Mais um ae :D É, agora capítulos tem títulos, uma ideia ae que eu tive ae discaradamente copiando One Tree Hill -zoa foi botar título de capítulo com nome de música XD Coloquei em cada um dos capítulos, podem ir lá ver se quiserem coisa que sei que vocês não vão fazer, mas enfim, leiam ae o capítulo e comentem não se preocupem, não tem cliffhanger XD

7

Montanha Violeta

Violet Hill - Coldplay

Yago acordou inquieto, se é que acordar é a palavra certa. Não dormira a noite toda, e passara o fim de semana todo pensando em Nathalia. Chegou a passar duas horas ao lado do telefone, esperando uma milagrosa ligação, vendo á um sitcom que não gostava num canal da TV a cabo.

Assim que chegou na escola, decepcionou-se. Nathalia sentara a três cadeiras de distância dele. Estava fugindo novamente. Foi isso que ela fizera no inicio do fim de semana. Fugiu dele, por medo, por vergonha, não fazia diferença, ela fugiu. Ela também sentia-se uma covarde. Ela, que sempre bateu de frente com todos os problemas que podia-se imaginar. Mas ela pensou nisso pelo fim de semana inteiro. Corava cada vez que pensava, mas iria corar muito mais se sentasse ao lado dele. Imagina só!, pensou, como se as coisas não estivessem estranhas o suficiente.

Yago falou um "oi" modesto ao passar por Nathalia, e ela tentou se fazer de desinteressada. Tentou. Sua voz saiu embargada, fazendo-a corar de olhos arregalados. Ele sorriu. Não poderia decepcionar-se para sempre, muito menos com ela. Então sentou-se ao lado de Felipe. Ninguém parecia comentar sobre ele. Então ninguém deve saber sobre sexta, pensou.

Felipe sussurrou um "oi" grogue, como se ainda estivesse bêbado. Ele sempre ficava assim. Nunca se lembrava de nada e quebrava a cabeça pra achar alguma resposta. Yago sempre o ajudava - mentindo, claro, a verdade não ajudaria muito - e ria com as conclusões que Felipe tirava. Dessa vez, ele temia que tivesse dormido com um travesti. Mas Yago nem prestava muita atenção. Simplesmente pensava. Ele iria resolver tudo aquilo. Voltaria a ser amigo de Nathalia. Namorar-la estava fora de questão desde o inicio, e mesmo agora, quando parecia tão mais tentador, a possibilidade parecia ainda menor. Devia conformar-se com sua amizade então. Nem era tão ruim. Alguns meses e provavelmente a esqueceria e voltaria a viver como antes.

Seus pensamentos foram interrompidos pelos gritos do professor, que acabara de entrar na sala.

***

Nathalia quase saiu correndo da sala assim que o sinal do intervalo tocou. Tinha que se manter o mais distante possível de Yago. Conversaria com ele na saída, quando a última palavra não tornaria as coisas estranhas pelo resto do dia. Ele, no entanto, não pensava assim. Seguiu-a, parando no lugar deles, embaixo do grande carvalho, onde sabia que ela sentaria.

Ela só percebeu sua presença ao se sentar, e pulou de susto. Corou. Falou um "oi" baixinho, pois sabia que se falasse alto demais, sua voz falharia. Yago devolveu o cumprimento, no mesmo tom.

Nem falou que precisavam conversar. Era bem óbvio para os dois.

- Sobre sexta... - Yago parou. Esperava uma interrupção, justamente por não ter o que falar. Não pensara no que dizer. Nathalia muito menos, de modo que apenas esperou. Após um suspiro, Yago continuou - Desculpa. Mesmo. Não devia ter feito aquilo.

Nathalia assentiu, segurando as lágrimas. Sabia que não era aquele tipo de desculpas, mas mesmo assim machucou, e muito.

- Se eu tivesse visto que era você...

- Eu sei.

- Mas... é sério. Você é minha melhor amiga. Sério.

Nathalia riu. O "amiga" não doeu tanto quanto achou. Talvez por que soubesse que, lá no fundo, nunca seria apenas amiga.

- A gente se conhece não faz nem três semanas.

- Já foi mais do que o suficiente - ele disse, assustando-a de leve.

Ela simplesmente assentiu, emersa em pensamentos. Será que ainda estavam falando de amizade? Ah meu Deus, e se não estivessem? E se aquilo fosse mais uma indireta, entre tantas que recebera naquelas poucas semanas? Sorriu imperceptivelmente, e simplesmente concordou.

- Então... tudo bem entre nós?

Ela sorriu novamente, daquele jeito lindo que só ela sabia fazer.

- Está.

Yago também sorriu, sem a costumeira malícia no olhar. Ficou em silêncio, esperando-a puxar assunto. Olhou para o relógio então. Passaram-se apenas cinco minutos de intervalo. Até que foi rápido, pensou. De longe, avistou Felipe, que ainda estava confuso, e fez menção de andar até ele.

