YAY, DEU TEMPO :D Se o capítulo saiu uma merda, eu escrevi correndo 8-) Enfim, tá ae, leiam e comentem :D


8

Sem Título

Untitled - Simple Plan


NOVEMBRO DE 2007

O ano letivo acabara a pouco. Se Yago tivesse passado de ano sem recuperação, talvez seus pais deixassem-o ir á festa que os alunos organizaram. Três anos antes, ele não era tão esforçado quanto aos estudos como é hoje em dia. Seu pai o mimava com tudo, mas quando se tratava de escola, era uma pessoa totalmente diferente. Claro, Yago o amava, mesmo sendo um doido desvairado ás vezes. Afinal, era com ele que podia contar. Mas não naquele dia. Naquele dia, sem nenhuma nuvem no céu, como se conspirasse com seu humor, Yago jogou-se na cama. Suava. A recuperação seria no dia seguinte. Matemática. Estudou horas a fio, desde que recebera a prova, poucos dias antes. Sabia a matéria, mas seu pai ficaria vermelho se apenas sugerisse que estudara o suficiente. Viria o discurso de "Você estudou o suficiente o ano inteiro, não é mesmo?", coisa que não levaria a nada, como sempre.

Nunca tinha feito aquilo, no entanto. Esperou seu pai voltar para o pequeno quintal atrás da casa, e saiu. Foi de shorts e camiseta mesmo, afinal, além de ter sido uma decisão de última horas, todos estariam assim. Era uma festa na casa do André, e lá tinha piscina. Ninguém iria de terno e gravata.
Sorriu antes de pegar o onibus, que o levaria para o outro lado da cidade.


***


Tinha chegado ás 17h. Mal ficou duas horas e seu pai veio lhe buscar. Vermelho. A veia de sua testa pulsava forte, quase explodindo. Estava no portão, sozinho, fugindo dos adolescente fumando lá dentro, o que evitou cena. Cena para testemunhas, digo, pois não voltaram em silêncio. Os vidros do Celta não impediram os gritos de ganharem espaço nas ruas. Seu pai nunca estivera tão nervoso. Havia motivo, claro! Yago, o pequeno Yago, fugiu por debaixo de seu nariz. Logo ele, que nunca havia sequer feito malcriação! Mesmo em treze anos de vida, sempre o respeitara. E agora essa!

Mas agora Yago estava quieto. Vermelho, num misto de raiva e vergonha. Raiva por causa da gritaria. Odiava isso. Queria tanto responder, gritar de volta. Vergonha por o que tinha feito. E agora? Como seu pai confiaria nele novamente? Deixaria-o sair com os amigos novamente? Antes de qualquer prova, ainda diria "boa sorte", como em todas as manhãs?
Pensava nisso quando o onibus amarelo atingiu o pequeno carro, exatamente no banco do motorista, fazendo-o voar pelo cruzamento.

Yago não viu nada, sua visão girou no mesmo instante, ouvindo apenas o vidro quebrado e o metal se amassando pelo asfalto. Não sabia o que havia acontecido. Sentia algo quente escorrendo por sua testa e por seus braços. Dor. Um cheiro de ferro e sal era tudo o que sentia. Gemeu. Se mexesse o braço, algo pontudo enterraria-se em seu braço. Abriu os olhos, com dificuldade. O para-brisas mostrava o céu, e poucas pessoas por perto, todas com expressões de pavor no rosto. Era isso, então. Um acidente de carro. Tentou girar o pescoço, mas parou, com medo de quebrar-lo, caso caísse. Tirou o braço com cuidado da porta amassada, e soltou o cinto. Cada músculo de seu corpo parecia estar em pedaços. Respirava pesadamente, como se houvesse preso na garganta, sufocando-lhe. Olhou pra seu próprio reflexo no que restava do espelho. Estava horrível. O sangue empapava seu cabelo, grudando á testa, e sua camisa estava rasgada na altura da gola. O que quer que o tenha acertado, quase cortara seu pescoço.

Olhou para seu pai, então. Sua cabeça pendia para a esquerda, escondendo o rosto. Mas Yago podia ver. O que era um filete de sangue em sua cabeça, na de seu pai parecia um rio. Um talho cruzava-lhe o rosto, quase descendo ao pescoço também. O pescoço estava estranhamente deformado. Algo o atingira ali. Ah meu Deus, e se não conseguisse respirar? E se a situação estivesse ainda pior do outro lado do rosto? Não!, pensou, e gritou em seguida. A voz embargada impedia o entendimento, mas todos sabiam o que era. Yago reprimiu as lágrimas, impedindo-as por pouco de rolarem o rosto e se misturarem ao sangue, e saiu pelo buraco que antes era a janela do carro. Caiu logo que tentou levantar. Desmaiou ali mesmo, sem poder fazer mais nada. Acordou agoniando, na cadeira do hospital público, pouco tempo depois. Cada sangramento já havia sido estancado, deixando apenas marcas que serviriam de cicatrizes para a vida inteira. Levantou-se, e então lembrou-se do que havia acontecido. Não falou com a recepcionista. Demoraria muito, e ela mesma já estava ocupada demais com outros pacientes. Achou sozinho a sala, uma com porta aberta. Não prestou atenção em qualquer parte da sala, apenas em seu pai. É melhor nem descrever a situação dele, pois essa é uma história de amor, não de violência.

Sua mãe estava lá. Lucas chorava em seu colo. Mesmo com 9 anos, entendia o que acontecia, e estava tão desesperado quanto qualquer adulto. Assim que ela o viu, pediu que o pequeno fosse para a sala de espera. Mesmo com lágrimas nos olhos, ele levantou o rosto e saiu do pequeno quarto. Tinha coragem e força. Maturidade era a palavra. Comportava-se como adulto, mesmo diante daquilo.

A mulher foi direto á Yago, sem expressão nenhuma no rosto.

- Yago... - ela disse. A voz forte soava agora como o choro de uma criança, lutando para manter a pose. Não abraçou-o, nem tentou confortá-lo. Continuou: - Quando o carro bateu no... no seu pai, machucou muito, muito mesmo - ela olhou-o nos olhos, com um olhar triste. Ele mesmo não importou-se dela falar com ele como se ele fosse uma criança - Você apagou por quatro horas. Já cuidaram de você e tudo. Mas ele...

O rosto dela contraiu-se.
- Ele não vai conseguir - disse, em meio as lágrimas - Ele tá respirando só por causa dos aparelhos... Já, já, eles desligam, e...

Ela calou-se por um tempo. Levou a mão á boca, e soluçou, chorando.

- Alguém tem de desligar-lo - Yago disse. Não era uma pergunta.

Sua mãe assentiu. - Eu não consigo. Você vai ter que fazer.

E o que a faz pensar que eu consigo?, Yago pensou. Já vira demais num dia só. Já sentira demais. As lágrimas ameaçavam descer pelo rosto. Abriu a boca pra falar, mas o que saiu foi um "Eu... eu..." grogue.

Ela agarrou seu rosto, então, com força. Puxou-o, quase cravando as unhas em suas bochechas.

- Você começou com isso - ela disse - Você termina.

Encararam-se, por minutos que passaram-se como anos. O rosto dela, tão cheio de raiva e rancor, amenizou-se, deixando apenas Yago, com a perplexidade estampada nos olhos.

- Me desculpa - ela disse - Desculpa, desculpa mesmo - ela levou a mão a boca, recomeçando o choro, e correu pra fora da sala.

Mas o que ela tinha dito era verdade. Ele era o motivo disso. Ele saíra escondido. Por causa dele, seu pai fora quase esmagado por um onibus. Se tivesse ficado em casa, estudando frações e polígonos, todos jantariam emburrados, mas vivos.

As lágrimas secaram em seus olhos. Chamou o médico, como testemunha. Sua mãe nem para isso quis voltar. Desligou o aparelho respiratório. Arrependeu-se logo em seguida. Se era pra desligar tudo, deveria ter desligado o cardiograma primeiro. O bipe continuo e triste inundou a sala, anunciando a morte de Marcelo Vieira.


***


Em 27 de novembro de 2010, faria três anos que seu pai morrera. Nunca contou essa história pra ninguém. Havia até trocado de escola, para não ter de explicar tudo o que acontecera.

Seu irmão nunca o culpou. Nunca viu magoa em seus olhos, nunca precisou olhar-lo como quem pede desculpas. Mas sua mãe, não, ela não. Seus olhos não brilhavam do mesmo jeito que antes. Afinal, a razão de sua vida desaparecera da Terra. Nunca pedira filhos. Foi Marcelo quem insistira. Mas Marcelo estava morto. Não queria saber daqueles pirralhos, queria seu Marcelo, aquele que sempre dava um beijo de boa-noite antes de dormir.

Mesmo que sua mãe não o culpa-se, ele o faria. Culpava-se por ter ido àquela festa. Culpava-se por tudo que aconteceu. Culpava-se por, em nenhum momento desses quase três anos, ter chorado por seu pai. Nem mesmo no enterro. As lágrimas, secas e encravadas nos olhos, cismavam em não descer. Por que? Havia tristeza em cada segundo de sua vida. Suas noites eram assombradas por pesadelos, sempre revivendo aquele momento fatídico em sua vida. Não havia um momento de paz. A não ser quando estava com Nathalia. Mas ela não ficaria ao seu lado para sempre. Por que ficaria? Era imperfeito, triste e fechado.

Odiava ser assim. Nunca quis ser assim. Mas era inevitável.

Parou então, cansado. Estava jogado na cama. Nathalia foi a primeira a ouvir tudo. A primeira em que podia confiar. Se não quisesse contar, poderia simplesmente expulsar-la de casa, ponto final. Mas estava tão cansado de ter uma história entalada na garganta, uma maldição. Ela havia ido embora á quase uma hora. Sua barriga revirava-se novamente, e os olhos ameaçavam transbordar em lágrimas, como faziam todo dia.

Seu irmão dormia, e sua mãe chorava sozinha em seu quarto. Silêncio total.

Pegou seu celular, ligando a função MP3. Entre tantas músicas altas e barulhentas, que o impediam de pensar assim que começavam, havia aquela. Hallelujah. A música que ouvira com Nathalia no primeiro dia. Que criticara, mesmo gostando. A música que seu pai colocava para tocar quando Yago tinha algum problema, que o acalmava.

Apertou o play. Sabia a letra de cor, mas sua voz embargou-se assim que a música começou.

Refrão.

Aleluia. Estava cansado. Queria voltar a ser feliz, queria poder amar, tirar tudo da cabeça e viver em paz.

Aleluia.

A garganta queimou, assim como seus olhos. Aleluia.

Sorriu, decidido. Pela primeira vez seria feliz. Se apenas conseguisse fazer isso, essa pequena tarefa, poderia superar tudo. Não estava bem, mas iria ficar. Não seria fraco, não, nunca mais.

Aleluia.

Chorou. As lágrimas escaparam ligeiras de seus olhos, corando as bochechas com seu calor. Sorriu ainda mais, e mais lágrimas rolaram pelo rosto. Pela primeira vez em três anos, chorava. Por seu pai. Por sua vida. Um choro melancólico, mas feliz. Estava feliz, como nunca estivera em tanto tempo. Limpou as lágrimas, ainda sorrindo.

Aleluia.
Reações: