Novo capitulo \o/ sem novidades interessantes "interessantes", entre aspas sobre minha vida essa semana, então leiam ae :D



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Pulsação

Heartbeats - José Gonzales


Atravessaram a pracinha rapidamente, desviando-se das dezenas de pessoas á sua volta. Sorriam um para o outro, ainda de mãos dadas. Yago a puxava, quase fazendo-a cair. Ela era lenta. Reclamara duas, três vezes, e mesmo assim não conseguiu manter o tom sério ao falar.

Saíram de perto de tudo e de todos. Enfim, eram apenas eles dois.

Nathalia lambeu os dentes, ao cuspir o chiclete que mascava. Yago riu.

- Está tentando me seduzir.

Riram novamente, e Nathalia bateu de leve em seu braço.

Caminharam até um banco, distante de tudo. Havia uma árvore ali, ironicamente. Um bom tipo de ironia. Limparam as folhas, mas logo desistiram de sentar. Yago puxou-a para o pé da árvore. Era escuro, mal poderiam se ver. Do mesmo jeito que mal os outros poderiam ver-los.

- Merda - Nathalia disse ao prender um pé na raiz da árvore - Ah, droga, vai sujar tudo.

- Esquece isso - Yago disse, puxando-a pra si.

E ela esqueceu. Naquele momento, suas palavras pareciam encontrar um ponto final. Ajeitou-se ao lado de Yago, pousando sua cabeça no ombro dele. Ambos calaram-se. Era uma noite sem nuvens, agora a lua tornara-se a única iluminação para a rua. Era bom, isso, essa decadência de viver numa cidadezinha sem nada. Deixava-os sós, do jeito que queriam estar.

Yago passou suas mãos pelos ombros de Nathalia, abraçando-a.

- Isso é bom - ela disse.

- O que?

- Você.

Yago riu.

- Que foi?

- Isso foi muito, muito piegas - ele disse, esboçando um sorriso.

Ela deu um tapa de leve em seu rosto. Era impossível irritar-se naquele momento. A escuridão tornava todo o ambiente incrivelmente calmante. Os únicos sons presentes eram os do canto das cigarras e de folhas caindo sobre eles.

Yago beijou então o topo de sua cabeça, como se pedisse desculpas. Um arrepio cruzou seu corpo. Piscou, como se ajudasse a passar.

- Desculpe - Yago disse dessa vez, referindo-se ao beijo.

- Nada - ela respondeu - Eu já disse: isso é bom - e sorriu.

Yago devolveu o sorriso, sentindo o rosto corar. O pequeno raio de luz que atravessava as folhas iluminava vagamente o rosto de Nathalia. Ao tocar-lo, sentiu o calor. Ela também corava.

Nem se importou quando ele tirou a mão de seu rosto. Queria que saíssem da conversa, sim, mas estava muito bom assim. Sabia que as horas passavam rapidamente, e que seu tempo estava acabando. Logo voltaria para casa. Mas e daí? Logo fariam isso de novo e de novo, por que sabiam o que havia ali. Um laço, forte, limpo. Estavam conectados, numa sincronia perfeita. Respiravam calmamente, mas por dentro, o coração arrebentava o peito.

- Vamos passar o resto da noite assim? - disse, por fim, não aguentando.

- Você não disse que isso era bom?

- Mas eu quero falar.

- Sobre o que?

Ela virou-se.

- Sobre novos modos de sedução, já que lamber os dentes não adianta.

Ele riu.

- Tente morder o dedo. É um tesão - ele disse, logo arrependendo-se. "Tesão" não era palavra para primeiro encontro. Mas tinha dado certo. Ela jogou a cabeça pra trás e riu. Procurou não fazer muito barulho, afinal, ninguém sabia que estavam ali.

- Não - voltou-se, séria novamente - Eu só...

Calou-se. O que falar, afinal? Que queria que ele a tocasse, a beijasse? Que queria rolar na relva com ele, que o amava? Por mais que tentasse não o fazer, amava-o sim. Do fundo do coração. O sangue, antes frio como a pele, ao sair para a noite gélida, agora corria quente nas veias. O sono pós-aula não a perseguira naquele dia. Sua mãe não estava em casa, pra variar, mas não importou-se muito. Agora, toda a expectativa passada e ficariam apenas na conversa? Não que não quisesse isso. Era ótimo conversar á sós. Mas se ao menos fossem namorados oficialmente! No meio de tantos beijos e carícias, uma conversa era normal. Mas era o primeiro encontro. Primeiros encontros, se não eram perfeitos, eram uma merda. Deveriam beijar-se, logo de primeira, transmitir a segurança do que sentiam.

A merda era essa. Estava sendo perfeito. Mesmo sem tudo aquilo. Por que? Sabia que o amava, mas estaria... apaixonada? Pelo garoto que conhecera não fazia nem um mês, quando paixões de longa data a haviam magoado tanto? Não havia segurança naquilo. Aquilo não estava em seus planos. Apaixonar-se, só depois de tantos meses, não no primeiro encontro!

Lembrou-se então. Era o momento foda-se de seu dia. Esse momento a levara até ali. Esse momento continuaria guiando-a. Jogou os cabelos, levemente contrariada de si mesma. Virou-se para Yago, e puxou-o para fora das sombras.

- Pra onde vamos?

- Shopping.

- Fazer o que?

- Comer. Ver um filme. Ficar agarrado no escuro.

- A gente já tava agarrado no escuro.

- É, mas você não tem pegada.

Yago arregalou os olhos, de brincadeira, e jogou a cabeça pro lado. - Ouch.

Ela riu, rapidamente. Largou sua mão, e agarrou seu braço. Apoiou a cabeça em seu ombro, e entraram no shopping.


***


Nathalia foi ao banheiro. Precisava arrumar tudo: maquiagem, cabelo... A escuridão fora ótima, mas a deixara toda bagunçada.

Enquanto isso, Yago parou no McDonald's, "uma das únicas lojas que prestava naquela porra de shopping inteiro". A fila, gigantesca, claro. Mamães com seus filhinhos gordinhos, berrando pra ganhar um brinquedo. Ouviu seu nome. Uma voz familiar. Virou-se. Ah, merda, era uma das garotas da escola. Quer dizer, estudara com ele, mas havia saído da escola. Fora pra municipal, ou algo assim. Não mudara nada, na verdade. Era puta antes, era puta no momento. Foi em sua direção, exatamente como Yago desejou que não fizesse. Nem veio com "quanto tempo" ou coisas do tipo.

- E aí? - falou, lambendo os lábios.

- Oi - Yago respondeu, simplesmente.

- Veio sozinho?

- Não. Minha namorada tá no banheiro.

- Uh, namorada. É gíria nova pros mauricinhos da tua escola?

- Não, namorada mesmo. Eu amo ela.

- Ela te ama?

- Ama - respondeu. Sabia que estava certo, então nem hesitou.

A garota arqueou as sobrancelhas.

- Quem te viu, quem te vê, hein. Mas sério, quando termina?

- Espero que não tão cedo.

Ela - Gabriela, era esse seu nome, agora lembrava - bufou.

- Não, sério? Estudei com você ano passado, cara, você não pode ter mudado tanto assim. Pelo que eu me lembro, você era tipo o putão virgem de lá.

Piscou.

- É, mas... ela é diferente. Eu sei que é.

- Deve ser mesmo. Tá apaixonado, guri?

- Sei lá. Devo estar.

Ela abaixou o olhar e sorriu. Por um momento, viu uma fagulha de ódio em seu olhar.

- Então tá. Mas se mudar de ideia - ela agarrou-se á sua cintura - Sabe que sempre serei sua vadia.

Soltou-o, deu as costas e foi embora. Yago olhou-a por um momento. Era assim que ele era? Malicioso, maldoso? Era nojento. Ver sexo e oportunidades em tudo.

Voltou-se então para a fila. Pelo canto do olho, viu Nathalia. Virou-se para ela. Fitava-o, congelada, de olhos arregalados. Yago sentiu-se gelar também. Engoliu em seco, fazendo o pomo-de-adão subir e descer rapidamente. Ah, Deus, que ela não tivesse visto isso, que não achasse que era outra coisa.

Mas ela vira. Sabia que não era nada, mas mais uma vez, via o velho Yago. O esmagador de corações. Aquele que a magoaria. A certeza, antes tão presente que fazia seus olhos brilharem, agora sumira. Novamente era dominada pela dúvida.

- Pode me levar pra casa, por favor?

Yago respirou fundo. Piscou, para impedir lágrimas de raiva de escaparem. Respondeu com um "sim" sussurrante, e voltou a caminhar a seu lado. Estava tão perto, mas a barreira invisivel que ela construíra os separavam. Talvez para sempre.
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