- Espera - Nathalia disse, com a voz embargada.

Yago parou.

- Que foi?

Cada célula do corpo de Nathalia a dizia para não falar isso. Seu coração acelerou. Corou ainda mais. Podia ouvir Suzana gritando Não faz isso, porra! em sua cabeça. Seu sotaque paulista distorceu-se em sua voz. Ela sabia o quão errado aquilo era, e o tamanho das consequencias que aquilo poderia acarretar, mas estava pronta pra engolir a resposta que viesse. Três semanas realmente era o suficiente.

- Se aquele beijo tivesse significado alguma coisa - ela começou - Qualquer coisa... Você me contaria, não é?

Yago congelou. Ninguém nunca perguntara algo assim pra ele. Piscou, suando. Como diabo deveria responder áquilo, se nem ele mesmo tinha certeza do que aquele beijo fora?

- Sim - respondeu, por fim - Contaria, sim.

Nathalia assentiu, enquanto Yago virava as costas e saia dali. Ela sabia que ele responderia algo assim, mas precisava ouvir. Talvez assim sua esperança diminuísse. Talvez assim sua força de vontade aumentasse. Não sabia. Estava tão confusa quanto ele. Não sabia se voltar a ser amigos fora a coisa certa. Talvez amar-lo fosse melhor. Talvez.

***

Ao final da aula, Nathalia esperava sozinha. Sua mãe deveria ter ido buscar-la naquele dia. Tinham combinado de sair juntas, num dos raros momentos mãe-e-filha que tinham.

Foi para casa andando então. Passou por carros idênticos ao de sua mãe, esperando que fosse ela. Quando chegou á sua casa, a porta estava trancada. Procurou um bilhete embaixo do tapete, como ela sempre deixava. Novamente, ela estava presa no PS. Muitos atendimentos de uma vez só. Suspirou. E agora? Sem chave, e sua mãe trabalhava do outro lado da cidade. Podia ir pra casa de Suzana, pensou, que infelizmente também ficava do outro lado da cidade. Suspirou novamente. A única cada de amigos que ficava perto dali era a de Yago. Vai essa então, pensou. Lembrava o que ele falou na primeira semana de aula. "Sempre que tiver problema, conte comigo". Sabia que era mais uma indireta. Mas as indiretas haviam acabado naquela sexta. Agora eram só amigos novamente.

Nem bateu na porta. Ela se abriu instantaneamente. A mãe dele saiu de lá. Conhecia ela. Ainda na primeira semana de aulas, houve reunião de pais, de modo que todos os pais se conheceram. Seu rosto estava cansado e triste, mas quando a viu, seu rosto se iluminou falsamente. Não por maldade, apenas por aparências.

- Nathalia - disse simplesmente.

- Oi, tia - respondeu - Esqueci a chave de casa e minha mãe não tá. Posso ficar aqui com o Yago e o Lucas?

- Entra aí. O Yago ainda não chegou, e o Lucas tá trancado no quarto. Não pergunte por que, já desisti de perguntar.

Nathalia sorriu, enquanto a mulher continuava a caminhar pela rua. Entrou na casa, ouvindo um som alto vindo do segundo andar. Lucas, pensou. Jogou-se no sofá. Eram ainda uma e meia, e morria de fome. Seria abuso invadir a cozinhar e pegar algo pra comer, mas o fez mesmo assim. Yago dissera pra contar com ele, afinal, e nesse momento precisava de comida. Mas parou.

A cozinha era abarrotada de fotos, tanto que mal se viam os móveis e armários. Fotos de Yago e sua mãe. Havia um homem nas fotos, também. Um homem alto e magro, de óculos e cabelos escuros. Nunca o vira em Costa Valença, mesmo sendo uma cidade onde quase todos se conheciam. Todos sorriam nas fotos. Inclusive Yago. Mas ele sorria de um modo diferente do normal. Era um sorriso de felicidade, sabia disso. Não havia falsidade nem segredos nele. Apenas felicidade. Felicidade que fora extinta de seu sorriso.

Yago chegou de repente, engrossando a voz ao falar "oi", de modo que fez Nathalia pular.

- O-oi - ela respondeu, olhando em seus olhos. Realmente não havia felicidade neles. Mas dessa vez estavam diferentes. Vazios. Nem mentira havia ali. Eram apenas duas bolas negras sem sentimentos, mortas.

Ela assustou-se, e piscou.

- Quem é o homem da foto? - perguntou, convicta, mesmo sabendo a resposta. Mesmo sabendo que aquele homem era o motivo da dor de Yago.

- Meu pai.

Ela assentiu.

- O que aconteceu com ele? - perguntou, ainda mais assustada, e temendo mais a próxima resposta.

- Morreu - Yago respondeu, fazendo o sangue de Nathalia gelar - Eu o matei.
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