijo, não tão de repente. Os olhos varreram o quarto, como que procurando por fantasmas. Passou a mão no rosto. Sentiu a cabeça doer. Por que, logo agora que tudo finalmente estava resolvido, aquilo acontecera?

Rezou então. Nunca rezava, nunca via necessidade. Mas, excepcionalmente naquela noite, precisava de um milagre. Parecia algo bobo, rezar por tão pouco. Mas amava Yago como nunca amou ninguém. Em poucas semanas, tinha certeza disso. Sabia também que não conseguiria negar a seu pai. Ele não estaria satisfeito até ter o que queria, e não mediria esforços para fazê-lo.

Quando finalmente dormiu, sonhou com Yago. O coração pareceu acalmar, mesmo que um pouco. Era ele, afinal. Vai ficar tudo bem, ouvia sua voz sussurrar em seu ouvido. Sim, vai sim. Respirando fundo, desejou como nunca que fosse verdade. Beijou-o então, em seu sonho, e voltou a aninhar-se em seus braços.
Reações: