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Quase Tudo


Almost Everything - Wakey! Wakey!

Quase não se falaram durante a aula. Se apresentaram, claro, mas a conversa não passou disso. Apenas trocaram sorrisos e olhares, e isso dizia tudo. Yago não falava nada por charminho. Nathalia realmente achava a aula importante, e olhava feio para qualquer um que estivesse conversando.

Quando o sinal do intervalo tocou, ficaram apenas os dois na sala. Nathalia arrumava os livros dentro da mochila, e Yago esperava. Não iria deixar ela ir para qualquer lugar que não fosse ao seu lado.
Saíram da sala, e sentaram debaixo de uma árvore quase podre de tão velha. Ficaram em silêncio, constrangidos pelo número de pessoas á sua volta e pela falta de assunto.
Yago começou.
- Você já morava aqui, ou...
Nathalia fitou-o, agradecida por algo para conversar.
- Não, não, me mudei de São Paulo faz só uns dois meses - ela jogou o cabelo para o lado, e olhou para o céu. Estava azul, sem nenhuma nuvem. O frio se fora, e ela suava debaixo do casaco.
Yago sorriu.
- E você? - ela perguntou - Já mora aqui á muito tempo?
Ele assentiu de leve. - Desde que nasci.
- Não é meio tedioso passar a vida toda numa cidade sem nada?
- Nah. Costa Valença é boa por que é calma - ele disse, com um falso tom de voz de calma. Seu estomago estava tão inquieto quanto o de Nathalia.
- Vai ver é isso mesmo - ela respondeu. Foi exatamente por isso que sua mãe a obrigara a se mudar. São Paulo era muito conturbada e violenta, não era possível levar uma vida normal lá.
- Então... tem namorado? - ele perguntou, primeiro para impedir o assunto de morrer, mas logo percebeu que devia ter perguntado isso antes de tudo. Não seria nada bom se ele começasse a agir como um amigo frustado depois de tantos olhares.
- Não - ela disse simplesmente, entendendo a indireta. Reprimiu a vontade de sorrir, não queria que seus sentimentos viessem á tona tão cedo.
O silêncio voltou a tomar conta do ar, agora insuportável de quente. Nathalia então tirou o celular do bolso - um celular já velho, cheio de arranhões - e colocou no MP3, a única função que havia, tentando manter-se calma diante de Yago. Escolheu uma de suas cento e tantas músicas e jogou a cabeça pra trás, batendo de leve na grade da quadra da escola.
Yago tirou um dos fones do ouvido dela, e apesar do Ei em tom de protesto, ela acabou deixando.
Ele olhou-a esboçando um sorriso sarcástico.
- O que?
- Hallelujah? Sério?
- Eu gosto dessa música - ela disse, fazendo biquinho.
Ele cerrou os olhos, fazendo uma careta cínica.
Nathalia riu. Não por educação, como fazia com os outros, mas por que gostava dele. Adorou a expressão infantil formada em seu rosto. Ela poderia apertar suas bochechas ali mesmo, sem ligar para o que os outros pensassem.
Yago tirou o fone de seu ouvido e o devolveu a Nathalia. Eles ficaram ali, Nathalia jogando a cabeça para frente e para trás enquanto as músicas tocavam, e Yago bufando enquanto ela cantava. Eles não gostavam do mesmo tipo de música. Yago sempre pulava sempre que ela gritava em certa parte da música. Nathalia achou isso fofo, mesmo sabendo que era fingido.
Quando as músicas acabaram, faltavam ainda dez minutos para o fim do intervalo. Os dois sentiam-se como crianças depois do fim de um programa de TV. Estavam se divertindo, mesmo discordando do que deveriam ouvir. Estavam se divertindo apenas com a presença um do outro, apesar de o assunto ter acabado no momento que as músicas acabaram. Se sentiam velhos amigos, que dividiram o berço ao nascer.
Quando terminou de rir, Yago esboçou um sorriso infantil, e Nathalia devolveu com outro.

