TÔ DE VOLTA YAY ... enfim, tá aqui o novo capítulo depois de trocentas ameaças de morte e suicídios em massa, mas enfim, leiam ae :D

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Fora de Alcance
Out of reach - Mattew Perryman Jones

Suzana esqueceu-se completamente de seu acompanhante-de-uma-noite. Arrancou Nathalia dos braços de Yago, deixando-o com uma expressão confusa no rosto. Arrastou-a até o estacionamento da boate, passando por um segurança mal-encarado - aparentemente, agora havia seguranças - e esbofeteou-lhe o rosto, com tal força que fez suas mechas douradas voarem e grudarem em seu rosto suado.
Nathalia apenas encarou-a, esperando uma resposta.
- Você. Tá. Maluca? - Suzana perguntou, depois de arfar e massagear a mão, e completou, depois de um silêncio atônito da parte de Nathalia - Por que diabo você foi beijar ele hoje?
- Pensei que você tinha dito que era pra eu cair de quatro por ele e atacar - Nathalia disse, com a voz chorosa, devido ao tapa masculinizado que levou.
- Mas não aqui, não hoje! Porra, você nunca viu Barrados no Baile? - ela não deixou Nathalia responder - Ele vai pensar que é só uma ficada de uma noite, vai pensar que você não quer nada sério, cacete!
- Eu quero algo sério? - Nathalia perguntou, tentando disfarçar a falsidade na voz. Sim, ela queria, mas não confessara isso a ninguém. Nem a si mesma.
- Não me obriga a te dar outro tapa. E esse vai te jogar no chão, pra eu chutar tua barriga de modo que você não vai poder comer nada por um mês - Suzana levou o dedo ao rosto de Nathalia, quase enfiando-o em seu olho.
Nathalia suspirou.
- Olha, depois dessa, e dessas - ela gesticulou, deixando bem claro que com dessas se referia ao ataque exageradamente dramático de Suzana - eu preciso ir pra casa. Não, não, é sério, não faz essa cara. Cansei, e acho que quebrei um dente e tudo mais, e preciso dormir, senão amanhã acordo com olheiras maiores do que covas de cemitério.
Suzana revirou os olhos e abriu o celular. Chamou um táxi, que apareceu quase instantaneamente. Afinal, estavam no centro do centro da cidade. Entraram, sem esperar os rapazes. Não poderiam dividir o carro com eles mesmo. Yago e Nathalia ficariam sem graça e Felipe estava caindo de bêbado.

***

Yago correu pra fora da boate bem a tempo de ver o táxi partir. Comprimiu os lábios, frustado. Alívio também. Ia ser dificil conversar com ela.
Seus raros pensamentos foram interrompidos por gritos femininos vindo de dentro da boate.
- Não pode ficar sem camisa aqui não, moleque de deus - disse a mulher, com a voz carregada de um forte sotaque baiano.
Da porta, surgiu Felipe, quase caindo, tropeçando nos próprios pés. A mulher que o empurrara apareceu na porta, trajada de vestes típicas de um segurança. Olhava com um brilho mortal nos olhos para o menino bêbado, que nem 18 anos devia ter.
- Mas tia, eu sou gostooooso - respondeu Felipe, quase sufocando com um soluço logo em seguida.
A segurança fechou a porta em sua cara, fazendo Felipe se debater e socar a porta, encenando um choro débil.
Yago sussurrou um "Ai cacete" e foi buscar o amigo, que gritou um "Heeeeey" com uma voz afeminada assim que o viu.
- Vô te contar, rapáááá, aquela mina é doida - disse Felipe, imitando um personagem de "Malhação".
- Isso é muito bom, mas você precisa ir pra casa. Agora - ele completou, antes que Felipe pudesse falar alguma coisa.
- Ela consegue botar dez centímetros na boca. Dez - Felipe disse, ignorando a preocupação de Yago e sussurrando com ênfase o último "Dez", porém levantando apenas nove dedos.
- Onde tá sua chave?
- No meu bolso. Cuidado que teve muito contato aí essa noite hein.
- Você pega.
- Tá com medo, é?
- De sujar minha mão? É.
Felipe nem corou, e tirou as chaves do bolso, entregando-as diretamente a Yago. Os dois entraram no carro, com Felipe caindo estirado no banco de trás. Adormeceu na hora. Yago fez um careta de desaprovação e riu. Queria poder ficar em paz assim. Mesmo que logo depois viesse uma ressaca dos infernos.