***

- Mas você ainda não falou nada sobre vocêêêêêê! - protestou Nathalia.
Ela havia se aberto com ele. Contara quase toda sua vida: Havia nascido numa cidade em São Paulo chamado Araraquara, antes de se mudar para a capital. Sua mãe era médica, e passava quase todos os dias fora, com exceção de alguns dias de folga. Sua melhor amiga em São Paulo era uma baixinha magrela, porém era tão linda quanto ela, a Amanda. Ela adorava filmes e músicas tristes, mas odiava chorar por eles.
Porém Yago não falara nada sobre ele. Nem parecia pretender.
- Ok - ele disse, por fim - Eu gosto de noites de lua cheia, e longas caminhadas na praia...
- É sério, Yago - Nathalia disse, tentando fingir impaciencia, mesmo que quisesse rir.
Ele sorriu, mostrando os dentes perfeitamente brancos e alinhados.
- Tá, ahn... - ele começou - Nasci aqui em Costa Valença mesmo, mas isso você já sabia. Tenho uma casa em Cabo Frio, que fica á mais ou menos uns trinta quilômetros daqui. Uma cidade linda, você tem que conhecer - ele disse, sorrindo, mas continuou ao ver o brilho enraivecido no olhar de Nathalia - Mas tá, minha mãe não trabalha, ela recebe pensão do Governo. Eu tenho um irmão, o Lucas, que é dois anos mais novo que eu. Eu posso falar tudo pra ele, que ele guarda segredo. Senão eu baixo a porrada, mas enfim.
"Eu não me dou muito bem com minha mãe, por isso só ele me ouve. Ele sempre me ajuda quando preciso, e tal. As músicas que eu gosto você já sabe, não são as mesmas que você gosta, apesar de ter me humilhado cantando elas com você. Filme, pra mim, tem que ser terror. Ou pelo menos tem que ter um mocinho idiota que eu sempre torço pra morrer no final. E o meu melhor amigo é o Felipe ali - ele apontou para um garoto mais ou menos da altura de Nathalia, que olhou de volta e sorriu. Yago sorriu também.
Nathalia virou a cabeça um pouco, sorrindo. Era um início. Eles eram tão parecidos e tão diferentes ao mesmo tempo. Se fossem namorados, isso seria um problema. Todas aquelas fantasias em sua cabeça não se realizariam, pois ele não gostava do que ela imaginara. Ser apenas amigos talvez fosse uma boa ideia. Seria menos complicado. Afinal, ela acabara de chegar na escola, e já tinha visto pelo menos dez garotas babando por Yago. Não seria bom arranjar confusão.
Ela continuou sorrindo, mesmo que por dentro quisesse voltar atrás e continuar com suas fantasias.
- Yago, empresta dois reais? - perguntou Lucas - Esqueci o dinheiro em casa de novo.
Yago pulou ao ouvir o irmão. Nem percebera ele chegar. Será que ele tinha ouvido a conversa?, pensou. Mesmo se tivesse, ele não tinha dito nada demais. Mas Lucas era extremamente perceptivo. Uma única frase da conversa, e ele saberia como Yago se sentia.
Seu rosto não transmitia nenhuma malícia. Yago respirou aliviado.
- Toma aqui - Yago disse, tirando uma nota velha e amassada da carteira.
Lucas tentou dizer "Obrigado", mas tudo o que saiu de sua boca foi um débil Oooooh. Ele parou de respirar no momento em que viu Nathalia. Como todos, congelou ao vê-la. Notou nos mínimos detalhes: seu cabelo, seus olhos de um tom de verde perfeito... Deixou a nota de dois reais voar de sua mão, de tão hipnotizado que estava.
- Ahn, esse é o Lucas, meu irmão - disse Yago, e Lucas respondeu apenas com um "Oi" grogue. - Ou era, antes de entrar em coma.
Nathalia riu baixinho, e Lucas olhou feio para ele. Yago respondeu com um sorriso sarcástico, e Lucas revirou os olhos, suavizando sua expressão. Sorriu também. Ele deu meia-volta e saiu, sabendo que seu irmão queria ficar á sós com a garota, mas lançou-lhe um olhar de "Vamos falar sobre ela em casa".
- Ele parece contigo - disse Nathalia.
Ele franziu o cenho e levantou uma sobrancelha. Nathalia revirou os olhos e riu, jogando o cabelo para o lado. O sinal tocou, e os dois correram para sala, mesmo odiando a aula de Álgebra.
Só mais tarde Nathalia percebeu que Yago não havia falado nada sobre seu pai.

Pois é, mais um capitulo de Silenciar. Eu também não gostei desse, mas como todo mundo SEMPRE gosta do que eu escrevo, postei assim mesmo. Legal se ninguém gosta desse ¬¬

Mas enfim, já tenho escrito até o quarto capítulo. Espero que vocês gostem do que está por vir :D

PS: É, eu sei que quem conseguiu entender o trocadilho em Costa Valença vai querer me matar, mas resolvi correr o risco XD Só digo que foi sugestão do Marcos 8-)
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