***

Nathalia chegou em casa exausta. Sua casa ficava um pouco mais longe do que a de Suzana, mesmo que um pouco mais perto da escola. Jogou a chave na mesinha do lado da porta e subiu as escadas. Olhou para o relógio. Meia-noite e pouca. Sua mãe dormia pesadamente no quarto ao lado, e ela não tentou dar um beijo de boa noite nela. Não queria acordá-la. Era uma das poucas noites que dormiria, devido ás constantes emergências no PS.
Ela entrou em seu quarto e jogou-se na cama. Não queria pensar naquele dia. Mas, Deus, como aquele "não querer" a seduzia. Queria sentir tudo aquilo de novo. Viver aquela cena repetidas vezes até o fim de sua vida. Voltar no tempo, era a expressão. Não se importava em ser esbofeteada trocentas vezes até a cabeça sair do lugar, queria viver tudo de novo. Com convicção. Sorriu, sem querer, ao pensar nisso. Esperança maldita. Sabia como garotos como Yago eram. Mortais. Letais. Quebravam corações, por mais clichê que a frase fosse. Daqueles que não se consegue por uma barreira, um limite forte o suficiente para se esconder. Cederia se ele tentasse. Cedeu naquela noite. Havia visto que era ele, mesmo num fração de segundo. Sabia que eram seus lábios em sua boca. Não pensou na hora, era aquele momento "Foda-se o mundo". Se a vida se resumisse áquele momento, ah, seria bom. Ótimo. Mas tudo passou. Já nem era mais sexta-feira. E agora ela teria de lidar com isso. Com a raiva por ter estragado tudo, pois sabia que tinha feito, sabia que Suzana tinha razão. E com perder o melhor amigo. Afinal, caramba, eles continuariam amigos depois disso? Depois dessa noite?
Ela jogou o cabelo. Não estava pronta pra pensar nisso. Já havia passado muito da hora em que costumava dormir, e sua cabeça já estava rodando. Caiu na cama de roupa mesmo. Só tirou a maquiagem, pra não manchar os lençóis que se orgulhava de tão brancos.
E sonhou, ah, sonhou. Com Yago, com felicidade em estarem juntos. Entrou em seu mundinho maravilhoso e cruel. Justamente por que não era o mundo real.

***

Yago nem parou na sala. Foi direto pro quarto. Seu irmão já devia estar dormindo, e não ia querer ouvir a mãe com a TV ligada só pra espantar o sono.
Odiava tanto pensar, mas naquela noite era tão bom. Dispensar o celular, com músicas ensurdecedoras, apenas um vez era ótimo. Jogou-se nos lençóis desarrumados de sua cama, sentindo algo diferente em si. Felicidade, talvez. A vontade genuína de sorrir, mesmo sem ninguém para ver. Sorrir para si mesmo. Orgulhar-se de finalmente sorrir. Um ato tão bobo, fingido tantas vezes em seu dia, e naquele momento tão grande e verdadeiro.
A noite, que sempre trouxera medo e memórias, naquela noite era silenciosa. Havia nuvens no céu, impedindo-a de ser perfeita. A escuridão de seu quarto não o assustou, pela primeira vez em muito tempo. Seu coração batia forte, e o sangue, congelado nas veias há tanto, agora corria quente. Sentia-se corar, ficar com calor. Se se olhasse no espelho, veria o inabitual brilho que havia em seus olhos.
Não se importava com os pesadelos daquela noite. Por trás deles, haveria alegria. Passaria por cada um milhares de vezes, só pra chegar num sonho que o fizesse se sentir assim novamente.
Fechou os olhos então, com um sorriso crescente no rosto.
- Que noite... - disse, antes de cair no sono.


Bem, três dedicatórias nesse capítulo:

- Ao Caio, que me inspirou com o "Mas tia, eu sou gostoso" XD
- Á Ayla, que me inspirou com "Ela consegue por 10cm na boca. Dez" HUAEHUUHAEEHAU
- Ao Marcos, que me ajudou a escrever o final desse capítulo :D
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